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sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Adaptabilidade e Circunstância: de Ortega y Gasset à guerra da Ucrânia e à crise da CLT no Brasil

Introdução

A filosofia de José Ortega y Gasset, marcada pela máxima “Eu sou eu e minha circunstância”, coloca a adaptabilidade no centro da existência humana. Para Ortega, viver não é apenas existir, mas responder criativamente às condições dadas, transformando hostilidade em possibilidade. Essa visão ganha atualidade tanto no campo militar quanto no econômico e político, sobretudo diante da guerra entre Ucrânia e Rússia e do debate sobre a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) no Brasil.

1. Ortega y Gasset: a adaptabilidade como núcleo da vida humana

Segundo Ortega, o homem não possui uma essência fixa e imutável: ele é chamado a construir-se nas circunstâncias que o cercam. A guerra, como situação-limite, mostra de maneira dramática a necessidade dessa adaptabilidade, já que expõe indivíduos e coletividades à aniquilação. Assim, sobreviver é absorver os dados da realidade, compreendê-los e reorganizar a ação a partir deles.

2. A guerra como prova máxima de adaptabilidade

A história mostra que a guerra sempre acelerou processos de inovação. O barril romano, que substituiu a ânfora, exemplifica essa dinâmica ao tornar-se ao mesmo tempo instrumento de comércio, logística militar e arma incendiária. O mesmo ocorre em conflitos modernos.

Na guerra entre Ucrânia e Rússia, observa-se:

  • Descentralização organizacional: a Ucrânia se apoia em pequenas unidades autônomas, mais ágeis que as estruturas centralizadas do inimigo.

  • Uso intensivo de dados e IA: drones, satélites e sistemas de análise permitem respostas em tempo real, transformando informação em vantagem estratégica.

  • Circunstâncias como insumo: terreno, clima e rede de comunicação (como o Starlink) são incorporados à adaptação tática, fazendo da hostilidade uma ferramenta.

Esses elementos confirmam a tese orteguiana: a vida só se mantém pela adaptabilidade, especialmente no ambiente mais hostil de todos — a guerra.

3. Reflexo no Brasil: CLT, autoritarismo e a negação da adaptabilidade

Enquanto a guerra evidencia o valor da adaptabilidade, o Brasil mantém um arcabouço trabalhista enraizado na rigidez.

  • A CLT, criada em 1943 sob Getúlio Vargas, é filha da Carta del Lavoro de Mussolini, um documento fascista que consolidava o controle estatal sobre as relações de trabalho.

  • Sua estrutura reflete a tradição autoritária instaurada na República brasileira desde 1889, marcada pelo positivismo militar que derrubou a monarquia e instaurou um regime de tutela sobre a sociedade.

  • Na era digital, a CLT se mostra cada vez mais inflexível, incapaz de responder a novas formas de trabalho baseadas em plataformas, na mobilidade e na descentralização produtiva.

Não surpreende, portanto, o crescimento de uma cultura popular de rejeição à CLT, vista como obstáculo à liberdade contratual e à adaptabilidade exigida pela contemporaneidade.

Conclusão

A filosofia de Ortega y Gasset nos ensina que a vida humana depende da capacidade de salvar as circunstâncias. A guerra da Ucrânia revela como a adaptabilidade — pela descentralização, pelo uso inteligente de dados e pela mobilidade — pode transformar fragilidade em força. Já o Brasil, ao manter estruturas herdadas de um passado autoritário como a CLT, exemplifica a estagnação que decorre da negação dessa mesma adaptabilidade.

Se a sobrevivência, seja no campo de batalha ou no mercado de trabalho, exige reinventar-se diante do imprevisto, então a lição orteguiana permanece atual: quem não adapta suas instituições às circunstâncias, condena-se à derrota.

Bibliografia

  • Ortega y Gasset, J. Meditaciones del Quijote. Madrid: Revista de Occidente, 1914.

  • Ortega y Gasset, J. La rebelión de las masas. Madrid: Espasa-Calpe, 1930.

  • Keegan, J. A History of Warfare. New York: Vintage, 1994.

  • Freedman, L. Strategy: A History. Oxford: Oxford University Press, 2013.

