Vivemos numa época obcecada por placares. Contam-se seguidores, curtidas, patrimônio, títulos acadêmicos, posições sociais e prestígio. A cada instante, o homem moderno é convidado a comparar-se com os outros e a medir o seu valor segundo critérios exteriores. Sua felicidade passa a depender da aprovação da multidão e seu fracasso se torna sinônimo de rejeição social.
Contra essa mentalidade, o investidor Luiz Barsi costuma falar da necessidade de se fazer uma auditoria do placar interno. Em vez de perguntar o que os outros pensam, a pessoa deveria perguntar a si mesma se está sendo disciplinada, coerente e fiel aos seus princípios. Trata-se de uma mudança importante: deixar de viver para a plateia e começar a viver segundo convicções próprias.
Todavia, há uma pergunta ainda mais profunda: e se o placar interno também estiver errado? Afinal, o homem pode enganar os outros, mas também pode enganar a si mesmo. Pode abandonar a busca pelo aplauso social apenas para alimentar uma forma mais refinada de orgulho, passando a admirar a própria independência, a própria inteligência ou a própria força de vontade.
É aqui que a tradição cristã propõe uma terceira via: o placar da eternidade. São João Maria Vianney, o Cura d'Ars, viveu com a consciência de que a única plateia cuja aprovação realmente importa é formada por Deus, pelos anjos e pelos santos. Diante dessa plateia invisível, desaparecem os aplausos do mundo e até mesmo a satisfação pessoal perde importância.
O critério deixa de ser:
"Os outros me aprovam?"
Ou:
"Eu me aprovo?"
E passa a ser:
"Minha vida está conforme a verdade?"
Essa mudança é radical. O homem que vive pelo placar externo torna-se escravo da opinião pública. O homem que vive pelo placar interno torna-se senhor de si mesmo. Mas o homem que vive pelo placar da eternidade torna-se servo da Verdade, e justamente por isso alcança a verdadeira liberdade. Ele não precisa vencer todas as disputas. Não precisa ter razão em todas as discussões. Não precisa receber reconhecimento em vida. Seu olhar está fixado em algo maior.
Essa atitude se aproxima de uma das ideias mais fecundas do economista francês Frédéric Bastiat: a distinção entre aquilo que se vê e aquilo que não se vê.
Na economia, Bastiat ensinava que os efeitos mais importantes de uma decisão costumam ser invisíveis à primeira vista. Há consequências distantes no tempo, custos ocultos e oportunidades sacrificadas que escapam ao observador apressado.
Na vida moral ocorre algo semelhante. O que se vê é a riqueza. O que não se vê é a honestidade que a produziu; o que se vê é a fama. O que não se vê é a vaidade que a alimenta; o que se vê é o sofrimento .O que não se vê é a virtude adquirida ao suportá-lo. O que se vê é a derrota; o que não se vê é a fidelidade mantida apesar dela. O homem do placar externo vive apenas do que se vê; o homem do placar interno aprende a valorizar algumas coisas invisíveis; o homem do placar da eternidade orienta toda a sua existência por aquilo que ainda não pode ver plenamente. Ele planta sem saber se colherá, trabalha sem exigir reconhecimento, estuda sem esperar aplausos, ama sem calcular retorno, pois acredita que existe um Juiz que conhece todas as intenções e uma pátria definitiva que transcende este mundo.
Por isso que os santos frequentemente parecem derrotados aos olhos de sua época. Muitos morreram pobres.Outros foram ridicularizados. Alguns foram perseguidos e caluniados. Mas nenhum deles considerava isso um fracasso.O horizonte de consciência deles não era a opinião dos contemporâneos, mas a eternidade.
Talvez a maior tragédia do homem moderno não seja a pobreza material nem a falta de oportunidades. Talvez seja viver cercado de placares e esquecer qual deles realmente importa. Quando isso acontece, ganha-se dinheiro e perde-se a alma. Conquista-se reputação e perde-se a paz. Obtém-se admiração e perde-se a verdade.
A auditoria do placar interno é um grande progresso em relação à escravidão da aprovação social, mas existe uma auditoria ainda mais profunda. É aquela feita diante de Deus. Diante dela, pouco importa quantos aplausos recebemos, quantas riquezas acumulamos ou quantos adversários vencemos. O que importa é se fomos fiéis ou não - no fim das contas, o único placar que permanecerá é o da eternidade.
Nenhum comentário:
Postar um comentário