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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

VPN como necessidade em tempos de censura

Da conveniência técnica à infraestrutura da liberdade

Durante muito tempo, o uso de VPN foi tratado como um luxo técnico, uma ferramenta reservada a profissionais de TI, empresas multinacionais ou usuários excessivamente cautelosos. Em ambientes politicamente estáveis e com respeito razoável à liberdade de expressão, essa leitura fazia sentido: a VPN era um meio opcional, não uma condição de possibilidade da vida intelectual cotidiana.

Esse quadro mudou.

Quando conteúdos antes livremente acessíveis passam a ser bloqueados por decisão estatal, o eixo da escolha se desloca. O uso de VPN deixa de ser uma preferência individual e passa a ser uma resposta racional a uma restrição externa. Não se trata mais de querer algo a mais, mas de evitar perder o que já se tinha.

Desejo e necessidade: uma distinção essencial

Há uma diferença moral e prática decisiva entre duas atitudes:

  • Usar VPN porque se quer

  • Usar VPN porque é preciso

No primeiro caso, trata-se de conveniência. No segundo, de sobrevivência funcional. Quando canais de informação acompanhados regularmente deixam de estar disponíveis, o indivíduo não está diante de uma escolha neutra. A alternativa a usar VPN não é a abstinência voluntária, mas a aceitação passiva de uma mutilação do acesso à informação.

Nesse contexto, a decisão de contratar uma VPN não nasce do gosto, mas da necessidade. A crítica que reduz essa decisão a capricho ou paranoia falha no diagnóstico do problema: ela ignora a mudança estrutural do ambiente.

A necessidade que se converte em liberdade

Pode parecer paradoxal afirmar que algo imposto pelas circunstâncias produza liberdade. No entanto, em contextos de censura, é exatamente isso que ocorre.

A VPN não cria privilégios. Ela restaura a normalidade anterior. Sem ela, o indivíduo não escolhe livremente o que consumir; ele é impedido. Com ela, não há expansão artificial de direitos, mas a recuperação do mínimo necessário para que a liberdade intelectual volte a operar.

Nesse sentido, a VPN passa a funcionar como infraestrutura básica, assim como:

  • estradas permitem o deslocamento;

  • redes elétricas permitem o trabalho;

  • imprensa livre permite o debate.

Quando o acesso é bloqueado, o meio técnico que o restaura deixa de ser acessório.

O preço mais alto e o custo político

Outro ponto central dessa experiência é a aceitação de um preço mais alto do que o normalmente tolerável. Isso não deve ser confundido com consumo acrítico ou resignação.

Pagar mais caro por uma VPN em tempos de censura não significa concordar com o custo; significa reconhecer que o custo da inação é maior. Trata-se de uma escolha sob restrição, no sentido clássico: qualquer alternativa envolve perda, e a decisão racional é preservar o essencial.

Aqui, o preço deixa de ser apenas econômico e passa a ser político e civilizacional. O usuário não está comprando conforto, mas continuidade da vida intelectual, autonomia e dignidade.

VPN como bem de primeira necessidade

Em ambientes livres, VPN é ferramenta opcional. Em ambientes de censura, ela se torna gênero de primeira necessidade. Não porque todos devam usá-la, mas porque aqueles que desejam manter o acesso normal à informação não têm alternativa funcional.

Isso não transforma a VPN em instrumento ideológico ou subversivo. Ela continua sendo o que sempre foi: uma tecnologia de neutralidade de rota, proteção de tráfego e preservação da privacidade. O fato de que essa neutralidade contrarie mecanismos de bloqueio revela mais sobre o bloqueio do que sobre a ferramenta.

Conclusão

O recurso à VPN, nesse cenário, não é rebeldia, luxo ou fetiche tecnológico. É prudência. É adaptação racional a um ambiente degradado. É a recusa em aceitar como normal aquilo que é, na verdade, uma perda objetiva de liberdade.

Quando a censura se apresenta como fato consumado, investir em VPN deixa de ser escolha e passa a ser responsabilidade. Uma necessidade que, paradoxalmente, se converte em liberdade.

