O historiador Felipe Fernández-Armesto descreve o Império Espanhol como um império de engenheiros. Essa caracterização desloca o foco da expansão ultramarina da mera conquista militar para a capacidade de transformar territórios por meio da técnica. Engenheiros, cosmógrafos, cartógrafos, arquitetos, mineradores e construtores participaram ativamente da constituição do Novo Mundo hispânico, moldando paisagens, cidades e sistemas produtivos.
À luz do conceito contemporâneo de tecnonatureza, pode-se afirmar que esses homens produziam tecnonaturezas muito antes que tal categoria fosse formulada. Cada cidade planejada, cada estrada aberta, cada ponte construída, cada sistema hidráulico, cada fortificação e cada empreendimento agrícola constituía uma transformação da natureza pela inteligência humana.
Entretanto, essa observação suscita uma questão filosófica mais profunda: qual era a finalidade dessa transformação?
Para responder a essa pergunta, convém recorrer ao pensamento de José Ortega y Gasset. Segundo o filósofo espanhol, o homem não vive simplesmente na natureza; ele vive em sua circunstância. A técnica constitui precisamente o conjunto de meios pelos quais o homem modifica essa circunstância para tornar possível a realização de seu projeto de vida.
Aplicada ao contexto da Monarquia Hispânica, essa ideia adquire um significado particularmente rico. As obras de engenharia não visavam apenas aumentar a produtividade econômica ou fortalecer o poder político. Elas procuravam criar circunstâncias favoráveis ao florescimento de uma determinada civilização: a Cristandade.
Uma estrada facilitava o trabalho missionário; uma ponte aproximava povos; um porto integrava diferentes partes do império; um sistema de irrigação assegurava o sustento das populações; uma praça organizava a vida pública; uma igreja orientava simbolicamente toda a cidade. A técnica, portanto, deixava de ser simples instrumento de domínio sobre a natureza para tornar-se instrumento de ordenação da vida humana segundo uma determinada visão de mundo.
Sob essa perspectiva, tanto o Império Espanhol quanto o Império Português podem ser compreendidos como verdadeiros impérios de cultura. Sua unidade não decorria exclusivamente da autoridade política da Coroa, mas da difusão de uma cultura comum que se manifestava no direito, na língua, na arquitetura, no urbanismo, na religião, na educação e também na forma de transformar a natureza.
As tecnonaturezas produzidas pelos engenheiros ibéricos eram, nesse sentido, expressões materiais dessa cultura. Cada cidade revelava uma determinada antropologia. Cada fortaleza expressava uma concepção de ordem política. Cada sistema hidráulico manifestava uma compreensão do bem comum. Cada templo indicava a centralidade do culto divino na organização da sociedade. A paisagem transformava-se em linguagem.
Essa perspectiva permite estabelecer um diálogo crítico com a teoria das comunidades imaginadas, formulada por Benedict Anderson. Segundo ele, as comunidades políticas modernas constituem-se mediante imaginários compartilhados que permitem a indivíduos desconhecidos reconhecerem-se como membros de uma mesma coletividade. Essa descrição possui grande força explicativa para compreender a formação dos Estados nacionais modernos.
Todavia, quando aplicada ao universo da Cristandade, talvez seja necessário introduzir uma distinção adicional. Na tradição cristã, a comunidade não se funda apenas na imaginação coletiva. Ela procura conformar-se a uma verdade que lhe é anterior. Quando Cristo afirma: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" (Jo 14,6), estabelece-se uma compreensão da verdade como realidade objetiva, independente da vontade humana. Nesse horizonte, a cultura não inventa a verdade. Ela procura revelá-la historicamente.Sob essa ótica, as tecnonaturezas construídas pelos impérios ibéricos não constituem simplesmente produtos culturais arbitrários nem tradições fabricadas para fins políticos. Elas representam tentativas históricas de ordenar o espaço humano segundo uma verdade considerada objetiva.
