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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Dezordem: ortografia, linguagem e a negação da lei

Introdução

A linguagem nunca é neutra. Ela carrega, mesmo quando não percebemos, camadas de sentido que vão da fonética ao símbolo, da pedagogia à metafísica. Certas grafias abandonadas ou consideradas “erradas” à luz da normatividade moderna revelam, quando revisitadas com atenção, uma capacidade interpretativa que a ortografia padronizada tende a apagar.

É o caso da forma “dezordem”, registrada de modo ocasional no português antigo e imperial. Longe de ser apenas uma variação gráfica arcaica, essa escrita permite uma leitura que articula pronúncia, ensino da língua e teologia moral, revelando algo essencial sobre o próprio conceito de desordem.

1. A verdade fonética da grafia

No português, o s intervocálico realiza-se foneticamente como [z].
Não dizemos des-ór-dem, mas dez-ór-dem.

A ortografia moderna optou por uma escrita etimológica e convencional, sacrificando a transparência fonética. Já a grafia dezordem faz o movimento inverso: submete a escrita à fala, aproximando grafema e som.

Do ponto de vista pedagógico — especialmente para estrangeiros — isso não é irrelevante. Línguas como o espanhol, o polonês ou o italiano tendem a preservar maior coerência entre escrita e pronúncia. Para esses falantes, dezordem não é erro: é clareza.

Nesse sentido, a grafia antiga não é ignorância, mas uma forma distinta de inteligência linguística.

2. A flutuação ortográfica no português pré-normativo

Antes das reformas ortográficas do século XX, o português conhecia ampla variação gráfica. O uso de s e z não era rigidamente fixado, assim como ph/f, y/i, x/ch.

É fundamental ser preciso: dezordem não foi a forma normativa dominante, mas foi uma forma possível, compatível com o estado da língua antes da padronização moderna.

Isso nos obriga a abandonar uma visão anacrônica da ortografia, como se o passado estivesse submetido aos critérios do presente. A grafia flutuante não era sinal de caos, mas de liberdade formal, anterior à centralização normativa do Estado moderno.

3. Dez ordens contra a Ordem

É aqui que a reflexão ganha densidade propriamente filosófica e teológica.

A palavra desordem, entendida apenas como ausência de ordem, empobrece o conceito. A leitura simbólica de “dezordem” como “dez ordens” abre uma compreensão mais profunda: a desordem não nasce do nada, mas do excesso ilegítimo de ordens.

O contraste com o Decálogo é inevitável:

  • O Decálogo são dez palavras, mas uma única Lei.

  • A dezordem, lida simbolicamente, são dez ordens autônomas, concorrentes, contraditórias.

Não se trata de falta de mandamentos, mas de multiplicação arbitrária deles.

Onde a Lei divina é una, inteligível e ordenadora, a “dezordem” representa:

  • fragmentação da autoridade,

  • dispersão da norma,

  • substituição da verdade por comandos contingentes.

A desordem, portanto, não é caos absoluto, mas tirania normativa: muitas ordens onde deveria haver uma só.

4. Linguagem, lei e autoridade

Essa leitura permite uma conclusão decisiva: a desordem moral e política não se caracteriza pela ausência de regras, mas pela inflação normativa dissociada da verdade.

Quando cada instância emite sua própria “ordem”, quando cada poder se arroga legislador último, quando a Lei deixa de ser referência transcendente para se tornar produto da vontade, temos exatamente isso: dez ordens no lugar da Ordem.

A grafia dezordem passa então de curiosidade linguística a símbolo conceitual. Ela nomeia com precisão aquilo que a modernidade frequentemente produz: um mundo saturado de normas, mas vazio de Lei.

Conclusão

Reabilitar a forma dezordem não é propor uma reforma ortográfica nem defender um retorno acrítico ao passado. É, antes, um exercício de atenção à linguagem, capaz de revelar verdades que a padronização esconde.

