1. Introdução
A segunda metade do século XVIII marcou um momento decisivo na reorganização institucional do Império Português. Sob a liderança de Marquês de Pombal (Sebastião José de Carvalho e Melo), o Estado português promoveu um ambicioso programa de centralização administrativa, reforma educacional e reorganização econômica. Entre as medidas adotadas, destacaram-se as companhias monopolistas de comércio, como a Companhia Geral do Comércio de Pernambuco e da Paraíba, criada em 1759.
O objetivo formal dessas companhias era revitalizar a economia dos teritórios de além-mar, reorganizar fluxos comerciais e reforçar o controle da Coroa. Contudo, sua implementação gerou distorções econômicas relevantes, provocou resistências locais e culminou em sua extinção durante o período conhecido como “Viradeira”, sob o reinado de D. Maria I de Portugal.
Este artigo analisa, sob a perspectiva da história econômica e da teoria institucional, os fundamentos, resultados e consequências dessas políticas.
2. Contexto Econômico: crise e reconstrução
O reinado de D. José I de Portugal foi profundamente marcado pelo Terremoto de Lisboa de 1755, que devastou a capital e impôs custos extraordinários de reconstrução. Simultaneamente, Portugal enfrentava:
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Queda relativa na rentabilidade do açúcar brasileiro;
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Concorrência crescente das Antilhas;
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Pressões fiscais decorrentes da reconstrução urbana;
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Fragilidade estrutural do aparato administrativo imperial.
Nesse cenário, Pombal buscou fortalecer o Estado por meio da centralização econômica e da reorganização dos mecanismos de controle sobre o comércio ultramarino.
3. As companhias monopolistas: lógica econômica e desenho institucional
A Companhia Geral do Comércio de Pernambuco e da Paraíba foi concebida como instrumento de:
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Controle dos preços de exportação;
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Garantia de fornecimento de mão de obra escravizada;
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Coordenação logística;
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Aumento da arrecadação metropolitana.
Sob a ótica mercantilista predominante à época, monopólios estatais eram vistos como instrumentos legítimos de maximização da balança comercial e de acumulação de metais preciosos. A centralização permitiria, teoricamente:
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Redução de custos de transação;
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Padronização da qualidade;
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Previsibilidade fiscal;
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Supressão de intermediários considerados “ineficientes”.
Contudo, do ponto de vista da teoria econômica moderna, monopólios legais tendem a produzir:
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Distorsões alocativas;
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Redução de incentivos à eficiência;
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Problemas de agência;
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Rent-seeking político;
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Deterioração da qualidade.
4. Resultados Econômicos: ineficiência e perda de competitividade
Os registros históricos indicam que a companhia enfrentou problemas estruturais:
4.1 Fixação de preços
A determinação centralizada de preços reduziu a margem dos produtores locais, especialmente senhores de engenho. Sem flexibilidade diante das oscilações internacionais, o sistema tornou-se rígido e pouco respondia à concorrência caribenha.
4.2 Problemas logísticos
Atrasos, má gestão naval e dificuldades de coordenação afetaram o fluxo regular de mercadorias. O comércio passou a apresentar gargalos operacionais que prejudicaram tanto produtores quanto consumidores.
4.3 Corrupção e favorecimento
A nomeação política de administradores gerou incentivos adversos. Em vez de eficiência econômica, prevaleceram redes de favorecimento e extração de renda institucional.
4.4 Escassez de mão de obra
Mesmo no objetivo de garantir o fornecimento de mão de obra escravizada, houve falhas de coordenação que impactaram de forma negativa a produção agrícola.
O resultado agregado foi a perda de competitividade internacional, o declínio relativo do setor açucareiro e o aumento do descontentamento colonial.
5. A “viradeira”: a reversão política e econômica das medidas de Pombal
Com a morte de D. José I em 1777, sua filha, D. Maria I de Portugal, assumiu o trono. O período subsequente ficou conhecido como “Viradeira”, caracterizado por:
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Afastamento político do Marquês de Pombal;
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Revisão de medidas centralizadoras;
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Restabelecimento parcial de práticas tradicionais;
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Reavaliação judicial de atos administrativos anteriores.
A Companhia Geral foi extinta em 1778. A política econômica tornou-se menos concentrada e mais conciliatória com a elite econômica da América Portuguesa.
Do ponto de vista institucional, a Viradeira representou:
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Redução do grau de intervenção direta do Estado no comércio;
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Restauração da rconcórdia entre a pátria-mãe e produtores locais no além-mar;
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Restauração do papel das normas jurídicas tradicionais, através da Lei da Boa Razão.
6. Impactos de longo prazo no mundo luso-brasileiro
A experiência pombalina teve repercussões duradouras:
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Demonstrou os limites administrativos da centralização imperial.
