Introdução
O Brasil, desde a época do Império, compartilha com seus vizinhos hispano-americanos uma extensa faixa de fronteira que deu origem a uma peculiar zona de transição linguística e cultural: o portunhol. Mais do que uma simples amálgama de português e espanhol, o portunhol representa a tentativa viva de uma comunhão cultural e espiritual entre os dois grandes ramos ibéricos na América. Este artigo propõe que essa mesocomunidade linguística, simbólica e espiritual é não apenas um resultado da convivência entre povos, mas um ato missionário: a santificação da fronteira através do estudo, do trabalho e da fidelidade a Cristo. Em contraposição ao modelo de fronteira norte-americano, fundado na separação e conquista, a América Latina católica oferece ao mundo um modelo de resistência comunitária contra o espírito revolucionário do globalismo.
1. O Portunhol como sinal de comunhão cultural e espiritual
Na fronteira entre o Brasil e a América Hispânica, o portunhol floresce como uma linguagem de tránsito, mas também de encontro. Mikhail Bakhtin, ao falar da polifonia cultural, reconhece que a linguagem é sempre um espaço de vozes em disputa e em diálogo. No caso da fronteira ibero-americana, o portunhol não é caricatura, mas expressão de convivência: uma nova língua para um novo povo.
O que emerge é uma mesocomunidade, termo que designa não uma nação formal, mas uma unidade cultural com identidade espiritual. Nesse espaço, a linguagem se torna instrumento de mediação e paz, como propõe Paul Ricoeur: o texto, assim como a fala, constrói mundos partilhados. Assim, a fronteira deixa de ser limite e se converte em ponte, um lugar de realização do espírito cristão, que une em vez de separar.
2. A santificação nas fronteiras: o soldado-cidadão de Cristo
O conceito de "soldado-cidadão" remete à missão de servir a Cristo em territórios longínquos, por meio do trabalho honesto e do estudo constante. Essa figura é herdeira da tradição católica das ordens militares e missionárias que povoaram a América não apenas com armas, mas com catecismos e sacrários.
Jean Daniélou e Bento XVI argumentam que a missão cristã é sempre cultural. Evangelizar é civilizar, não no sentido colonialista, mas no sentido de integrar a graça à vida concreta. Por isso, a fronteira é uma escola espiritual: quem a habita, se santifica nela. E à medida que se santifica, amplia a fronteira espiritual do Reino de Deus.
3. Estados Unidos: fronteira sem comunhão, herança calvinista
Nos Estados Unidos, a fronteira foi palco de conquista e segregação. Frederick Jackson Turner via nela o cenário da afirmação do individualismo. Isso se deve, em parte, ao calvinismo, que segundo Max Weber, enxerga o mundo em termos de eleitos e condenados. A fronteira protestante não acolhe, separa.
Não é coincidência que boa parte do atual território dos EUA tenha sido espanhol. Hoje, a crescente presença católica, vinda dos países hispano-americanos e do Brasil, representa uma inversão histórica: os antigos conquistadores estão sendo conquistados espiritualmente.
4. Reconquista espiritual: a volta da fé católica pela migração
A migração católica para os Estados Unidos tem crescido em ritmo acelerado. Igrejas em espanhol, festas marianas e procissões brasileiras têm mudado o cenário religioso americano. Philip Jenkins chama esse movimento de "a nova cristandade".
Na verdade, o que se presencia é uma autêutentica Reconquista espiritual. Assim como os espanhóis retomaram a Península Ibérica, agora são os católicos latino-americanos que, pela pobreza e pela fé, retomam silenciosamente o território norte-americano para Cristo. É um retorno do sagrado ao cotidiano, de baixo para cima, como o fermento na massa.
5. Respirar com dois pulmões: unidade entre tradição latina e oriental
São João Paulo II afirmou que a Igreja deve "respirar com dois pulmões": o oriental e o ocidental. Esse mesmo princípio pode ser aplicado à cultura ibero-americana: Portugal e Espanha representam duas formas complementares de ser católico, duas mãos que edificam a mesma casa.
O portunhol, nesse sentido, é o som dessa respiração conjunta. Assim como a Igreja não é plena sem o oriente, a América não será plena sem a integração harmoniosa entre suas duas tradições fundadoras. O portunhol, tão desprezado por uns, é talvez o primeiro sinal de uma nova catolicidade missionária.
Conclusão
A fronteira entre Brasil e seus vizinhos não é apenas geográfica: é espiritual. O portunhol, a convivência, a migração e a santificação no trabalho são os sinais de que ali se constrói algo novo. Contra o espírito do globalismo e da exclusão, a mesocomunidade ibérica oferece ao mundo um testemunho de unidade na diversidade, de missão e fidelidade, de fé e trabalho. E nessa nova Reconquista, Cristo é novamente o Rei, não pelo poder, mas pelo amor que conquista corações.
Bibliografia consultada:
Bakhtin, Mikhail. Estética da Criação Verbal.
Bento XVI. Introdução ao Cristianismo.
Corrêa de Oliveira, Plinio. Revolução e Contra-Revolução.
Daniélou, Jean. Os Primeiros Cristãos.
Freyre, Gilberto. Casa-Grande & Senzala.
Huntington, Samuel. Who Are We?
Jenkins, Philip. The Next Christendom.
John Paul II. Orientale Lumen.
Lubac, Henri de. Catolicismo.
Ricoeur, Paul. A Ideia de Texto.
Royce, Josiah. A Filosofia da Lealdade.
Turner, Frederick Jackson. The Frontier in American History.
Weber, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.
Weaver, Richard. As Ideias Têm Consequências.
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