Quando, em 1979, com apenas 34 anos, Robert Sarah foi nomeado arcebispo de Conacri, em sua Guiné natal, ele não herdou apenas uma cadeira episcopal: ele também herdou uma sentença de morte.
Seu antecessor, monsenhor Raymond-Marie Tchidimbo, passou oito longos anos na prisão, sob um regime brutal que via a Igreja como uma ameaça direta. O ditador Sékou Touré, autoproclamado líder de uma revolução socialista, fez da Guiné um país onde a fé cristã mal sobreviveu, sempre na clandestinidade ou na humilhação.
Sarah aceitou a nomeação com plena consciência de que ele poderia ser preso, torturado ou morto. Não era uma hipótese distante: já em 1984, após a morte de Touré, um embaixador alemão confirmaria o que muitos suspeitavam: seu nome era o primeiro de uma lista negra de pessoas destinadas a serem eliminadas.
No entanto, o destino – ou melhor, a Providência – interveio. Em março de 1984, durante uma visita oficial aos Estados Unidos, Sékou Touré sofreu um derrame. Ele foi hospitalizado em Cleveland e morreu alguns dias depois. O plano para eliminar Robert Sarah desmoronou junto com a vida do tirano. A vida do jovem arcebispo foi salva no último momento, como se o próprio Deus tivesse decidido escrever uma história diferente para ele.
Longe de se intimidar, Sarah viajou pelas aldeias mais esquecidas da Guiné naqueles anos perigosos, sustentando os fiéis na esperança e na fé. Ele conheceu em primeira mão o sabor da perseguição, do medo diário, do martírio silencioso que tantos católicos na África também sofrem hoje.
Hoje, em um momento em que a Igreja enfrenta o sequestro do padre Ibrahim Amos na Nigéria, e o recente assassinato do padre Sylvester Okekuohwu, não bastam discursos amigáveis e gestos de solidariedade. É necessária uma liderança que entenda que a fé é contínua a custar vidas em muitas partes do mundo, e não como uma estatística, mas como uma realidade vivida na carne.
Robert Sarah, que nasceu em uma aldeia de lama e extrema pobreza, que resistiu sob um ditador brutal e que foi quase eliminado pelo regime socialista, tornou-se um símbolo de uma Igreja que não se envergonha dos sofrimentos e que, em reuniões episcopais, não se curva à tirania do politicamente correto.
Jaime Gurgelgui
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