Um simulador satírico sobre incentivos, burocracia e perda de governança
Existe uma antiga expressão inglesa que diz: "the inmates are running the asylum". Em tradução livre, significa que os internos passaram a administrar o hospício. A frase é utilizada para descrever situações em que aqueles que deveriam ser supervisionados assumem o controle da instituição, produzindo resultados cada vez mais absurdos.
A partir dessa ideia surge o conceito de um jogo fictício chamado NOCA: when the inmates are running the asylum.
Mais do que um simples jogo de humor, NOCA seria um simulador de governança institucional, incentivos econômicos e degradação administrativa, permitindo ao jogador observar como organizações podem se tornar progressivamente disfuncionais quando seus mecanismos de responsabilidade deixam de funcionar.
A premissa
O jogador assume a direção de uma instituição chamada NOCA.
Ninguém sabe exatamente o que significa a sigla. Alguns afirmam tratar-se de uma agência reguladora. Outros dizem ser uma prefeitura, uma universidade, um hospital, uma grande corporação ou mesmo uma casa ou um país inteiro.
A ambiguidade é intencional.
A organização começa relativamente funcional. Existem regras, orçamento, funcionários e objetivos claros.
Com o passar do tempo, entretanto, grupos internos começam a adquirir poder.
Cada grupo possui interesses próprios:
- Sindicatos.
- Departamentos administrativos.
- Consultores.
- Conselhos deliberativos.
- Comissões permanentes.
- Grupos de pressão.
- Influenciadores internos.
- Fornecedores privilegiados.
Nenhum deles deseja necessariamente destruir a organização.
Cada um busca apenas maximizar seus próprios interesses.
É justamente dessa soma de interesses particulares que surge o caos.
O verdadeiro inimigo: incentivos desalinhados
Ao contrário da maioria dos jogos de estratégia, NOCA não teria um vilão.
O inimigo seria a própria estrutura de incentivos.
O departamento de recursos humanos busca aumentar seu orçamento.
O departamento jurídico busca reduzir riscos.
O departamento financeiro busca reduzir custos.
O departamento de comunicação busca melhorar indicadores de imagem.
Cada decisão aparentemente racional produz consequências inesperadas para os demais setores.
Pouco a pouco a organização perde sua capacidade de cumprir sua missão original.
A burocracia passa a existir para alimentar a si mesma.
Mecânicas centrais
O jogo poderia ser estruturado em torno de cinco indicadores principais:
- Eficiência.
- Legitimidade.
- Moral interna.
- Sustentabilidade financeira.
- Complexidade burocrática.
O desafio consiste em manter esses fatores equilibrados.
O problema é que quase toda decisão melhora um indicador enquanto prejudica outro.
Contratar mais funcionários aumenta a satisfação interna, mas eleva os custos.
Criar novos controles reduz fraudes, mas diminui a eficiência.
Eliminar departamentos aumenta a produtividade, mas gera conflitos políticos.
O jogador descobre rapidamente que não existe solução perfeita.
O ciclo da decadência institucional
Uma das mecânicas mais interessantes seria a transformação gradual da organização.
No início, a instituição existe para cumprir sua missão.
Posteriormente, ela passa a existir para proteger seus processos.
Depois, para proteger seus departamentos.
Por fim, passa a existir apenas para preservar sua própria existência.
Nesse estágio, quase ninguém lembra qual era o objetivo original.
A organização continua crescendo, produzindo relatórios, realizando reuniões e consumindo recursos.
Mas já não entrega resultados proporcionais ao esforço empregado.
Humor e crítica social
Embora inspirado em conceitos sérios de economia e administração, NOCA seria essencialmente uma sátira.
O humor surgiria da observação de comportamentos humanos universais:
- Reuniões intermináveis.
- Relatórios que ninguém lê.
- Comissões criadas para avaliar outras comissões.
- Metas contraditórias.
- Indicadores que medem tudo, exceto aquilo que importa.
- Regulamentos que exigem novos regulamentos.
Quanto maior a organização se torna, mais difícil é distinguir eficiência de mera atividade.
Um laboratório para compreender instituições
Assim como simuladores econômicos ensinam conceitos de mercado, NOCA poderia ensinar princípios de governança.
O jogador perceberia que instituições não fracassam necessariamente por maldade.
Frequentemente elas fracassam porque indivíduos racionais respondem a incentivos imperfeitos.
O resultado coletivo torna-se irracional, mesmo quando as ações individuais parecem razoáveis.
Essa é uma das lições mais importantes da economia institucional moderna.
Conclusão
NOCA: When the Inmates Are Running the Asylum seria um jogo sobre algo raramente explorado nos videogames: o processo pelo qual organizações deixam de servir seus propósitos originais e passam a servir a si mesmas.
Sob a aparência de uma comédia administrativa, o jogo funcionaria como um experimento interativo sobre poder, burocracia, incentivos e natureza humana.
A maior ironia seria que o jogador não perderia porque seus subordinados fossem incompetentes.
Ele perderia porque, em determinado momento, descobriria que a instituição já não pertence mais a ninguém.
Ela passou a pertencer aos seus próprios mecanismos.
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