Bibliografia comentada

ARENDT, Hannah. Entre o Passado e o Futuro.
Arendt analisa como a ruptura das tradições e das garantias institucionais afeta a liberdade humana. Sua reflexão ajuda a compreender como a perda de meios intermediários — como o acesso livre à informação — compromete a própria experiência da liberdade, tornando necessárias respostas técnicas para preservar o espaço público.

BERLIN, Isaiah. Dois Conceitos de Liberdade.
O ensaio clássico de Berlin é fundamental para distinguir liberdade negativa (ausência de impedimentos) e liberdade positiva. O uso de VPN, em contextos de censura, enquadra-se claramente na defesa da liberdade negativa: remover obstáculos artificiais impostos ao acesso à informação.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir.
Embora trate de instituições disciplinares, Foucault oferece instrumentos conceituais úteis para entender como o controle de fluxos — inclusive informacionais — se torna mecanismo de poder. A censura digital pode ser lida como extensão dessas técnicas ao ambiente tecnológico.

LESSIG, Lawrence. Code and Other Laws of Cyberspace.
Lessig demonstra como o código tecnológico funciona como forma de regulação tão eficaz quanto a lei. A VPN aparece, nesse contexto, como meio de neutralizar regulações técnicas que restringem o acesso à informação sem debate público adequado.

ORWELL, George. 1984.
Não como tratado técnico, mas como advertência moral. A obra ilumina os efeitos psicológicos e sociais do controle da informação, ajudando a compreender por que o acesso livre a múltiplas fontes não é luxo, mas condição de sanidade intelectual.

POPPER, Karl. A Sociedade Aberta e Seus Inimigos.
Popper fornece o arcabouço filosófico para defender a abertura do debate e o pluralismo informacional. A censura, ainda que justificada por pretextos técnicos ou morais, é vista como ameaça estrutural à sociedade aberta.

ZUBOFF, Shoshana. A Era do Capitalismo de Vigilância.
A autora analisa como dados e fluxos informacionais se tornaram objeto de controle econômico e político. A VPN surge como instrumento defensivo mínimo diante de um ecossistema que normalizou a vigilância e a restrição indireta da autonomia individual.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

O caso Vorcaro e a lógica do banco público “estabilizador” no sistema financeiro brasileiro

A história bancária brasileira revela um padrão recorrente: em momentos de crise, bancos privados buscam amparo em instituições públicas ou no próprio Estado, na forma de um banco “estabilizador”. Essa prática, longe de ser episódica, constitui quase uma tradição informal do sistema financeiro nacional, especialmente antes da consolidação das regras prudenciais globais. O chamado “caso Vorcaro” insere-se exatamente nessa linhagem histórica.

Durante décadas, o mecanismo foi relativamente simples. Quando um banco privado se via pressionado por problemas de liquidez, solvência ou má alocação de ativos, recorria-se a uma engenharia institucional que transferia o ônus para o setor público. Esse arranjo ganhou forma técnica no modelo conhecido como Good Bank / Bad Bank: os ativos problemáticos (“ativos podres”) eram segregados e, direta ou indiretamente, absorvidos pelo Estado, enquanto a parte saudável da instituição era preservada, vendida ou incorporada a outro grupo privado.

O Brasil oferece inúmeros exemplos desse expediente. O caso do Banco Halles, na década de 1970, antecipa um padrão que se repetiria nos anos 1990 e 2000 com instituições como o Econômico, o Excel, o Bamerindus e o Nacional. Neste último caso, a reorganização deu origem ao Unibanco, que mais tarde se fundiria ao Itaú. Outros bancos, como o Boa Vista e o Banco de Crédito Nacional, também passaram por processos semelhantes. Em todos eles, o Banco Central e o governo federal atuaram como facilitadores, oferecendo desde linhas de crédito até flexibilizações regulatórias.

Essas “facilidades” assumiam diversas formas: liberação de compulsórios, ampliação de limites para operações compromissadas, flexibilização das exigências sobre reservas bancárias e aceitação de determinados papéis como lastro. Embora tecnicamente justificáveis em situações excepcionais, tais medidas criaram um ambiente de risco moral. Banqueiros passaram a operar sob a expectativa implícita de que, em última instância, o Estado funcionaria como amortecedor final de suas decisões mal-sucedidas.

