Vivemos numa época obcecada pela ideia de “rede”. Rede profissional, rede acadêmica, rede social. Plataformas digitais prometem alcance, influência e impacto, desde que o perfil esteja bem estruturado, os contatos bem organizados e o algoritmo corretamente alimentado. No entanto, essa concepção contemporânea de rede padece de um vício de origem: ela confunde amplificação com legitimação.
A experiência mostra que nenhuma ideia relevante, nenhuma visão de mundo consistente e nenhuma obra durável se sustenta apenas sobre conexões digitais. Toda rede eficaz repousa, antes de tudo, sobre uma rede real, formada por pessoas concretas, ligadas por vínculos morais e intelectuais sólidos. É nesse ponto que a tradição clássica — especialmente aristotélico-tomista — oferece uma chave de leitura decisiva: idem velle, idem nolle.
1. Idem velle, idem nolle: o fundamento esquecido das redes verdadeiras
Aristóteles e São Tomás de Aquino ensinam que a amizade autêntica não se funda em utilidade nem em prazer, mas na comunhão no bem. Amigos verdadeiros são aqueles que querem as mesmas coisas e rejeitam as mesmas coisas. Esse princípio — idem velle, idem nolle — é mais do que uma fórmula elegante: ele é o critério estrutural de toda cooperação humana fecunda.
Quando aplicado ao campo intelectual e cultural, isso significa que:
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não basta compartilhar interesses profissionais;
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não basta pertencer ao mesmo setor ou instituição;
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é necessário compartilhar um horizonte moral e metafísico.
Sem essa comunhão de fins, qualquer “rede” degenera em oportunismo, autopromoção ou mera troca instrumental.
2. Redes digitais amplificam, mas não fundam
Plataformas como LinkedIn, X ou outras redes sociais desempenham um papel secundário e derivado: elas amplificam o que já existe. Não criam autoridade intelectual, não geram confiança e não produzem sentido. Apenas ecoam — de forma muitas vezes distorcida — aquilo que nasceu fora delas.
A autoridade real nasce:
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da vida concreta;
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do trabalho bem feito;
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do estudo perseverante;
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e, sobretudo, da coerência entre o que se pensa, o que se escreve e o que se vive.
Por isso, uma única amizade bem situada, intelectualmente séria e moralmente reta, pode ter mais impacto do que centenas de conexões digitais indiferenciadas.
3. A paróquia como ecossistema intelectual subestimado
Num mundo que associa relevância apenas a universidades, centros de pesquisa e grandes corporações, a paróquia costuma ser vista apenas como espaço sacramental ou pastoral. Trata-se de um erro grave.
A paróquia é, historicamente, um dos principais pontos de encontro entre:
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vida espiritual,
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trabalho profissional,
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e formação intelectual leiga.
É ali que se encontram pessoas discretas, mas altamente qualificadas; profissionais que não se promovem, mas que leem, refletem e atuam em instituições estratégicas; homens e mulheres cuja vida interior ordena a vida intelectual.
Quando textos nascidos de um trabalho honesto e de uma visão cristã do mundo circulam por meio dessas pessoas, o fazem de modo orgânico, silencioso e eficaz. Não como propaganda, mas como recomendação confiável.
4. Catequese pelo trabalho intelectual, não ativismo
O que circula nessas redes reais não é mera informação técnica. Trata-se de algo mais profundo: uma catequese implícita, fundada na santificação através do estudo e do trabalho.
Essa forma de testemunho:
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não é panfletária;
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não depende de linguagem confessional explícita;
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não busca aplauso nem engajamento imediato.
Ela mostra, na prática, que o trabalho intelectual pode ser:
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ascese;
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serviço;
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e culto racional a Deus.
Por isso, alcança ambientes onde a apologética direta não alcança, inclusive instituições acadêmicas e profissionais de alto nível.
5. Impacto real versus visibilidade ilusória
A cultura digital mede sucesso por métricas: curtidas, compartilhamentos, seguidores. Mas a história das ideias mostra outro critério: quem lê, quem cita, quem transmite adiante.
Uma pessoa certa, com formação sólida e posição institucional relevante, que lê com atenção e repassa com critério, produz um efeito cumulativo incomparavelmente maior do que a exposição massificada e volátil das redes digitais.
A verdadeira influência é lenta, indireta e profundamente humana.
Conclusão
A chamada “rede social” só cumpre sua função quando repousa sobre uma rede de amizades reais, unidas pelo idem velle, idem nolle: o mesmo amor pela verdade, o mesmo compromisso com o bem e, para o cristão, a mesma orientação última a Deus.
