Introdução
A história das marcas é também a história das línguas, das instituições jurídicas e do imaginário cultural de cada sociedade. Um mesmo produto, ao atravessar fronteiras nacionais, não carrega apenas sua fórmula ou seu processo produtivo: carrega símbolos, hábitos de consumo e pressupostos culturais que nem sempre encontram terreno fértil fora de seu contexto de origem. Neste artigo, propõe-se um exercício contrafactual simples, porém elucidativo: se a Coca-Cola tivesse nascido no Brasil, é plausível que tivesse outro nome — por exemplo, “Pemba”, o refrigerante do Pemberton.
Longe de ser uma brincadeira gratuita, a hipótese permite refletir sobre como se formam os nomes comerciais, como se constrói autoridade simbólica sobre um produto e de que modo a cultura jurídica e linguística brasileira moldaria uma marca desse tipo.
A origem do nome Coca-Cola
O nome Coca-Cola resulta da combinação direta de dois elementos:
John Stith Pemberton, farmacêutico e inventor da fórmula;
Coca (folha de coca) e cola (noz de cola), ingredientes então valorizados no discurso científico e medicinal do final do século XIX.
Nos Estados Unidos daquele período, a referência explícita a ingredientes exóticos e estimulantes possuía forte apelo comercial. O nome funcionava simultaneamente como descrição técnica, promessa terapêutica e marca registrada.
O contexto brasileiro de nomeação comercial
No Brasil do final do Império e da Primeira República, o padrão dominante de nomeação de produtos seguia outra lógica. Três traços merecem destaque:
Centralidade do nome do inventor ou da casa produtora
Era comum que remédios, elixires e preparados levassem o nome do farmacêutico ou da família responsável, como sinal de responsabilidade pessoal e reputação.Menor apelo popular de ingredientes estrangeiros
Termos como “coca” e “cola” não possuíam, no Brasil, o mesmo peso simbólico ou imaginário que tinham nos Estados Unidos. Para o consumidor médio, tais palavras soariam vagas, técnicas ou irrelevantes.Preferência por nomes curtos e foneticamente estáveis
O mercado brasileiro sempre privilegiou nomes de fácil pronúncia, memorização rápida e boa adaptação ao português falado.
Nesse contexto, um nome como Coca-Cola não seria necessariamente o mais eficiente do ponto de vista comercial.
“Pemba”: uma hipótese verossímil
A hipótese do nome “Pemba” deriva de uma adaptação fonética natural do sobrenome Pemberton. Tal processo não é arbitrário: ele segue padrões amplamente observáveis na história comercial brasileira.
“Pemba” seria:
Curto e memorável;
Facilmente pronunciável em português;
Diretamente associado ao criador, conferindo autoridade pessoal ao produto;
Compatível com o discurso farmacêutico da época, em que o prestígio do inventor importava mais do que a enumeração de ingredientes.
Assim, a marca poderia ser apresentada como “Pemba, o refrigerante do Pemberton”, numa fórmula clara, didática e juridicamente segura.
Autoridade, confiança e cultura jurídica
No Brasil, especialmente em sua tradição jurídica de matriz luso-católica, a responsabilidade pessoal sempre teve peso significativo. Associar um produto ao nome do seu criador equivale a um compromisso público: o inventor responde moral e socialmente por aquilo que coloca no mercado.
Nesse sentido, “Pemba” funcionaria menos como uma marca abstrata e mais como um selo de honra, algo compatível com uma cultura em que o nome próprio tem valor patrimonial, moral e simbólico.
Pemba, bebidas não-alcoólicas e a concorrência simbólica com bebidas espiritualizadas
Um elemento adicional reforça a pertinência — e a complexidade — da hipótese do nome Pemba no contexto brasileiro: sua posição simbólica no mercado de bebidas.
Mesmo sendo uma bebida não-alcoólica, a Pemba poderia competir, no Brasil, de igual para igual com bebidas espiritualizadas de forte presença cultural e publicitária, como o Dreher. Essa competição não se daria no plano químico ou etílico, mas no plano simbólico e antropológico.
No imaginário brasileiro, bebidas não disputam apenas teor alcoólico; disputam funções sociais: esquecer, celebrar, suportar a dureza da vida cotidiana, suspender momentaneamente o peso do real. Nesse sentido, uma bebida doce, escura, gaseificada e amplamente difundida pode cumprir papel funcional análogo ao das bebidas alcoólicas populares.
A expressão coloquial “tomar uma pemba”, entendida como dar-se mal ou sofrer um revés, reforça essa leitura: o ato de beber está culturalmente associado não apenas ao prazer, mas também ao esquecimento, à compensação simbólica e à anestesia emocional.
Assim, a Pemba poderia disputar espaço com bebidas espiritualizadas não por embriagar o corpo, mas por adoçar o mundo, oferecendo uma forma socialmente aceita de evasão — inclusive para aqueles que, por razões morais, religiosas ou práticas, evitam o álcool.
