Introdução
A distinção entre o RPG tradicional e o simulador econômico germânico não é meramente técnica ou mercadológica. Trata-se de uma divergência ontológica: duas concepções distintas sobre realidade, agência e história.
Enquanto o RPG anglo-americano estrutura-se a partir da primazia da ação individual e da narrativa dramática, o simulador econômico germânico nasce da primazia da realidade histórica como sistema. A mecânica, nesse caso, não cria o mundo — ela emerge dele.
I. O RPG tradicional: dramaturgia da agência individual
O modelo paradigmático é Dungeons & Dragons.
Seu núcleo estrutural é:
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Progressão por níveis
-
Conflito episódico
-
Superação heroica
-
Narrativa centrada no personagem
O mundo funciona como cenário adaptável. Mesmo quando há ambientação histórica, ela é contingente, subordinada à experiência dramática do jogador.
A ontologia implícita é voluntarista:
A agência cria o mundo jogável.
O progresso é qualitativo e pessoal. A história é palco.
II. O simulador econômico germânico: primazia da estrutura
A tradição alemã, austríaca e sueca desenvolve outro paradigma. Jogos como:
The Patrician
ou ainda a tradição sueca consolidada por:
Paradox Interactive
operam sob princípios distintos:
-
Escassez real
-
Geografia vinculante
-
Cadeias produtivas interdependentes
-
Instituições como restrições estruturais
Aqui o personagem não antecede o sistema. Ele é um nó dentro de uma rede histórica.
A mecânica decorre da realidade modelada. O jogador aprende limites antes de exercer poder.
III. História como sistema
Nos simuladores germânicos, a história não é narrativa episódica. Ela é:
-
Acúmulo de capital
-
Formação institucional
-
Integração de mercados
-
Estrutura de incentivos
Isso se torna explícito em Victoria 3, onde crescimento depende de produtividade marginal, composição de mercado e estrutura social — não de batalhas heroicas.
A história passa a ser vista como sistema dinâmico interdependente. O poder não é conquista dramática; é coordenação estrutural.
IV. Engenheiro vs. Pioneiro
O RPG tradicional celebra o pioneiro — aquele que rompe a fronteira.
O simulador germânico celebra o engenheiro — aquele que integra cadeias produtivas.
No primeiro caso:
-
A fronteira é espaço narrativo.
No segundo:
-
A fronteira é gargalo logístico.
Essa diferença revela concepções distintas de progresso:
| RPG Tradicional | Simulador Germânico |
|---|---|
| Heroísmo | Engenharia |
| Narrativa | Estrutura |
| Personagem | Sistema |
| Conquista | Integração |
| Níveis | Produtividade |
V. Implicações Filosóficas
A divergência reflete três pressupostos filosóficos distintos:
1. Ontologia
-
RPG: o indivíduo precede o mundo.
-
Simulador: o mundo precede o indivíduo.
2. Epistemologia
-
RPG: aprende-se agindo.
-
Simulador: aprende-se compreendendo estruturas.
3. Teoria da História
-
RPG: história como drama.
-
Simulador: história como sistema acumulativo.
VI. O Caso de Patrician como “RPG Estrutural”
The Patrician é um exemplo particularmente interessante porque mantém elementos de progressão pessoal (reputação, cargos públicos), mas inteiramente condicionados pela estrutura da Liga Hanseática.
O “level up” é reputação mercantil.
O “loot” é margem de arbitragem.
O “chefão final” é a escassez sistêmica.
O jogador não supera o mundo — ele aprende a operar dentro dele.
Conclusão
A divergência evolutiva entre RPG tradicional e simulador econômico germânico não é meramente estética.
Ela decorre de concepções distintas sobre:
-
liberdade
-
poder
-
história
-
realidade
O RPG dramatiza a liberdade individual. O simulador modela a realidade estrutural.
São duas antropologias jogáveis.
Uma constrói heróis. A outra constrói sistemas. Talvez o futuro dos jogos estratégicos esteja justamente na síntese consciente dessas duas tradições — onde agência e estrutura deixem de competir e passem a dialogar.
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