  • Fiori, J. L. História, estratégia e desenvolvimento. São Paulo: Boitempo, 2014.

  • Delgado, M. G. Curso de Direito do Trabalho. São Paulo: LTr, 2021.

  • Gomes, A. C. A invenção do trabalhismo. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2005.

A descentralização produtiva na Guerra da Ucrânia e a doutrina da adaptabilidade

Introdução

A guerra da Ucrânia revelou uma transformação produtiva que vai além do campo militar. A descentralização na fabricação de drones e outros equipamentos de combate reflete uma mudança estrutural comparável a uma revolução industrial acelerada pela necessidade da guerra. Essa nova forma de produção confirma a tese de José Ortega y Gasset, para quem o homem é inseparável de suas circunstâncias, e mostra como o contexto bélico obriga sociedades inteiras a reinventarem suas formas de organização.

Essa reinvenção se conecta diretamente à lógica da Indústria 4.0: descentralização, automação, digitalização e integração de sistemas inteligentes. A guerra, portanto, funciona como catalisador de tendências já em curso na economia global.

A Indústria 4.0 no campo de batalha

A Quarta Revolução Industrial é marcada por tecnologias como Internet das Coisas (IoT), inteligência artificial (IA), big data, impressão 3D e cadeias produtivas descentralizadas. Esses elementos estão presentes de forma explícita na guerra da Ucrânia:

  • Drones impressos em 3D: peças de reposição e até estruturas completas são fabricadas localmente, sem necessidade de depender de fábricas centrais.

  • Inteligência Artificial: algoritmos processam imagens de satélite, interpretam dados de campo e até controlam sistemas de navegação autônoma.

  • IoT militar: sensores conectados em rede permitem mapear movimentos inimigos em tempo real e integrar diferentes unidades de combate.

  • Big Data: análise massiva de dados oriundos de redes sociais, comunicações interceptadas e imagens de drones para planejamento estratégico.

  • Descentralização produtiva: pequenas oficinas e startups substituem grandes indústrias bélicas como protagonistas da inovação.

Assim, a guerra da Ucrânia mostra que a Indústria 4.0 não é apenas uma revolução econômica civil, mas também uma revolução militar.

Ortega y Gasset e a filosofia da circunstância aplicada à Indústria 4.0

Ortega y Gasset defendia que a essência do homem está em sua circunstância — e que a vida exige respostas criativas às condições históricas. Na guerra da Ucrânia, isso se traduz na capacidade de converter tecnologias civis em soluções militares adaptativas.

O que antes era aplicado em fábricas de automóveis ou startups de tecnologia é transformado em instrumentos de defesa nacional. O espírito da Indústria 4.0 — redes, descentralização e inteligência distribuída — encontra no campo de batalha sua forma mais extrema e imediata de aplicação.

Dessa forma, confirma-se que a adaptabilidade não é apenas um valor humano ou filosófico, mas também um princípio tecnológico e organizacional.

Doutrina da adaptabilidade: entre economia e guerra

A guerra da Ucrânia aponta para uma doutrina que pode orientar tanto a estratégia militar quanto a organização econômica: a doutrina da adaptabilidade.

  • No campo militar, significa descentralizar cadeias de produção, automatizar tarefas repetitivas com IA, integrar sensores em rede e reduzir a dependência de grandes infraestruturas vulneráveis.

  • Na economia civil, significa criar redes de profissionais flexíveis, cadeias produtivas distribuídas e sistemas digitais capazes de se reorganizar diante de choques globais (pandemias, crises climáticas, guerras).

Essa doutrina coloca a resiliência como centro da estratégia: sistemas adaptáveis sobrevivem onde estruturas rígidas fracassam.

Conexão com a quarta revolução industrial

A guerra da Ucrânia antecipa tendências da Indústria 4.0 em escala global:

  1. Produção descentralizada → redes distribuídas superam fábricas centralizadas.

  2. Automação inteligente → drones autônomos e sistemas de análise de dados substituem tarefas humanas de alto risco.

  3. Digitalização total → o campo de batalha se torna um espaço interconectado, em que cada sensor alimenta decisões estratégicas.

