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domingo, 8 de fevereiro de 2026

O caso Vorcaro e a lógica do banco público “estabilizador” no sistema financeiro brasileiro

A história bancária brasileira revela um padrão recorrente: em momentos de crise, bancos privados buscam amparo em instituições públicas ou no próprio Estado, na forma de um banco “estabilizador”. Essa prática, longe de ser episódica, constitui quase uma tradição informal do sistema financeiro nacional, especialmente antes da consolidação das regras prudenciais globais. O chamado “caso Vorcaro” insere-se exatamente nessa linhagem histórica.

Durante décadas, o mecanismo foi relativamente simples. Quando um banco privado se via pressionado por problemas de liquidez, solvência ou má alocação de ativos, recorria-se a uma engenharia institucional que transferia o ônus para o setor público. Esse arranjo ganhou forma técnica no modelo conhecido como Good Bank / Bad Bank: os ativos problemáticos (“ativos podres”) eram segregados e, direta ou indiretamente, absorvidos pelo Estado, enquanto a parte saudável da instituição era preservada, vendida ou incorporada a outro grupo privado.

O Brasil oferece inúmeros exemplos desse expediente. O caso do Banco Halles, na década de 1970, antecipa um padrão que se repetiria nos anos 1990 e 2000 com instituições como o Econômico, o Excel, o Bamerindus e o Nacional. Neste último caso, a reorganização deu origem ao Unibanco, que mais tarde se fundiria ao Itaú. Outros bancos, como o Boa Vista e o Banco de Crédito Nacional, também passaram por processos semelhantes. Em todos eles, o Banco Central e o governo federal atuaram como facilitadores, oferecendo desde linhas de crédito até flexibilizações regulatórias.

Essas “facilidades” assumiam diversas formas: liberação de compulsórios, ampliação de limites para operações compromissadas, flexibilização das exigências sobre reservas bancárias e aceitação de determinados papéis como lastro. Embora tecnicamente justificáveis em situações excepcionais, tais medidas criaram um ambiente de risco moral. Banqueiros passaram a operar sob a expectativa implícita de que, em última instância, o Estado funcionaria como amortecedor final de suas decisões mal-sucedidas.

Esse modelo começou a se esgotar com o Plano Real. Ao eliminar o chamado floating inflacionário — que permitia aos bancos obter ganhos significativos com a simples gestão do caixa em ambiente de alta inflação — o Real impôs uma disciplina inédita ao sistema financeiro. Bancos que não possuíam portfólios robustos de títulos públicos, nem estrutura adequada de gestão de risco, passaram a apresentar dificuldades crescentes.

O ponto de inflexão definitivo ocorreu no início dos anos 2000, especialmente após o caso do Banco Santos, em 2005. Nesse momento, o ambiente internacional já havia mudado profundamente. Após sucessivas crises cambiais — México, Brasil, Sudeste Asiático e Rússia — os Acordos da Basileia deixaram de ser um conjunto flexível de recomendações e se transformaram em um arcabouço global efetivamente aplicado. Capitalização mínima, controle de risco e transparência passaram a ser exigências reais, e não meros “acordinhos” negociáveis.

Nesse novo contexto, o banqueiro que apostava na velha lógica do resgate público passou a enfrentar limites claros. O espaço para soluções políticas diminuiu, e o custo reputacional e institucional de novos salvamentos aumentou. O Estado, pressionado por regras internacionais e por maior escrutínio público, deixou de ser um garantidor automático das aventuras privadas.

É à luz dessa trajetória que se deve compreender a presença de tantos figurões da República em episódios recentes envolvendo instituições financeiras problemáticas. Não se trata de um fenômeno novo, mas da tentativa de reativar um modelo que funcionou no passado, porém já não encontra o mesmo ambiente institucional. O constrangimento imposto a dirigentes de bancos públicos — como no caso do BRB — é sintomático dessa tensão: a busca por um banco público “estabilizador” persiste, mas o sistema já não comporta esse papel com a mesma elasticidade.

Em suma, o caso Vorcaro não é uma anomalia, mas a expressão tardia de uma cultura bancária formada em um período de baixa disciplina monetária e regulatória. O problema central não está apenas na tentativa de recorrer ao Estado, mas no descompasso entre práticas herdadas do passado e um sistema financeiro que, ao menos formalmente, passou a operar sob regras globais mais rígidas. A história sugere que, quanto mais se insiste nesse descompasso, maior tende a ser o custo político, institucional e econômico da tentativa de repeti-lo.

