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terça-feira, 30 de junho de 2026

A paradiplomacia fluminense: da perda da capital federal à construção de uma política internacional para o estado do Rio de Janeiro

Introdução

A história da paradiplomacia do Estado do Rio de Janeiro não começa com a criação de uma subsecretaria ou de um órgão de relações internacionais. Suas raízes encontram-se em um acontecimento muito mais profundo: a transferência da capital federal para Brasília, em 21 de abril de 1960.

A mudança da capital alterou radicalmente a posição do antigo Distrito Federal dentro da federação brasileira. A cidade do Rio de Janeiro deixou de ser o centro político do país e passou a constituir o Estado da Guanabara, enquanto o antigo Estado do Rio de Janeiro permaneceu com capital em Niterói. Essa reorganização inaugurou um novo desafio: como manter a projeção internacional da principal metrópole brasileira sem concentrar nela os poderes da República?

A resposta a essa pergunta foi sendo construída ao longo de décadas e culminou na institucionalização da paradiplomacia fluminense.

O trauma institucional de 1960

Durante quase dois séculos, o Rio de Janeiro havia sido simultaneamente:

  • capital do Império Português na América;
  • capital do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves;
  • capital do Império do Brasil;
  • capital da República.

Toda a infraestrutura diplomática brasileira havia sido construída em torno da cidade.

Com a inauguração de Brasília, ocorreu uma ruptura histórica.

Embora o Ministério das Relações Exteriores tenha se transferido para a nova capital, o Rio continuou concentrando:

  • consulados;
  • empresas multinacionais;
  • organismos internacionais;
  • bancos estrangeiros;
  • centros culturais;
  • universidades;
  • instituições científicas.

Em outras palavras, deixou de ser o centro político, mas permaneceu um dos principais centros internacionais do Brasil. Essa condição peculiar criou espaço para uma atuação internacional própria do governo estadual.

A fusão dos estados e a ampliação da escala

Em 1975 ocorreu a fusão entre o Estado da Guanabara e o antigo Estado do Rio de Janeiro. O novo ente federativo passou a reunir características pouco comuns:

  • uma metrópole global;
  • grandes portos;
  • importante parque industrial;
  • produção petrolífera crescente;
  • extensa atividade turística;
  • forte produção cultural.

Essa combinação aumentou o interesse de governos estrangeiros em manter relações diretas com o Estado.Ao mesmo tempo, crescia internacionalmente um fenômeno que mais tarde receberia o nome de paradiplomacia: a atuação internacional de governos subnacionais.

A pioneira Assessoria de Relações Internacionais

Foi nesse contexto que surgiu um dos marcos da administração pública brasileira.

Em 1983, durante o primeiro governo de Leonel Brizola, foi criada a Assessoria de Relações Internacionais do Estado do Rio de Janeiro.

Trata-se do primeiro órgão permanente de relações internacionais criado por um estado brasileiro. Sua direção foi entregue ao cientista político Clóvis Brigagão, que estruturou uma política voltada para:

  • cooperação internacional;
  • intercâmbio científico;
  • relações culturais;
  • diálogo com organismos multilaterais;
  • aproximação com governos estrangeiros.

Naquele momento, a iniciativa era relativamente inovadora - poucos países discutiam de forma sistemática o papel internacional das unidades federadas.

A consolidação da paradiplomacia

Nas décadas seguintes, diversos fatores ampliaram a importância da atuação internacional dos estados brasileiros.

Entre eles destacam-se:

  • globalização econômica;
  • integração dos mercados;
  • fortalecimento das cidades globais;
  • expansão do investimento estrangeiro direto;
  • crescimento dos organismos multilaterais de financiamento.

Estados passaram a disputar:

  • investimentos;
  • financiamentos;
  • centros de pesquisa;
  • grandes empresas;
  • eventos internacionais.

A diplomacia tradicional da União permanecia responsável pela política externa, mas surgia um novo espaço de atuação voltado ao desenvolvimento regional.

A internacionalização do Rio de Janeiro

Nos anos 2000 o Estado passou por um novo ciclo de crescimento. Entre os fatores mais relevantes estavam:

  • expansão da indústria de petróleo;
  • desenvolvimento da Bacia de Campos;
  • criação do COMPERJ;
  • fortalecimento da indústria naval;
  • crescimento do turismo;
  • preparação para grandes eventos esportivos.

