A história do varejo brasileiro no século XX não pode ser compreendida sem considerar a figura de Mamede Paes Mendonça. Mais do que um empresário bem-sucedido, Mamede foi a encarnação de um tipo específico de racionalidade econômica adaptada às condições concretas do Brasil: inflação crônica, instabilidade monetária, escassez de crédito confiável e um mercado consumidor em formação. Seu percurso — da feira livre no sertão sergipano ao maior hipermercado da América Latina — revela não apenas uma biografia extraordinária, mas também uma lógica profunda do capitalismo brasileiro.
1. Origem sertaneja e formação prática do comerciante
Mamede nasceu em Serra do Machado, interior de Sergipe, em um ambiente marcado pela pobreza, pela agricultura de subsistência e pela dureza do clima. Com escolaridade formal limitada ao terceiro ano do primário, sua formação foi essencialmente prática, adquirida na feira, na negociação direta, no cálculo mental, no trato cotidiano com clientes e fornecedores.
Desde cedo, Mamede demonstrou compreender algo decisivo: o valor não estava apenas na produção, mas na circulação da mercadoria. Enquanto muitos viam a roça como destino, ele enxergava a feira como oportunidade. Essa mentalidade comercial, típica dos grandes comerciantes tradicionais, seria o eixo de toda a sua trajetória.
2. Capitalização paciente e aversão ao risco financeiro
O primeiro traço estrutural do método Mamede foi a capitalização paciente. Durante anos, guardou dinheiro literalmente debaixo do colchão, evitando dívidas e juros. Essa prática não era arcaica; era racional diante de um sistema financeiro frágil e frequentemente predatório.
A compra da padaria, depois transformada em armazém e atacado, não foi fruto de alavancagem, mas de acúmulo real de capital. Ao longo de toda a sua vida empresarial, Mamede demonstrou preferência por:
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capital próprio;
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margens pequenas e volumes grandes;
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ativos reais (estoques, imóveis, terrenos bem localizados).
Esse padrão explica tanto o crescimento sólido do grupo quanto sua resiliência durante as crises inflacionárias das décadas de 1960, 1970 e 1980.
3. O supermercado como solução econômica, não como moda
A introdução do supermercado (autosserviço) por Mamede na Bahia, inspirada em uma viagem à Argentina, não foi mero mimetismo estrangeiro. Tratou-se de uma resposta racional às condições brasileiras.
Entre os anos 1950 e 1990, o supermercado cumpriu funções essenciais:
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transformava moeda frágil em mercadoria durável;
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acelerava o giro de estoque;
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diluía custos por escala;
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protegia o comerciante da corrosão inflacionária.
Mamede compreendeu isso intuitivamente. Seu foco nunca foi a verticalização (produção agrícola ou industrial), mas a eficiência na compra e na venda. Ele dominava o ponto crucial do varejo: quem compra bem, vende bem.
4. Expansão, domínio regional e ecossistema comercial
O Grupo Paes Mendonça não cresceu apenas em número de lojas. Criou um ecossistema comercial integrado, incluindo:
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centros de distribuição próprios;
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logística eficiente;
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restaurantes, lanchonetes e serviços;
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postos de combustível e apoio ao transporte;
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importação em grande escala (como no caso do whisky Ballantine’s).
Na Bahia, o grupo chegou a dominar cerca de 80% do mercado, o que demonstra não apenas poder econômico, mas compreensão profunda do território, do consumidor local e das rotas logísticas.
5. O auge: hipermercados e a conquista do Sudeste
A entrada em São Paulo marcou o auge simbólico do império. O Hiper Paz Mendonça Morumbi, inaugurado em 1987, tornou-se o maior da América Latina e um dos maiores do mundo. Em 1989, o grupo faturava mais de 1 bilhão de dólares, ocupando a quarta posição entre as redes supermercadistas brasileiras.
Esse movimento, porém, já continha o germe do declínio.
6. O erro estratégico e o colapso
O fator decisivo não foi a concorrência internacional nem o Plano Real, mas um erro clássico de expansão mal avaliada: a compra da rede carioca Disco, que possuía um passivo oculto elevado.
A operação:
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comprometeu o caixa;
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forçou anos de prejuízo;
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ocorreu sem auditoria adequada;
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baseou-se em confiança pessoal, não em rigor contábil.
Somou-se a isso a resistência de Mamede em:
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abrir capital;
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profissionalizar a governança;
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preparar sucessores.
A centralização extrema, que fora virtude na fase inicial, tornou-se fragilidade estrutural.