  4. Resiliência produtiva → a produção modular e adaptável é capaz de resistir a bloqueios e ataques.

Isso mostra que a guerra é um acelerador histórico, em que soluções de sobrevivência se tornam paradigmas globais de inovação.

Conclusão

A descentralização produtiva da guerra da Ucrânia não é apenas uma resposta emergencial ao conflito, mas o prenúncio de uma transformação estrutural: a consolidação da Indústria 4.0 como paradigma também militar. Essa revolução confirma a tese de Ortega y Gasset: o homem só é inteligível em sua circunstância, e sua capacidade de adaptação define seu destino.

A doutrina da adaptabilidade, nascida da guerra, já começa a se projetar para a economia mundial. O futuro das relações econômicas e militares será ditado não por quem concentra mais recursos, mas por quem é capaz de reorganizar-se mais rapidamente diante da mudança.

Bibliografia

  • ORTEGA Y GASSET, José. Meditaciones del Quijote. Madrid: Renacimiento, 1914.

  • ORTEGA Y GASSET, José. Historia como sistema. Madrid: Revista de Occidente, 1935.

  • SCHWAB, Klaus. A Quarta Revolução Industrial. São Paulo: Edipro, 2016.

  • TOFFLER, Alvin; TOFFLER, Heidi. War and Anti-War: Survival at the Dawn of the 21st Century. Boston: Little, Brown and Company, 1993.

  • KALDOR, Mary. New and Old Wars: Organized Violence in a Global Era. Stanford: Stanford University Press, 2012.

  • FREEDMAN, Lawrence. The Future of War: A History. New York: PublicAffairs, 2017.

  • SINGER, P. W.; BROOKING, Emerson T. LikeWar: The Weaponization of Social Media. Boston: Houghton Mifflin Harcourt, 2018.

O barril e a revolução logística proporcionada por ele no Império Romano

Introdução

A ascensão de Roma como potência mundial não se deu apenas pelo poder de suas legiões, mas também por sua capacidade de absorver e aprimorar tecnologias de diferentes povos. Uma das inovações mais significativas nesse processo foi a adoção do barril de madeira, herdado dos gauleses. Embora aparentemente simples, esse objeto transformou a logística comercial e militar romana, superando em eficiência a tradicional ânfora de barro, usada por gregos, fenícios e cartagineses.

As limitações da ânfora

Durante séculos, a ânfora foi o recipiente por excelência para o transporte de líquidos como vinho, azeite e mel. Contudo, sua utilização enfrentava sérios entraves:

  • Fragilidade: o barro quebrava facilmente durante viagens terrestres e marítimas.

  • Dificuldade de empilhamento: seu formato pontiagudo exigia suportes específicos, limitando a otimização do espaço.

  • Peso e manuseio: além de pesadas, não podiam ser movidas com facilidade sem esforço humano ou animal.

Essas limitações encareciam e restringiam o comércio de longa distância, especialmente quando Roma expandia sua rede de trocas por todo o Mediterrâneo e além.

A superioridade do barril

Os gauleses, povos celtas do norte da Europa, utilizavam barris de carvalho em sua vida cotidiana. Roma, atenta à eficácia dessa tecnologia, incorporou-a rapidamente em sua logística. As vantagens eram notórias:

  • Resistência: a madeira suportava impactos sem se quebrar, reduzindo perdas de carga.

  • Mobilidade: os barris podiam ser rolados no solo, facilitando o transporte em portos e estradas.

  • Armazenamento eficiente: ao contrário das ânforas, permitiam melhor aproveitamento de espaços em armazéns e embarcações.

  • Versatilidade: adequados não apenas para líquidos, mas também para grãos, carnes conservadas em sal e até objetos sólidos.

Com essa inovação, Roma conseguiu reduzir custos logísticos e ampliar o fluxo comercial em regiões cada vez mais distantes, do Oriente Médio até as fronteiras germânicas.

Impactos militares

O barril não foi apenas um aliado do comércio: ele se tornou também um instrumento militar estratégico. Seu uso estendeu-se a diversas funções no campo de batalha:

  • Abastecimento de tropas: garantiu o transporte de vinho, água e azeite com segurança e durabilidade.

  • Engenharia militar: barris vedados e vazios serviam como elementos de flutuação em pontes improvisadas sobre rios.