O Rio passou a receber atenção crescente de investidores internacionais. A antiga assessoria tornou-se insuficiente para coordenar todas essas relações.

A criação da Subsecretaria de Relações Internacionais

Em 2007, durante o governo Sérgio Cabral, a área foi elevada à categoria de Subsecretaria de Relações Internacionais, formalizada administrativamente em 2008.

A mudança representou uma alteração qualitativa, pois a atuação internacional deixou de ser predominantemente protocolar para incorporar funções estratégicas como:

  • atração de investimentos;
  • promoção econômica;
  • cooperação técnica;
  • captação de recursos internacionais;
  • coordenação da ação internacional das secretarias estaduais;
  • relacionamento com consulados e embaixadas.

A paradiplomacia passou a integrar diretamente a estratégia de desenvolvimento do Estado.

A década dos grandes eventos

Entre 2007 e 2016, o Rio viveu intensa exposição internacional.

Destacam-se:

  • Jogos Pan-Americanos de 2007;
  • Conferência Rio+20 em 2012;
  • Jornada Mundial da Juventude de 2013;
  • Copa do Mundo FIFA de 2014;
  • Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016.

A preparação desses eventos exigiu intensa articulação entre:

  • governo federal;
  • governo estadual;
  • prefeitura;
  • organismos internacionais;
  • governos estrangeiros;
  • bancos multilaterais.

A Subsecretaria de Relações Internacionais desempenhou papel relevante nessa coordenação.

A paradiplomacia contemporânea

Nos últimos anos, a paradiplomacia fluminense passou a concentrar esforços em áreas como:

  • desenvolvimento sustentável;
  • inovação;
  • cidades inteligentes;
  • transição energética;
  • economia azul;
  • investimentos verdes;
  • cooperação acadêmica;
  • segurança pública;
  • transformação digital.

Ao mesmo tempo, busca ampliar a inserção internacional do Estado mediante acordos de cooperação técnica e participação em redes internacionais de governos subnacionais.

A singularidade fluminense

A experiência do Rio de Janeiro distingue-se da maioria dos estados brasileiros por razões históricas: o estado herdou uma infraestrutura internacional construída durante séculos em que a cidade foi capital do Império Português, do Reino Unido, do Império do Brasil e da República.

Mesmo após a transferência da capital para Brasília, permaneceu concentrando uma das maiores redes consulares da América Latina, além de universidades, centros culturais, empresas multinacionais e organismos internacionais.

Sua paradiplomacia, portanto, não surgiu para substituir a diplomacia brasileira, mas para explorar institucionalmente essa vocação internacional remanescente.

Conclusão

A paradiplomacia fluminense representa um exemplo de adaptação institucional às transformações do Estado brasileiro e da ordem internacional.

O que começou como uma resposta à perda do status de capital federal transformou-se em uma política pública voltada ao desenvolvimento econômico, à cooperação internacional e à inserção global do Estado.

Ao longo de mais de quatro décadas, o Rio de Janeiro consolidou-se como pioneiro na institucionalização da atuação internacional dos entes subnacionais brasileiros. Sua experiência demonstra que a paradiplomacia não constitui uma política externa paralela, mas um instrumento complementar de desenvolvimento, por meio do qual estados e municípios buscam oportunidades de cooperação, investimento e inovação, sempre em consonância com as competências constitucionais da União.

Bibliografia comentada

  • Brigagão, Clóvis. Relações Internacionais Federativas e Paradiplomacia. Obra de referência para compreender a atuação internacional dos governos subnacionais brasileiros e o pioneirismo do Rio de Janeiro.
  • Keating, Michael. Paradiplomacy and Regional Networking. Estudo clássico sobre a internacionalização de regiões e estados em sistemas federativos.
  • Soldatos, Panayotis. An Explanatory Framework for the Study of Federated States as Foreign-policy Actors. Texto fundamental para a formulação teórica do conceito de paradiplomacia.
  • Duchacek, Ivo D. The Territorial Dimension of Politics. Um dos primeiros autores a analisar sistematicamente a atuação internacional de governos subnacionais.
  • Governo do Estado do Rio de Janeiro. Paradiplomacia do Estado do Rio de Janeiro: 2007–2017. Publicação institucional que documenta a evolução da política internacional fluminense, seus projetos, acordos e resultados ao longo da década.
  • Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Especialmente os dispositivos que atribuem à União a competência para conduzir a política externa, estabelecendo os limites e as possibilidades da atuação internacional dos estados e municípios.

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