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sábado, 10 de janeiro de 2026

Necrológio, Instabilidade e a vida no Brasil enquanto país dos náufragos - notas sobre o planejamento existencial em um Brasil sem chão histórico

Introdução

No Curso Online de Filosofia (COF), Olavo de Carvalho propunha aos alunos um exercício de caráter profundamente existencial: o necrológio. Trata-se de imaginar, ainda em vida, o texto que seria escrito sobre si após a morte — não como fantasia vaidosa, mas como instrumento de ordenação interior. O objetivo é claro: alinhar a própria existência àquilo que se deseja verdadeiramente ser, estruturando a vida segundo uma hierarquia de fins.

Em contextos históricos minimamente estáveis, esse tipo de planejamento existencial encontra terreno fértil. Entretanto, no Brasil pós-1889, a própria noção de estabilidade histórica foi sistematicamente corroída. Desde a queda da monarquia, vivemos sob um regime de instabilidade crônica — política, institucional, cultural e espiritual. Nessa realidade, planejar a vida como se o mundo fosse previsível pode ser mais ilusório do que virtuoso.

O necrológio como instrumento de ordem interior

O exercício do necrológio parte de uma premissa clássica da filosofia moral: o homem precisa ordenar sua vida a partir de um fim último. Sem essa orientação, a existência se fragmenta em impulsos, reações e circunstâncias. Ao escrever o próprio necrológio, o indivíduo é forçado a responder a perguntas essenciais:

  • Quem eu quero ser?

  • O que quero ter realizado?

  • Que tipo de homem desejo ter sido?

Esse método guarda afinidades com a tradição aristotélico-tomista, na qual a vida humana é compreendida como um processo teleológico — isto é, orientado a fins. Também dialoga com a noção cristã de vocação e responsabilidade diante de Deus.

Contudo, o necrológio pressupõe algo fundamental: a possibilidade de continuidade histórica. Planejar uma vida exige, minimamente, a expectativa de que as condições básicas não serão radicalmente destruídas a cada geração.

O Brasil sem estabilidade histórica

Desde a Proclamação da República, o Brasil não conheceu verdadeira estabilidade institucional:

  • Golpes militares

  • Constituições sucessivas

  • Crises econômicas recorrentes

  • Descontinuidade cultural

  • Fragilidade educacional

  • Desagregação moral

Não houve, como em certos países europeus, um processo orgânico de amadurecimento institucional. O Brasil moderno nasce de uma ruptura traumática, não de uma transição natural. A monarquia, com todos os seus limites, fornecia uma estrutura simbólica de continuidade histórica. Sua queda inaugurou um ciclo de improvisação permanente.

Nesse contexto, a vida brasileira não se organiza como um projeto linear, mas como uma sucessão de adaptações a crises. Planejar, aqui, é sempre planejar sob risco.

Ortega y Gasset e o homem náufrago

José Ortega y Gasset oferece uma imagem poderosa para compreender essa condição: o homem moderno como náufrago. Em sua filosofia da circunstância, o ser humano não é um sujeito abstrato, mas um ser lançado em uma realidade concreta, instável e imprevisível.

“Eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvo, não me salvo a mim.”

O náufrago não planeja como quem constrói uma casa sólida sobre a rocha. Ele planeja como quem se agarra a destroços em meio ao mar revolto. Sua racionalidade é adaptativa, não arquitetônica. Ele precisa estar pronto para o inesperado, para o colapso, para a mudança brusca de rumo.

O Brasil, desde 1889, formou gerações de náufragos históricos.

Planejamento existencial em terra instável

Isso não significa que o exercício do necrológio seja inútil no Brasil — ao contrário. Ele se torna ainda mais necessário, desde que seja reinterpretado à luz da nossa circunstância.

Aqui, o planejamento não pode ser:

  • Rígido

  • Dependente de instituições estáveis

  • Fundado em expectativas políticas

  • Preso a estruturas externas

Ele precisa ser:

  • Interior

  • Moral

  • Espiritual

  • Flexível

  • Enraizado em princípios, não em sistemas

O brasileiro que sobrevive — e se santifica — não é o que constrói castelos, mas o que mantém a integridade em meio ao naufrágio.

Do pânico à lucidez

Para muitos, viver em constante incerteza gera pânico. Para quem nasceu e cresceu no Brasil, isso se torna parte do cotidiano. O caos deixa de ser exceção e passa a ser condição.

A diferença entre o homem comum e o homem formado é a interpretação do caos:

  • O homem comum entra em desespero.

  • O homem formado transforma a instabilidade em disciplina interior.

O náufrago lúcido não nega a tempestade. Ele aprende a navegar nela.

Conclusão

O necrológio continua sendo um exercício válido, mas não como projeto de carreira ou roteiro de sucesso institucional. No Brasil, ele deve ser um instrumento de ordenação moral, não de previsibilidade histórica.

Nossa história não é a história dos arquitetos da estabilidade, mas dos sobreviventes do colapso. Somos, no sentido orteguiano, um povo de náufragos.

E talvez seja justamente aí que reside nossa missão: não construir impérios, mas preservar a verdade, a fé, a dignidade e a lucidez — mesmo quando tudo ao redor afunda.

Bibliografia Comentada

CARVALHO, Olavo de. O Mínimo que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota.
Rio de Janeiro: Record.
Nesta obra, Olavo de Carvalho desenvolve a importância da formação intelectual e moral como fundamento da vida humana. O exercício do necrológio, proposto no COF, insere-se nesse horizonte pedagógico: trata-se de ordenar a existência segundo fins superiores, combatendo a dispersão espiritual e a mediocridade cultural. A ênfase na responsabilidade pessoal diante da verdade fornece o arcabouço para pensar o planejamento existencial em meio ao caos histórico brasileiro.

CARVALHO, Olavo de. O Jardim das Aflições.
São Paulo: É Realizações.
Aqui, Olavo articula a crise da civilização ocidental como uma crise espiritual, marcada pela perda do senso de finalidade transcendente. O necrológio aparece, implicitamente, como um antídoto à vida desordenada, pois obriga o indivíduo a confrontar o sentido último da própria existência. A obra ajuda a compreender por que o planejamento de vida não pode ser meramente técnico ou político, mas essencialmente moral e metafísico.