  • Armas de cerco: cheios de piche ou óleo inflamável, eram incendiados e lançados contra muralhas inimigas, funcionando como projéteis rudimentares.

Essa adaptabilidade reforça a visão de que a força de Roma residia não apenas em sua disciplina militar, mas também na engenhosidade aplicada à logística e à tecnologia bélica.

Conclusão

O barril de madeira foi mais do que uma invenção prática: tornou-se símbolo da capacidade romana de incorporar soluções externas e elevá-las a um novo patamar. Superando a ânfora em durabilidade, mobilidade e versatilidade, ele impulsionou tanto o comércio quanto as operações militares do Império. Essa inovação ilustra como Roma construiu sua grandeza não apenas com espadas e legiões, mas também com a inteligência logística que lhe permitiu sustentar um império vasto e duradouro.

Bibliografia

  • CHEVALIER, Michel. A Economia do Mundo Antigo. Lisboa: Edições 70, 1991.

  • HOPKINS, Keith. Rome: The Logistics of Empire. Cambridge: Cambridge University Press, 2000.

  • O’CONNOR, Colin. Roman Bridges and Engineering. Oxford: Oxford University Press, 1993.

  • WARD-PERKINS, Bryan. The Fall of Rome and the End of Civilization. Oxford: Oxford University Press, 2005.

Seis invenções bárbaras que Roma incorporou ao seu Império

A história do Império Romano é marcada tanto pela sua engenhosidade quanto pelo pragmatismo. Embora se considerassem o centro da civilização, os romanos não hesitaram em adotar práticas e invenções de povos que chamavam de bárbaros. Essa abertura estratégica foi um dos segredos de sua longevidade e sucesso. Entre tantas inovações, seis se destacam como fundamentais para a transformação de Roma em uma potência militar, logística e cultural.

1. O barril de madeira dos gauleses

Por séculos, gregos e romanos transportaram vinho, azeite e outros líquidos em ânforas de barro. Essas, porém, eram frágeis, pesadas e difíceis de empilhar. Já os gauleses utilizavam barris de carvalho: resistentes, práticos e fáceis de rolar ou armazenar. Roma logo percebeu a superioridade da tecnologia e a adotou. Os barris não só revolucionaram a logística comercial, como também tiveram usos militares, desde a construção de pontes flutuantes até o lançamento de projéteis incendiários em cercos.

2. O carrinho de mão

De origem chinesa, o carrinho de mão aparece em fontes do século IV, como na História Augusta, que descreve o imperador Heliogábalo utilizando um veículo de uma roda para transportar mulheres em jogos de corte. Embora não tão difundido, seu uso em Roma demonstra como ideias orientais, mediadas pelo contato com outros povos, também entraram no repertório romano.

3. O gládio ibérico

A arma símbolo da legião não nasceu em Roma. Durante a Segunda Guerra Púnica (218–201 a.C.), os romanos enfrentaram guerreiros ibéricos armados com espadas curtas de dois gumes, letais no combate corpo a corpo. Impressionado, Cipião Africano ordenou a escravização dos ferreiros de Nova Cartago (209 a.C.) para produzir em massa a nova espada. Assim, o gládio — uma arma “bárbara” — tornou-se a marca registrada do exército romano

4. As tatuagens célticas e germânicas

Inicialmente, tatuagens eram usadas por romanos apenas para marcar criminosos, escravos e prisioneiros. No entanto, o contato com celtas e germanos, que viam a prática como honra e devoção, mudou essa percepção. No exército, tatuagens passaram a marcar vitórias e identidade militar. O escritor Vegécio, no século IV, chegou a afirmar que o processo de recrutamento incluía tatuar o soldado com um símbolo da legião

5. A cota de malha celta

A lorica hamata, feita de milhares de anéis de ferro interligados, surgiu entre os celtas e foi incorporada por Roma no século III a.C. Sua flexibilidade garantia maior mobilidade em combate, sem sacrificar a proteção. Descobertas arqueológicas mostram que, nas fronteiras, os romanos dependiam de artesãos celtas para manter e consertar as armaduras, revelando a profundidade dessa integração tecnológica

6. As calças, símbolo bárbaro

Por muito tempo, calças eram vistas como roupas bárbaras, inapropriadas para cidadãos romanos. Contudo, a realidade climática das províncias do norte forçou mudanças. Legiões na Germânia e na Britânia precisavam de vestimentas mais adequadas ao frio. Assim, as calças entraram no uniforme militar, a ponto de serem representadas na Coluna de Trajano, no início do século II d.C.

