Introdução
Em um curto excerto de uma fala de Olavo de Carvalho, difundido no formato de short, apresenta-se uma tese de grande densidade filosófica: a afirmação da existência real do chamado “mundo das leis eternas”, sua acessibilidade limitada ao ser humano e, sobretudo, sua irredutibilidade aos critérios do método científico moderno. Embora breve, a passagem condensa uma crítica profunda ao cientificismo e recupera distinções clássicas da filosofia e da teologia cristã.
Este artigo propõe examinar essa tese em seus aspectos ontológicos, epistemológicos e teológicos, mostrando por que a experiência das leis eternas não pode ser negada, mas tampouco pode ser instrumentalizada ou submetida à lógica do laboratório.
A existência do mundo das leis eternas
A afirmação inicial é direta: o mundo das leis eternas existe. Não se trata de uma hipótese psicológica, de uma construção cultural arbitrária ou de um mero efeito subjetivo da consciência. Trata-se de uma dimensão da realidade cuja existência é atestada por uma vasta documentação histórica, filosófica e espiritual.
Ao longo dos séculos, homens de diferentes culturas, épocas e formações relataram experiências convergentes de contato com uma ordem superior do ser — uma ordem de sentido, de verdade e de bem que não depende da vontade humana. Essa convergência não elimina a diversidade dos relatos, mas precisamente a confirma: há unidade de objeto, embora não haja identidade fenomenológica.
Essa característica é decisiva. Realidades superiores não se apresentam como objetos físicos replicáveis, mas como fontes inteligíveis que se manifestam segundo a capacidade, a disposição e a história de cada sujeito.
Acessibilidade sem controle
Um ponto central da argumentação é a recusa da ideia de que tais experiências possam ser produzidas sob demanda. O acesso ao mundo das leis eternas não ocorre “a nosso bel-prazer”. Ele não obedece ao desejo imediato do indivíduo, nem pode ser programado, induzido ou garantido por procedimentos técnicos.
Essa limitação não invalida a experiência; ao contrário, é um de seus sinais de autenticidade. Aquilo que pode ser totalmente controlado pela vontade humana pertence à ordem da técnica. Aquilo que se manifesta sem se submeter a esse controle pertence a uma ordem superior do ser.
Nesse sentido, a experiência das leis eternas é descrita como parcial, momentânea e fugaz. Ela não se oferece como posse permanente, mas como participação. O sujeito não a domina; é, antes, por ela visitado.
Convergência dos testemunhos e crítica ao positivismo
Olavo de Carvalho observa que os testemunhos dessas experiências são convergentes, ainda que não idênticos. Esse dado entra em choque com um pressuposto central do positivismo moderno: a ideia de que só é real aquilo que pode ser reduzido a uma “zona de interseção comum” perfeitamente observável e repetível por todos.
O método científico exige repetibilidade voluntária, controle das variáveis e padronização intersubjetiva. Esses critérios são legítimos e indispensáveis dentro de seu próprio domínio. O erro do cientificismo consiste em absolutizá-los, transformando-os em critérios universais de realidade.
Ao fazê-lo, o cientificismo não apenas limita o conhecimento humano, mas redefine arbitrariamente o que pode ou não existir. Tudo o que escapa ao laboratório passa a ser tratado como ilusão, superstição ou irrelevância epistemológica.
A tese do mundo das leis eternas recoloca a ciência em seu lugar próprio: o de um método poderoso para o estudo de certos aspectos da realidade, mas incapaz de abarcar o todo do ser.
A dimensão teológica da experiência
Do ponto de vista teológico, a argumentação é coerente com a tradição cristã. Deus não é objeto de experimento, nem a graça pode ser manipulada. As experiências espirituais autênticas acontecem quando Deus quer e do modo como Ele quer.