As cidades, os mosteiros, as universidades, os aquedutos, os portos e os sistemas agrícolas não eram apenas obras de engenharia. Eram expressões materiais de uma concepção metafísica da criação. O engenheiro, nesse contexto, desempenhava uma função muito mais ampla do que a de um técnico. Sua atividade aproximava-se daquilo que a tradição tomista denomina participação nas causas segundas.
Ao transformar prudentemente a natureza, ele colaborava com a ordem criada por Deus, sem pretender substituí-la. A tecnonatureza deixava, assim, de representar a vitória da técnica sobre a natureza. Ela passava a representar a cooperação entre inteligência humana, ordem natural e Providência.
Essa interpretação conduz a uma proposta conceitual. Talvez seja útil distinguir as comunidades imaginadas, descritas por Anderson como construções simbólicas próprias da modernidade política, das comunidades reveladas, próprias de uma concepção cristã da cultura. A comunidade revelada não cria arbitrariamente seus fundamentos. Ela procura descobrir, receber e manifestar uma ordem que considera anterior a si mesma. A cultura torna-se, então, o processo histórico mediante o qual essa verdade vai sendo progressivamente incorporada às instituições, às cidades, às obras de engenharia e às formas de convivência humana. As tecnonaturezas constituem uma das expressões mais visíveis desse processo. Elas não são apenas natureza modificada. São natureza interpretada culturalmente. São paisagens nas quais uma civilização torna visíveis seus princípios fundamentais.
Nesse sentido, o verdadeiro legado dos engenheiros dos impérios ibéricos talvez não resida apenas nas obras materiais que construíram, mas na forma como essas obras revelam a concepção de homem, de sociedade e de criação que orientava sua atividade. A glória da Espanha e de Portugal, nessa perspectiva, não consistiria simplesmente na extensão de seus domínios territoriais, mas na capacidade de ordenar a técnica ao serviço da cultura e de orientar a cultura para aquilo que entendiam ser a Verdade. A tecnonatureza deixa, assim, de ser apenas uma categoria da história ambiental para tornar-se uma chave de leitura da própria história da civilização cristã.
Bibliografia comentada
ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas: reflexões sobre a origem e a expansão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras.
Embora trate da formação das identidades nacionais modernas, Anderson oferece instrumentos valiosos para compreender como grandes comunidades políticas se organizam em torno de símbolos compartilhados. O presente artigo dialoga criticamente com sua tese ao propor que, no âmbito da Cristandade, a unidade política não decorre apenas de um imaginário coletivo, mas também da adesão a uma verdade considerada objetiva e revelada.
FERNÁNDEZ-ARMESTO, Felipe. Civilizations; Pathfinders: A Global History of Exploration; e demais obras sobre a expansão ibérica.
Fernández-Armesto demonstra que a expansão espanhola foi sustentada por uma extraordinária capacidade técnica e científica. Seus estudos evidenciam o papel desempenhado por engenheiros, cosmógrafos, arquitetos, navegadores e administradores na organização do Novo Mundo, permitindo compreender o Império Espanhol como uma civilização capaz de transformar ambientes em larga escala.
WHITE, Damian F.; WILBERT, Chris (orgs.). Technonatures: Environments, Technologies, Spaces, and Places in the 21st Century. Waterloo: Wilfrid Laurier University Press, 2009.
Esta coletânea fornece o conceito de tecnonatureza, entendido como a crescente inseparabilidade entre natureza e tecnologia. O presente ensaio propõe ampliar essa categoria, investigando como ela pode ser aplicada retrospectivamente ao processo de colonização ibérica, sem ignorar as diferenças entre o pensamento contemporâneo e a cosmovisão cristã da Época Moderna.
ORTEGA Y GASSET, José. Meditações do Quixote.
Nesta obra aparece a célebre afirmação: "Eu sou eu e minha circunstância". A circunstância deixa de ser um dado puramente natural para tornar-se o espaço no qual o homem realiza seu projeto de vida. Essa concepção constitui um dos principais fundamentos filosóficos da interpretação aqui proposta sobre a engenharia imperial como atividade civilizadora.