Conclusão

O pragmatismo romano foi, em última análise, um de seus maiores legados. Ao invés de se prenderem à arrogância cultural, os romanos absorveram tecnologias úteis, mesmo de povos que consideravam inferiores. Barris, gládios, calças ou tatuagens mostram que a civilização não se constrói apenas pela originalidade, mas também pela capacidade de aprender, adaptar e integrar.

Bibliografia

  • Plínio, o Velho. História Natural.

  • Vegécio. Epitoma Rei Militaris.

  • História Augusta (atribuições diversas, séc. IV d.C.).

  • Documentos arqueológicos de Bonn (Alemanha).

Shopee no Brasil: estratégias de crescimento e adaptação ao contexto regulatório do governo atual

1. Introdução

Desde a sua chegada ao Brasil em 2019, a Shopee tem se consolidado como um dos principais marketplaces do país. O modelo inicial, focado em importados de baixo valor, foi progressivamente adaptado para atender às especificidades do mercado brasileiro e às exigências regulatórias. No contexto do atual governo (2023 em diante), a empresa tem acelerado estratégias para se blindar contra mudanças tributárias e reforçar sua presença por meio de vendedores locais, logística robusta e parcerias com marcas oficiais.

2. Estratégias de expansão e consolidação

2.1 Valorização do vendedor brasileiro

Em 2024, a Shopee anunciou que 90% das vendas no Brasil já provinham de vendedores locais, um marco que a distancia da imagem de marketplace apenas de importados. A plataforma também alcançou mais de 3 milhões de lojistas ativos e superou 1 bilhão de produtos vendidos no período de janeiro a outubro de 2024.

2.2 Lojas oficiais e fortalecimento da reputação

A estratégia de expansão de lojas oficiais no Brasil, que já ultrapassa mil marcas parceiras, contribui para elevar o ticket médio, aumentar a confiança do consumidor e reduzir problemas com falsificação e logística.

2.3 Logística como diferencial competitivo

Em 2025, a Shopee inaugurou seu 14º centro de distribuição no Brasil, em São Bernardo do Campo, ampliando sua capacidade para processar até 3,8 milhões de pedidos por dia. A empresa também investe em rotas aéreas internas, como São Paulo–Manaus, reduzindo prazos de entrega em até 60%.

2.4 Marketing agressivo

Com campanhas massivas em redes sociais, parcerias com influenciadores e datas promocionais duplas (9.9, 10.10, 11.11), a Shopee mantém engajamento constante e fortalece sua presença cultural no comércio eletrônico brasileiro.

3. Contexto Regulatório e Tributário

3.1 A “Taxa das Blusinhas”

A Lei 14.902/2024 instituiu tributação de 20% para compras internacionais de até US$ 50 e manteve 60% para valores entre US$ 50 e US$ 3.000, com desconto de US$ 20 no imposto. Essa medida reduz a competitividade de importados baratos, mas favorece a Shopee em sua estratégia de nacionalização das vendas.

3.2 Reforma Tributária

A Emenda Constitucional 132/2023 prevê a unificação de tributos sobre consumo em novos modelos (CBS e IBS). Essa transição exigirá adequações tecnológicas e fiscais para marketplaces e vendedores locais.

3.3 Lei da Reciprocidade e regulações digitais

Em 2025, o governo regulamentou a Lei da Reciprocidade, permitindo barreiras tarifárias frente a países que restringem produtos brasileiros. Além disso, tramitam no Congresso projetos de lei que regulam plataformas digitais (PL 4.675/2025 e PL 2.768/2022), exigindo maior transparência algorítmica e neutralidade de marketplaces.

4. Desafios e Oportunidades

  • Risco de perda do apelo de preço com a tributação de importados.

  • Necessidade de compliance tributário mais rigoroso diante de novas obrigações fiscais.

  • Concorrência acirrada com Mercado Livre e Amazon, que também ampliam fulfillment e logística.