ORTEGA Y GASSET, José. Meditações do Quixote.
São Paulo: Martins Fontes.
É nesta obra que surge a célebre fórmula: “Eu sou eu e minha circunstância”. Ortega desenvolve a ideia de que o homem não existe fora da realidade histórica concreta que o envolve. O conceito do “náufrago” decorre dessa antropologia circunstancial: o sujeito moderno vive em um mundo instável, exigindo uma racionalidade adaptativa, não idealista. O Brasil republicano, marcado por rupturas institucionais sucessivas, encaixa-se exemplarmente nesse modelo.

ORTEGA Y GASSET, José. A Rebelião das Massas.
São Paulo: Martins Fontes.
Ortega analisa a crise da autoridade cultural e a ascensão do homem-massa, incapaz de orientar sua própria vida por princípios superiores. Em sociedades instáveis, como a brasileira, essa figura tende a se agravar. O livro ajuda a compreender por que a ausência de ordem histórica favorece o pânico, a improvisação e a dissolução da responsabilidade pessoal.

FAORO, Raymundo. Os Donos do Poder.
São Paulo: Globo.
Faoro descreve a formação do Estado brasileiro como patrimonialista, personalista e instável. A República não nasce de um amadurecimento institucional, mas de uma ruptura abrupta com a tradição monárquica. Essa análise histórica sustenta a tese de que o Brasil carece de continuidade estrutural, tornando o planejamento de longo prazo sempre vulnerável a colapsos políticos.

VIANNA, Oliveira. Populações Meridionais do Brasil.
Rio de Janeiro: José Olympio.
Vianna examina o desenvolvimento social brasileiro sob a ótica da formação histórica desorganizada, marcada por improvisação e ausência de coesão institucional. Sua análise ajuda a compreender por que o brasileiro tende a operar mais pela adaptação circunstancial do que por projetos estruturados de longo prazo.

LEÃO XIII. Rerum Novarum.
Encíclica, 1891.
A encíclica fornece a base para a compreensão do trabalho como via de santificação e acumulação moral ao longo do tempo. Em contextos instáveis, a ordem interior substitui a ordem institucional como eixo de vida. O planejamento existencial, nesse sentido, deve ser espiritual antes de ser político ou econômico.

TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica.
Diversas edições.
A concepção teleológica da vida humana, segundo a qual toda ação deve ser orientada a um fim último, sustenta filosoficamente o exercício do necrológio. Mesmo quando as circunstâncias externas são caóticas, a ordem moral permanece possível por meio da virtude e da reta intenção.

Vontade, Circunstância e Autoengano: um ensaio sobre liberdade, meios de ação e impotência histórica no Brasil

Introdução

A máxima popular “querer é poder” expressa uma pedagogia moral simplificada, segundo a qual a vontade subjetiva seria suficiente para produzir eficácia objetiva. No entanto, tanto a experiência concreta quanto a reflexão filosófica indicam o contrário: a vontade sem meios é apenas intenção, não potência. Este ensaio propõe analisar essa distinção a partir de uma experiência familiar — o contraste entre duas atitudes existenciais — e relacioná-la ao drama histórico brasileiro desde a queda da monarquia.

A oposição entre agir segundo as circunstâncias e agir apenas segundo o próprio querer revela não apenas dois estilos de vida, mas duas concepções de liberdade, de realidade e de responsabilidade histórica.

1. Vontade abstrata e potência real

Olavo de Carvalho insistia que a modernidade confunde:

  • Vontade com capacidade

  • Desejo com eficácia

  • Intenção moral com ação histórica

Para ele, o querer sem meios é uma forma de ilusão psicológica, muitas vezes acompanhada de descarga emocional e retórica moralizante, mas sem fecundidade real. Daí sua metáfora provocativa da “ejaculação precoce”: há impulso, mas não há geração de frutos.

Potência real exige:

  • Leitura objetiva da realidade

  • Inserção institucional

  • Capital cultural

  • Disciplina intelectual

  • Estratégia de longo prazo

Sem esses elementos, a vontade permanece no plano da autoafirmação subjetiva, não da transformação objetiva.

2. A inteligência da circunstância

José Ortega y Gasset formulou com precisão:

“Eu sou eu e minha circunstância; e se não a salvo, não salvo a mim.”

A ação humana não se dá no vazio, mas dentro de um campo de possibilidades delimitado por fatores históricos, sociais, econômicos e culturais. Reconhecer isso não é resignação, mas prudência (phronesis), a virtude prática que permite transformar limites em oportunidades.

Agarrar as oportunidades que surgem “por força das circunstâncias” não é oportunismo vulgar, mas realismo estratégico. É compreender que:

  • A vontade precisa de canais

  • A virtude precisa de meios

  • A liberdade precisa de estrutura

Essa postura não romantiza o querer; ela o ancora na realidade.

3. A soberania da vontade e o autoengano

A atitude oposta — viver apenas “fazendo o que se quer” — tende a ignorar:

  • Estrutura social

  • Limitações materiais

  • Condições históricas

  • Exigências de formação

  • Redes de poder

Nesse caso, a pessoa preserva sua imagem interna de liberdade, mas perde:

  • Capacidade de ação real

  • Inserção histórica

  • Continuidade geracional

  • Eficácia social

Surge então o autoengano funcional: uma forma de proteção psíquica contra o reconhecimento da própria impotência. Não se trata de mentira consciente, mas de uma narrativa interna que evita o colapso da autoestima.

O sujeito acredita ser livre porque segue seus desejos, quando na verdade está apenas isolado da realidade.

4. O drama brasileiro: querer sem meios

O Brasil republicano nasceu de uma ruptura sem continuidade institucional sólida. A monarquia foi substituída por um projeto ideológico inspirado em modelos estrangeiros, sem:

  • Tradição política enraizada

  • Elites intelectualmente formadas

  • Coesão moral comum

  • Base cultural estável

O resultado foi uma cultura política marcada por:

  • Idealismo sem estrutura

  • Moralismo sem estratégia

  • Retórica sem eficácia

  • Vontade sem meios

Nesse contexto, a atitude de viver apenas segundo o próprio querer tornou-se socialmente comum. O indivíduo sente-se moralmente íntegro, mas historicamente irrelevante.

A liberdade vira narrativa, não realidade.

