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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

MLB, cooperação midiática e o contraste com o futebol brasileiro

Introdução

As transmissões dos playoffs da Major League Baseball (MLB) evidenciam um arranjo institucional que contrasta de forma quase didática com o modelo brasileiro de transmissão de futebol. Mesmo em um ambiente altamente competitivo e orientado à monetização — marcado por TV paga, streaming e contratos multimilionários —, os Estados Unidos preservam, em eventos de grande relevância esportiva, um modelo cooperativo de produção e exibição. No Brasil, ao contrário, a transmissão tende a ser verticalizada, proprietária e excludente, com baixa permeabilidade institucional.

Este artigo analisa as bases desse contraste, tomando as transmissões da MLB como paradigma e comparando-as com a prática dominante no futebol brasileiro.

1. O modelo da MLB: a liga como titular do espetáculo

Na MLB, o ponto de partida é claro: o espetáculo pertence à liga, não às emissoras. As redes de televisão — abertas, a cabo ou plataformas digitais — adquirem direitos de exibição, mas não se apropriam do evento como extensão de sua identidade corporativa.

Em jogos de playoff, especialmente aqueles transmitidos em rede nacional, observa-se com frequência:

  • produção centralizada a partir de um sinal único (world feed);

  • narradores, comentaristas e analistas provenientes de emissoras diferentes;

  • repórteres vinculados às afiliadas locais dos times mandante e visitante;

  • padronização técnica e editorial mínima, com foco no jogo e não na marca da emissora.

A consequência direta é a preservação do caráter nacional e cívico do evento esportivo, mesmo quando transmitido por empresas privadas.

2. Cooperação entre concorrentes: um traço estrutural

O sistema norte-americano aceita — e até estimula — a cooperação entre concorrentes quando o objeto transmitido alcança relevância pública. Essa cooperação não elimina a concorrência comercial; ela a reordena.

A lógica é simples:

nenhuma emissora é maior do que a liga; nenhuma marca é maior do que o campeonato.

Isso permite mesas de transmissão mistas, circulação de jornalistas entre redes e a valorização do profissional como agente do ecossistema esportivo, não como ativo exclusivo de uma corporação.

3. O modelo brasileiro: apropriação do evento pela emissora

No Brasil, o padrão é diametralmente oposto. Ao adquirir os direitos de transmissão, a emissora tende a:

  • absorver o evento como produto proprietário;

  • impor identidade visual, narrativa e simbólica próprias;

  • tratar narradores, comentaristas e repórteres como elementos de fidelização de marca;

  • excluir sistematicamente profissionais ligados a concorrentes.

O jogo deixa de ser apenas o jogo; torna-se “o jogo da emissora”.

Essa lógica é particularmente visível no futebol, onde a transmissão se confunde com a construção de hegemonia midiática. O direito de exibir converte-se, na prática, em direito de controlar a narrativa.

4. Jornalista: profissional do sistema ou ativo exclusivo

Outro contraste relevante reside no estatuto do jornalista esportivo.

Nos Estados Unidos:

  • o jornalista é um profissional do campo esportivo;

  • transita entre TV, rádio, imprensa escrita e plataformas digitais;

  • pode atuar em transmissões conjuntas sem que isso seja visto como traição institucional.

No Brasil:

  • o jornalista é frequentemente tratado como ativo exclusivo;

  • sua credibilidade é absorvida pela marca da emissora;

  • sua presença em transmissões compartilhadas é vista como diluição de poder.

Esse modelo limita a pluralidade técnica e intelectual da cobertura esportiva.

5. A transmissão como bem cultural

A MLB — assim como a NFL e a NBA — opera com a noção implícita de que certos eventos esportivos são bens culturais de interesse público. Por isso:

  • jogos decisivos retornam à TV aberta;

  • o alcance nacional prevalece sobre a maximização exclusiva de receita;

  • a transmissão cumpre função de integração cultural.

No Brasil, o futebol, embora seja o principal bem cultural de massa do país, é tratado predominantemente como ativo privado de exploração, com baixa preocupação institucional com pluralidade, acesso ou cooperação.

6. O paradoxo brasileiro

O paradoxo é evidente:

  • o Brasil possui plena capacidade técnica para adotar modelos cooperativos;

  • a audiência do futebol justificaria transmissões abertas e compartilhadas;

  • os custos poderiam ser reduzidos por produção integrada.

Ainda assim, o modelo persiste por razões mentais e institucionais, não técnicas. A resistência à cooperação decorre da associação histórica entre transmissão esportiva e poder simbólico.

7. Grade televisiva e subordinação do esporte à emissora

A inversão analisada ao longo deste artigo explica, em grande medida, a forma como uma única emissora — notadamente a Rede Globo — conseguiu construir e consolidar seu poder no Brasil ao longo de décadas. Ao transformar o futebol em ativo subordinado à sua grade, a emissora passou a organizar o esporte em função de seus próprios produtos centrais, e não o inverso.