  • Potencial de diferenciação com lojas oficiais, tecnologia de recomendação e engajamento promocional.

5. Conclusão

A trajetória da Shopee no Brasil demonstra sua capacidade de adaptação ao ambiente regulatório e econômico. No contexto do atual governo, a empresa conseguiu transformar uma possível ameaça — a tributação de importados — em oportunidade de fortalecimento do comércio nacional dentro de sua plataforma. Ao apostar em logística avançada, engajamento promocional e sellers locais, a Shopee não apenas consolidou sua presença, mas também redefiniu seu papel no e-commerce brasileiro.

Bibliografia

BLOOMBERG LÍNEA. Na Shopee, entrega rápida e lojas oficiais reforçam estratégia para avançar no Brasil. 2024. Disponível em: https://www.bloomberglinea.com.br/negocios/na-shopee-entrega-rapida-e-lojas-oficiais-reforcam-estrategia-para-avancar-no-brasil/

CNN BRASIL. Shopee abre 14º centro de distribuição no Brasil e deve criar 4 mil vagas. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/negocios/shopee-abre-14-centro-de-distribuicao-no-brasil-e-deve-criar-4-mil-vagas/

E-COMMERCE BRASIL. Brasileiros venderam mais de 1 bilhão de produtos em 2024 pela Shopee. 2024. Disponível em: https://www.ecommercebrasil.com.br/noticias/brasileiros-venderam-mais-de-1-bilhao-de-produtos-em-2024-pela-shopee/

EXAME. As estratégias que impulsionaram o crescimento da Shopee em 2024. 2024. Disponível em: https://exame.com/negocios/as-estrategias-que-impulsionaram-o-crescimento-da-shopee-em-2024/

SENADO FEDERAL. “Taxa das blusinhas” agora é lei. 2024. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/radio/1/noticia/2024/08/14/201ctaxa-das-blusinhas201d-agora-e-lei

IPEA. Agenda Brasil Digital: regulação das plataformas digitais. 2025. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/cts/pt/central-de-conteudo/artigos/artigos/510-agenda-brasil-digital

WIKIPÉDIA. Reforma Tributária do Brasil (EC 132/2023). Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Reforma_tribut%C3%A1ria_do_Brasil

A uberização do trabalho nos supermercados e a rejeição à CLT

Introdução

O mercado de trabalho brasileiro vem passando por mudanças estruturais aceleradas. Uma das mais marcantes é a uberização das relações laborais: a adoção de plataformas digitais que conectam empresas e trabalhadores em turnos temporários, de forma semelhante ao modelo da Uber. O setor de supermercados é hoje um dos principais laboratórios desse fenômeno, refletindo não apenas transformações econômicas, mas também mudanças culturais profundas, marcadas pela rejeição crescente ao regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

A uberização do trabalho no varejo alimentar

Supermercados enfrentam dificuldade para contratar trabalhadores no regime da CLT. A solução encontrada por algumas redes é recorrer a aplicativos de trabalho temporário, como a plataforma Help, que funcionam como um “Uber dos supermercados”: trabalhadores escolhem turnos e funções específicas, recebendo remuneração sem vínculo formal.

Esse modelo atende tanto a necessidade das empresas de lidar com picos de demanda (feriados, promoções, sazonalidades), quanto ao desejo dos trabalhadores de manter flexibilidade de tempo e autonomia sobre sua renda.

A cultura de rejeição à CLT 

A CLT, criada em 1943, durante o governo de Getúlio Vargas, tem inspiração direta na Carta del Lavoro de Benito Mussolini (1927), um documento corporativista do regime fascista italiano. Não à toa que muitos analistas consideram que a origem autoritária e centralizadora dessa lei marca até hoje a rigidez de suas regras, a ponto de serem consideradas ineficientes  e ilusórias, já que criam um sistema que onera empresas com impostos e riscos jurídicos sem efetivamente proteger os trabalhadores. Esse desgaste cultural transformou o termo “ser celetista" em um estigma no Brasil, especialmente em setores de alta rotatividade como o varejo alimentar.

Razões para a Rejeição

  1. Custos e insegurança jurídica: empregadores precificam os riscos de ações trabalhistas em salários mais baixos ou em aumento de preços.