5. Autoengano como forma de impotência

O autoengano não é apenas um erro cognitivo. É uma estratégia existencial para evitar:

  • A disciplina

  • A renúncia

  • O planejamento

  • A humildade diante da realidade

Reconhecer a falta de meios exige aceitar limites, investir em formação e submeter o querer à estrutura do real. Muitos preferem preservar a imagem de autonomia a construir a autonomia de fato.

Assim, o “faço o que quero” substitui o “posso fazer o que é necessário”.

6. Duas atitudes, dois destinos

O contraste entre duas posturas existenciais pode ser sintetizado assim:

Inteligência da circunstânciaSoberania da vontade
Leitura do realPrimazia do desejo
EstratégiaImpulso
Adaptação criativaRigidez subjetiva
Construção de meiosDesprezo pelos meios
Eficácia históricaAutoimagem de liberdade

A primeira gera frutos concretos.
A segunda gera narrativas de resistência.

Conclusão

No Brasil, viver apenas segundo o próprio querer, sem atenção às circunstâncias e sem construção de meios, não é liberdade — é autoengano. A verdadeira liberdade não nasce do impulso, mas da capacidade real de agir.

A vontade só se torna potência quando se submete à realidade.

Sem isso, resta apenas a ilusão de autonomia em um cenário de impotência histórica.

Bibliografia comentada

Ortega y Gasset, José – Meditações do Quixote
Fundamental para compreender a noção de circunstância como elemento constitutivo do eu.

Olavo de Carvalho – O Imbecil Coletivo
Crítica à ilusão moralista e à confusão entre intenção e eficácia na cultura brasileira.

Max Weber – A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo
Mostra como estruturas culturais moldam a capacidade de ação histórica.

Alexis de Tocqueville – A Democracia na América
Analisa como instituições e hábitos sociais sustentam a liberdade real.

Gilberto Freyre – Casa-Grande & Senzala
Oferece contexto histórico para a formação social brasileira e suas limitações estruturais.

A analogia das naturezas, a grande cadeia do ser e a noosfera cristocêntrica - uma leitura filosófica, antropológica e teológica

Introdução

A física moderna mostrou que a luz não se deixa reduzir a uma única descrição ontológica: ela manifesta simultaneamente natureza corpuscular e natureza ondulatória. Essa pluralidade de perspectivas não fragmenta a realidade, mas revela sua profundidade. De modo análogo, o ser humano, quando investigado filosoficamente, sociologicamente ou antropologicamente, pode ser compreendido segundo diferentes “naturezas analógicas”: ora como árvore (dendrologia social), ora como ave (ornitologia social), ora como ser histórico, político ou espiritual.

Essas leituras não negam a unidade do ser humano; ao contrário, enriquecem sua compreensão. Quando permanecem vinculadas à realidade concreta e à ordem do ser, elas contribuem para a inteligência daquilo que Arthur Lovejoy denominou a grande cadeia do ser. E, quando integradas nos méritos de Cristo, tornam-se parte de uma noosfera cristocêntrica, orientada para a verdade e para a vida no verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.

1. A analogia como método de conhecimento

A comparação entre o ser humano e realidades naturais — como a árvore ou a ave — não deve ser entendida como redução biologizante, mas como analogia ontológica. Desde Aristóteles e, sobretudo, em São Tomás de Aquino, a analogia é o instrumento que permite conhecer o ser sem dissolvê-lo em univocidade nem fragmentá-lo em equivocidade.

O homem pode ser comparado a uma árvore porque:

  • possui enraizamento histórico e cultural,

  • cresce por estágios,

  • frutifica por obras.

Pode ser comparado a uma ave porque:

  • aspira à transcendência,

  • busca elevação espiritual,

  • desloca-se entre mundos simbólicos.

Essas analogias não definem a essência humana, mas iluminam aspectos reais da sua existência. Tal como na física, onde a luz não é “apenas” partícula ou “apenas” onda, o homem não é “apenas” natureza, “apenas” cultura ou “apenas” espírito.

2. A grande cadeia do ser em Arthur Lovejoy

Arthur Lovejoy, em The Great Chain of Being, demonstra que a tradição ocidental concebeu o universo como uma ordem contínua e hierárquica do ser, na qual cada nível reflete, de modo próprio, a plenitude do Ser divino.

Nessa visão:

  • Nada existe isoladamente

  • Cada ser participa de um grau do ser

  • A diversidade não nega a unidade

Quando o homem é comparado a árvores, aves ou outros entes, isso não o rebaixa ontologicamente, mas o insere conscientemente na ordem do ser, reconhecendo que ele participa, de modo singular, da totalidade criada.

As chamadas “ciências simbólicas” (como a dendrologia social ou a ornitologia social) funcionam, nesse contexto, como leituras parciais da posição humana na cadeia do ser. Elas revelam aspectos estruturais, funcionais e simbólicos da existência humana sem dissolver sua dignidade ontológica.

3. São Tomás de Aquino: analogia, participação e ordem do ser

Em Tomás de Aquino, toda criatura participa do Ser divino de modo analógico. O homem é, simultaneamente:

  • corpo (participação material),

  • alma racional (participação espiritual),

  • imagem de Deus (participação pessoal).

A analogia não é um artifício retórico, mas um princípio metafísico. Conhecer o homem por analogia com outras criaturas não é erro, desde que se preserve:

  1. A hierarquia do ser

  2. A distinção das naturezas

  3. A centralidade de Deus como causa primeira

Assim, falar do homem como “árvore” ou “ave” não significa negar sua racionalidade ou sua dignidade espiritual, mas reconhecer que ele manifesta, em sua existência, traços da ordem natural criada por Deus.

4. Teilhard de Chardin e a Noosfera

Teilhard de Chardin propôs a ideia de uma noosfera: uma esfera do pensamento, da consciência e da cultura que emerge da evolução cósmica. No entanto, sua formulação frequentemente deriva para um evolucionismo imanentista, no qual Cristo aparece mais como culminação simbólica da consciência humana do que como o Verbo encarnado histórico.

O que venho propondo propondo, ao contrário, corrige esse desvio ao afirmar explicitamente:

Tudo está interligado nos méritos de Cristo.

Aqui, a noosfera não é produto autônomo da evolução, mas:

  • fruto da criação,

  • redimida pela Encarnação,

  • orientada pela verdade revelada.

A noosfera cristocêntrica não é uma consciência coletiva autoengendrada, mas uma rede de inteligências humanas ordenadas à verdade objetiva, à vida moral e à participação na ordem do ser restaurada por Cristo.

