Introdução
Poucos livros exerceram tanta influência sobre os estudos do nacionalismo quanto Imagined Communities, de Benedict Anderson. Sua tese tornou-se uma das principais referências para compreender a formação das nações modernas.
Segundo Anderson, a nação é uma comunidade imaginada. Não porque seja falsa ou ilusória, mas porque seus membros jamais conhecerão pessoalmente a maior parte dos demais integrantes da comunidade nacional. Ainda assim, imaginam pertencer a uma mesma coletividade.
Essa interpretação descreve com grande precisão diversos processos históricos da modernidade. Contudo, ela não esgota todas as formas pelas quais os homens descobrem sua pertença a uma comunidade.
Propõe-se aqui uma hipótese complementar: além das comunidades imaginadas, existem também comunidades reveladas.
A contribuição de Benedict Anderson
Anderson demonstra que a imprensa, a alfabetização, o capitalismo editorial e a uniformização das línguas nacionais permitiram que milhões de pessoas passassem a imaginar-se participantes de uma mesma comunidade política.
Sua análise explica por que indivíduos separados por centenas ou milhares de quilômetros podem sentir-se membros de uma mesma nação.
A comunidade nacional, portanto, não depende do contato pessoal entre seus integrantes, mas depende da construção compartilhada de uma consciência coletiva.
Os limites da imaginação
Entretanto, a imaginação não explica integralmente a experiência do pertencimento - ela explica como representamos uma comunidade, nem explica completamente por que determinados vínculos persistem durante séculos, mesmo quando desaparecem as circunstâncias políticas que lhes deram origem.
Diversas comunidades sobrevivem à queda de governos, à mudança de fronteiras e até ao desaparecimento dos próprios Estados. Isso sugere que existe uma dimensão do pertencimento que antecede a representação imaginada.
A contribuição de John Borneman
John Borneman aproxima o problema do pertencimento da experiência concreta da vida humana. Ao distinguir nationness da simples pertença jurídica ao Estado, demonstra que o vínculo comunitário possui uma dimensão existencial. Pertencer não significa apenas possuir determinada nacionalidade, mas reconhecer uma comunidade como lar. Essa distinção desloca a análise da esfera exclusivamente política para a esfera antropológica.
A comunidade como descoberta
É precisamente aqui que se propõe o conceito de comunidade revelada. Uma comunidade revelada não nasce exclusivamente da imaginação coletiva. mas da descoberta ao longo da experiência histórica.
Os homens não inventam completamente a comunidade - eles a reconhecem progressivamente. Eles descobrem vínculos que já existiam em potência; reconhecem tradições, instituições, símbolos, memórias, formas de convivência e responsabilidades herdadas. Nesse sentido, a comunidade torna-se objeto de conhecimento antes de tornar-se objeto de construção.
O municipalismo português
A história portuguesa fornece um exemplo particularmente rico. Os concelhos medievais não surgiram como produtos de um projeto nacionalista - eles foram comunidades concretas de vizinhança, responsabilidade, administração da justiça e defesa comum.
Ao expandir-se para o ultramar, Portugal transplantou essas instituições. No Brasil, vilas, câmaras e municípios tornaram-se núcleos permanentes de organização política.
Foi nesse ambiente que se formaram as futuras províncias. Essas comunidades não foram simplesmente imaginadas: elas foram vividas, pois a identidade dessas comunidades nasceu da experiência cotidiana.
As escolas de nacionidade
Pode-se compreender essas comunidades municipais como verdadeiras escolas de nacionidade. Nelas, aprendia-se a servir ao bem comum, aprendia-se a administrar, aprendia-se a cooperar., aprendia-se a reconhecer determinado lugar como lar. Essa aprendizagem produzia pertencimento antes mesmo da existência do Estado nacional brasileiro.
Viktor Frankl e o sentido
Viktor Frankl observou que o homem não vive apenas de estruturas materiais - ele procura sentido.
Também as comunidades necessitam de um princípio de sentido - sem ele, o pertencimento transforma-se em mera conveniência administrativa. O território converte-se apenas em espaço, a cidadania reduz-se a documento e o lar desaparece.
A cristianização da nacionidade
É nesse ponto que a noção de nacionidade recebe uma interpretação cristã. Tomar um país como lar exige um fundamento capaz de transcender tanto o indivíduo quanto o Estado.
Esse fundamento não é o nacionalismo e também não é o próprio Estado. É uma ordem de sentido que orienta a vida comum.
Daí a fórmula:
Tomar um país como um lar em Cristo, por Cristo e para Cristo.
Essa expressão impede tanto a idolatria do Estado quanto a dissolução das comunidades históricas. O pertencimento deixa de ser absoluto e passa a ser participação numa ordem civilizacional superior.
Paradiplomacia e comunidades reveladas
A paradiplomacia oferece hoje um instrumento privilegiado para tornar visíveis essas comunidades, pois cada estado brasileiro preserva uma memória própria, cada região manifesta uma vocação particular, cada tradição local acrescenta algo ao patrimônio nacional.
Ao projetar internacionalmente essas identidades, a paradiplomacia não cria artificialmente novas comunidades - ela revela comunidades históricas que continuam vivas. Nesse sentido, sua função aproxima-se mais da descoberta do que da invenção.
O soft power e a revelação
Joseph Nye definiu o soft power como a capacidade de atrair. Essa atração normalmente decorre da cultura, dos valores e das instituições.
Pode-se acrescentar que ela depende também da autenticidade histórica. Quanto mais uma comunidade permanece fiel àquilo que realmente é, maior sua capacidade de atrair outros povos. O soft power nasce, assim, menos da propaganda do que da coerência entre identidade e ação.
Considerações finais
A teoria das comunidades imaginadas permanece uma das maiores contribuições para o estudo do nacionalismo moderno. Entretanto, ela pode ser enriquecida por uma perspectiva complementar.
Nem toda comunidade é apenas imaginada - algumas comunidades são progressivamente reveladas pela experiência histórica. Elas manifestam uma continuidade institucional, cultural e espiritual que atravessa gerações.
Sob essa perspectiva, o Brasil pode ser compreendido como uma comunhão de comunidades reveladas, formadas pelo municipalismo português, consolidadas nas províncias do Império e preservadas, ainda hoje, nas identidades dos estados da Federação.
A paradiplomacia torna-se, então, um instrumento de manifestação internacional dessas comunidades, permitindo que seu patrimônio histórico, cultural e civilizacional seja conhecido além das fronteiras nacionais.
Assim, a nacionidade deixa de ser apenas um sentimento subjetivo ou uma construção ideológica. Ela passa a representar o reconhecimento progressivo de uma comunidade histórica que se descobre como lar, cuja unidade encontra seu sentido último não na absolutização do Estado, mas numa ordem civilizacional transcendente.
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