  2. Perda de autonomia: o modelo tradicional exige cumprimento rígido de horários e subordinação hierárquica.

  3. Cultura digital: trabalhadores acostumados a Uber, iFood e outros apps tendem a valorizar a liberdade de escolher quando e como trabalhar.

  4. Origem autoritária: por ter nascido de um regime fascista, a CLT carrega um DNA de controle estatal e corporativismo que entra em choque com a lógica descentralizada da economia digital.

Paralelo com a descentralização

Na guerra da Ucrânia, a descentralização produtiva, sobretudo na fabricação de drones, mostrou-se mais eficiente do que aquela realizada por estruturas centralizadas. A mesma lógica se aplica ao mercado de trabalho: redes flexíveis de profissionais tendem a ser mais adaptáveis do que contratos fixos e engessados.

Conclusão

A uberização dos supermercados não é apenas uma inovação operacional: é o sintoma de uma mudança cultural mais profunda, que rejeita estruturas herdadas de um passado autoritário e busca autonomia, flexibilidade e descentralização. Se a CLT foi concebida como instrumento de controle em um contexto corporativista inspirado pelo fascismo, a nova economia de plataformas representa a ruptura com esse modelo, ainda que traga seus próprios desafios — como a ausência de segurança previdenciária e a volatilidade de renda.

O embate entre essas duas visões (estatismo versus mercado descentralizado) será um dos eixos centrais da política trabalhista no Brasil nos próximos anos.

Bibliografia

  • DELGADO, Maurício Godinho. Curso de Direito do Trabalho. São Paulo: LTr, 2022.

  • FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 2019.

  • MARTINS, Sérgio Pinto. Direito do Trabalho. São Paulo: Atlas, 2021.

  • POCHMANN, Márcio. A Uberização do Trabalho. São Paulo: Boitempo, 2020.

  • ANTUNES, Ricardo. O Privilégio da Servidão: O novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo, 2018.

  • CARDOSO, Adalberto. A construção da sociedade do trabalho no Brasil: uma investigação sobre a persistência secular das desigualdades. Rio de Janeiro: FGV, 2010.

  • Carta del Lavoro (1927). Documento oficial do regime fascista italiano, publicado em Roma em 21 de abril de 1927.

  • BARBOSA, Alexandre de Freitas. Trabalho e Regulação Social: a CLT e o corporativismo varguista. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 18, n. 53, 2003.

  • VENTURA, Deisy de Freitas Lima. Direito e Fascismo: a Carta del Lavoro e a CLT. Revista Direito e Práxis, v. 8, n. 2, 2017.

Alberta e a tentação da união com os EUA: O debate sobre ser a “51ª Estrela” dos EUA

Introdução

Em 2025, o debate sobre soberania em Alberta voltou a ganhar força. A província canadense, tradicionalmente ligada à produção de petróleo e ao mercado norte-americano, tornou-se o epicentro de especulações sobre independência e, até mesmo, anexação aos Estados Unidos. Embora o cenário de um “51º estado” ainda seja altamente improvável, ele se tornou um tema recorrente tanto na imprensa local quanto em discursos separatistas.

O contexto político

Mark Carney, ex-banqueiro central, venceu as eleições federais de abril de 2025 e tornou-se primeiro-ministro do Canadá. Seu governo minoritário enfrenta uma oposição forte em Alberta, onde a premier Danielle Smith, do UCP (United Conservative Party), vem defendendo posições soberanistas. A aproximação de Smith com Donald Trump — incluindo um encontro noticiado na Flórida — reforçou a percepção de um alinhamento ideológico entre Alberta e setores políticos americanos【turn0news32†source】【turn0search13†source】.

As reivindicações de apoio americano

Um ponto sensível surgiu quando Dennis Modry, líder do movimento separatista Free Alberta Strategy, afirmou que aliados de Trump teriam prometido um empréstimo de US$ 500 milhões para ajudar na transição rumo à independência. Essa alegação foi reportada em meios como DeSmog, mas não foi confirmada por nenhum governo oficial — permanecendo como uma reivindicação política, e não um fato estabelecido【turn0search1†source】【turn0search8†source】.