5. Cristo como eixo da unidade do conhecimento

A multiplicidade de perspectivas sobre o homem só permanece legítima enquanto:

  • não rompe a unidade da verdade,

  • não dissolve a ordem do ser,

  • não substitui Cristo por ideologias.

Cristo não é um símbolo entre outros. Ele é:

  • o Logos criador,

  • o Verbo encarnado,

  • o fundamento da verdade.

Por isso, toda analogia, toda ciência e toda interpretação antropológica só se integram verdadeiramente na noosfera quando permanecem ordenadas a Ele.

A frase evangélica — “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” — não é apenas teológica, mas epistemológica: o conhecimento verdadeiro exige orientação cristocêntrica.

Conclusão

Assim como a luz exige múltiplas descrições para ser compreendida sem ser fragmentada, o ser humano exige múltiplas analogias para ser conhecido sem ser reduzido. Quando essas analogias permanecem enraizadas na realidade, na ordem do ser e na centralidade de Cristo, elas não produzem confusão, mas inteligência da criação.

Arthur Lovejoy fornece o quadro ontológico da grande cadeia do ser.
São Tomás fornece o método da analogia e da participação.
Teilhard fornece a intuição da dimensão intelectual da história.
Cristo fornece o eixo da verdade.

A noosfera, então, não é um produto da consciência humana, mas um campo de ordenação da inteligência à verdade revelada, onde toda criatura encontra seu lugar na grande cadeia do ser, restaurada e iluminada pelo verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.

Bibliografia Comentada

LOVEJOY, Arthur O.

The Great Chain of Being: A Study of the History of an Idea.
Cambridge: Harvard University Press, 1936.

Obra clássica que reconstrói historicamente a ideia de uma ordem hierárquica e contínua do ser no pensamento ocidental. Lovejoy mostra como essa concepção atravessa a filosofia antiga, medieval e moderna. É fundamental para compreender a noção de que toda criatura ocupa um lugar na estrutura ontológica do real.

TOMÁS DE AQUINO, São

Suma Teológica.
Diversas edições.

Fonte central da metafísica cristã. Tomás desenvolve a doutrina da analogia do ser, da participação e da hierarquia ontológica das criaturas. Sua antropologia preserva simultaneamente a dignidade espiritual do homem e sua inserção na ordem natural.

TEILHARD DE CHARDIN, Pierre

O Fenômeno Humano.
São Paulo: Cultrix, várias edições.

Apresenta a ideia de noosfera como estágio da evolução da consciência humana. Embora contenha intuições relevantes sobre a dimensão intelectual da história, sua leitura exige correção cristocêntrica para evitar deriva imanentista.

ARISTÓTELES

Metafísica.

Fundamento da noção de ser enquanto ser e da hierarquia das causas. Fornece a base conceitual para a analogia e para a compreensão da ordem do real.

GILSON, Étienne

O Espírito da Filosofia Medieval.
São Paulo: Martins Fontes.

Interpretação precisa da metafísica cristã e da doutrina da participação. Essencial para compreender a síntese tomista entre fé, razão e ordem do ser.

RATZINGER, Joseph (Bento XVI)

Introdução ao Cristianismo.
São Paulo: Loyola.

Expõe a centralidade de Cristo como Logos e fundamento da verdade. Ajuda a compreender a dimensão epistemológica da fé cristã.

PIEPER, Josef

Sobre a Fé.
São Paulo: Quadrante.

Reflexão filosófica sobre a fé como forma de conhecimento da realidade, não como mera subjetividade.

Noosfera Cristocêntrica e a superação do “Fim da História” enquanto obstáculo epistemológico - da verdade enquanto fundamento da liberdade e dos limites da razão ideológica

Introdução

A modernidade produziu múltiplas narrativas teleológicas destinadas a fornecer sentido ao processo histórico: o progresso científico, a redenção política, a racionalização jurídica e a estabilização institucional. Entre essas narrativas, a tese do Fim da História ocupa lugar central ao sugerir que a humanidade teria alcançado sua forma política definitiva na democracia liberal e na economia de mercado.

Contudo, à luz de uma noosfera cristocêntrica — compreendida como a rede histórica da consciência humana orientada por Cristo, mediada pela biografia, transmitida intergeracionalmente e vivida como missão — o Fim da História deixa de ser um ponto de chegada e passa a ser um obstáculo epistemológico: uma fronteira artificial que bloqueia a abertura da razão à verdade.

A verdade, no horizonte cristão, não é aquilo que se conserva por conveniência institucional, mas aquilo que liberta. Como afirma o Evangelho: “A verdade vos libertará.” A liberdade não nasce da estabilização ideológica, mas da conformidade com a verdade transcendente.

1. O Fim da História como fronteira ideológica

A tese do Fim da História apresenta-se como neutra, científica e racional. No entanto, sua função real é congelar o horizonte do possível:

  • Define um estágio final da política

  • Naturaliza a ordem vigente

  • Deslegitima alternativas civilizacionais

  • Converte contingência em necessidade

Sob a perspectiva da noosfera cristocêntrica, isso constitui um erro epistemológico: a história não é um sistema fechado, mas um campo aberto à verdade, à conversão e à missão.

Quando o fim é definido antes da verdade, a liberdade se transforma em administração.

2. Michel Miaille e a falsa transparência jurídica

Michel Miaille demonstrou que o discurso jurídico moderno opera sob a ilusão da transparência científica. O direito apresenta-se como técnico, neutro e racional, quando na verdade:

  • Serve a interesses ideológicos

  • Naturaliza relações de poder

  • Oculta escolhas morais

  • Substitui a verdade pela funcionalidade

A ciência jurídica não revela a realidade: ela a organiza conforme uma visão de mundo.

Nesse sentido, o Fim da História funciona como fundamento implícito da falsa transparência:

Se o sistema é final, ele não pode ser questionado.
Se é racional, não precisa ser verdadeiro.
Se é funcional, dispensa a transcendência.

A noosfera cristocêntrica rompe essa ilusão, porque submete a técnica à verdade e a política à consciência moral.

3. A verdade como fundamento da liberdade

Na tradição cristã, a liberdade não nasce da neutralidade, mas da verdade.