7. Declínio, fim da marca e legado
Com a saúde debilitada e o grupo financeiramente pressionado, Mamede deixou o mercado baiano em 1991. Após sua morte, em 1995, as lojas remanescentes foram vendidas ao Pão de Açúcar e ao Bom Preço. Em 1999, a marca Paes Mendonça foi oficialmente extinta.
O fim da empresa, contudo, não apaga seu legado. Mamede Paes Mendonça foi:
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pioneiro do supermercado no Nordeste;
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mestre da lógica do giro e da escala;
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exemplo de capitalização disciplinada;
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símbolo de um capitalismo enraizado na realidade brasileira.
Conclusão
A trajetória de Mamede Paes Mendonça ensina que o sucesso empresarial não nasce de teorias abstratas, mas da adequação concreta entre inteligência prática e contexto histórico. Seu erro final não invalida sua obra; ao contrário, a torna mais instrutiva.
Ele demonstrou que, no Brasil do século XX, o supermercado não foi apenas um negócio lucrativo, mas uma instituição econômica defensiva, capaz de organizar consumo, proteger capital e estruturar mercados regionais. Sua história permanece como lição — tanto do que fazer quanto do que evitar — para qualquer reflexão séria sobre o varejo e o capitalismo brasileiro.
Bibliografia comentada
EXAME. O melhor negócio é o ataque.
Reportagem de capa sobre o Grupo Paes Mendonça no auge de sua expansão. Documento-chave para compreender a percepção contemporânea do mercado acerca da agressividade comercial, da escala e da centralidade do giro de mercadorias no modelo de Mamede. Útil para captar o “espírito do tempo” do varejo brasileiro no final dos anos 1980.
ISTOÉ DINHEIRO. Entrevista com João Carlos Paes Mendonça (fev. 2010).
Fonte fundamental para entender o olhar retrospectivo de quem herdou e reinterpretou a tradição familiar. A famosa frase “ninguém entende de varejo no Brasil” funciona como síntese crítica da dificuldade estrutural do setor em um país instável, além de iluminar os limites do modelo centralizado.
PEREIRA, Luiz Carlos Bresser. A inflação brasileira.
Obra indispensável para compreender o pano de fundo macroeconômico que torna racional a estratégia de transformar moeda em mercadoria. Explica por que o supermercado, mais do que um negócio, foi um mecanismo de defesa patrimonial durante décadas de inflação crônica.
FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil.
Clássico absoluto para situar o surgimento de grandes comerciantes regionais dentro da estrutura histórica brasileira. Ajuda a entender por que o varejo — e não a indústria — foi, para muitos empreendedores nordestinos, o caminho mais viável de acumulação de capital.
DEAN, Warren. A industrialização de São Paulo (1880–1945).
Embora focado em São Paulo, o livro é útil para contraste analítico. Mostra por que modelos empresariais baseados em indústria, crédito e mercado de capitais eram muito menos acessíveis em outras regiões, reforçando a originalidade e adequação do caminho seguido por Mamede.
CHANDLER JR., Alfred D. Strategy and Structure.
Referência clássica da teoria empresarial. Serve como contraponto conceitual: a obra explica a importância da profissionalização e da separação entre propriedade e gestão — exatamente os pontos que se mostraram frágeis no declínio do Grupo Paes Mendonça.
PENROSE, Edith. The Theory of the Growth of the Firm.
Útil para interpretar os limites internos do crescimento empresarial. A teoria da “capacidade gerencial” ajuda a explicar por que a expansão acelerada para o Sudeste ultrapassou a estrutura organizacional disponível.
VAROTTO, Luís Fernando. História do varejo no Brasil.
Obra acadêmica que contextualiza o surgimento e a consolidação do autosserviço no país. Essencial para compreender Mamede não como exceção isolada, mas como protagonista de uma transformação estrutural do comércio brasileiro.
MARTINS, José de Souza. Capitalismo e tradicionalismo.
Ajuda a compreender o “comerciante à moda antiga” como figura racional, e não atrasada. Fundamenta sociologicamente práticas como a caderneta, a confiança pessoal e o controle direto do negócio, centrais na trajetória de Mamede.
Documentário / Canal Curioso Mercado. Episódio sobre Mamede Paes Mendonça.
Fonte narrativa rica, baseada em pesquisa histórica e depoimentos. Embora não acadêmica, é valiosa como reconstrução cronológica e como acesso a episódios pouco documentados em fontes formais.
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