Esse modelo começou a se esgotar com o Plano Real. Ao eliminar o chamado floating inflacionário — que permitia aos bancos obter ganhos significativos com a simples gestão do caixa em ambiente de alta inflação — o Real impôs uma disciplina inédita ao sistema financeiro. Bancos que não possuíam portfólios robustos de títulos públicos, nem estrutura adequada de gestão de risco, passaram a apresentar dificuldades crescentes.

O ponto de inflexão definitivo ocorreu no início dos anos 2000, especialmente após o caso do Banco Santos, em 2005. Nesse momento, o ambiente internacional já havia mudado profundamente. Após sucessivas crises cambiais — México, Brasil, Sudeste Asiático e Rússia — os Acordos da Basileia deixaram de ser um conjunto flexível de recomendações e se transformaram em um arcabouço global efetivamente aplicado. Capitalização mínima, controle de risco e transparência passaram a ser exigências reais, e não meros “acordinhos” negociáveis.

Nesse novo contexto, o banqueiro que apostava na velha lógica do resgate público passou a enfrentar limites claros. O espaço para soluções políticas diminuiu, e o custo reputacional e institucional de novos salvamentos aumentou. O Estado, pressionado por regras internacionais e por maior escrutínio público, deixou de ser um garantidor automático das aventuras privadas.

É à luz dessa trajetória que se deve compreender a presença de tantos figurões da República em episódios recentes envolvendo instituições financeiras problemáticas. Não se trata de um fenômeno novo, mas da tentativa de reativar um modelo que funcionou no passado, porém já não encontra o mesmo ambiente institucional. O constrangimento imposto a dirigentes de bancos públicos — como no caso do BRB — é sintomático dessa tensão: a busca por um banco público “estabilizador” persiste, mas o sistema já não comporta esse papel com a mesma elasticidade.

Em suma, o caso Vorcaro não é uma anomalia, mas a expressão tardia de uma cultura bancária formada em um período de baixa disciplina monetária e regulatória. O problema central não está apenas na tentativa de recorrer ao Estado, mas no descompasso entre práticas herdadas do passado e um sistema financeiro que, ao menos formalmente, passou a operar sob regras globais mais rígidas. A história sugere que, quanto mais se insiste nesse descompasso, maior tende a ser o custo político, institucional e econômico da tentativa de repeti-lo.

Bibliografia comentada

BANCO CENTRAL DO BRASIL

Relatórios Anuais e Relatórios de Estabilidade Financeira.
Brasília: BCB, diversos anos.

Os relatórios do Banco Central são fontes primárias indispensáveis para compreender as intervenções estatais no sistema financeiro brasileiro. Neles aparecem, de forma técnica e muitas vezes indireta, os mecanismos de socorro, reorganização bancária, flexibilização regulatória e gestão de crises. A leitura atenta permite identificar como o discurso da “estabilidade sistêmica” frequentemente serviu de base para operações de salvamento de bancos privados em dificuldade.

BIS – BANK FOR INTERNATIONAL SETTLEMENTS

International Convergence of Capital Measurement and Capital Standards (Basel I, II e III).
Basileia: BIS, 1988–2017.

Os Acordos da Basileia constituem o eixo regulatório central da transição descrita no artigo. A passagem de Basileia I — ainda flexível e negociável — para Basileia II e III explica por que o modelo do banco público “estabilizador” perdeu viabilidade. A obra mostra como exigências de capital, gestão de risco e transparência passaram a limitar drasticamente soluções políticas e improvisadas para crises bancárias.

GORTON, Gary

Slapped by the Invisible Hand: The Panic of 2007.
Oxford: Oxford University Press, 2010.

Gorton oferece uma análise rigorosa das crises bancárias modernas e do papel do Estado como garantidor implícito do sistema financeiro. Embora focado no contexto norte-americano, o livro fornece o arcabouço teórico para entender o risco moral criado pela expectativa de resgate público — fenômeno diretamente aplicável ao histórico brasileiro descrito no artigo.

MINSKY, Hyman P.