A ideologia moderna inverte essa ordem:

  • Primeiro preserva-se o sistema

  • Depois ajusta-se a verdade

  • Por fim, redefine-se a liberdade

A noosfera cristocêntrica, ao contrário:

  • Reconhece Cristo como Verdade

  • Subordina a história à verdade

  • Liberta a razão da ideologia

A liberdade não é aquilo que se conserva por conveniência institucional, mas aquilo que se conforma à realidade última do ser.

4. Frederick Jackson Turner e o mito da fronteira

Frederick Jackson Turner descreveu a fronteira como o elemento dinâmico da identidade americana:

  • Espaço de superação

  • Campo de expansão

  • Motor da criatividade política

  • Superação do fechamento europeu

A fronteira não era um fim, mas um processo.

Quando a fronteira desaparece, a sociedade corre o risco de:

  • Tornar-se autorreferencial

  • Cristalizar suas instituições

  • Sacralizar seu próprio sistema

O Fim da História representa exatamente essa cristalização: o fechamento do horizonte.

A noosfera cristocêntrica, porém, reabre a fronteira — não como expansão territorial, mas como abertura à verdade.

A verdadeira fronteira não é geográfica. É espiritual, intelectual e moral.

5. A noosfera cristocêntrica como superação da fronteira ideológica

Nesta formulação, a noosfera não é:

  • Sistema fechado

  • Consciência coletiva tecnocrática

  • Projeto de redenção histórica

Ela é:

  • Rede de transmissão da verdade

  • Comunhão intergeracional de sentido

  • Campo de missão cristã

  • Espaço de conversão contínua

A história não termina. Ela é constantemente chamada à verdade.

Assim, o Fim da História não é o fim, mas o obstáculo a ser superado.

6. Contra o senso de se conservar o que é conveniente, ainda que dissociado da verdade

Toda ideologia busca conservar o que lhe convém. A verdade, porém, exige conversão.

A modernidade prefere:

  • Estabilidade sem transcendência

  • Liberdade sem verdade

  • Direito sem justiça

  • Política sem redenção

A noosfera cristocêntrica prefere:

  • Verdade com risco

  • Liberdade com responsabilidade

  • Política com testemunho

  • História com missão

Conclusão

O Fim da História não é um ponto de chegada, mas uma fronteira artificial criada para proteger sistemas, não para servir à verdade.

Michel Miaille mostrou como a ciência jurídica oculta ideologias sob o manto da técnica.
Turner mostrou que sociedades sem fronteira tendem à estagnação.
A teologia cristã mostra que a verdade liberta.

A noosfera cristocêntrica reabre o horizonte:

Não para construir utopias, mas para testemunhar a verdade.

A liberdade não nasce da conservação do conveniente, mas da fidelidade ao verdadeiro.

Bibliografia comentada

TEILHARD DE CHARDIN – O Fenômeno Humano
Noosfera e orientação cristológica.

ORTEGA Y GASSET – Meditações do Quixote
Razão vital e biografia histórica.

VOEGELIN – A Nova Ciência da Política
Crítica à imanentização da escatologia.

KOŁAKOWSKI – Horror Metaphysicus
Crítica ao vazio metafísico moderno.

RATZINGER – Escatologia
Crítica à política messiânica.

MICHEL MIAILLE – Introdução Crítica ao Direito
Falsa transparência jurídica.

FREDERICK JACKSON TURNER – The Frontier in American History
A fronteira como dinamismo civilizacional.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Economia das Circunstâncias: observação empírica, inteligência artificial e previsão de mercado

Introdução

A ciência econômica, ao longo de sua história, oscilou entre dois polos metodológicos: a construção de modelos teóricos abstratos e a observação empírica da realidade concreta. Enquanto algumas tradições enfatizam a dedução lógica a partir de premissas formais, outras partem da experiência cotidiana, da análise das circunstâncias e do comportamento efetivo dos agentes econômicos. Este artigo propõe uma reflexão sobre uma metodologia econômica fundada na observação direta dos fenômenos de mercado, na coleta sistemática de dados do cotidiano e no uso da inteligência artificial como instrumento de análise e previsão.

Curiosamente, leitores têm identificado afinidades entre essa abordagem e o pensamento de Alfred Marshall, mesmo sem que haja uma leitura direta de sua obra. Isso sugere que certos princípios econômicos emergem naturalmente da própria realidade observada, independentemente da filiação teórica explícita.

A economia como ciência da experiência concreta

A ação econômica não ocorre em um vácuo teórico, mas em circunstâncias históricas, sociais e culturais específicas. Preços, promoções, escassez, abundância, políticas públicas, crises e ciclos de consumo são vivenciados diariamente pelos indivíduos. Observar esses fenômenos no cotidiano permite captar regularidades que frequentemente escapam a modelos excessivamente abstratos.

Essa abordagem parte do princípio de que a realidade econômica é inteligível a partir da experiência concreta. Grandes promoções, variações abruptas de preços, mudanças no comportamento do consumidor e intervenções estatais amplamente divulgadas pela mídia constituem fatos públicos e notórios. Tais eventos não apenas refletem dinâmicas microeconômicas, mas também produzem impactos macroeconômicos mensuráveis.

Assim, a economia deixa de ser apenas uma disciplina de gabinete e passa a ser uma ciência da observação viva, enraizada na experiência cotidiana.

Registro sistemático e organização dos dados

A observação, para ser cientificamente útil, precisa ser sistematizada. Anotações dispersas não produzem conhecimento estruturado. Por isso, a coleta contínua de informações sobre eventos de mercado — como campanhas promocionais em larga escala, variações de preços, mudanças regulatórias e reações do público — deve ser organizada em bases de dados coerentes.

A mídia de massa desempenha aqui um papel central, pois documenta fatos de grande relevância econômica. O caráter público dessas informações garante sua verificabilidade, enquanto sua recorrência permite a identificação de padrões.

O acúmulo desses dados ao longo do tempo forma um corpus empírico suficientemente robusto para análises comparativas, inferências e projeções.

Inteligência artificial como instrumento analítico

A inteligência artificial não substitui o julgamento humano, mas amplia suas capacidades analíticas. Ao processar grandes volumes de dados, ela permite:

  • Identificar padrões recorrentes

  • Correlacionar variáveis econômicas

  • Detectar tendências de consumo

  • Simular cenários futuros

  • Produzir previsões probabilísticas

Quando alimentada com dados provenientes da realidade concreta, a IA atua como um instrumento de racionalização da experiência empírica. Ela transforma observações dispersas em modelos interpretativos, sem impor previamente uma estrutura ideológica rígida.

