Introdução
Durante muitos anos, conservei um exemplar do livro Um Mapa da Questão Nacional, publicado pela Contraponto em 2000. Curiosamente, quase nunca o utilizei para leitura. Em vez disso, ele serviu como base para apoiar outros livros durante o processo de digitalização.
Ao final de muitos anos, descobri um resultado inesperado: sem qualquer intenção deliberada, eu havia "fabricado" um livro de sebo, não no sentido comercial da expressão, mas no sentido físico. O livro adquiriu a aparência de um exemplar antigo, embora sua estrutura permanecesse praticamente intacta. Essa pequena experiência merece ser registrada, pois talvez seja útil para outros pesquisadores que trabalham na construção de bibliotecas digitais.
O envelhecimento silencioso
Enquanto servia de apoio para outros volumes, o livro permaneceu quase sempre fechado.
Sua lombada praticamente não sofreu esforço mecânico. As folhas não foram repetidamente dobradas. As capas permaneceram firmes.
Entretanto, o tempo continuou trabalhando - as páginas tornaram-se amareladas pela oxidação natural da celulose, surgiram pequenas manchas decorrentes do contato prolongado com os móveis e com o ambiente, o papel perdeu parte da umidade original, tornando-se menos rígido.
O aspecto visual passou a lembrar o de um exemplar encontrado em um sebo, mas sua estrutura permanecia semelhante a de um livro novo.
A surpresa durante a digitalização
Quando finalmente chegou o momento de digitalizar o próprio livro, ocorreu a surpresa. As páginas já não apresentavam a resistência típica dos livros recém-impressos. A curvatura "rebelde", típica das folhas jovens, praticamente havia desaparecido. O papel aceitava naturalmente a abertura do volume, reduzindo o esforço necessário para manter as páginas planas durante a captura das imagens.
O resultado foi um processo de digitalização muito mais rápido do que teria sido vinte anos antes. Sem perceber, o tempo havia preparado o livro para sua preservação digital.
Um envelhecimento semelhante ao vinho no tonel de carvalho
A experiência lembrou-me imediatamente o envelhecimento de bebidas em tonéis de carvalho - o barril não transforma a essência da bebida, mas modifica suas propriedades ao longo do tempo.
De maneira semelhante, o ambiente modificou as características físicas do livro - não se tratou de desgaste provocado pelo uso, mas de uma lenta estabilização produzida pelos anos. O objeto permaneceu essencialmente o mesmo, mas seu comportamento físico tornou-se diferente.
Um paradoxo bibliográfico
Existe aqui um curioso paradoxo: um livro recém-saído da gráfica costumam ser mais difícil de digitalizar, pois a cola ainda está rígida, o papel conserva elevada elasticidade e as folhas insistem em retornar à posição fechada. Já um livro envelhecido, desde que bem conservado, frequentemente oferece maior facilidade de abertura.
Em outras palavras, o passar do tempo pode aumentar a eficiência do processo de preservação. O envelhecimento, normalmente percebido como uma ameaça ao livro, pode também representar uma vantagem operacional, no tocante ao processo de digitalização.
A diferença entre envelhecimento e desgaste
Essa experiência também permite distinguir duas formas completamente diferentes de envelhecimento: há o envelhecimento provocado pelo uso intenso - nesse caso, aparecem dobras, rasgos, lombadas quebradas, anotações e deformações estruturais. Mas existe também o envelhecimento provocado simplesmente pela ação lenta do tempo.
O meu exemplar pertence claramente à segunda categoria. Ele adquiriu a pátina dos anos, mas não as cicatrizes da leitura. É um livro cronologicamente antigo, porém mecanicamente jovem.
Uma lição para quem constrói bibliotecas digitais
Quem trabalha durante muitos anos na digitalização de livros acaba desenvolvendo uma percepção que dificilmente aparece na literatura técnica.
Os livros possuem uma espécie de ciclo de maturação física, pois há um período inicial em que o papel ainda está excessivamente rígido, depois surge uma fase de equilíbrio em que o manuseio se torna mais fácil. Somente muito mais tarde aparecem os processos efetivos de deterioração.
Naturalmente, esse comportamento varia conforme a qualidade do papel, da encadernação e das condições ambientais, mas a experiência mostra que o tempo nem sempre atua apenas como inimigo da conservação - em determinadas circunstâncias, ele também pode se tornar aliado na preservação digital.
Conclusão
Durante anos utilizei Um Mapa da Questão Nacional apenas como suporte para digitalização de outros livros. Quando finalmente chegou sua vez de ser digitalizado, descobri que ele havia sido preparado pelo próprio tempo para a digitalização. Sem qualquer planejamento, eu havia produzido um curioso híbrido: um livro com aparência de sebo, estrutura de exemplar novo e excelente comportamento para digitalização.
Talvez essa pequena observação pareça insignificante, mas ela ilustra uma verdade frequentemente esquecida: o pesquisador que convive durante décadas com sua biblioteca acaba aprendendo lições que nenhum manual ensina. Algumas delas são descobertas intelectuais, enquanto o utras são simplesmente descobertas materiais, mas ambas nascem da mesma fonte: a convivência paciente com os livros.
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