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terça-feira, 2 de junho de 2026

De Lies of P a Lies of L: o homem como animal que mente

Quando o RPG de ação Lies of P foi lançado, muitos jogadores enxergaram nele apenas uma releitura sombria da história de Pinóquio. No entanto, o conceito central do jogo — a mentira — possui um alcance filosófico muito mais amplo do que a simples moral infantil do boneco cujo nariz cresce ao faltar com a verdade.

Se imaginássemos uma continuação espiritual intitulada Lies of L, o foco deixaria de ser Pinóquio e passaria a ser o próprio homem. O "L" não representaria um indivíduo específico, mas o Liar, o mentiroso. Em vez das mentiras de um personagem, o jogo trataria das mentiras da humanidade.

O homem kantiano e o problema da mentira

A filosofia moderna frequentemente descreve o homem como um ser racional e autônomo. Na obra de Immanuel Kant, a razão humana ocupa um lugar central. O homem é visto como capaz de conhecer, deliberar e agir segundo princípios morais livremente escolhidos.

Entretanto, a experiência concreta sugere algo mais complexo. O homem raramente se apresenta ao mundo como realmente é. Ele constrói máscaras, narrativas e justificativas. Frequentemente racionaliza seus interesses, disfarça suas paixões e interpreta a realidade de maneira favorável a si mesmo.

Nesse sentido, a mentira não seria apenas um ato ocasional, mas um componente estrutural da existência humana.

O homem mente aos outros.

O homem mente para si mesmo.

O homem mente sobre suas motivações.

O homem mente sobre sua história.

O homem mente sobre aquilo que considera verdadeiro.

A tragédia humana talvez não esteja apenas na capacidade de mentir, mas na capacidade de acreditar nas próprias mentiras.

A inversão do mito de Pinóquio

No conto tradicional, Pinóquio mente porque ainda não alcançou sua plena humanidade. O objetivo da narrativa é mostrar sua transformação moral até que ele se torne um menino de verdade.

Em Lies of L, essa lógica seria invertida.

Pinóquio mentia porque não era plenamente humano.

O protagonista de Lies of L mentiria justamente porque é humano.

A mentira deixaria de ser um obstáculo à humanidade para tornar-se uma das características fundamentais da condição humana.

O jogo poderia explorar a descoberta gradual de que todas as instituições, ideologias e identidades são sustentadas por narrativas parcialmente fictícias. O jogador perceberia que não existe uma única mentira central a ser derrotada. A própria realidade social seria uma teia de ficções compartilhadas.

Como poderia funcionar como videogame

A mecânica principal poderia expandir o sistema moral de Lies of P.

Em vez de simplesmente escolher entre verdade e mentira, o jogador construiria versões da realidade.

Cada decisão alteraria não apenas os diálogos, mas a própria percepção do mundo.

Personagens diferentes se lembrariam dos mesmos eventos de formas incompatíveis.

Documentos encontrados ao longo da jornada apresentariam versões contraditórias da história.

Facções inteiras seriam construídas sobre interpretações rivais dos mesmos fatos.

O jogador nunca teria certeza absoluta sobre o que realmente aconteceu.

A pergunta deixaria de ser:

"Você está mentindo?"

e passaria a ser:

"Existe alguma narrativa completamente verdadeira?"

Influências filosóficas possíveis

O jogo poderia dialogar com vários pensadores da modernidade.

Pascal, ao mostrar a miséria e a grandeza do homem.

Nietzsche, ao investigar as origens humanas da verdade.

Freud, ao revelar mecanismos de autoengano.

Dostoiévski, ao explorar a capacidade humana de justificar qualquer ação.

E até mesmo Kant, cuja confiança na razão serviria como contraponto dramático a um mundo dominado por interpretações conflitantes.

O resultado poderia ser um RPG filosófico em que o combate não fosse apenas contra monstros, mas contra ilusões.

Haveria mercado para um jogo assim?

A resposta é provavelmente sim.

Nos últimos anos houve um crescimento significativo do interesse por jogos que abordam temas existenciais, psicológicos e filosóficos. Títulos como Disco Elysium, Nier: Automata, The Talos Principle, SOMA e o próprio Lies of P demonstraram que existe público para experiências intelectualmente ambiciosas.

Um Lies of L bem executado poderia ocupar um espaço raro no mercado: o de um RPG de ação que combina combate desafiador com reflexão filosófica profunda.

O maior desafio não seria técnico, mas narrativo. A obra precisaria evitar transformar filosofia em mera exposição de conceitos. As ideias teriam de surgir naturalmente das escolhas do jogador e das consequências dessas escolhas.

Conclusão

Enquanto Lies of P pergunta se um boneco pode tornar-se humano, Lies of L perguntaria se o homem é capaz de escapar de suas próprias mentiras.

Talvez o verdadeiro horror não seja descobrir que fomos enganados.

Talvez seja descobrir que participamos voluntariamente do engano.

E talvez a jornada do herói não consista em derrotar monstros, mas em atravessar camadas sucessivas de autoilusão até encontrar algo que permaneça verdadeiro quando todas as máscaras forem removidas.

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