ORTEGA Y GASSET, José. Meditação da Técnica.
Talvez seja a obra mais importante para sustentar a presente hipótese. Ortega entende a técnica não como simples instrumento de produção, mas como característica constitutiva da existência humana. O homem modifica a natureza para criar circunstâncias compatíveis com sua vocação histórica. Essa compreensão aproxima-se da ideia de tecnonatureza, mas lhe confere um fundamento antropológico e filosófico.
DAWSON, Christopher. Religion and the Rise of Western Culture; The Making of Europe.
Christopher Dawson demonstra que a cultura europeia nasceu da síntese entre o legado clássico, o cristianismo e os povos germânicos. Sua concepção de cultura como manifestação histórica da religião permite compreender os impérios ibéricos como agentes de expansão de uma civilização antes de serem simples estruturas políticas.
MARITAIN, Jacques. Humanismo Integral.
Maritain apresenta uma visão da civilização cristã fundada na dignidade da pessoa humana e na ordenação da sociedade ao bem comum. Sua filosofia fornece importantes elementos para compreender a técnica como instrumento subordinado à cultura e não como finalidade em si mesma.
TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica.
A doutrina das causas segundas, da lei natural e da participação racional do homem na criação constitui um dos fundamentos metafísicos da hipótese desenvolvida neste ensaio. A atividade técnica pode ser compreendida como participação prudente na ordem criada por Deus, e não como substituição dessa ordem.
LEÃO XIII. Rerum Novarum.
Embora dedicada à questão social, a encíclica apresenta uma compreensão do trabalho humano como cooperação com a criação. Essa perspectiva ilumina a atividade dos engenheiros e construtores dos impérios ibéricos, conferindo-lhe uma dimensão moral e civilizadora.
BOOKCHIN, Murray. The Ecology of Freedom.
Bookchin interpreta a crise ecológica como consequência das formas de organização social. Ainda que sua perspectiva seja profundamente distinta da tradição cristã, sua ecologia social oferece um contraponto importante, permitindo comparar diferentes fundamentos filosóficos para a relação entre técnica, sociedade e natureza.
LATOUR, Bruno. Jamais Fomos Modernos.
Latour questiona a separação moderna entre natureza e sociedade, mostrando que a realidade é composta por híbridos entre elementos naturais, técnicos e sociais. Sua reflexão aproxima-se do conceito de tecnonatureza, embora desenvolvida em bases epistemológicas diferentes das adotadas neste artigo.
WILLIAMS, Raymond. O Campo e a Cidade.
Williams demonstra que as categorias de "natureza", "campo" e "cidade" são construções históricas e culturais. Sua obra constitui um dos antecedentes intelectuais do conceito de tecnonatureza e permite compreender como diferentes civilizações organizam simbolicamente o espaço.
Observação metodológica
Este ensaio propõe uma interpretação filosófica da história dos impérios ibéricos. Não pretende demonstrar que os engenheiros espanhóis ou portugueses empregassem conscientemente o conceito contemporâneo de tecnonatureza, inexistente à época, mas investigar em que medida essa categoria pode servir como instrumento heurístico para reinterpretar suas realizações.
A principal hipótese consiste em afirmar que as tecnonaturezas produzidas pelos impérios ibéricos não constituíam apenas intervenções técnicas sobre o meio ambiente, mas expressões materiais de uma cultura orientada por uma concepção cristã da ordem da criação. Nessa perspectiva, a cultura não inventa arbitrariamente seus fundamentos; procura revelá-los historicamente por meio das instituições, das cidades, das obras públicas e da organização do espaço. É nesse sentido que se propõe distinguir, como categoria filosófica, a ideia de comunidade revelada da noção sociológica de comunidade imaginada, sem negar a contribuição explicativa desta última para o estudo das sociedades modernas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário