Introdução
A história das Américas, assim como a história universal, está marcada por tensões entre diferentes forças culturais, espirituais e políticas. Porém, se olharmos através do lente da Trindade, com Cristo como o centro da História, poderemos perceber uma ordem oculta, mas profundamente presente, que vincula as diversas culturas do continente. Este artigo pretende analisar como a Filosofia e a Teologia da História podem oferecer uma chave para entender a configuração das Américas sob a ótica de três culturas fundadas em Cristo: a Cultura da Liberdade, a Cultura da Justiça e a Cultura da Misericórdia. Estas três culturas, que se entrelaçam e se contradizem, oferecem a oportunidade de uma verdadeira unidade, fundada na conformidade com o Todo que vem de Deus.
I. A Dualidade Histórica e Cultural das Américas
De acordo com a visão de Jânio Quadros, podemos distinguir duas grandes Américas: a América do Norte e a América Latina. Essa distinção não é apenas geográfica, mas, mais importante ainda, cultural, religiosa e ontológica.
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A América do Norte: Com sua base protestante e influenciada por um sistema econômico liberal, a América do Norte representa uma visão de mundo centrada na liberdade individual e na iniciativa privada. A religião, embora forte em suas origens, evoluiu para uma espiritualidade mais individualista e pragmática. Sua política é orientada para a autossuficiência do indivíduo, com o mercado e a democracia como os principais pilares.
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A América Latina: Em contraste, a América Latina, com sua herança católica e ibérica, carrega em suas raízes uma valorização da ordem, do bem comum e da solidariedade social. A estrutura política latino-americana reflete essa visão, com uma forte tradição de centralização, autoridade paternal e uma busca por justiça distributiva, ainda que frequentemente marcada por desigualdades e dificuldades.
Contudo, essa divisão não é total. No contexto das três Américas — a do Norte, a Central e a do Sul —, a verdadeira questão não é apenas uma luta entre liberdade e ordem, mas uma tentativa de reconciliação dessas tensões em torno de um centro comum: Cristo, a Pedra Angular.
II. A Trindade das Culturas Cristãs
A Filosofia da História, entendida como uma teologia do tempo que reconhece a ação divina nos eventos humanos, pode ajudar a iluminar a relação entre essas culturas e seus desdobramentos. Como um reflexo da Trindade divina, é possível identificar no continente americano uma união das três culturas que, embora distintas, devem se integrar para formar uma sociedade mais perfeita, que ampara e rejeita os aspectos que não se conformam à verdade de Cristo.
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A Cultura da Liberdade (América do Norte): Representa a liberdade em Cristo, não como um valor absoluto e autônomo, mas como uma liberdade ordenada à Verdade. A liberdade do cristão não é a liberdade de fazer o que se deseja, mas a liberdade de viver a verdade revelada e vivida em Cristo, ao qual todo poder e autoridade devem se submeter.
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A Cultura da Justiça (América Latina): Essa cultura carrega a força do direito natural e da justiça distributiva, reconhecendo que a ordem e a autoridade vêm de Deus. Na tradição ibérica, a justiça é entendida como o cumprimento do bem comum, onde a justiça social deve refletir a ordem divina. Em última instância, é a justiça que ordena as relações humanas à vontade divina, que se manifesta na Igreja, no Estado e nas estruturas da sociedade.
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A Cultura da Misericórdia (Brasil e América Portuguesa): Em uma analogia com a Trindade, a cultura da Misericórdia representa o Espírito Santo, que anima e vivifica as outras duas culturas, dando-lhes a graça de se reconciliar. Essa cultura é profundamente marcada pela devoção mariana, pela abertura ao sofrimento redentor e pela solidariedade, que busca uma profunda relação de amor ao próximo, refletindo a misericórdia de Deus para com os pecadores.
III. A Trindade como Fundamento da Política
A política na América deve ser a continuação dessa trindade das culturas. As três culturas não são antagonistas, mas, no fundo, representam diferentes dimensões da única realidade de Cristo, que é unidade na diversidade. Se cada uma dessas culturas se submeter ao critério divino — que se reflete na verdade cristã —, a política será uma expressão da ordem de Deus sobre a terra, no serviço ao bem comum e na construção de uma sociedade verdadeiramente cristã.
A integração dessas três culturas pode ser vista como uma realização da Trindade divina no contexto social, no qual a liberdade, a justiça e a misericórdia se harmonizam. A política, então, não será apenas uma luta pelo poder, mas uma verdadeira expressão do Reino de Cristo nas terras da América, onde Ele é o Rei, Juiz e Legislador.
IV. A Missão do Brasil e o Caminho para a Unidade Cristã
O Brasil, com sua herança portuguesa, possui uma vocação singular para ser a síntese dessas três culturas, sendo o lugar onde a Cultura da Misericórdia pode reconciliar as tensões entre a Liberdade do Norte e a Justiça do Sul. O Brasil, pela sua tradição católica e pela missão de levar o Reino de Cristo à América, está chamado a ser o ponto de convergência e reconciliação dessas culturas, cumprindo a missão profética do Brasil como um “novo Cristo” para o continente.
Esse processo de reconciliação será possível apenas se Cristo, a Pedra Rejeitada, se tornar a Pedra Angular da ordem social e política. Como na visão de Dom Afonso Henriques em Ourique, a vitória da verdade sobre a falsa liberdade e a justiça imposta pelo homem será a restauração do Reino de Cristo sobre as Américas.
Conclusão
A Filosofia e a Teologia da História podem ajudar-nos a entender o papel crucial da América Latina e do Brasil na realização de um novo Projeto Cristão para o Continente. Fundadas na Trindade divina, as três culturas das Américas podem se reconciliar em uma unidade, que não é apenas política, mas espiritual. A unidade das culturas da Liberdade, da Justiça e da Misericórdia deve ser a base de uma sociedade fundada em Cristo, por Cristo e para Cristo, onde as tensões históricas se resolvem na verdadeira liberdade, justiça e misericórdia.
Bibliografia Sugerida
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Henri de Lubac, A História e o Sentido da História.
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José Antonio Ferrer Benimeli, Maçonaria e Igreja: A História do Encontro e Conflito.
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Simón Bolívar, Cartas e Discursos.
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Juan Donoso Cortés, Ensaios sobre a História do Catolicismo, do Liberalismo e do Socialismo.
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Olavo de Carvalho, O Imbecil Coletivo.
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Dom Estêvão Bettencourt, A Igreja e a História.
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Santo Agostinho, A Cidade de Deus.
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Teologia da História de São Tomás de Aquino, disponível em textos acadêmicos sobre filosofia medieval.
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Henri de Lubac, O Mistério do Sobrenatural.
Esses textos formarão a base para uma compreensão profunda das tensões históricas das Américas à luz da fé cristã.
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