Certa vez, ao assistir a um vídeo em língua polonesa, deparei-me com uma explicação etimológica que iluminou minha percepção das palavras e do sentido moral que elas carregam — ou deveriam carregar. O vídeo explicava que a palavra polonesa Bóg (Deus) tem sua raiz no persa bag, que significa "dar", "atribuir", "repartir". Daí surgem palavras como Bagdá — que significa “dado por Deus” — e Bagosz, relacionado ao ato de distribuir.
É curioso como, ao compreendermos as raízes das palavras, nos aproximamos de verdades esquecidas. Distribuir, nesse contexto, não é uma mera ação mecânica, mas sim um ato profundamente moral: trata-se de dar sistematicamente a cada um aquilo que lhe é devido — nos méritos de Cristo. A distribuição justa, portanto, exige conhecimento da verdade e um coração formado segundo a justiça divina.
Essa lógica também está presente na língua polonesa. Bogaty, o rico, é literalmente aquele que tem Deus. Enquanto isso, o pobre é o ubogi, aquele que tem pouco de Deus, mas que, justamente por isso, é objeto do especial cuidado d’Aquele que distribui com equidade — o próprio Senhor. Aqui, a riqueza se revela não como acúmulo material, mas como posse interior de Deus e, portanto, disposição para servir, socorrer e elevar os necessitados.
No entanto, quando observamos a língua portuguesa contemporânea, notamos uma perversão do vocabulário. A palavra dar, outrora símbolo do dom, da generosidade, da entrega voluntária e amorosa, foi reduzida a uma gíria sexual — e não apenas sexual, mas mercantilizada. O ato de “dar” passou a ser, em certos contextos populares, sinônimo de entrega corporal vulgar, dissociada da castidade e da integridade pessoal.
Pior ainda, há quem, para “aperfeiçoar” esse discurso distorcido, substitua o dar pelo distribuir, como se quisesse elevar, com sarcasmo, um ato de lascívia ao status de política pública do próprio corpo. É nesse ponto que se instala o mal-estar moral: quando uma mulher, por exemplo, diz que não vai dar, vai distribuir, com intuito lascivo, ela ridiculariza e profana o que as palavras dar e distribuir significavam em seu estado original — e o faz por zombaria da ordem sagrada.
Isso me causa repulsa — e não por moralismo estéril, mas por amor à dignidade do ser humano e à verdade escondida nas palavras. A linguagem é o espelho da alma de um povo. E quando as palavras são degradadas, a própria alma coletiva adoece. O que era dom se torna moeda. O que era graça se torna comércio. O que era altar se torna vitrine.
A mulher virtuosa, modelo perene da civilização cristã, é aquela que “dá” no sentido mais puro do termo: oferece seu coração a Deus, entrega seu corpo com castidade no matrimônio, distribui consolo, abrigo, sabedoria e fé. Ela dá o que tem de melhor — e se tem Deus, distribui graça.
É a Virgem Maria que nos ensina o verdadeiro sentido de “dar-se”: ela deu seu ventre ao Espírito Santo, distribuiu sua vida aos cuidados de Jesus e dos pobres, e segue dando ao mundo a presença suave de sua intercessão.
Ao restaurar o verdadeiro sentido das palavras, restauramos também a nossa dignidade. Pois a linguagem não é apenas um código: é um sacramento da inteligência, uma forma de tornar visível o invisível, de dar forma à verdade que habita o coração. Quem ama a Verdade, zela pelas palavras que a comunicam.
E assim se cumpre aquilo que está escrito: “de todas as palavras vãs que os homens disserem hão de dar conta no dia do juízo” (Mt 12,36). Que Deus nos conceda, pois, a graça de falar como quem ama, de distribuir como quem serve e de dar como quem se oferece nos méritos de Cristo.
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