Stabilizing an Unstable Economy.
New Haven: Yale University Press, 1986.

Minsky é fundamental para compreender a lógica de longo prazo que leva bancos e agentes financeiros a assumir riscos excessivos quando acreditam na existência de um “estabilizador” externo. Seu modelo ajuda a explicar por que o socorro estatal, quando recorrente, tende a gerar ciclos cada vez mais graves de instabilidade, exigindo intervenções progressivamente maiores.

KINDLEBERGER, Charles P.; ALIBER, Robert Z.

Manias, Panics, and Crashes: A History of Financial Crises.
6. ed. Nova York: Palgrave Macmillan, 2011.

Clássico incontornável sobre crises financeiras, a obra demonstra que o padrão observado no Brasil não é excepcional. A relação entre euforia, alavancagem excessiva, colapso e busca por resgate estatal repete-se ao longo da história. O livro fornece o pano de fundo histórico que relativiza a ideia de que certos episódios brasileiros seriam “casos isolados”.

FRANCO, Gustavo H. B.

O Plano Real e outros ensaios.
Rio de Janeiro: Editora Campus, 1995.

Fonte essencial para compreender a ruptura estrutural provocada pelo Plano Real. Franco explica como o fim do floating inflacionário alterou radicalmente o modelo de negócios dos bancos brasileiros, expondo fragilidades que antes eram mascaradas pela inflação alta. O livro ajuda a entender por que tantos bancos entraram em colapso após a estabilização monetária.

LOPES, Francisco L.; ROSSETTI, José Paschoal

Economia Monetária.
São Paulo: Atlas, diversas edições.

Obra de referência no estudo do sistema bancário e da política monetária brasileira. Os autores fornecem instrumentos analíticos para compreender o funcionamento do compulsório, das reservas bancárias e das operações compromissadas — mecanismos citados no artigo como ferramentas recorrentes de intervenção estatal.

CALOMIRIS, Charles W.; HABER, Stephen H.

Fragile by Design: The Political Origins of Banking Crises and Scarce Credit.
Princeton: Princeton University Press, 2014.

Talvez a obra mais importante para entender a dimensão política do problema. Os autores demonstram como sistemas bancários são moldados por coalizões políticas que distribuem riscos e benefícios de forma desigual. O livro ilumina o papel dos “figurões da República” não como anomalia, mas como parte estrutural do arranjo entre Estado e bancos.

DE BONIS, Daniel; BINGHAM, Tomás

Crises Bancárias e Reestruturação Financeira no Brasil.
Brasília: Banco Central do Brasil, textos técnicos.

Textos técnicos pouco conhecidos, mas de enorme valor empírico. Documentam, com linguagem técnica, os processos de intervenção, liquidação e reorganização bancária no Brasil. Funcionam como contrapeso factual a leituras ideológicas ou jornalísticas superficiais sobre o tema.

Paes Mendonça e o supermercado como resposta racional ao Brasil do século XX

A história do varejo brasileiro no século XX não pode ser compreendida sem considerar a figura de Mamede Paes Mendonça. Mais do que um empresário bem-sucedido, Mamede foi a encarnação de um tipo específico de racionalidade econômica adaptada às condições concretas do Brasil: inflação crônica, instabilidade monetária, escassez de crédito confiável e um mercado consumidor em formação. Seu percurso — da feira livre no sertão sergipano ao maior hipermercado da América Latina — revela não apenas uma biografia extraordinária, mas também uma lógica profunda do capitalismo brasileiro.

1. Origem sertaneja e formação prática do comerciante

Mamede nasceu em Serra do Machado, interior de Sergipe, em um ambiente marcado pela pobreza, pela agricultura de subsistência e pela dureza do clima. Com escolaridade formal limitada ao terceiro ano do primário, sua formação foi essencialmente prática, adquirida na feira, na negociação direta, no cálculo mental, no trato cotidiano com clientes e fornecedores.

Desde cedo, Mamede demonstrou compreender algo decisivo: o valor não estava apenas na produção, mas na circulação da mercadoria. Enquanto muitos viam a roça como destino, ele enxergava a feira como oportunidade. Essa mentalidade comercial, típica dos grandes comerciantes tradicionais, seria o eixo de toda a sua trajetória.

