I. A cruz, em São João da Cruz
A chamada “ciência da Cruz”, em São João da Cruz, não é metáfora psicológica. É:
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Caminho de purificação.
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Noite ativa e passiva.
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Despojamento radical do apego.
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União transformante com Deus.
A Cruz é o ponto onde:
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A vontade própria é atravessada.
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A contingência é aceita.
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O sofrimento é transfigurado.
Ela não é apenas peso; é instrumento de configuração ao Absoluto.
II. Ortega y Gasset: estrutura dramática da vida
José Ortega y Gasset afirma:
Eu sou eu e minha circunstância.
A circunstância é o campo inevitável no qual a vida deve decidir-se. Ela não é opcional. É estrutural.
Aqui surge o primeiro paralelo:
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Em Ortega y Gasset, a vida é dramática.
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Em São João da Cruz, a vida espiritual é purificadora.
Ambos partem da inevitabilidade da condição.
III. Dimensões horizontal e vertical da cruz
Esta formulação é particularmente fértil. Nela vemos que a cruz tem duas dimensões:
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Horizontal → projeto, liberdade, fronteira como possibilidade.
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Vertical → contingência, limite, fronteira como dado.
A Cruz é a intersecção de ambas.
Na mística carmelita:
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O eixo vertical representa a iniciativa divina.
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O eixo horizontal representa a resposta humana.
O encontro produz purificação.
IV. Circunstância como matéria de santificação
Em São João da Cruz, não se escolhe a noite passiva, pois ela vem. Mas é perfeitamente possível escolher como responder a esta noite até o sol raiar novamente, já que Cristo é a Luz que não se acaba.
Disso decorre a seguinte lógica:
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A circunstância não é criada por nós.
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Mas pode ser integrada à biografia.
A diferença crucial é que, para o místico:
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O destino último não é autorrealização.
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É a união com Deus.
V. Szondi e a eleição do destino
Leopold Szondi fala da eleição do destino: transformar compulsão em escolha.
Na mística:
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A purificação transforma inclinações desordenadas.
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A graça eleva a natureza.
Há uma analogia estrutural:
Destino psicológico → integração.
Destino espiritual → purificação e união.
Mas não são idênticos.
VI. Mário Ferreira e a integração hierárquica
Mário Ferreira dos Santos enfatiza a integração dialética.
Na ciência da Cruz, a integração é verticalizada:
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A natureza subordina a graça.
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A vontade subordina o Amor.
A circunstância torna-se instrumento da conformidade com o Todo que vem de Deus.
VII. Ponto Decisivo
Aqui está a distinção fundamental:
| Plano | Cruz |
|---|---|
| Existencial (Ortega) | Estrutura dramática da vida |
| Psicológico (Szondi) | Estrutura do destino pulsional |
| Filosófico (Mário) | Estrutura dialética da realidade |
| Místico (São João) | Caminho de união transformante |
O paralelo é legítimo como analogia estrutural. Mas a Cruz, em São João da Cruz, não é apenas categoria existencial — é participação no mistério pascal.
VIII. Síntese
A intuição pode ser formulada assim:
A circunstância é a matéria-prima.
A liberdade é a forma ativa.
A Cruz é o ponto de integração.
O destino é o resultado da resposta.
Em Ortega y Gasset, isso produz biografia autêntica.
Em São João da Cruz, produz santidade.
A convergência é estrutural; a finalidade é distinta.
Bibliografia
Fontes Primárias
ORTEGA Y GASSET, José.
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Meditaciones del Quijote. Madrid: Revista de Occidente, 1914.
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El tema de nuestro tiempo. Madrid: Revista de Occidente, 1923.
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Historia como sistema. Madrid: Revista de Occidente, 1935.
SZONDI, Leopold.
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Schicksalsanalyse (Análise do Destino). Zürich: Rascher Verlag, 1944.
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Ich-Analyse. Bern: Hans Huber, 1956.
MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS.
-
Filosofia Concreta. São Paulo: Logos.
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Tratado de Simbólica. São Paulo: Logos.
-
Convite à Filosofia e à História da Filosofia.
SÃO JOÃO DA CRUZ.
-
Subida do Monte Carmelo.
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Noite Escura.
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Cântico Espiritual.
-
Chama Viva de Amor.
(Edições recomendadas: Biblioteca de Autores Cristianos – BAC; Edições Carmelo.)
Estudos Secundários Relevantes
-
MARÍAS, Julián. Ortega: Circunstancia y vocación.
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URRUTIA, Jorge. La razón vital en Ortega y Gasset.
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BINSWANGER, Ludwig. Estudos fenomenológicos dialogando com Szondi.
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STEIN, Edith. A Ciência da Cruz (interpretação filosófico-mística da teologia da Cruz).
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GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. As Três Idades da Vida Interior.
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