Foneticamente, dezordem diz a verdade da fala.
Historicamente, é compatível com um português não normatizado.
Simbolicamente, exprime algo decisivo: a negação da Lei una pela proliferação de ordens humanas.

Nesse sentido, a palavra deixa de ser apenas um signo linguístico e se torna um diagnóstico moral. Onde há dez ordens, já não há ordem alguma.

Bibliografia comentada

1. Câmara Jr., Joaquim Mattoso

Estrutura da Língua Portuguesa. Petrópolis: Vozes.

Obra clássica da linguística brasileira. Mattoso Câmara descreve com precisão os fenômenos fonéticos do português, entre eles a sonorização do /s/ intervocálico, ponto fundamental para compreender por que desordem é pronunciada como dezordem. O livro oferece base técnica sólida para sustentar a legitimidade fonética da grafia analisada, sem recorrer a especulações.

2. Cunha, Celso; Cintra, Lindley

Nova Gramática do Português Contemporâneo. Rio de Janeiro: Lexikon.

Embora normativa, esta gramática reconhece explicitamente a distância entre pronúncia real e grafia convencional no português. É uma fonte importante para mostrar que a ortografia moderna é fruto de convenções estabilizadas, não de transparência fonética. Serve como contraponto: o que hoje é considerado “correto” não é necessariamente o que melhor expressa o som.

3. Teyssier, Paul

História da Língua Portuguesa. Lisboa: Sá da Costa.

Referência indispensável para compreender a flutuação ortográfica do português até o século XIX. Teyssier demonstra que a ausência de padronização não era exceção, mas regra, o que torna plausível o uso de grafias como dezordem. A obra impede leituras anacrônicas da língua e fundamenta historicamente o argumento.

4. Said Ali, Manuel

Dificuldades da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Acadêmica.

Said Ali é particularmente útil por tratar das tensões entre uso, tradição e norma. Ele mostra como muitas “dificuldades” da língua surgem justamente da tentativa de congelar um organismo vivo. A obra ajuda a compreender por que grafias antigas não devem ser lidas automaticamente como erros.

5. Santo Agostinho

De Ordine (Sobre a Ordem).

Texto fundamental para a dimensão metafísica do artigo. Agostinho define a ordem como princípio que integra multiplicidade e unidade sob a razão divina. A partir dele, fica claro que a desordem não é simples ausência de estrutura, mas afastamento da ordem verdadeira, ideia que sustenta a leitura simbólica de “dez ordens” contra a Ordem.

6. Bíblia Sagrada

Êxodo 20 — O Decálogo.

Fonte primária e insubstituível para a reflexão teológica proposta. O Decálogo aparece como pluralidade formal (dez palavras) que exprime unidade moral. Essa tensão entre plural e uno é essencial para compreender por que a multiplicação de ordens humanas não equivale à verdadeira ordem.

7. São Tomás de Aquino

Suma Teológica, I-II, questões 90–97 (Tratado da Lei).

Tomás fornece o arcabouço racional para distinguir:

  • lei eterna,

  • lei natural,

  • lei humana.

Essas distinções permitem compreender por que a inflação de normas humanas, quando desligadas da lei superior, produz desordem moral, e não ordem. É a base filosófica mais robusta para o argumento central do artigo.

8. Voegelin, Eric

Ordem e História, vol. I.

Voegelin é crucial para o diagnóstico político implícito no texto. Ele demonstra como a perda da referência transcendente da ordem conduz à proliferação ideológica de sistemas normativos. A “dezordem” moderna aparece aqui como fenômeno histórico, não apenas linguístico ou moral.

9. Olavo de Carvalho

O Jardim das Aflições. São Paulo: É Realizações.

A obra articula linguagem, símbolo, filosofia política e teologia em chave crítica da modernidade. Embora não trate diretamente de ortografia, oferece o método de leitura simbólica que legitima interpretações como a de dezordem enquanto diagnóstico cultural e espiritual.

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