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Influenciou o ambiente político que marcaria de João VI de Portugal no Brasil
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Contribuiu para debates posteriores sobre absolutismo, constitucionalismo e liberdade econômica.
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Deixou precedentes institucionais para a relação entre Estado e mercado no espaço luso-brasileiro.
A tensão entre centralização estatal e autonomia econômica, evidenciada nesse período, permaneceria como traço recorrente da história política portuguesa e brasileira.
7. Interpretação Econômica
À luz da teoria institucional contemporânea, o episódio pode ser interpretado como:
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Um experimento de centralização mercantilista em ambiente de restrição fiscal;
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Um caso clássico de falha de monopólio estatal;
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Um exemplo de como incentivos políticos distorcem mecanismos de mercado;
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Uma demonstração empírica de que coordenação central não substitui eficiência descentralizada quando a informação é dispersa.
Entretanto, é preciso reconhecer que, no contexto do século XVIII, o mercantilismo constituía paradigma dominante. A crítica retrospectiva deve ser feita com cautela metodológica.
8. Conclusão
A criação da Companhia Geral do Comércio de Pernambuco e da Paraíba representou uma tentativa de reorganização econômica por meio da centralização e do monopólio estatal. Embora concebida como instrumento de fortalecimento fiscal e controle comercial, a experiência revelou limitações administrativas, incentivos perversos e efeitos adversos sobre a competitividade.
A Viradeira, sob Maria I, marcou uma inflexão institucional relevante, simbolizando a reversão parcial de um modelo excessivamente centralizador
O episódio permanece exemplar para a história econômica: políticas de controle rígido de preços e monopólios estatais, quando não acompanhadas de mecanismos adequados de governança e incentivos, tendem a produzir ineficiência, corrupção e perda de dinamismo produtivo.
Bibliografia Comentada
1. Kenneth Maxwell
Pombal: Paradox of the Enlightenment. Cambridge: Cambridge University Press, 1995.
Comentário:
Obra clássica sobre o governo pombalino. Maxwell interpreta o Marquês de Pombal como um reformador ilustrado, destacando o paradoxo entre centralização autoritária e modernização administrativa. É essencial para compreender o contexto político das reformas econômicas e suas ambivalências institucionais.
2. A. R. Disney
A History of Portugal and the Portuguese Empire. Cambridge: Cambridge University Press, 2009.
Comentário:
Oferece uma visão panorâmica do Império Português, incluindo análise das companhias comerciais monopolistas. Útil para contextualizar a Companhia Geral do Comércio de Pernambuco e da Paraíba dentro da lógica imperial e mercantilista.
3. José Jobson de Andrade Arruda
O Brasil no Comércio Colonial. São Paulo: Ática, 1980.
Comentário:
Análise detalhada do sistema econômico português de além-mar sob a perspectiva das trocas atlânticas. A obra examina a estrutura mercantil, a lógica monopolista e os impactos econômicos sobre produtores locais, oferecendo base quantitativa e documental relevante.
4. Fernando Novais
Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777–1808). São Paulo: Hucitec, 1979.
Comentário:
Estudo fundamental para compreender a transição do período pombalino à Viradeira e seus desdobramentos. Novais articula economia política e teoria da dependência para interpretar as transformações do sistema colonial tardio.
5. Francisco Falcon
Pombal e o Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
Comentário:
Obra diretamente voltada ao impacto das reformas pombalinas no Brasil. Examina as companhias monopolistas, a política indigenista e a reorganização administrativa colonial.
6. Maria I de Portugal (tema biográfico)
Isabel Drumond Braga
D. Maria I. Lisboa: Círculo de Leitores, 2005.
Comentário:
Biografia acadêmica que revisita criticamente a imagem de “Maria Louca”. Analisa o período da Viradeira e as revisões institucionais promovidas após a morte de José I de Portugal.
7. Nuno Gonçalo Monteiro
O Crepúsculo dos Grandes: A Casa e o Património da Aristocracia em Portugal (1750–1832). Lisboa: Imprensa Nacional, 2003.
Comentário:
Importante para compreender os efeitos das reformas pombalinas sobre a aristocracia e a estrutura de poder. Ajuda a contextualizar as tensões políticas que culminaram na Viradeira.
8. Douglass North
Institutions, Institutional Change and Economic Performance. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.
Comentário:
Embora não trate especificamente de Portugal, fornece arcabouço teórico essencial para analisar a experiência das companhias monopolistas sob a ótica da teoria institucional, especialmente no que concerne a incentivos, custos de transação e falhas de governança.
9. Adam Smith
An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations (1776).
Comentário:
Contemporâneo ao período analisado, Smith oferece crítica teórica ao mercantilismo e aos monopólios comerciais, fornecendo contraponto conceitual às políticas pombalinas.
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