2. Capitalização paciente e aversão ao risco financeiro

O primeiro traço estrutural do método Mamede foi a capitalização paciente. Durante anos, guardou dinheiro literalmente debaixo do colchão, evitando dívidas e juros. Essa prática não era arcaica; era racional diante de um sistema financeiro frágil e frequentemente predatório.

A compra da padaria, depois transformada em armazém e atacado, não foi fruto de alavancagem, mas de acúmulo real de capital. Ao longo de toda a sua vida empresarial, Mamede demonstrou preferência por:

  • capital próprio;

  • margens pequenas e volumes grandes;

  • ativos reais (estoques, imóveis, terrenos bem localizados).

Esse padrão explica tanto o crescimento sólido do grupo quanto sua resiliência durante as crises inflacionárias das décadas de 1960, 1970 e 1980.

3. O supermercado como solução econômica, não como moda

A introdução do supermercado (autosserviço) por Mamede na Bahia, inspirada em uma viagem à Argentina, não foi mero mimetismo estrangeiro. Tratou-se de uma resposta racional às condições brasileiras.

Entre os anos 1950 e 1990, o supermercado cumpriu funções essenciais:

  • transformava moeda frágil em mercadoria durável;

  • acelerava o giro de estoque;

  • diluía custos por escala;

  • protegia o comerciante da corrosão inflacionária.

Mamede compreendeu isso intuitivamente. Seu foco nunca foi a verticalização (produção agrícola ou industrial), mas a eficiência na compra e na venda. Ele dominava o ponto crucial do varejo: quem compra bem, vende bem.

4. Expansão, domínio regional e ecossistema comercial

O Grupo Paes Mendonça não cresceu apenas em número de lojas. Criou um ecossistema comercial integrado, incluindo:

  • centros de distribuição próprios;

  • logística eficiente;

  • restaurantes, lanchonetes e serviços;

  • postos de combustível e apoio ao transporte;

  • importação em grande escala (como no caso do whisky Ballantine’s).

Na Bahia, o grupo chegou a dominar cerca de 80% do mercado, o que demonstra não apenas poder econômico, mas compreensão profunda do território, do consumidor local e das rotas logísticas.

5. O auge: hipermercados e a conquista do Sudeste

A entrada em São Paulo marcou o auge simbólico do império. O Hiper Paz Mendonça Morumbi, inaugurado em 1987, tornou-se o maior da América Latina e um dos maiores do mundo. Em 1989, o grupo faturava mais de 1 bilhão de dólares, ocupando a quarta posição entre as redes supermercadistas brasileiras.

Esse movimento, porém, já continha o germe do declínio.

6. O erro estratégico e o colapso

O fator decisivo não foi a concorrência internacional nem o Plano Real, mas um erro clássico de expansão mal avaliada: a compra da rede carioca Disco, que possuía um passivo oculto elevado.

A operação:

  • comprometeu o caixa;

  • forçou anos de prejuízo;

  • ocorreu sem auditoria adequada;

  • baseou-se em confiança pessoal, não em rigor contábil.

Somou-se a isso a resistência de Mamede em:

  • abrir capital;

  • profissionalizar a governança;

  • preparar sucessores.

A centralização extrema, que fora virtude na fase inicial, tornou-se fragilidade estrutural.

7. Declínio, fim da marca e legado

Com a saúde debilitada e o grupo financeiramente pressionado, Mamede deixou o mercado baiano em 1991. Após sua morte, em 1995, as lojas remanescentes foram vendidas ao Pão de Açúcar e ao Bom Preço. Em 1999, a marca Paes Mendonça foi oficialmente extinta.

O fim da empresa, contudo, não apaga seu legado. Mamede Paes Mendonça foi:

  • pioneiro do supermercado no Nordeste;

  • mestre da lógica do giro e da escala;

  • exemplo de capitalização disciplinada;

  • símbolo de um capitalismo enraizado na realidade brasileira.

