Introdução
Vivemos numa época em que o ato de escrever um livro foi reduzido a um gesto de vontade individual. Basta “ter algo a dizer”, dizem, e a publicação se justificaria por si mesma. Essa concepção, porém, é estranha à tradição clássica e profundamente nociva à ordem intelectual. Escrever um livro não é um ato puramente expressivo, mas um ato público, e todo ato público exige legitimidade. Tal legitimidade não nasce apenas do autor, mas da relação entre quem fala e quem está disposto a ouvir.
Platão já advertia: a ordem não se sustenta pela simples emissão da palavra, mas pela disposição da alma que a recebe. Onde não há ouvintes aptos, não há discurso legítimo — apenas ruído. Este artigo sustenta que não se pode escrever legitimamente um livro sem uma demanda conhecida, pois o livro é um bem cultural que só existe plenamente quando encontra seu destinatário próprio.
1. A palavra como ato público
Na tradição clássica, a palavra nunca é neutra. Falar ou escrever implica assumir responsabilidade sobre os efeitos do discurso na pólis. É por isso que Platão distingue com tanto rigor o logos verdadeiro da retórica sofística: ambos usam palavras, mas apenas o primeiro se orienta pela verdade e pela ordem da alma.
O livro, enquanto forma elevada da palavra escrita, não é um desabafo privado. Ele se inscreve no espaço público do espírito. Publicar um livro é afirmar implicitamente: isto merece ser ouvido. Tal afirmação exige mais do que convicção subjetiva; exige reconhecimento objetivo de legitimidade.
2. A legitimidade depende do ouvinte
Um ponto central, muitas vezes ignorado, é que a legitimidade do discurso não é unilateral. Platão deixa claro que a verdade só governa onde há almas dispostas a ser governadas por ela. Não basta que o autor esteja certo; é necessário que haja leitores capazes de reconhecer o que é dito.
Isso não significa submissão ao gosto das massas, mas reconhecimento de um princípio elementar: não existe palavra pública sem comunidade de escuta. Onde ninguém pode ouvir, não há ensino; onde ninguém pode compreender, não há transmissão; onde ninguém pode acolher, não há ordem.
Assim, antes de escrever um livro, a pergunta correta não é apenas “o que tenho a dizer?”, mas “quem está apto a ouvir isto?”.
3. Livro e demanda: a dimensão econômica não vulgar
Falar em demanda, nesse contexto, não é rebaixar o livro à lógica mercantil moderna. Trata-se de algo mais profundo e mais antigo. Aristóteles já ensinava que todo bem existe em função de sua finalidade. Um bem sem finalidade realizável é um contrassenso.
O livro é um bem cultural e intelectual. Sua demanda não é apenas monetária, mas:
-
intelectual, pois requer leitores com formação suficiente;
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moral, pois exige disposição para a verdade;
-
cultural, pois depende de um ambiente simbólico que o acolha.
Produzir um livro sem conhecer essa demanda é produzir algo sem função objetiva, ainda que tecnicamente bem escrito. Nesse caso, não se cria uma obra, mas um artefato inerte.
4. A ilusão moderna da escrita sem destinatário
A modernidade tardia difundiu a ideia de que todo indivíduo tem “direito à própria voz”, independentemente de ordem, mérito ou audiência. Isso gerou uma inflação de discursos e uma desvalorização da palavra escrita. Escreve-se muito, lê-se pouco, e compreende-se menos ainda.
Os grandes autores da tradição nunca escreveram “para todos”. Escreveram para poucos — mas para poucos reais, não imaginários. Tinham plena consciência do nível, da linguagem e das exigências do leitor. Sabiam que a palavra só frutifica onde há solo preparado.
A escrita sem destinatário definido é, no fundo, uma forma de narcisismo intelectual: fala-se não para comunicar, mas para existir simbolicamente.
5. Ordem, autoridade e responsabilidade do autor
Assumir a escrita de um livro é assumir autoridade. E toda autoridade legítima supõe ordem: na alma do autor e na comunidade dos leitores. Quando essa relação não existe, o livro deixa de ser instrumento de formação e passa a ser apenas mais um elemento de desordem cultural.
Por isso, escrever menos, escrever melhor e escrever para quem pode ouvir é um ato de responsabilidade — não de censura, mas de prudência. A tradição sempre soube disso. A crise contemporânea da palavra escrita nasce, em grande parte, do esquecimento desse princípio.
