Introdução
As transmissões dos playoffs da Major League Baseball (MLB) evidenciam um arranjo institucional que contrasta de forma quase didática com o modelo brasileiro de transmissão de futebol. Mesmo em um ambiente altamente competitivo e orientado à monetização — marcado por TV paga, streaming e contratos multimilionários —, os Estados Unidos preservam, em eventos de grande relevância esportiva, um modelo cooperativo de produção e exibição. No Brasil, ao contrário, a transmissão tende a ser verticalizada, proprietária e excludente, com baixa permeabilidade institucional.
Este artigo analisa as bases desse contraste, tomando as transmissões da MLB como paradigma e comparando-as com a prática dominante no futebol brasileiro.
1. O modelo da MLB: a liga como titular do espetáculo
Na MLB, o ponto de partida é claro: o espetáculo pertence à liga, não às emissoras. As redes de televisão — abertas, a cabo ou plataformas digitais — adquirem direitos de exibição, mas não se apropriam do evento como extensão de sua identidade corporativa.
Em jogos de playoff, especialmente aqueles transmitidos em rede nacional, observa-se com frequência:
produção centralizada a partir de um sinal único (world feed);
narradores, comentaristas e analistas provenientes de emissoras diferentes;
repórteres vinculados às afiliadas locais dos times mandante e visitante;
padronização técnica e editorial mínima, com foco no jogo e não na marca da emissora.
A consequência direta é a preservação do caráter nacional e cívico do evento esportivo, mesmo quando transmitido por empresas privadas.
2. Cooperação entre concorrentes: um traço estrutural
O sistema norte-americano aceita — e até estimula — a cooperação entre concorrentes quando o objeto transmitido alcança relevância pública. Essa cooperação não elimina a concorrência comercial; ela a reordena.
A lógica é simples:
nenhuma emissora é maior do que a liga; nenhuma marca é maior do que o campeonato.
Isso permite mesas de transmissão mistas, circulação de jornalistas entre redes e a valorização do profissional como agente do ecossistema esportivo, não como ativo exclusivo de uma corporação.
3. O modelo brasileiro: apropriação do evento pela emissora
No Brasil, o padrão é diametralmente oposto. Ao adquirir os direitos de transmissão, a emissora tende a:
absorver o evento como produto proprietário;
impor identidade visual, narrativa e simbólica próprias;
tratar narradores, comentaristas e repórteres como elementos de fidelização de marca;
excluir sistematicamente profissionais ligados a concorrentes.
O jogo deixa de ser apenas o jogo; torna-se “o jogo da emissora”.
Essa lógica é particularmente visível no futebol, onde a transmissão se confunde com a construção de hegemonia midiática. O direito de exibir converte-se, na prática, em direito de controlar a narrativa.
4. Jornalista: profissional do sistema ou ativo exclusivo
Outro contraste relevante reside no estatuto do jornalista esportivo.
Nos Estados Unidos:
o jornalista é um profissional do campo esportivo;
transita entre TV, rádio, imprensa escrita e plataformas digitais;
pode atuar em transmissões conjuntas sem que isso seja visto como traição institucional.
No Brasil:
o jornalista é frequentemente tratado como ativo exclusivo;
sua credibilidade é absorvida pela marca da emissora;
sua presença em transmissões compartilhadas é vista como diluição de poder.
Esse modelo limita a pluralidade técnica e intelectual da cobertura esportiva.
5. A transmissão como bem cultural
A MLB — assim como a NFL e a NBA — opera com a noção implícita de que certos eventos esportivos são bens culturais de interesse público. Por isso:
jogos decisivos retornam à TV aberta;
o alcance nacional prevalece sobre a maximização exclusiva de receita;
a transmissão cumpre função de integração cultural.
No Brasil, o futebol, embora seja o principal bem cultural de massa do país, é tratado predominantemente como ativo privado de exploração, com baixa preocupação institucional com pluralidade, acesso ou cooperação.
6. O paradoxo brasileiro
O paradoxo é evidente:
o Brasil possui plena capacidade técnica para adotar modelos cooperativos;
a audiência do futebol justificaria transmissões abertas e compartilhadas;
os custos poderiam ser reduzidos por produção integrada.
Ainda assim, o modelo persiste por razões mentais e institucionais, não técnicas. A resistência à cooperação decorre da associação histórica entre transmissão esportiva e poder simbólico.
7. Grade televisiva e subordinação do esporte à emissora
A inversão analisada ao longo deste artigo explica, em grande medida, a forma como uma única emissora — notadamente a Rede Globo — conseguiu construir e consolidar seu poder no Brasil ao longo de décadas. Ao transformar o futebol em ativo subordinado à sua grade, a emissora passou a organizar o esporte em função de seus próprios produtos centrais, e não o inverso.
