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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

A circunstância como cruz: do existencial ao místico

 I. A cruz, em São João da Cruz

A chamada “ciência da Cruz”, em São João da Cruz, não é metáfora psicológica. É:

  • Caminho de purificação.

  • Noite ativa e passiva.

  • Despojamento radical do apego.

  • União transformante com Deus.

A Cruz é o ponto onde:

  • A vontade própria é atravessada.

  • A contingência é aceita.

  • O sofrimento é transfigurado.

Ela não é apenas peso; é instrumento de configuração ao Absoluto.

II. Ortega y Gasset: estrutura dramática da vida

José Ortega y Gasset afirma:

Eu sou eu e minha circunstância.

A circunstância é o campo inevitável no qual a vida deve decidir-se. Ela não é opcional. É estrutural.

Aqui surge o primeiro paralelo:

  • Em Ortega y Gasset, a vida é dramática.

  • Em São João da Cruz, a vida espiritual é purificadora.

Ambos partem da inevitabilidade da condição.

III. Dimensões horizontal e vertical da cruz

Esta formulação é particularmente fértil. Nela vemos que a cruz tem duas dimensões:

  • Horizontal → projeto, liberdade, fronteira como possibilidade.

  • Vertical → contingência, limite, fronteira como dado.

A Cruz é a intersecção de ambas.

Na mística carmelita:

  • O eixo vertical representa a iniciativa divina.

  • O eixo horizontal representa a resposta humana.

O encontro produz purificação.

IV. Circunstância como matéria de santificação

Em São João da Cruz, não se escolhe a noite passiva, pois ela vem. Mas é perfeitamente possível escolher como responder a esta noite até o sol raiar novamente, já que Cristo é a Luz que não se acaba.

Disso decorre a seguinte lógica:

  • A circunstância não é criada por nós.

  • Mas pode ser integrada à biografia.

A diferença crucial é que, para o místico:

  • O destino último não é autorrealização.

  • É a união com Deus.

V. Szondi e a eleição do destino

Leopold Szondi fala da eleição do destino: transformar compulsão em escolha.

Na mística:

  • A purificação transforma inclinações desordenadas.

  • A graça eleva a natureza.

Há uma analogia estrutural:

Destino psicológico → integração.
Destino espiritual → purificação e união.

Mas não são idênticos.

VI. Mário Ferreira e a integração hierárquica

Mário Ferreira dos Santos enfatiza a integração dialética.

Na ciência da Cruz, a integração é verticalizada:

  • A natureza subordina a graça.

  • A vontade subordina o Amor.

A circunstância torna-se instrumento da conformidade com o Todo que vem de Deus.

VII. Ponto Decisivo

Aqui está a distinção fundamental:

PlanoCruz
Existencial (Ortega)Estrutura dramática da vida
Psicológico (Szondi)Estrutura do destino pulsional
Filosófico (Mário)Estrutura dialética da realidade
Místico (São João)Caminho de união transformante

O paralelo é legítimo como analogia estrutural. Mas a Cruz, em São João da Cruz, não é apenas categoria existencial — é participação no mistério pascal. 

VIII. Síntese

A intuição pode ser formulada assim:

A circunstância é a matéria-prima.
A liberdade é a forma ativa.
A Cruz é o ponto de integração.
O destino é o resultado da resposta.

Em Ortega y Gasset, isso produz biografia autêntica.
Em São João da Cruz, produz santidade.

A convergência é estrutural; a finalidade é distinta.

Bibliografia

Fontes Primárias

ORTEGA Y GASSET, José.

  • Meditaciones del Quijote. Madrid: Revista de Occidente, 1914.

  • El tema de nuestro tiempo. Madrid: Revista de Occidente, 1923.

  • Historia como sistema. Madrid: Revista de Occidente, 1935.

SZONDI, Leopold.

  • Schicksalsanalyse (Análise do Destino). Zürich: Rascher Verlag, 1944.

  • Ich-Analyse. Bern: Hans Huber, 1956.

MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS.

  • Filosofia Concreta. São Paulo: Logos.

  • Tratado de Simbólica. São Paulo: Logos.

  • Convite à Filosofia e à História da Filosofia.

SÃO JOÃO DA CRUZ.

  • Subida do Monte Carmelo.

  • Noite Escura.

  • Cântico Espiritual.

  • Chama Viva de Amor.

(Edições recomendadas: Biblioteca de Autores Cristianos – BAC; Edições Carmelo.)

Estudos Secundários Relevantes

  • MARÍAS, Julián. Ortega: Circunstancia y vocación.

  • URRUTIA, Jorge. La razón vital en Ortega y Gasset.

  • BINSWANGER, Ludwig. Estudos fenomenológicos dialogando com Szondi.

  • STEIN, Edith. A Ciência da Cruz (interpretação filosófico-mística da teologia da Cruz).

  • GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. As Três Idades da Vida Interior.

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