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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Determinante sem ser determinista: geografia, história e o limite das narrativas historicistas

Resumo

Este artigo examina a relação entre geografia, historicismo e poder estatal a partir de uma análise conceitual inspirada na antropologia estrutural, na economia política clássica e na filosofia da história. Argumenta-se que fatores geográficos não determinam destinos históricos, mas podem tornar-se decisivos quando coincidem com circunstâncias institucionais e culturais específicas. Tal distinção permite superar simultaneamente o determinismo geográfico e o historicismo teleológico.

1. Introdução

Explicações históricas frequentemente oscilam entre dois extremos: o fatalismo estrutural e o voluntarismo político. De um lado, teorias que atribuem à geografia o destino inevitável das civilizações; de outro, narrativas que atribuem ao Estado ou à ação humana consciente todo o sucesso histórico. Ambas incorrem em reducionismo causal.

A tese defendida aqui sustenta que fatores geográficos são determinantes condicionais, não determinantes absolutos. Essa distinção semântica tem consequências metodológicas profundas: ela altera a forma como interpretamos o sucesso econômico, a ascensão civilizacional e a legitimidade das instituições políticas.

2. O problema epistemológico do historicismo

A crítica estrutural ao historicismo encontra formulação clássica em Claude Lévi-Strauss, que observou que narrativas históricas tendem a reorganizar retrospectivamente os fatos para criar a impressão de necessidade causal. Em outras palavras, a história é frequentemente contada como se o resultado final já estivesse implícito desde o início.

Esse fenômeno decorre de três operações cognitivas:

  1. seleção retrospectiva de eventos relevantes

  2. exclusão de contingências descartadas

  3. construção narrativa de causalidade linear

Assim, a história parece inevitável apenas depois de ter acontecido.

3. O princípio do visível e do invisível

A advertência metodológica de Frédéric Bastiat — distinguir entre o que se vê e o que não se vê — oferece um antídoto contra explicações superficiais. Aplicado à historiografia, esse princípio exige considerar fatores estruturais invisíveis, como:

  • localização geográfica

  • clima

  • rotas comerciais

  • acesso a recursos naturais

  • posição estratégica

Narrativas que ignoram essas variáveis tendem a superestimar a vontade política ou a genialidade nacional.

4. Determinismo geográfico: versão forte e versão fraca

Convém distinguir duas formas de determinismo geográfico:

Determinismo forte:
A geografia fixa inevitavelmente o destino histórico de um povo.

Determinismo fraco (condicional):
A geografia amplia ou restringe probabilidades históricas.

A primeira versão é empiricamente falsa; a segunda é analiticamente útil. A geografia não cria civilizações por si só, mas pode fornecer condições que, quando combinadas com instituições eficazes, tornam certos resultados mais prováveis.

5. Conjuntura histórica e causalidade composta

Processos históricos relevantes quase sempre resultam de convergência simultânea de variáveis independentes. Um território prospera quando múltiplos fatores se alinham:

  • vantagem geográfica

  • estabilidade institucional

  • capital humano

  • redes comerciais

  • tecnologia disponível

Esse alinhamento é raro e temporário. O sucesso histórico, portanto, não é permanente nem garantido; é conjuntural.

6. A sacralização do Estado como erro interpretativo

Quando se esquece a natureza conjuntural do sucesso histórico, surge uma ilusão recorrente: a de que o Estado é a causa suprema da prosperidade. Esse erro produz uma inversão lógica:

o efeito histórico é tratado como causa metafísica.

Nesse quadro, o Estado passa a ser visto como fonte exclusiva de ordem, progresso e civilização, assumindo função quase religiosa. A consequência intelectual é o estatismo absoluto — a crença de que nada existe fora do Estado ou contra ele.

Contudo, se o êxito histórico dependeu de circunstâncias externas favoráveis, então o Estado não é criador dessas condições; ele apenas as administrou enquanto existiram.