Conclusão

A trajetória de Mamede Paes Mendonça ensina que o sucesso empresarial não nasce de teorias abstratas, mas da adequação concreta entre inteligência prática e contexto histórico. Seu erro final não invalida sua obra; ao contrário, a torna mais instrutiva.

Ele demonstrou que, no Brasil do século XX, o supermercado não foi apenas um negócio lucrativo, mas uma instituição econômica defensiva, capaz de organizar consumo, proteger capital e estruturar mercados regionais. Sua história permanece como lição — tanto do que fazer quanto do que evitar — para qualquer reflexão séria sobre o varejo e o capitalismo brasileiro.

Bibliografia comentada

EXAME. O melhor negócio é o ataque.
Reportagem de capa sobre o Grupo Paes Mendonça no auge de sua expansão. Documento-chave para compreender a percepção contemporânea do mercado acerca da agressividade comercial, da escala e da centralidade do giro de mercadorias no modelo de Mamede. Útil para captar o “espírito do tempo” do varejo brasileiro no final dos anos 1980.

ISTOÉ DINHEIRO. Entrevista com João Carlos Paes Mendonça (fev. 2010).
Fonte fundamental para entender o olhar retrospectivo de quem herdou e reinterpretou a tradição familiar. A famosa frase “ninguém entende de varejo no Brasil” funciona como síntese crítica da dificuldade estrutural do setor em um país instável, além de iluminar os limites do modelo centralizado.

PEREIRA, Luiz Carlos Bresser. A inflação brasileira.
Obra indispensável para compreender o pano de fundo macroeconômico que torna racional a estratégia de transformar moeda em mercadoria. Explica por que o supermercado, mais do que um negócio, foi um mecanismo de defesa patrimonial durante décadas de inflação crônica.

FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil.
Clássico absoluto para situar o surgimento de grandes comerciantes regionais dentro da estrutura histórica brasileira. Ajuda a entender por que o varejo — e não a indústria — foi, para muitos empreendedores nordestinos, o caminho mais viável de acumulação de capital.

DEAN, Warren. A industrialização de São Paulo (1880–1945).
Embora focado em São Paulo, o livro é útil para contraste analítico. Mostra por que modelos empresariais baseados em indústria, crédito e mercado de capitais eram muito menos acessíveis em outras regiões, reforçando a originalidade e adequação do caminho seguido por Mamede.

CHANDLER JR., Alfred D. Strategy and Structure.
Referência clássica da teoria empresarial. Serve como contraponto conceitual: a obra explica a importância da profissionalização e da separação entre propriedade e gestão — exatamente os pontos que se mostraram frágeis no declínio do Grupo Paes Mendonça.

PENROSE, Edith. The Theory of the Growth of the Firm.
Útil para interpretar os limites internos do crescimento empresarial. A teoria da “capacidade gerencial” ajuda a explicar por que a expansão acelerada para o Sudeste ultrapassou a estrutura organizacional disponível.

VAROTTO, Luís Fernando. História do varejo no Brasil.
Obra acadêmica que contextualiza o surgimento e a consolidação do autosserviço no país. Essencial para compreender Mamede não como exceção isolada, mas como protagonista de uma transformação estrutural do comércio brasileiro.

MARTINS, José de Souza. Capitalismo e tradicionalismo.
Ajuda a compreender o “comerciante à moda antiga” como figura racional, e não atrasada. Fundamenta sociologicamente práticas como a caderneta, a confiança pessoal e o controle direto do negócio, centrais na trajetória de Mamede.

Documentário / Canal Curioso Mercado. Episódio sobre Mamede Paes Mendonça.
Fonte narrativa rica, baseada em pesquisa histórica e depoimentos. Embora não acadêmica, é valiosa como reconstrução cronológica e como acesso a episódios pouco documentados em fontes formais.

Da legitimidade da palavra escrita: por que nem todo querer escrever autoriza um livro?

Introdução

Vivemos numa época em que o ato de escrever um livro foi reduzido a um gesto de vontade individual. Basta “ter algo a dizer”, dizem, e a publicação se justificaria por si mesma. Essa concepção, porém, é estranha à tradição clássica e profundamente nociva à ordem intelectual. Escrever um livro não é um ato puramente expressivo, mas um ato público, e todo ato público exige legitimidade. Tal legitimidade não nasce apenas do autor, mas da relação entre quem fala e quem está disposto a ouvir.

