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quinta-feira, 4 de junho de 2026

NOCA: when the inmates are running the asylum

Um simulador satírico sobre incentivos, burocracia e perda de governança

Existe uma antiga expressão inglesa que diz: "the inmates are running the asylum". Em tradução livre, significa que os internos passaram a administrar o hospício. A frase é utilizada para descrever situações em que aqueles que deveriam ser supervisionados assumem o controle da instituição, produzindo resultados cada vez mais absurdos.

A partir dessa ideia surge o conceito de um jogo fictício chamado NOCA: when the inmates are running the asylum.

Mais do que um simples jogo de humor, NOCA seria um simulador de governança institucional, incentivos econômicos e degradação administrativa, permitindo ao jogador observar como organizações podem se tornar progressivamente disfuncionais quando seus mecanismos de responsabilidade deixam de funcionar.

A premissa

O jogador assume a direção de uma instituição chamada NOCA.

Ninguém sabe exatamente o que significa a sigla. Alguns afirmam tratar-se de uma agência reguladora. Outros dizem ser uma prefeitura, uma universidade, um hospital, uma grande corporação ou mesmo uma casa ou um país inteiro.

A ambiguidade é intencional.

A organização começa relativamente funcional. Existem regras, orçamento, funcionários e objetivos claros.

Com o passar do tempo, entretanto, grupos internos começam a adquirir poder.

Cada grupo possui interesses próprios:

  • Sindicatos.
  • Departamentos administrativos.
  • Consultores.
  • Conselhos deliberativos.
  • Comissões permanentes.
  • Grupos de pressão.
  • Influenciadores internos.
  • Fornecedores privilegiados.

Nenhum deles deseja necessariamente destruir a organização.

Cada um busca apenas maximizar seus próprios interesses.

É justamente dessa soma de interesses particulares que surge o caos. 

O verdadeiro inimigo: incentivos desalinhados

Ao contrário da maioria dos jogos de estratégia, NOCA não teria um vilão.

O inimigo seria a própria estrutura de incentivos.

O departamento de recursos humanos busca aumentar seu orçamento.

O departamento jurídico busca reduzir riscos.

O departamento financeiro busca reduzir custos.

O departamento de comunicação busca melhorar indicadores de imagem.

Cada decisão aparentemente racional produz consequências inesperadas para os demais setores.

Pouco a pouco a organização perde sua capacidade de cumprir sua missão original.

A burocracia passa a existir para alimentar a si mesma.

Mecânicas centrais

O jogo poderia ser estruturado em torno de cinco indicadores principais:

  • Eficiência.
  • Legitimidade.
  • Moral interna.
  • Sustentabilidade financeira.
  • Complexidade burocrática.

O desafio consiste em manter esses fatores equilibrados.

O problema é que quase toda decisão melhora um indicador enquanto prejudica outro.

Contratar mais funcionários aumenta a satisfação interna, mas eleva os custos.

Criar novos controles reduz fraudes, mas diminui a eficiência.

Eliminar departamentos aumenta a produtividade, mas gera conflitos políticos.

O jogador descobre rapidamente que não existe solução perfeita.

O ciclo da decadência institucional

Uma das mecânicas mais interessantes seria a transformação gradual da organização.

No início, a instituição existe para cumprir sua missão.

Posteriormente, ela passa a existir para proteger seus processos.

Depois, para proteger seus departamentos.

Por fim, passa a existir apenas para preservar sua própria existência.

Nesse estágio, quase ninguém lembra qual era o objetivo original.

A organização continua crescendo, produzindo relatórios, realizando reuniões e consumindo recursos.

Mas já não entrega resultados proporcionais ao esforço empregado.

Humor e crítica social

Embora inspirado em conceitos sérios de economia e administração, NOCA seria essencialmente uma sátira.

O humor surgiria da observação de comportamentos humanos universais:

  • Reuniões intermináveis.
  • Relatórios que ninguém lê.
  • Comissões criadas para avaliar outras comissões.
  • Metas contraditórias.
  • Indicadores que medem tudo, exceto aquilo que importa.
  • Regulamentos que exigem novos regulamentos.

Quanto maior a organização se torna, mais difícil é distinguir eficiência de mera atividade.

Um laboratório para compreender instituições

Assim como simuladores econômicos ensinam conceitos de mercado, NOCA poderia ensinar princípios de governança.

O jogador perceberia que instituições não fracassam necessariamente por maldade.

Frequentemente elas fracassam porque indivíduos racionais respondem a incentivos imperfeitos.

O resultado coletivo torna-se irracional, mesmo quando as ações individuais parecem razoáveis.

Essa é uma das lições mais importantes da economia institucional moderna.

Conclusão

NOCA: When the Inmates Are Running the Asylum seria um jogo sobre algo raramente explorado nos videogames: o processo pelo qual organizações deixam de servir seus propósitos originais e passam a servir a si mesmas.

Sob a aparência de uma comédia administrativa, o jogo funcionaria como um experimento interativo sobre poder, burocracia, incentivos e natureza humana.

A maior ironia seria que o jogador não perderia porque seus subordinados fossem incompetentes.

Ele perderia porque, em determinado momento, descobriria que a instituição já não pertence mais a ninguém.

Ela passou a pertencer aos seus próprios mecanismos.

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