Nesse sentido, a IA funciona como uma extensão da inteligência humana aplicada à economia das circunstâncias.

Previsão econômica a partir da realidade observada

Com dados acumulados e analisados sistematicamente, torna-se possível formular previsões plausíveis. Não se trata de profecias deterministas, mas de inferências baseadas em regularidades observáveis.

Por exemplo:

  • Repetições de grandes liquidações indicam excesso de estoque ou retração da demanda.

  • Aumento constante de preços sinaliza inflação setorial.

  • Mudanças súbitas no comportamento do consumidor refletem insegurança econômica.

Esses sinais, quando cruzados com dados históricos, permitem antecipar tendências macroeconômicas, ainda que de forma probabilística.

A previsão, nesse contexto, é um exercício de prudência racional, não de certeza absoluta.

Afinidades com Alfred Marshall e a tradição empírica

Alfred Marshall defendia uma economia enraizada na realidade social, preocupada com o comportamento efetivo dos agentes e com os efeitos práticos das políticas econômicas. Embora sua obra não tenha sido diretamente estudada neste percurso metodológico, leitores identificaram afinidades conceituais.

Isso revela um ponto fundamental: certos princípios econômicos não são produtos exclusivos de escolas teóricas, mas emergem da própria estrutura da realidade. Quem observa o mercado com atenção, disciplina e método tende a reencontrar, por vias empíricas, conclusões semelhantes às da tradição clássica.

A economia, nesse sentido, é menos uma doutrina e mais uma leitura racional da experiência humana organizada.

Conclusão

A economia das circunstâncias propõe uma metodologia fundada na observação do cotidiano, na coleta sistemática de dados públicos e no uso da inteligência artificial como ferramenta analítica. Em vez de partir de modelos abstratos, ela emerge da realidade vivida e busca compreendê-la com rigor racional.

Essa abordagem não rejeita a teoria, mas a subordina à experiência. A inteligência artificial, por sua vez, não substitui o intelecto humano, mas amplia sua capacidade de interpretação.

O resultado é uma economia viva, empírica, circunstancial e orientada para a compreensão concreta dos fenômenos de mercado — uma ciência que nasce da realidade e retorna a ela para validar-se.

Bibliografia Comentada

MARSHALL, Alfred. Principles of Economics.
Obra central da tradição neoclássica, na qual Marshall enfatiza a observação empírica, o comportamento real dos agentes e a importância das circunstâncias históricas. Sua abordagem prática da economia explica por que leitores identificam afinidades entre sua obra e uma metodologia fundada na observação do cotidiano.

ORTEGA Y GASSET, José. Meditações do Quixote.
Introduz a noção de que o homem é inseparável de suas circunstâncias (“Eu sou eu e minha circunstância”). Essa concepção fundamenta a ideia de uma economia enraizada na experiência concreta e no contexto histórico-social.

MENGER, Carl. Princípios de Economia Política.
Base da Escola Austríaca, enfatiza a ação humana e o valor subjetivo. Embora mais teórico, fornece fundamentos para compreender como escolhas individuais observáveis produzem efeitos econômicos objetivos.

HAYEK, Friedrich. O Uso do Conhecimento na Sociedade.
Defende que o conhecimento econômico está disperso na sociedade e emerge da prática cotidiana. Essa tese sustenta a importância da observação empírica e do registro de dados do dia a dia.

SIMON, Herbert. Administrative Behavior.
Introduz o conceito de racionalidade limitada, mostrando que agentes decidem com base em informações incompletas, reforçando a importância da observação realista do comportamento econômico.

MOROZOV, Evgeny. Big Tech: A ascensão dos dados e o futuro da política.
Discute o papel dos dados e da tecnologia na análise social e econômica, fornecendo base crítica para o uso da inteligência artificial como ferramenta analítica.

KAHNEMAN, Daniel. Rápido e Devagar.
Analisa os padrões de decisão humana, oferecendo instrumentos para interpretar comportamentos de consumo observados empiricamente.

FRANKL, Viktor. Em busca de sentido.
Embora não seja uma obra econômica, fundamenta a compreensão da ação humana como orientada por sentido, o que ajuda a interpretar escolhas de consumo e comportamento econômico em contextos concretos.

Subiektywność, okoliczności i prawda: chrystocentryczna krytyka antropologii Austriackiej Szkoły Ekonomii

Wprowadzenie

Austriacka Szkoła Ekonomii ukształtowała rozumienie ludzkiego działania oparte na pojęciu subiektywności. Wartość, wybory i cele nie są obiektywnie dane w rzeczywistości, lecz wyłaniają się z indywidualnych ocen podmiotów działających w konkretnych okolicznościach. Koncepcja ta znajduje rezonans w antropologii José Ortegi y Gasseta, dla którego człowiek nie jest abstrakcyjnym podmiotem, lecz istotą historyczną: „ja jestem ja i moje okoliczności”.

Jednak gdy ta struktura egzystencjalna zostaje zinterpretowana w świetle modernistycznego przekonania, że człowiek jest miarą wszystkich rzeczy, pojawia się problem natury filozoficznej i teologicznej. Wybór staje się ostatecznym kryterium, a prawda rozpływa się w perspektywie. Niniejszy artykuł dowodzi, że to ograniczenie można przezwyciężyć dzięki chrystocentrycznej reinterpretacji ludzkiego działania, w której Chrystus — Droga, Prawda i Życie — staje się obiektywną miarą istnienia, uświęcając okoliczności i autentycznie fundując wolność.

1. „Subiektywność” w Austriackiej Szkole

W tradycji austriackiej, zwłaszcza u Ludwiga von Misesa i Friedricha Hayeka, subiektywność oznacza, że:

  • wartość ekonomiczna nie jest immanentna w dobrach;

  • zależy od oceny podmiotu;

  • oceny te są osadzone w czasie, przestrzeni i osobistej historii.

Działanie ludzkie rozumiane jest jako odpowiedź na subiektywnie postrzegane cele w warunkach niedoboru i niepewności. W tym modelu nie istnieje zewnętrzne, obiektywne kryterium określające ostateczną wartość wyborów. Istnieje jedynie koordynacja indywidualnych planów w ramach spontanicznego porządku.

