Há experiências mentais que, embora pareçam meras brincadeiras, ajudam a compreender melhor as regras e a lógica de uma atividade. Imaginar uma partida de basquete disputada exclusivamente por sacis é uma delas.
O Saci-Pererê, personagem tradicional do folclore brasileiro, possui apenas uma perna e se locomove saltando. Se todos os atletas de uma liga profissional fossem sacis, surgiria imediatamente uma questão interessante: a regra do travelling continuaria existindo?
À primeira vista, a resposta parece negativa. Afinal, se todos os jogadores andam pulando, não haveria propriamente uma caminhada a ser regulada. O deslocamento por saltos seria a forma natural de locomoção de todos os participantes. O que, no basquete convencional, parece uma exceção, tornar-se-ia a regra.
No entanto, uma análise mais cuidadosa mostra que a situação é mais complexa. A regra do travelling não existe para impedir que os jogadores andem. Sua finalidade é impedir que um atleta obtenha vantagem deslocando-se com a bola sem driblá-la. O objetivo é preservar o equilíbrio entre movimentação e controle da posse de bola.
Assim, mesmo numa hipotética Liga Nacional de Basquete dos Sacis, alguma forma de travelling continuaria necessária. Os árbitros talvez não contassem passos, mas sim saltos. Um salto poderia equivaler a um passo. Dois ou três saltos sem drible poderiam caracterizar infração. Alternativamente, a regra poderia limitar a distância percorrida com a bola nas mãos.
Essa adaptação produziria um esporte fascinante. A impulsão física seria ainda mais importante do que no basquete tradicional. Cada mudança de direção exigiria enorme equilíbrio corporal. Os treinadores desenvolveriam técnicas específicas para aproveitar a energia dos saltos, e os preparadores físicos concentrariam seus esforços no fortalecimento da única perna dos atletas.
Os fundamentos do jogo também sofreriam transformações. O drible teria características próprias, pois o jogador precisaria coordenar o quique da bola com a sequência de saltos. As bandejas seriam executadas de forma diferente, e os arremessos em suspensão talvez se tornassem mais comuns, já que o atleta estaria frequentemente em movimento vertical.
As posições clássicas também poderiam mudar. Armadores-sacis precisariam possuir extraordinária agilidade para conduzir a bola enquanto saltam. Alas-sacis dependeriam de impulsão e equilíbrio para criar espaço contra os marcadores. Já os pivôs-sacis se tornariam verdadeiros especialistas em rebotes, utilizando técnica refinada para compensar a ausência de uma segunda perna.
O aspecto mais curioso dessa experiência imaginária é que ela revela algo importante sobre as regras esportivas. Muitas vezes pensamos que as regras são verdades absolutas. Na realidade, elas são adaptações às características físicas dos participantes. Se os seres humanos tivessem anatomia diferente, os esportes também seriam diferentes.
O futebol existe porque possuímos pés. O basquete foi criado para pessoas capazes de correr e saltar com duas pernas. Uma sociedade composta por sacis provavelmente desenvolveria modalidades esportivas inteiramente distintas ou modificaria profundamente aquelas que herdasse dos humanos convencionais.
Nesse mundo imaginário, o travelling não desapareceria. Ele apenas seria redefinido. Afinal, mesmo quando todos pulam, continua sendo necessário impedir que alguém leve vantagem injusta sobre os demais.
E talvez essa seja a principal lição do basquete dos sacis: as regras mudam, os costumes mudam e até mesmo a forma de se locomover pode mudar. Mas a busca por uma competição justa permanece a mesma.
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