Essa ambiguidade revela três aspectos centrais da cultura linguística e de consumo no Brasil:
Predominância da polissemia contextual
O significado das palavras e dos produtos é determinado pela situação concreta de uso, não por sua composição técnica.Equivalência simbólica entre diferentes formas de esquecimento
No plano cultural, o esquecimento pode ser buscado tanto pela embriaguez quanto pela doçura efervescente.Competição mercadológica como disputa de sentidos
Marcas concorrem menos por categorias legais e mais por lugares no imaginário social.
Essa dimensão reforça a ideia de que, no Brasil, o destino de uma marca é decidido pela sua capacidade de ocupar uma função simbólica reconhecida pelo povo, mais do que pela natureza objetiva do produto.
Pemba, doutrina da Igreja e o problema do alento lícito
Considerando a formação histórica da República brasileira — marcada por desordem institucional recorrente, insegurança moral e precariedade simbólica —, a hipótese da Pemba como bebida não- alcoólica permite uma leitura coerente à luz da Doutrina Social da Igreja.
A tradição católica não condena o alívio em si, mas o excesso, a fuga permanente da realidade e tudo aquilo que compromete a liberdade da pessoa, a retidão da vontade e a responsabilidade moral. Nesse sentido, o álcool é objeto de cautela não por sua existência material, mas por sua capacidade de gerar dependência, entorpecimento da razão e perda do domínio de si.
A Pemba, enquanto bebida não-alcoólica, poderia ser compreendida como uma forma legítima de transferência simbólica dentro de uma ordem social que frequentemente não faz sentido ao indivíduo comum. Ela ofereceria um alento momentâneo, uma suspensão breve da aspereza do cotidiano, sem romper com a vigilância moral nem produzir dependência química ou psíquica comparável à do álcool.
Essa função é compatível com a prudência cristã: trata-se de um retorno à realidade, não de uma evasão prolongada. O indivíduo se permite um descanso sensível, mas não abdica do governo de si mesmo nem da obrigação de enfrentar o real com lucidez.
Assim, numa leitura moralmente rigorosa, a Pemba não se colocaria como concorrente do vício alcoólico, mas como alternativa socialmente e eticamente aceitável em um contexto histórico marcado por desajustes profundos. Ele ocuparia o lugar do consolo lícito, não da embriaguez; do alívio transitório, não do esquecimento culpável.
Essa distinção reforça o argumento central do artigo: no Brasil, produtos não competem apenas por mercados, mas por funções morais dentro de uma sociedade concreta.
O que o exercício revela
Este exercício contrafactual revela um ponto fundamental: marcas não são universais por natureza. Elas são construções históricas, dependentes:
da língua;
do sistema jurídico;
do imaginário coletivo;
e das expectativas morais do público consumidor.
A força da Coca-Cola como marca global não invalida o fato de que, em outro contexto cultural, a mesma fórmula poderia ter sido consagrada sob um nome radicalmente diferente.
Conclusão
O exercício contrafactual aqui desenvolvido permite compreender que nomes comerciais não são meros rótulos, mas condensações de linguagem, cultura, direito e antropologia. Pensar a Coca-Cola como “Pemba” no Brasil revela como a tradição brasileira tenderia a personalizar a mercadoria, vinculando-a ao nome, à honra e à responsabilidade do seu criador, ao mesmo tempo em que a submeteria ao crivo da linguagem viva do povo.
A ambiguidade semântica de “tomar uma pemba” mostra que, no Brasil, o destino simbólico de uma marca não é decidido apenas no cartório de patentes ou no marketing empresarial, mas na incorporação cotidiana feita pelos falantes. O povo não apenas consome produtos: ele os interpreta, resignifica e julga.
Nesse sentido, a hipótese de “Pemba” como refrigerante brasileiro ilumina um aspecto mais amplo da modernidade: a tensão entre o desvelamento da verdade e a busca por anestesias simbólicas.
O filósofo pratica aletheia, enquanto outros tomam uma Pemba pra esquecer.
Bibliografia comentada
BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem.
Obra fundamental para compreender como o sentido das palavras não é fixo, mas produzido socialmente no uso. A noção de linguagem viva ajuda a explicar como “Pemba” poderia assumir simultaneamente sentidos negativos e positivos no português brasileiro.
BOSI, Alfredo. Dialética da colonização.
Analisa os processos de adaptação cultural no Brasil, incluindo a incorporação criativa de elementos estrangeiros. É especialmente útil para entender como marcas importadas são resignificadas no imaginário nacional.
CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas.
Estuda a construção simbólica da República e do cidadão brasileiro, oferecendo chaves para compreender a importância do nome, da honra e da reputação pessoal na cultura pública brasileira.
CASCUDO, Luís da Câmara. Locuções tradicionais no Brasil.
Referência clássica para o estudo das expressões populares e seus sentidos figurados. Ajuda a situar expressões como “tomar uma pemba” dentro da lógica do falar cotidiano brasileiro.
KLEIN, Naomi. No Logo.
Embora focada na crítica contemporânea às grandes marcas, a obra fornece instrumentos analíticos úteis para pensar a construção simbólica e cultural dos nomes comerciais.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguística geral.
Base teórica indispensável para compreender a arbitrariedade do signo linguístico e a relação entre significante e significado, fundamento teórico implícito do exercício contrafactual proposto neste artigo.
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