Conclusão
Não basta querer escrever um livro, nem basta ter algo a dizer. É preciso verificar se o que se tem a dizer possui legitimidade de ser ouvido. Essa legitimidade não nasce do autor isolado, mas da relação entre palavra, verdade e audiência. Onde não há ouvintes dispostos e capazes, não há ordem; onde não há ordem, não há discurso público legítimo.
Produzir um livro sem demanda conhecida — intelectual, moral e cultural — é produzir um bem sem função. Não é criação, é desperdício simbólico. A verdadeira escrita nasce do encontro entre a palavra justa e o ouvido preparado. Tudo o mais é apenas ruído impresso.
Bibliografia comentada
PLATÃO
PLATÃO. Górgias.
Diálogo fundamental para compreender a distinção entre logos verdadeiro e retórica sofística. Platão demonstra que falar bem não é o mesmo que falar com verdade, e que a palavra só é legítima quando ordena a alma do ouvinte. Essencial para entender por que o discurso depende da disposição de quem escuta.
PLATÃO. República.
Obra central para a tese de que a ordem política e intelectual nasce da correspondência entre razão, alma e comunidade. A noção de que nem todos estão aptos a ouvir todas as verdades fundamenta a ideia de que a palavra pública exige critério, hierarquia e responsabilidade.
PLATÃO. Fedro.
Texto decisivo sobre a escrita. Platão critica a palavra escrita quando separada do diálogo vivo e da formação do ouvinte. Aqui se encontra uma reflexão direta sobre os limites da escrita sem destinatário real — ponto crucial para a crítica à produção indiscriminada de livros.
ARISTÓTELES
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco.
Fundamental para compreender a noção de finalidade (telos). Todo bem existe em função de um fim; um bem sem finalidade realizável é defeituoso. Aplica-se diretamente à ideia de livro como bem cultural que exige destinatário adequado.
ARISTÓTELES. Política.
A palavra (logos) é apresentada como fundamento da vida em comunidade. Aristóteles mostra que o discurso só cumpre sua função quando existe uma comunidade capaz de partilhar sentido, reforçando a ideia de que não há palavra pública legítima sem audiência ordenada.
TRADIÇÃO CRISTÃ E CLÁSSICA
SANTO AGOSTINHO. De Doctrina Christiana.
Obra essencial sobre o uso correto da palavra no ensino da verdade. Agostinho insiste que ensinar exige conhecer o ouvinte, seu nível, suas disposições e seus limites. Antecipação cristã da tese de que não se fala legitimamente a quem não pode ouvir.
SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica (questões sobre ensino e prudência).
Tomás trata da prudência como virtude que regula o agir conforme a realidade. Aplicável diretamente ao ato de escrever: publicar algo é um ato prudencial, que exige juízo sobre circunstâncias, destinatários e efeitos.
FILOSOFIA POLÍTICA E ORDEM CULTURAL
ERIC VOEGELIN. Ordem e História.
Voegelin analisa a ruptura moderna entre verdade, ordem e linguagem. Sua crítica à inflação simbólica e à perda de referência transcendente ajuda a compreender por que a palavra escrita perdeu autoridade e por que tantos livros são produzidos sem função real.
ERIC VOEGELIN. A Nova Ciência da Política.
Essencial para entender a degradação da linguagem política e intelectual quando a palavra se separa da realidade. Relevante para a crítica à escrita como mero exercício de expressão subjetiva.
ECONOMIA POLÍTICA CLÁSSICA E CULTURA
JEAN-BAPTISTE SAY. Tratado de Economia Política.
Clássico para a compreensão da noção de demanda real. Embora econômico, o princípio de que não se produz legitimamente sem demanda aplica-se analogicamente aos bens culturais.
WILHELM RÖPKE. A Crise Social do Nosso Tempo.
Röpke trata da dissolução dos fundamentos morais e culturais que sustentam a produção legítima de bens. Sua análise é valiosa para entender o colapso do critério na produção cultural e intelectual moderna.
CRÍTICA À MODERNIDADE E À CULTURA DE MASSAS
ROMANO GUARDINI. O Fim dos Tempos Modernos.
Reflexão profunda sobre a perda de forma, medida e autoridade na cultura moderna. Guardini ajuda a compreender por que a escrita se tornou inflacionária e desprovida de responsabilidade.
JOSÉ ORTEGA Y GASSET. A Rebelião das Massas.
Obra-chave para entender o desaparecimento do critério de excelência e o triunfo da opinião sem fundamento. Essencial para a crítica à ideia moderna de que toda voz merece automaticamente espaço público.
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