Platão já advertia: a ordem não se sustenta pela simples emissão da palavra, mas pela disposição da alma que a recebe. Onde não há ouvintes aptos, não há discurso legítimo — apenas ruído. Este artigo sustenta que não se pode escrever legitimamente um livro sem uma demanda conhecida, pois o livro é um bem cultural que só existe plenamente quando encontra seu destinatário próprio.

1. A palavra como ato público

Na tradição clássica, a palavra nunca é neutra. Falar ou escrever implica assumir responsabilidade sobre os efeitos do discurso na pólis. É por isso que Platão distingue com tanto rigor o logos verdadeiro da retórica sofística: ambos usam palavras, mas apenas o primeiro se orienta pela verdade e pela ordem da alma.

O livro, enquanto forma elevada da palavra escrita, não é um desabafo privado. Ele se inscreve no espaço público do espírito. Publicar um livro é afirmar implicitamente: isto merece ser ouvido. Tal afirmação exige mais do que convicção subjetiva; exige reconhecimento objetivo de legitimidade.

2. A legitimidade depende do ouvinte

Um ponto central, muitas vezes ignorado, é que a legitimidade do discurso não é unilateral. Platão deixa claro que a verdade só governa onde há almas dispostas a ser governadas por ela. Não basta que o autor esteja certo; é necessário que haja leitores capazes de reconhecer o que é dito.

Isso não significa submissão ao gosto das massas, mas reconhecimento de um princípio elementar: não existe palavra pública sem comunidade de escuta. Onde ninguém pode ouvir, não há ensino; onde ninguém pode compreender, não há transmissão; onde ninguém pode acolher, não há ordem.

Assim, antes de escrever um livro, a pergunta correta não é apenas “o que tenho a dizer?”, mas “quem está apto a ouvir isto?”.

3. Livro e demanda: a dimensão econômica não vulgar

Falar em demanda, nesse contexto, não é rebaixar o livro à lógica mercantil moderna. Trata-se de algo mais profundo e mais antigo. Aristóteles já ensinava que todo bem existe em função de sua finalidade. Um bem sem finalidade realizável é um contrassenso.

O livro é um bem cultural e intelectual. Sua demanda não é apenas monetária, mas:

  • intelectual, pois requer leitores com formação suficiente;

  • moral, pois exige disposição para a verdade;

  • cultural, pois depende de um ambiente simbólico que o acolha.

Produzir um livro sem conhecer essa demanda é produzir algo sem função objetiva, ainda que tecnicamente bem escrito. Nesse caso, não se cria uma obra, mas um artefato inerte.

4. A ilusão moderna da escrita sem destinatário

A modernidade tardia difundiu a ideia de que todo indivíduo tem “direito à própria voz”, independentemente de ordem, mérito ou audiência. Isso gerou uma inflação de discursos e uma desvalorização da palavra escrita. Escreve-se muito, lê-se pouco, e compreende-se menos ainda.

Os grandes autores da tradição nunca escreveram “para todos”. Escreveram para poucos — mas para poucos reais, não imaginários. Tinham plena consciência do nível, da linguagem e das exigências do leitor. Sabiam que a palavra só frutifica onde há solo preparado.

A escrita sem destinatário definido é, no fundo, uma forma de narcisismo intelectual: fala-se não para comunicar, mas para existir simbolicamente.

5. Ordem, autoridade e responsabilidade do autor

Assumir a escrita de um livro é assumir autoridade. E toda autoridade legítima supõe ordem: na alma do autor e na comunidade dos leitores. Quando essa relação não existe, o livro deixa de ser instrumento de formação e passa a ser apenas mais um elemento de desordem cultural.

Por isso, escrever menos, escrever melhor e escrever para quem pode ouvir é um ato de responsabilidade — não de censura, mas de prudência. A tradição sempre soube disso. A crise contemporânea da palavra escrita nasce, em grande parte, do esquecimento desse princípio.

