A ordem geopolítica pan-americana está em transformação. O que antes era marcado por uma cisão civilizacional entre dois mundos — o mundo anglo-saxão do Norte e o mundo ibérico do Sul — começa, sob a ação providencial e a maturidade das nações, a se configurar como uma unidade simbólica, espiritual e política. Essa unidade não é fruto de um projeto tecnocrático de integração continental, tampouco de uma uniformização globalista. Trata-se de uma conformidade superior: a conformidade com o Todo que vem de Deus.
Quando dizemos que as Três Américas — Anglo-Americana, Hispano-Americana e Luso-Americana — podem dialogar entre si, é porque elas começam a amar e a rejeitar as mesmas coisas. E este critério moral — o amor comum ao verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, Jesus Cristo — é o único capaz de sustentar uma unidade verdadeira. Fora desse fundamento, toda tentativa de integração é artificial, inútil e, muitas vezes, perversa.
Essa nova visão é possível porque, antecipadamente, olhamos a política como uma extensão análoga da Trindade divina. Em Deus, Três Pessoas subsistem em perfeita união e distinção. No plano histórico e espiritual das Américas, essa analogia trinitária se revela no caráter simbólico de cada parte do continente:
I. A América do Norte: O Império da Liberdade
A cultura política americana, desde os "Federalist Papers" até os discursos de Abraham Lincoln, sempre exaltou a liberdade como princípio central da ordem social. No entanto, essa liberdade é verdadeira somente quando fundada na verdade — como reconheceu o Papa Bento XVI em suas obras. "A verdade vos libertará" (João 8,32) é também um princípio político. O uso da razão pública para defender a dignidade humana, o direito à vida e à propriedade, reflete essa dimensão do Verbo que ilumina todo homem.
Bibliografia recomendada:
The Federalist Papers, de Alexander Hamilton, James Madison e John Jay.
"Democracia na América" de Alexis de Tocqueville.
"Liberdade e Verdade" de Joseph Ratzinger (Bento XVI).
"A Cidade de Deus", de Santo Agostinho.
II. A América Hispânica: O Reino da Justiça
A colonização espanhola foi marcada pela influência da Segunda Escolástica, em especial pela obra de Francisco de Vitoria, que formulou os primeiros conceitos de direitos humanos e de direito internacional baseados no direito natural. A herança hispano-americana está profundamente ligada à ideia de uma ordem justa, não apenas em termos positivos, mas também em termos teológicos.
Bibliografia recomendada:
"Relectio de Indis" de Francisco de Vitoria.
"De Legibus ac Deo Legislatore" de Francisco Suárez.
"A Tradição Clássica do Direito Natural" de Heinrich Rommen.
"O Direito Natural e a História" de Leo Strauss.
III. A América Portuguesa: O Império do Espírito Santo
Portugal, desde a Batalha de Ourique, carrega a vocação de servir a Cristo em terras distantes. Essa missão foi transmitida ao Brasil não apenas como herança imperial, mas como missão espiritual. A idéia do "Império do Espírito Santo" — com fortes influências de Joaquim de Fiore — representa a esperança de uma comunidade moldada pelo amor e pela caridade divina, em contraposição à comunidade fictícia planejada pela maçonaria e pela engenharia social moderna.
Bibliografia recomendada:
"O Milagre de Ourique" (documentos históricos portugueses).
"História do Futuro" de Padre Antônio Vieira.
"A Filosofia da Lealdade" de Josiah Royce.
"O Jardim das Aflições" de Olavo de Carvalho.
"Reforma ou Revolução?" de Plinio Corrêa de Oliveira.
IV. Conclusão: Três Vocções, Uma Missão
A unidade entre as Américas não será feita por tratados comerciais ou por acordos de cooperação. Ela só pode acontecer em torno de um critério comum que transcenda a política ordinária: o amor ao verdadeiro Deus, à verdade e à liberdade ordenada. Trata-se de reconhecer que a história tem uma direção providencial e que a América, enquanto continente, pode realizar uma nova Cristandade, renovada, purificada e santificada pelas três vocações que recebeu: Liberdade, Justiça e Caridade.
Essa Trindade Pan-Americana é, pois, a única alternativa verdadeira à ordem globalista do Anticristo. Não uma utopia, mas uma possibilidade real, fundada na história, na fé e na razão.
Que o Espírito Santo — que guiou os navegadores, os profetas e os santos do Novo Mundo — nos conduza agora à unidade verdadeira que só pode vir da verdade.
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