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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Da circunstância como espaço vital: uma leitura gassetiana da fronteira

I. Ortega y Gasset: “Eu sou eu e minha circunstância”

José Ortega y Gasset estabelece que o homem não é substância isolada, mas realidade biográfica situada.

A circunstância não é cenário externo; é o conjunto de condições que:

  • Limitam.

  • Possibilitam.

  • Convocam.

Ela é o “espaço vital” existencial — não no sentido geopolítico agressivo, mas no sentido ontológico: o campo no qual a vida deve decidir-se.

II. A dimensão horizontal: fronteira como possibilidade

A dimensão horizontal corresponde à:

  • Expansão.

  • Projeto.

  • Futuro aberto.

É a fronteira como possibilidade.

Na chave gassetiana, isso é o horizonte de projetos. O homem é projetivo; vive antecipando-se.

Essa horizontalidade é:

  • Liberdade.

  • Escolha.

  • Construção.

Ela corresponde ao eixo da ação.

III. A dimensão vertical: a fronteira como contingência

Mas há também a verticalidade.

Ela é:

  • Limitação.

  • Condição dada.

  • Facticidade.

Não escolhemos:

  • O tempo histórico.

  • A cultura.

  • A geografia.

  • A estrutura política.

Isso é contingência.

Se a horizontal é projeto, a vertical é peso.

IV. A cruz existencial

O cruzamento dos dois eixos — horizontal (possibilidade) e vertical (contingência) — forma a estrutura dramática da vida.

Não é metáfora superficial: é estrutura existencial.

  • O eixo horizontal sem vertical vira abstração.

  • O eixo vertical sem horizontal vira fatalismo.

A intersecção é responsabilidade.

Aqui a leitura se aprofunda: a circunstância não é apenas o que me limita, mas o que me obriga a responder.

V. Szondi e o destino

Leopold Szondi introduz a ideia de destino como estrutura pulsional herdada que se atualiza nas escolhas.

Ele distingue:

  • Destino compulsivo.

  • Destino escolhido.

A circunstância oferece encontros. A biografia decide como integrá-los.

VI. Mário Ferreira dos Santos e a integração pessoal

Mário Ferreira dos Santos trabalha a ideia de integração dialética:

  • A realidade não é negada.

  • É integrada hierarquicamente.

Se aplicarmos isso:

  • A circunstância não deve ser combatida cegamente.

  • Deve ser assumida e ordenada.

Criar “pontes” é integrar contingência ao projeto.

VII. Espaço Vital Reinterpretado

O conceito geopolítico de espaço vital, quando transposto para Ortega, perde seu caráter expansionista e ganha dimensão existencial:

  • Espaço vital = conjunto de circunstâncias dadas.

  • Fronteira horizontal = campo de ação possível.

  • Fronteira vertical = limite estrutural.

O destino emerge da síntese ativa.

VIII. Aplicação à cultura econômica

Se voltarmos aos jogos de simulação:

  • A fronteira americana representa predominância horizontal.

  • A tradição germânica enfatiza verticalidade institucional.

  • A vida concreta exige ambos.

No plano pessoal:

  • Você não escolhe sua época.

  • Mas escolhe como operar nela.

Essa é a cruz.

Conclusão

Na chave gassetiana:

  • A circunstância é o seu espaço vital.

  • A horizontalidade é seu projeto.

  • A verticalidade é sua condição.

  • O destino é a integração ativa entre ambos.

E aqui há um ponto decisivo: o homem não carrega a cruz como vítima da circunstância, mas como agente que a transforma em biografia. 

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