Jest to zatem teoria działania ludzkiego osadzonego w kontekście, lecz nie normatywnie ukierunkowanego przez prawdę transcendentną.

2. Ortega y Gasset i człowiek w swoich okolicznościach

Ortega y Gasset dostarcza najprecyzyjniejszej podstawy antropologicznej tej koncepcji:

„Ja jestem ja i moje okoliczności.”

Człowiek nie dokonuje wyborów w próżni. On:

  • rodzi się w świecie już ustrukturyzowanym;

  • staje wobec realnych dylematów;

  • musi wybierać między wzajemnie wykluczającymi się drogami;

  • a po dokonaniu wyboru wchodzi w nieodwracalny proces realizacji czynu.

Egzystencja ludzka ma zatem charakter dramatyczny: każda decyzja kształtuje tymczasowy los. Podmiot nie kontroluje w pełni warunków, lecz ponosi odpowiedzialność za kierunek własnego życia.

W tym punkcie Ortega i Austriacy są zgodni: działanie jest zawsze osadzone w historii, sytuacyjne i niepowtarzalne.

3. Błąd modernistyczny: człowiek jako miara wszystkich rzeczy

Problem pojawia się wtedy, gdy ta struktura egzystencjalna zostaje zinterpretowana w paradygmacie radykalnego antropocentryzmu.

Od Protagorasa — „człowiek jest miarą wszystkich rzeczy” — aż po współczesny humanizm świecki utrwaliło się przekonanie, że:

  • wybór jest suwerenny;

  • ostatecznym kryterium jest jednostka;

  • prawda redukuje się do perspektywy.

Nawet gdy Austriacka Szkoła uznaje ograniczenia poznawcze, rolę tradycji, spontaniczny porządek i koordynację społeczną, fundament normatywny pozostaje ludzki. Wybór nie jest oceniany w świetle obiektywnego Dobra, lecz jedynie opisywany jako wyraz indywidualnej preferencji.

W tym kontekście:

  • okoliczności są faktami, nie powołaniami;

  • działanie jest skuteczne, lecz niekoniecznie prawdziwe;

  • wolność oznacza autonomię, a nie zgodność z Dobrem.

4. Chrystus jako obiektywna miara istnienia

Przezwyciężenie tego ograniczenia następuje wtedy, gdy Chrystus zostaje uznany za miarę wszystkich rzeczy:

„Ja jestem drogą, prawdą i życiem.” (J 14,6)

Struktura egzystencjalna człowieka nie zostaje tu zanegowana, lecz wyniesiona na wyższy poziom:

  • człowiek nadal żyje w określonych okolicznościach;

  • nadal staje wobec dylematów;

  • nadal musi wybierać.

Jednak kryterium wyboru przestaje być subiektywna preferencja, a staje się nim Prawda.

Okoliczności przestają być jedynie historycznymi uwarunkowaniami i stają się przestrzenią uświęcenia. Każda konkretna sytuacja staje się wezwaniem do zgodności z Całością pochodzącą od Boga.

Droga nie jest już tylko wybierana — jest rozeznawana. Wolność nie polega na robieniu tego, co się chce, lecz na działaniu zgodnym z tym, co prawdziwe.

5. Prawda jako fundament wolności

W tradycji chrześcijańskiej, zwłaszcza u św. Tomasza z Akwinu, wolność nie stoi w opozycji do prawdy, lecz z niej wynika:

  • błąd zniewala;

  • prawda wyzwala;

  • wola jest w pełni wolna tylko wtedy, gdy jest ukierunkowana na Dobro.

Gdy Chrystus staje się miarą:

  • wybór przestaje być suwerenny;

  • prawda staje się normatywna;

  • działanie ludzkie zyskuje sens teleologiczny.

Ta sama struktura opisana przez Ortegę i Austriaków — dylemat, wybór, realizacja — zostaje zachowana, lecz włączona w porządek wyższy, w którym celem ostatecznym nie jest użyteczność, lecz zgodność z Prawdą.

Zakończenie

Austriackie pojęcie subiektywności trafnie opisuje człowieka jako podmiot działający w konkretnych okolicznościach, stający wobec dylematów i zmuszony do podejmowania nieodwracalnych decyzji. Ortega y Gasset oferuje najlepszą antropologiczną formułę tej egzystencjalnej kondycji.

Problem nie leży w opisie, lecz w fundamencie: gdy człowiek jest traktowany jako miara wszystkich rzeczy, wybór zostaje absolutyzowany, a prawda ulega relatywizacji. Okoliczności stają się jedynie faktami, a wolność redukuje się do autonomii.

Gdy jednak Chrystus zostaje uznany za Drogę, Prawdę i Życie, okoliczności zostają uświęcone, droga staje się obiektywna, a wolność znajduje swój prawdziwy fundament w Prawdzie. Działanie ludzkie przestaje być jedynie skuteczną realizacją i staje się odpowiedzią powołaniową na porządek Bytu.

Bibliografia komentowana

MISES, Ludwig von. Ludzkie działanie.
Dzieło centralne Austriackiej Szkoły. Przedstawia działanie ludzkie jako wyraz subiektywnych preferencji w warunkach niedoboru. Trafnie opisuje strukturę wyboru, lecz pozostaje normatywnie antropocentryczne.

HAYEK, Friedrich. Wykorzystanie wiedzy w społeczeństwie.
Analizuje ograniczenia ludzkiego poznania i spontaniczną koordynację. Uznaje znaczenie okoliczności, lecz bez odniesienia do transcendentnego kryterium prawdy.

ORTEGA Y GASSET, José. Medytacje o Don Kichocie.
Formułuje słynną tezę „ja jestem ja i moje okoliczności”. Dostarcza podstaw antropologicznych do rozumienia człowieka jako istoty historycznej, usytuowanej i odpowiedzialnej.

TOMASZ Z AKWINU. Suma teologiczna.
Funduje wolność w ukierunkowaniu na Dobro i Prawdę. Oferuje metafizyczną strukturę, która przezwycięża nowoczesny subiektywizm.

JAN PAWEŁ II. Veritatis Splendor.
Potwierdza istnienie obiektywnej prawdy moralnej wobec współczesnego relatywizmu. Stosuje tradycję tomistyczną do świata nowoczesnego.