Referendos e o Precedente de Quebec

Em 2025, a Assembleia Legislativa de Alberta aprovou reformas que facilitaram a convocação de referendos provinciais, abrindo espaço para uma eventual consulta popular em 2026. Contudo, mesmo que um plebiscito pela independência fosse aprovado, isso não significaria uma secessão automática. O Supremo Tribunal do Canadá decidiu, em 1998 (caso Reference re Secession of Quebec), que nenhuma província pode se separar unilateralmente. A chamada Clarity Act (2000) estabeleceu que qualquer tentativa de secessão exigiria uma negociação política complexa e uma emenda constitucional【turn1search2†source】【turn1search5†source】.

Economia e Dependência Energética

Alberta concentra a maior parte da produção de petróleo do Canadá e exporta quase exclusivamente para os Estados Unidos. Essa dependência reforça tanto o discurso separatista quanto os receios federais: de um lado, líderes locais argumentam que a província já está mais integrada à economia americana do que à canadense; de outro, Ottawa teme perder sua principal fonte energética【turn0search5†source】.

O papel de Quebec e outras províncias

Os paralelos com Quebec são inevitáveis. A província francófona já realizou dois referendos de soberania (1980 e 1995), sendo o último decidido por menos de 1% dos votos. Hoje, não há sinais concretos de um novo pleito em Quebec, mas um movimento bem-sucedido em Alberta poderia reacender velhas tensões federativas【turn1search1†source】.

Conclusão

A possibilidade de Alberta se tornar o “51º estado americano” é, até o momento, mais retórica do que realidade. Ainda assim, os movimentos separatistas expõem fragilidades do federalismo canadense: ressentimentos regionais, dependência econômica dos EUA e polarização política crescente. O futuro da unidade canadense dependerá não apenas de reformas internas, mas também da habilidade de Ottawa em responder às demandas de províncias que, como Alberta, sentem-se à margem da federação.

📌 Notas finais:

  • Fatos confirmados: vitória de Carney em 2025, encontro de Smith com Trump, reformas em Alberta sobre referendos, jurisprudência de 1998 e Clarity Act.

  • Alegações não verificadas: empréstimo de US$ 500 milhões de aliados de Trump.

  • Hipóteses e projeções: realização de um referendo em 2026 e adesão de Alberta aos EUA. 

Bibliografia

  • Supreme Court of Canada. Reference re Secession of Quebec, [1998] 2 S.C.R. 217.
    Decisão fundamental que estabeleceu que uma província não pode se separar unilateralmente do Canadá.

  • Parliament of Canada. Clarity Act, S.C. 2000, c. 26.
    Legislação que regulamenta as condições para qualquer referendo de secessão, exigindo uma pergunta clara e um resultado inequívoco.

  • Reuters. “Ex-Bank of England governor Mark Carney to become Canada’s next PM after Liberals win election.” 28 abril 2025.
    Confirma a vitória de Mark Carney nas eleições federais de 2025 e o início de seu governo minoritário.

  • Associated Press. “Mark Carney sworn in as Canada’s prime minister after April election victory.” 29 abril 2025.
    Detalhes sobre a posse de Carney e a transição do governo Trudeau.

  • Maclean’s Magazine. “Why Alberta separatism keeps coming back.” 2023.
    Análise histórica e econômica sobre o movimento separatista em Alberta e suas conexões com a dependência do petróleo.

  • DeSmog. “Alberta Separatists Claim Trump Allies Promised $500M Loan for Independence.” Fevereiro de 2025.
    Reportagem sobre a alegação feita por Dennis Modry a respeito de apoio financeiro de aliados de Trump.

  • CTV News. “Alberta Premier Danielle Smith met Donald Trump in Florida, raising political questions.” Janeiro de 2025.
    Notícia confirmando o encontro entre a premier de Alberta e o ex-presidente dos EUA.

  • Legislative Assembly of Alberta. Bill 54: Referendum Amendment Act, 2025.
    Documento oficial sobre a lei que altera as regras de convocação de referendos provinciais, facilitando consultas futuras.

  • Statistics Canada. “Crude oil exports by destination, annual data.”
    Dados oficiais sobre a concentração das exportações de petróleo de Alberta para os Estados Unidos.