Essa afirmação preserva a transcendência divina contra toda tentativa de redução técnica ou psicológica da fé. Ela também explica por que, em muitos casos, o indivíduo que passa por tais experiências encontra dificuldade em relatá-las. A linguagem ordinária, moldada para descrever objetos do mundo sensível, mostra-se insuficiente para expressar realidades de ordem superior.
A tradição mística cristã está repleta desse reconhecimento dos limites da linguagem. Não se trata de obscurantismo, mas de lucidez filosófica: o excesso de realidade ultrapassa a capacidade expressiva do discurso comum.
Implicações culturais e intelectuais
A circulação desse pensamento em formato de short cumpre uma função cultural relevante. Em poucas frases, ele desafia o espectador a revisar seus critérios de realidade e de conhecimento. Não se pede adesão cega, mas reflexão honesta sobre os limites do método científico e sobre a possibilidade de dimensões do real que não se deixam capturar por ele.
Em um contexto cultural marcado pela redução da verdade ao mensurável, a afirmação da existência das leis eternas é um gesto contra-hegemônico. Ela recorda que a razão humana é mais ampla do que seus instrumentos técnicos e que a realidade é mais rica do que aquilo que pode ser quantificado.
Conclusão
O mundo das leis eternas, tal como apresentado por Olavo de Carvalho, não é uma fuga da razão, mas uma ampliação de seu horizonte. Ele existe, é real e é acessível ao ser humano, ainda que de modo limitado e não controlável. Sua irredutibilidade ao método científico não o torna menos verdadeiro; ao contrário, indica que pertence a uma ordem superior do ser.
Reconhecer essa ordem não implica rejeitar a ciência, mas libertá-la da pretensão de ser medida de todas as coisas. Implica, sobretudo, recuperar uma visão hierárquica do conhecimento, na qual a técnica serve à verdade e não a substitui.
Bibliografia comentada
Carvalho, Olavo de. A inteligência da fé. São Paulo: É Realizações.
Obra fundamental para compreender a distinção entre razão, fé e cientificismo no pensamento de Olavo de Carvalho. Desenvolve a ideia de que a experiência espiritual possui inteligibilidade própria, irredutível aos métodos das ciências naturais.
Carvalho, Olavo de. O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Rio de Janeiro: Record.
Coletânea de ensaios em que o autor critica o positivismo cultural e a redução da verdade ao consenso técnico, fornecendo o pano de fundo intelectual da tese apresentada no short analisado.
Carvalho, Olavo de. Aristóteles em nova perspectiva. Campinas: Vide Editorial.
Livro em que Olavo retoma a metafísica aristotélica para restaurar a hierarquia dos modos de conhecimento e a noção de inteligibilidade do ser, indispensável para entender o conceito de leis eternas.
Platão. A República. Traduções diversas.
Texto clássico sobre a distinção entre o mundo sensível e o mundo inteligível, especialmente a analogia do Sol e a alegoria da Caverna, fundamentais para a compreensão filosófica das leis eternas.
Aristóteles. Metafísica. Traduções diversas.
Base da compreensão clássica do ser enquanto ser e da distinção entre ciência, sabedoria e intelecção dos princípios primeiros.
Santo Agostinho de Hipona. Confissões. Traduções diversas.
Relato paradigmático da experiência interior e da dificuldade de expressão linguística diante das realidades divinas, em consonância com o argumento sobre a limitação do discurso.
Santo Tomás de Aquino. Suma Teológica. Traduções diversas.
Referência central para a distinção entre razão natural e revelação, bem como para a compreensão da lei eterna como fundamento da ordem do ser.
Dionísio Areopagita. Os nomes divinos e Teologia mística. Traduções diversas.
Obras clássicas da teologia apofática, fundamentais para compreender por que certas experiências espirituais ultrapassam a capacidade descritiva da linguagem ordinária.
Kuhn, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva.
Utilizado como contraponto moderno para mostrar os limites históricos e paradigmáticos do método científico, sem negar sua legitimidade em seu campo próprio.
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