BIBLIA ŚWIĘTA, J 14,6.
Chrystologiczny fundament tezy: Chrystus jako Droga, Prawda i Życie, obiektywna miara ludzkiego istnienia.

Ulotka wyborcza jako waluta polityczna – wiarygodność jako symboliczne zabezpieczenie reprezentacji

Wprowadzenie

W życiu gospodarczym waluta posiada wartość tylko wtedy, gdy istnieje zaufanie do jej zabezpieczenia. Historycznie było nim złoto; w nowoczesności – instytucjonalna wiarygodność emitenta. W życiu politycznym zachodzi zjawisko analogiczne: materiały kampanijne – zwłaszcza ulotki wyborcze – mają wartość symboliczną tylko wtedy, gdy są podparte rzeczywistą wiarygodnością kandydata.

W Brazylii funkcjonuje specyficzna forma takiej ulotki, znana jako santinho wyborcze – niewielki kartonik z wizerunkiem, numerem i hasłem kandydata, masowo rozdawany w przestrzeni publicznej. Moje analizy wynikają z doświadczeń brazylijskich, porównanych z obserwacjami moich przyjaciół z Polski.

Bez zabezpieczenia waluta traci wartość.
Bez wiarygodności propaganda staje się symbolicznym oszustwem.

Ulotkę wyborczą – zarówno polską, jak i brazylijskie santinho – można zatem rozumieć jako walutę polityczną, której wartość zależy całkowicie od moralnej, historycznej i egzystencjalnej substancji tego, kto ją emituje.

1. Ulotka wyborcza jako narzędzie symbolicznej wymiany

Ulotka wyborcza nie jest jedynie materiałem informacyjnym. Pełni ona funkcję:

  • symbolu tożsamości

  • skondensowanej obietnicy

  • znaku zobowiązania

  • środka wymiany między kandydatem a wyborcą

Wręczając ulotkę – w Polsce lub brazylijskie santinho – kandydat oferuje wyborcy reprezentację samego siebie. Wyborca, przyjmując ją, udziela uwagi, oczekiwania i, potencjalnie, głosu.

Tak jak waluta reprezentuje wartość ekonomiczną, tak ulotka reprezentuje wartość polityczną.

2. Zabezpieczenie: kim kandydat jest, a nie co mówi

W ekonomii wartość waluty nie zależy od papieru, tuszu ani designu, lecz od zaufania do emitenta. W polityce jest tak samo: wartość ulotki nie tkwi w haśle, estetyce czy retoryce, lecz w rzeczywistej tożsamości kandydata.

Prawdziwe polityczne zabezpieczenie tworzą:

  • spójna historia publiczna

  • weryfikowalna postawa moralna

  • wierność zasadom

  • zakorzenienie kulturowe i cywilizacyjne

  • zgodność między słowami a czynami

W Brazylii często spotyka się santinhos bogate w slogany, lecz ubogie w realną substancję. W Polsce natomiast – jak zauważają moi rozmówcy – większą wagę przywiązuje się do życiorysu, przynależności ideowej i wiarygodności osobistej.

Gdy kandydat ucieleśnia to, co komunikuje, ulotka ma realną wartość. Gdy jedynie symuluje – staje się walutą fiducjarną bez pokrycia.

3. Symboliczna inflacja i dewaluacja słowa politycznego

Tam, gdzie propaganda służy do fabrykowania sztucznych tożsamości, zachodzi proces podobny do inflacji:

  • mnożą się obietnice

  • zanika substancja

  • słowo polityczne traci wartość

  • zaufanie publiczne ulega erozji

W Brazylii masowe rozpowszechnianie santinhos bez realnego zabezpieczenia doprowadziło do głębokiej nieufności wobec kampanii wyborczych. W Polsce – mimo obecności marketingu politycznego – wciąż silniej działa pamięć historyczna, co ogranicza skalę tej symbolicznej inflacji.

Waluta krąży, lecz nie kupuje już zaufania.

4. Wiarygodność jako kapitał polityczny

Wiarygodność jest prawdziwym kapitałem politycznym. Bez niej:

  • nie ma autorytetu

  • nie ma legitymizacji

  • nie ma zaufania

  • nie ma wartości symbolicznej

Kandydat może wydrukować miliony ulotek – lub santinhos – lecz bez zabezpieczenia pozostaną one jedynie papierem.

Polityka, podobnie jak ekonomia, wymaga obiektywnych fundamentów zaufania.

5. Kontrast kulturowy: forma bez substancji vs. forma z substancją

W kulturach politycznych naznaczonych:

  • relatywizmem

  • nadmiarem marketingu

  • pragmatyzmem wyborczym

  • oderwaniem moralnym

propaganda staje się symulacją.

W Brazylii santinho często funkcjonuje jako czysto wizualny artefakt marketingowy. W Polsce natomiast, dzięki silniejszej roli tradycji, pamięci narodowej i religii, propaganda częściej pełni funkcję wyrazu realnej tożsamości politycznej.

Forma ma wartość tylko wtedy, gdy odzwierciedla substancję.

6. Chrystocentryczny wymiar zabezpieczenia

Z perspektywy chrześcijańskiej wiarygodność nie jest jedynie reputacją publiczną. Jest owocem:

  • spójności między wiarą a działaniem

  • podporządkowania się prawdzie

  • wierności porządkowi moralnemu

  • odpowiedzialności wobec Boga

W krajach o silnym dziedzictwie katolickim – jak Polska i Brazylia – instrumentalizacja religii w kampaniach wyborczych prowadzi do symbolicznego fałszerstwa.

Chrystus nie legitymizuje pozoru, lecz prawdę.
Nie potwierdza obrazu, lecz substancję.

Dlatego propaganda chrystocentryczna ma wartość tylko wtedy, gdy wypływa z autentycznego życia chrześcijańskiego.

Zakończenie

Ulotka wyborcza – podobnie jak brazylijskie santinho – jest walutą polityczną.
Wiarygodność jest jej zabezpieczeniem.
Zaufanie jest jej wartością.

Tam, gdzie istnieje zabezpieczenie, istnieje autorytet.
Tam, gdzie go nie ma – pozostaje tylko zadrukowany papier.

Kryzys reprezentacji politycznej nie jest wyłącznie instytucjonalny; jest także symboliczny. A każda kryzys symboliczny zaczyna się wtedy, gdy forma oddziela się od substancji.