Bibliografia comentada

BANCO CENTRAL DO BRASIL

Relatórios Anuais e Relatórios de Estabilidade Financeira.
Brasília: BCB, diversos anos.

Os relatórios do Banco Central são fontes primárias indispensáveis para compreender as intervenções estatais no sistema financeiro brasileiro. Neles aparecem, de forma técnica e muitas vezes indireta, os mecanismos de socorro, reorganização bancária, flexibilização regulatória e gestão de crises. A leitura atenta permite identificar como o discurso da “estabilidade sistêmica” frequentemente serviu de base para operações de salvamento de bancos privados em dificuldade.

BIS – BANK FOR INTERNATIONAL SETTLEMENTS

International Convergence of Capital Measurement and Capital Standards (Basel I, II e III).
Basileia: BIS, 1988–2017.

Os Acordos da Basileia constituem o eixo regulatório central da transição descrita no artigo. A passagem de Basileia I — ainda flexível e negociável — para Basileia II e III explica por que o modelo do banco público “estabilizador” perdeu viabilidade. A obra mostra como exigências de capital, gestão de risco e transparência passaram a limitar drasticamente soluções políticas e improvisadas para crises bancárias.

GORTON, Gary

Slapped by the Invisible Hand: The Panic of 2007.
Oxford: Oxford University Press, 2010.

Gorton oferece uma análise rigorosa das crises bancárias modernas e do papel do Estado como garantidor implícito do sistema financeiro. Embora focado no contexto norte-americano, o livro fornece o arcabouço teórico para entender o risco moral criado pela expectativa de resgate público — fenômeno diretamente aplicável ao histórico brasileiro descrito no artigo.

MINSKY, Hyman P.

Stabilizing an Unstable Economy.
New Haven: Yale University Press, 1986.

Minsky é fundamental para compreender a lógica de longo prazo que leva bancos e agentes financeiros a assumir riscos excessivos quando acreditam na existência de um “estabilizador” externo. Seu modelo ajuda a explicar por que o socorro estatal, quando recorrente, tende a gerar ciclos cada vez mais graves de instabilidade, exigindo intervenções progressivamente maiores.

KINDLEBERGER, Charles P.; ALIBER, Robert Z.

Manias, Panics, and Crashes: A History of Financial Crises.
6. ed. Nova York: Palgrave Macmillan, 2011.

Clássico incontornável sobre crises financeiras, a obra demonstra que o padrão observado no Brasil não é excepcional. A relação entre euforia, alavancagem excessiva, colapso e busca por resgate estatal repete-se ao longo da história. O livro fornece o pano de fundo histórico que relativiza a ideia de que certos episódios brasileiros seriam “casos isolados”.

FRANCO, Gustavo H. B.

O Plano Real e outros ensaios.
Rio de Janeiro: Editora Campus, 1995.

Fonte essencial para compreender a ruptura estrutural provocada pelo Plano Real. Franco explica como o fim do floating inflacionário alterou radicalmente o modelo de negócios dos bancos brasileiros, expondo fragilidades que antes eram mascaradas pela inflação alta. O livro ajuda a entender por que tantos bancos entraram em colapso após a estabilização monetária.

LOPES, Francisco L.; ROSSETTI, José Paschoal

Economia Monetária.
São Paulo: Atlas, diversas edições.

Obra de referência no estudo do sistema bancário e da política monetária brasileira. Os autores fornecem instrumentos analíticos para compreender o funcionamento do compulsório, das reservas bancárias e das operações compromissadas — mecanismos citados no artigo como ferramentas recorrentes de intervenção estatal.

CALOMIRIS, Charles W.; HABER, Stephen H.

Fragile by Design: The Political Origins of Banking Crises and Scarce Credit.
Princeton: Princeton University Press, 2014.

Talvez a obra mais importante para entender a dimensão política do problema. Os autores demonstram como sistemas bancários são moldados por coalizões políticas que distribuem riscos e benefícios de forma desigual. O livro ilumina o papel dos “figurões da República” não como anomalia, mas como parte estrutural do arranjo entre Estado e bancos.

DE BONIS, Daniel; BINGHAM, Tomás

Crises Bancárias e Reestruturação Financeira no Brasil.
Brasília: Banco Central do Brasil, textos técnicos.

Textos técnicos pouco conhecidos, mas de enorme valor empírico. Documentam, com linguagem técnica, os processos de intervenção, liquidação e reorganização bancária no Brasil. Funcionam como contrapeso factual a leituras ideológicas ou jornalísticas superficiais sobre o tema.

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