O caso mais emblemático é o horário dos jogos decisivos. Durante anos, partidas relevantes do futebol brasileiro passaram a começar após o término da telenovela, frequentemente por volta das dez da noite. O futebol deixou de ocupar o centro do horário nobre para tornar-se um conteúdo residual, ajustado à lógica dramatúrgica da emissora.
Esse arranjo teve consequências estruturais:
desorganização do calendário esportivo;
prejuízo direto ao público trabalhador, afastado do estádio e da audiência integral;
perda de valor simbólico do jogo como evento nacional;
naturalização da ideia de que o futebol deve se adaptar à emissora, e não o contrário.
8. O contraste norte-americano: o esporte como âncora do prime time
Nos Estados Unidos, a lógica é oposta. Jogos decisivos da MLB, da NFL ou da NBA são alocados no coração do horário nobre, muitas vezes no início da noite, com ampla antecedência e previsibilidade.
Nesses casos:
a grade se organiza em torno do evento esportivo;
o jogo atua como âncora de audiência;
programas são deslocados ou suspensos para acomodar o esporte;
a transmissão é pensada como ritual coletivo, familiar e nacional.
O resultado é que esses jogos tornam-se campeões de audiência, reforçando o valor do esporte e, ao mesmo tempo, da própria emissora — sem que uma precise avacalhar o produto da outra.
Conclusão
A comparação entre MLB e futebol brasileiro revela que o problema central não está em recursos técnicos, talento profissional ou interesse do público, mas na hierarquia institucional entre esporte e mídia.
Nos Estados Unidos, prevalece o princípio de que:
o esporte estrutura a grade.
No Brasil, consolidou-se a prática segundo a qual:
a grade subordina o esporte.
Foi essa inversão que permitiu a construção de um poder midiático duradouro, mas ao custo da erosão do valor cultural e simbólico do futebol brasileiro. Enquanto o esporte não recuperar sua centralidade institucional, continuará sendo tratado como acessório — mesmo sendo, paradoxalmente, o maior patrimônio cultural de massa do país.
Bibliografia comentada
ECO, Umberto. Apocalípticos e Integrados.
Obra clássica para compreender a relação entre cultura de massa, indústria cultural e poder simbólico. Eco fornece ferramentas conceituais úteis para analisar como a televisão deixa de ser mero meio e passa a organizar a experiência cultural, fenômeno central para entender a subordinação do futebol à grade televisiva no Brasil.
BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão.
Bourdieu analisa a televisão como campo de poder capaz de impor sua lógica a outros campos sociais. Sua reflexão ilumina o processo pelo qual o esporte, no Brasil, passa a internalizar a lógica da audiência e da programação, perdendo autonomia institucional.
ROWE, David. Sport, Culture and the Media.
Referência fundamental nos estudos de mídia esportiva. Rowe examina os diferentes modelos de relação entre esporte e meios de comunicação, oferecendo base teórica para contrastar o modelo cooperativo norte-americano com o modelo proprietário brasileiro.
WHANNEL, Garry. Media Sport Stars: Masculinities and Moralities.
Embora focado na construção de ídolos esportivos, Whannel contribui para a compreensão da mídia esportiva como sistema narrativo. Ajuda a explicar como a emissora, ao controlar a narrativa, redefine o sentido simbólico do evento esportivo.
ZIRIN, Dave. What’s My Name, Fool? Sports and Resistance in the United States.
Zirin aborda o esporte norte-americano como espaço de disputa cultural e política. Sua obra é útil para entender por que ligas como a MLB preservam o caráter público e nacional de eventos decisivos, inclusive no horário nobre.
FORTUNATO, Ivan; MARQUES, José Carlos. Mídia, Futebol e Poder no Brasil.
Estudo diretamente voltado ao caso brasileiro, examinando a concentração dos direitos de transmissão e a relação simbiótica entre emissoras e futebol. Essencial para compreender a formação histórica do modelo que subordina o esporte à televisão.
HELAL, Ronaldo; SOARES, Antonio Jorge. A Invenção do País do Futebol.
Os autores analisam a construção simbólica do futebol como identidade nacional no Brasil. A obra ajuda a dimensionar o impacto cultural negativo da perda de centralidade do futebol na grade televisiva.
MLB. Official Broadcasting and Media Guidelines.
Documentos institucionais da Major League Baseball que evidenciam o papel da liga como titular do espetáculo e reguladora das transmissões. Fundamentais para entender, em termos práticos, o modelo cooperativo adotado nos Estados Unidos.
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