7. Determinante versus determinista

A distinção central deste ensaio pode ser formulada logicamente:

  • Determinista → implica necessidade inevitável

  • Determinante → implica influência decisiva sob certas condições

Essa diferença corresponde, em termos filosóficos, à distinção entre causalidade necessária e causalidade contingente.

Geografia é determinante quando coincide com instituições adequadas. Sem essas instituições, ela é apenas potencial não realizado.

8. Implicações teóricas

A adoção dessa abordagem produz três consequências analíticas:

  1. rejeição de explicações monocausais da história

  2. valorização da contingência histórica

  3. limitação conceitual do poder estatal

História, portanto, não é destino; é interseção de probabilidades.

Conclusão

O sucesso econômico e civilizacional de um povo não decorre exclusivamente nem de sua geografia nem de sua vontade política, mas da coincidência rara entre circunstâncias naturais e estruturas institucionais. A geografia pode abrir possibilidades; apenas a ação humana pode realizá-las — e mesmo assim de modo provisório.

Assim, afirmar que a geografia é determinante sem ser determinista não é um jogo de palavras, mas uma posição teórica precisa: trata-se de reconhecer a força real das condições materiais sem negar a liberdade histórica.

Bibliografia Comentada 

1. Estruturalismo e crítica ao historicismo

Claude Lévi-StraussRaça e História (1952)
Obra central para compreender a crítica à ideia de progresso linear e inevitável. Lévi-Strauss demonstra que a narrativa histórica frequentemente projeta sentido retrospectivo sobre eventos contingentes, revelando que a aparência de necessidade histórica é produto de reconstrução intelectual posterior.

O Pensamento Selvagem (1962)
Amplia a crítica ao evolucionismo cultural e à hierarquização das civilizações, mostrando que diferentes sociedades operam segundo lógicas estruturais próprias. Útil para desmontar explicações simplistas baseadas em superioridade geográfica ou racial.

2. Economia política e análise do invisível

Frédéric BastiatO que se vê e o que não se vê (1850)
Texto metodológico fundamental. Bastiat demonstra que políticas e eventos só podem ser compreendidos corretamente quando se analisam também seus efeitos indiretos e invisíveis. Aplicado à historiografia, isso implica examinar fatores estruturais negligenciados pelas narrativas tradicionais.

A Lei (1850)
Complementa o raciocínio ao delimitar o papel legítimo do Estado. Mostra como a expansão indevida da função estatal frequentemente se apoia em interpretações equivocadas de causalidade social.

3. Geografia e história

Jared Diamond — Armas, Germes e Aço (1997)
Propõe explicação macrocivilizacional baseada em fatores ambientais e geográficos. Embora às vezes interpretado como determinista, o próprio autor ressalta que geografia cria condições iniciais, não destinos inevitáveis. Importante como referência de modelo multicausal.

Fernand Braudel — O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrânico na Época de Filipe II (1949)
Clássico da escola dos Annales. Braudel distingue três níveis temporais da história (evento, conjuntura e longa duração), mostrando que estruturas geográficas operam lentamente, condicionando mas não determinando acontecimentos políticos.

4. Instituições e contingência histórica

Daron Acemoglu & James Robinson — Por que as nações fracassam (2012)
Defendem que instituições políticas e econômicas são decisivas para o desenvolvimento. O livro serve como contraponto a teorias geográficas absolutas, demonstrando que regiões com condições naturais semelhantes podem divergir radicalmente conforme suas estruturas institucionais.

5. Filosofia da história e causalidade

Karl Popper — A Miséria do Historicismo (1957)
Crítica clássica à ideia de leis históricas inevitáveis. Popper argumenta que previsões históricas deterministas são logicamente inválidas porque o conhecimento humano — fator decisivo na história — é imprevisível por natureza.

Isaiah Berlin — Historical Inevitability (1954)
Ensaio fundamental sobre liberdade e causalidade histórica. Berlin distingue explicação causal de fatalismo, sustentando que reconhecer causas não implica negar liberdade.

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