O caso mais emblemático é o horário dos jogos decisivos. Durante anos, partidas relevantes do futebol brasileiro passaram a começar após o término da telenovela, frequentemente por volta das dez da noite. O futebol deixou de ocupar o centro do horário nobre para tornar-se um conteúdo residual, ajustado à lógica dramatúrgica da emissora.

Esse arranjo teve consequências estruturais:

  • desorganização do calendário esportivo;

  • prejuízo direto ao público trabalhador, afastado do estádio e da audiência integral;

  • perda de valor simbólico do jogo como evento nacional;

  • naturalização da ideia de que o futebol deve se adaptar à emissora, e não o contrário.

8. O contraste norte-americano: o esporte como âncora do prime time

Nos Estados Unidos, a lógica é oposta. Jogos decisivos da MLB, da NFL ou da NBA são alocados no coração do horário nobre, muitas vezes no início da noite, com ampla antecedência e previsibilidade.

Nesses casos:

  • a grade se organiza em torno do evento esportivo;

  • o jogo atua como âncora de audiência;

  • programas são deslocados ou suspensos para acomodar o esporte;

  • a transmissão é pensada como ritual coletivo, familiar e nacional.

O resultado é que esses jogos tornam-se campeões de audiência, reforçando o valor do esporte e, ao mesmo tempo, da própria emissora — sem que uma precise avacalhar o produto da outra.

Conclusão

A comparação entre MLB e futebol brasileiro revela que o problema central não está em recursos técnicos, talento profissional ou interesse do público, mas na hierarquia institucional entre esporte e mídia.

Nos Estados Unidos, prevalece o princípio de que:

o esporte estrutura a grade.

No Brasil, consolidou-se a prática segundo a qual:

a grade subordina o esporte.

Foi essa inversão que permitiu a construção de um poder midiático duradouro, mas ao custo da erosão do valor cultural e simbólico do futebol brasileiro. Enquanto o esporte não recuperar sua centralidade institucional, continuará sendo tratado como acessório — mesmo sendo, paradoxalmente, o maior patrimônio cultural de massa do país.

Bibliografia comentada

ECO, Umberto. Apocalípticos e Integrados.
Obra clássica para compreender a relação entre cultura de massa, indústria cultural e poder simbólico. Eco fornece ferramentas conceituais úteis para analisar como a televisão deixa de ser mero meio e passa a organizar a experiência cultural, fenômeno central para entender a subordinação do futebol à grade televisiva no Brasil.

BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão.
Bourdieu analisa a televisão como campo de poder capaz de impor sua lógica a outros campos sociais. Sua reflexão ilumina o processo pelo qual o esporte, no Brasil, passa a internalizar a lógica da audiência e da programação, perdendo autonomia institucional.

ROWE, David. Sport, Culture and the Media.
Referência fundamental nos estudos de mídia esportiva. Rowe examina os diferentes modelos de relação entre esporte e meios de comunicação, oferecendo base teórica para contrastar o modelo cooperativo norte-americano com o modelo proprietário brasileiro.

WHANNEL, Garry. Media Sport Stars: Masculinities and Moralities.
Embora focado na construção de ídolos esportivos, Whannel contribui para a compreensão da mídia esportiva como sistema narrativo. Ajuda a explicar como a emissora, ao controlar a narrativa, redefine o sentido simbólico do evento esportivo.

ZIRIN, Dave. What’s My Name, Fool? Sports and Resistance in the United States.
Zirin aborda o esporte norte-americano como espaço de disputa cultural e política. Sua obra é útil para entender por que ligas como a MLB preservam o caráter público e nacional de eventos decisivos, inclusive no horário nobre.

FORTUNATO, Ivan; MARQUES, José Carlos. Mídia, Futebol e Poder no Brasil.
Estudo diretamente voltado ao caso brasileiro, examinando a concentração dos direitos de transmissão e a relação simbiótica entre emissoras e futebol. Essencial para compreender a formação histórica do modelo que subordina o esporte à televisão.

HELAL, Ronaldo; SOARES, Antonio Jorge. A Invenção do País do Futebol.
Os autores analisam a construção simbólica do futebol como identidade nacional no Brasil. A obra ajuda a dimensionar o impacto cultural negativo da perda de centralidade do futebol na grade televisiva.

MLB. Official Broadcasting and Media Guidelines.
Documentos institucionais da Major League Baseball que evidenciam o papel da liga como titular do espetáculo e reguladora das transmissões. Fundamentais para entender, em termos práticos, o modelo cooperativo adotado nos Estados Unidos.

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