Sem isso, todo perfil bem estruturado é apenas fachada. Com isso, até a circulação mais discreta se torna fecunda.
Em última instância, o digital apenas ecoa aquilo que já é verdadeiro no real. E nenhuma tecnologia substitui a amizade fundada na verdade — especialmente quando essa verdade é buscada, vivida e transmitida nos méritos de Cristo, e não no mérito próprio.
Bibliografia comentada
1. Aristóteles – Ética a Nicômaco
Comentário:
Obra fundamental para a compreensão clássica da amizade (philia). Nos livros VIII e IX, Aristóteles distingue amizade por utilidade, por prazer e por virtude, sendo esta última a única plenamente estável. O princípio do idem velle, idem nolle está implícito nessa análise: amigos verdadeiros compartilham uma mesma concepção do bem. Trata-se do alicerce filosófico de toda reflexão séria sobre redes humanas autênticas.
2. São Tomás de Aquino – Suma Teológica, II–II, questões 23–27 (Tratado da Caridade)
Comentário:
São Tomás eleva a amizade aristotélica ao plano teologal ao definir a caridade como amicitia hominis ad Deum. A amizade entre os homens, quando ordenada a Deus, torna-se participação nessa amizade maior. Aqui se encontra o fundamento teológico da ideia de que a comunhão intelectual e a circulação da verdade só são plenamente fecundas quando ordenadas ao fim último.
3. São Tomás de Aquino – Comentário à Ética a Nicômaco
Comentário:
Leitura indispensável para entender como o pensamento aristotélico sobre amizade, vida comum e virtude é assimilado e purificado pelo cristianismo. Tomás explicita a dimensão comunitária da vida intelectual e mostra como o conhecimento verdadeiro se comunica dentro de vínculos de confiança moral.
4. John Henry Newman – A Ideia de uma Universidade
Comentário:
Newman oferece uma crítica profunda à redução do conhecimento ao utilitarismo técnico. Sua defesa do saber como bem em si mesmo ilumina o papel das comunidades reais — e não apenas institucionais — na formação intelectual. O livro ajuda a compreender por que ideias sólidas circulam melhor por meio de pessoas do que por estruturas formais.
5. Josef Pieper – Ócio e Culto
Comentário:
Texto central para entender o trabalho intelectual como forma de culto e não como mera produção. Pieper mostra que a verdadeira cultura nasce de uma atitude contemplativa, incompatível com a lógica da performance e da visibilidade. Essencial para sustentar a tese da santificação pelo estudo e pelo trabalho.
6. Josef Pieper – As Virtudes Fundamentais
Comentário:
Especialmente útil para compreender prudência, justiça e fortaleza como condições da vida intelectual ordenada. A prudência, em particular, explica por que a circulação da verdade exige mediação humana qualificada, e não exposição indiscriminada.
7. Romano Guardini – O Fim da Era Moderna
Comentário:
Guardini descreve a dissolução das formas tradicionais de mediação cultural e comunitária na modernidade tardia. Sua análise ajuda a entender por que as redes digitais tendem a substituir, de modo empobrecido, as redes reais — e por que a recuperação de vínculos concretos é decisiva.
8. Hannah Arendt – A Condição Humana
Comentário:
Embora não seja uma autora cristã, Arendt é útil para compreender a distinção entre trabalho, obra e ação, bem como a importância do espaço público real. Sua crítica à massificação ajuda a explicar a fragilidade das “redes” puramente digitais e a centralidade da ação mediada por pessoas concretas.
9. Alasdair MacIntyre – Depois da Virtude
Comentário:
MacIntyre mostra como a fragmentação moral moderna inviabiliza práticas racionais compartilhadas. Sua defesa das tradições vivas e das comunidades de prática esclarece por que a transmissão da verdade depende de vínculos morais prévios — exatamente o que o idem velle, idem nolle expressa.
10. Joseph Ratzinger (Bento XVI) – Introdução ao Cristianismo
Comentário:
Obra-chave para compreender a fé cristã como adesão racional e existencial à verdade, e não como ideologia. Ratzinger ilumina o papel do testemunho intelectual silencioso e coerente, especialmente em ambientes culturais não explicitamente confessionais.
11. Joseph Ratzinger (Bento XVI) – Caritas in Veritate
Comentário:
Encíclica fundamental para o tema da santificação do trabalho e da vida econômica. Ratzinger mostra que a verdade precisa de sujeitos morais para circular socialmente, o que reforça a centralidade das redes reais fundadas na confiança e na amizade.
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