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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Paes Mendonça e a descoberta do supermercado moderno - o que a Argentina ensinou ao Brasil sobre varejo, consumo e organização econômica

A história do supermercado brasileiro não começa propriamente no Brasil. Ela começa quando Mamede Paes Mendonça, ainda nos anos 1940, atravessa a fronteira e observa, na Argentina, um modelo de comércio que expressava algo mais profundo do que uma inovação comercial: uma nova forma de organizar o consumo em sociedades urbanas e industrializadas.

O que Mamede encontrou não foi apenas uma loja diferente, mas um sistema econômico em miniatura, coerente com um país que já havia integrado indústria, logística, crédito e hábitos de consumo de massa. Essa percepção moldaria decisivamente o varejo brasileiro nas décadas seguintes.

A Argentina como laboratório do capitalismo urbano sul-americano

Nos anos 1930 e 1940, a Argentina vivia um estágio de urbanização e industrialização mais avançado do que o brasileiro. Buenos Aires e outras grandes cidades já apresentavam:

  • população urbana consolidada,

  • cadeias industriais relativamente integradas,

  • classe média numerosa e habituada ao consumo regular.

Nesse contexto, o supermercado não era um luxo, mas uma resposta racional à vida moderna.

O choque com o modelo brasileiro de armazém

No Brasil, o comércio varejista ainda era dominado pelo armazém de balcão:

  • o cliente não tocava nos produtos,

  • o balconista mediava todas as compras,

  • preços variavam conforme a relação pessoal,

  • o crédito era informal e personalizado.

Esse modelo era funcional em uma economia:

  • pouco monetizada,

  • baseada na confiança pessoal,

  • com baixa escala produtiva.

Mamede percebeu que aquele sistema não sobreviveria à urbanização acelerada que já se anunciava no Brasil.

O que exatamente Mamede viu no supermercado argentino

1. Autoatendimento como princípio organizador

O cliente escolhia diretamente os produtos. Isso:

  • reduzia custos de mão de obra,

  • acelerava o fluxo,

  • estimulava a compra por comparação.

O consumidor deixava de ser “atendido” e passava a agir economicamente por conta própria.

2. Layout racional e circulação planejada

Os corredores, as prateleiras e a disposição dos produtos obedeciam a uma lógica:

  • categorias bem definidas,

  • circulação contínua,

  • estímulo visual permanente.

Paes Mendonça entendeu que o espaço físico também era uma ferramenta de venda, algo inexistente no comércio tradicional brasileiro.

3. Escala, volume e poder de negociação

O supermercado argentino comprava em grandes quantidades, diretamente da indústria. Isso permitia:

  • preços mais baixos,

  • margens previsíveis,

  • padronização do estoque.

Aqui, Paes Mendonça percebeu que o varejo moderno não é improvisação: é gestão, capital e planejamento.

4. Preços fixos e transparência

Nada de barganha, nada de preço “para amigo”:

  • etiquetas visíveis,

  • pagamento à vista,

  • igualdade formal entre consumidores.

Esse detalhe é central: o supermercado pressupõe uma sociedade de indivíduos, não de relações pessoais assimétricas.

5. Integração com a indústria

Os produtos eram:

  • embalados,

  • rotulados,

  • padronizados.

O supermercado funcionava como o elo final de uma cadeia industrial. Paes Mendonça percebeu que o varejo moderno induz a industrialização tanto quanto depende dela.

O que Paes Mendonça realmente importou: um modelo mental

Ao voltar ao Brasil, Mamede Paes Mendonça não tentou simplesmente copiar o supermercado argentino. Ele compreendeu algo mais profundo:

o supermercado é uma instituição social antes de ser um prédio comercial.

Era necessário:

  • educar o consumidor,

  • adaptar a variedade de produtos à renda brasileira,

  • conviver temporariamente com práticas antigas (fiado, informalidade).

O resultado foi um modelo híbrido, progressivamente racionalizado, que preparou o terreno para o varejo de massa no país.

O supermercado como sinal de modernidade econômica

A lição argentina ensinou a Paes Mendonça que:

  • o supermercado exige disciplina econômica,

  • cria hábitos de consumo regulares,

  • transforma tempo em valor,

  • substitui relações pessoais por regras impessoais.

Em termos históricos, isso significa que o supermercado não é apenas comércio: ele é um instrumento de transição civilizacional, do mundo artesanal para o mundo urbano-industrial.

Conclusão

Quando Mamede Paes Mendonça visitou os supermercados argentinos, ele viu algo que muitos comerciantes brasileiros ainda não conseguiam enxergar: o futuro já estava funcionando ao lado.

Ao trazer esse modelo para o Brasil, ele ajudou a fundar não apenas um novo tipo de loja, mas uma nova forma de organizar o consumo, o trabalho e o tempo urbano. O supermercado brasileiro nasce, assim, menos como cópia estrangeira e mais como tradução institucional de uma modernidade que chegaria inevitavelmente.

Bibliografia comentada

1. ABRAS – História do Supermercado Brasileiro

Comentário:
Fonte institucional indispensável para compreender a trajetória do setor no Brasil. Embora celebratória, fornece dados históricos sólidos sobre pioneiros, datas e modelos de negócio, incluindo referências a Mamede Paes Mendonça.

2. PEREIRA, Luiz Carlos Bresser. Desenvolvimento e Crise no Brasil

Comentário:
Essencial para situar o surgimento do supermercado dentro do processo mais amplo de urbanização, industrialização e monetização da economia brasileira no pós-guerra.

3. CARR, Edward Hallett. What Is History?

Comentário:
Ajuda a compreender por que a observação de Mamede na Argentina não foi mero acaso, mas resultado de um olhar histórico capaz de captar estruturas em funcionamento, e não apenas fatos isolados.

4. CHANDLER JR., Alfred D. The Visible Hand

Comentário:
Fundamental para entender a passagem do capitalismo artesanal para o capitalismo gerencial. O supermercado é um exemplo concreto da “mão visível” da gestão substituindo relações pessoais informais.

5. POLANYI, Karl. A Grande Transformação

Comentário:
Fornece o arcabouço teórico para entender o supermercado como instituição que reorganiza a vida social em torno do mercado autorregulado, substituindo práticas tradicionais por regras impessoais.

6. ROCCHI, Fernando. Chimneys in the Desert: Industrialization in Argentina

Comentário:
Obra central para compreender por que a Argentina pôde servir de modelo ao Brasil. Explica a precocidade industrial argentina e sua capacidade de estruturar cadeias de consumo moderno.

7. BRAUDEL, Fernand. Civilização Material, Economia e Capitalismo

Comentário:
Indispensável para compreender o supermercado como fenômeno de longa duração, ligado à transformação dos hábitos cotidianos, do tempo doméstico e da cultura material.

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