Conclusão

Não basta querer escrever um livro, nem basta ter algo a dizer. É preciso verificar se o que se tem a dizer possui legitimidade de ser ouvido. Essa legitimidade não nasce do autor isolado, mas da relação entre palavra, verdade e audiência. Onde não há ouvintes dispostos e capazes, não há ordem; onde não há ordem, não há discurso público legítimo.

Produzir um livro sem demanda conhecida — intelectual, moral e cultural — é produzir um bem sem função. Não é criação, é desperdício simbólico. A verdadeira escrita nasce do encontro entre a palavra justa e o ouvido preparado. Tudo o mais é apenas ruído impresso.

Bibliografia comentada

PLATÃO

PLATÃO. Górgias.
Diálogo fundamental para compreender a distinção entre logos verdadeiro e retórica sofística. Platão demonstra que falar bem não é o mesmo que falar com verdade, e que a palavra só é legítima quando ordena a alma do ouvinte. Essencial para entender por que o discurso depende da disposição de quem escuta.

PLATÃO. República.
Obra central para a tese de que a ordem política e intelectual nasce da correspondência entre razão, alma e comunidade. A noção de que nem todos estão aptos a ouvir todas as verdades fundamenta a ideia de que a palavra pública exige critério, hierarquia e responsabilidade.

PLATÃO. Fedro.
Texto decisivo sobre a escrita. Platão critica a palavra escrita quando separada do diálogo vivo e da formação do ouvinte. Aqui se encontra uma reflexão direta sobre os limites da escrita sem destinatário real — ponto crucial para a crítica à produção indiscriminada de livros.

ARISTÓTELES

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco.
Fundamental para compreender a noção de finalidade (telos). Todo bem existe em função de um fim; um bem sem finalidade realizável é defeituoso. Aplica-se diretamente à ideia de livro como bem cultural que exige destinatário adequado.

ARISTÓTELES. Política.
A palavra (logos) é apresentada como fundamento da vida em comunidade. Aristóteles mostra que o discurso só cumpre sua função quando existe uma comunidade capaz de partilhar sentido, reforçando a ideia de que não há palavra pública legítima sem audiência ordenada.

TRADIÇÃO CRISTÃ E CLÁSSICA

SANTO AGOSTINHO. De Doctrina Christiana.
Obra essencial sobre o uso correto da palavra no ensino da verdade. Agostinho insiste que ensinar exige conhecer o ouvinte, seu nível, suas disposições e seus limites. Antecipação cristã da tese de que não se fala legitimamente a quem não pode ouvir.

SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica (questões sobre ensino e prudência).
Tomás trata da prudência como virtude que regula o agir conforme a realidade. Aplicável diretamente ao ato de escrever: publicar algo é um ato prudencial, que exige juízo sobre circunstâncias, destinatários e efeitos.

FILOSOFIA POLÍTICA E ORDEM CULTURAL

ERIC VOEGELIN. Ordem e História.
Voegelin analisa a ruptura moderna entre verdade, ordem e linguagem. Sua crítica à inflação simbólica e à perda de referência transcendente ajuda a compreender por que a palavra escrita perdeu autoridade e por que tantos livros são produzidos sem função real.

ERIC VOEGELIN. A Nova Ciência da Política.
Essencial para entender a degradação da linguagem política e intelectual quando a palavra se separa da realidade. Relevante para a crítica à escrita como mero exercício de expressão subjetiva.

ECONOMIA POLÍTICA CLÁSSICA E CULTURA

JEAN-BAPTISTE SAY. Tratado de Economia Política.
Clássico para a compreensão da noção de demanda real. Embora econômico, o princípio de que não se produz legitimamente sem demanda aplica-se analogicamente aos bens culturais.

WILHELM RÖPKE. A Crise Social do Nosso Tempo.
Röpke trata da dissolução dos fundamentos morais e culturais que sustentam a produção legítima de bens. Sua análise é valiosa para entender o colapso do critério na produção cultural e intelectual moderna.

CRÍTICA À MODERNIDADE E À CULTURA DE MASSAS

ROMANO GUARDINI. O Fim dos Tempos Modernos.
Reflexão profunda sobre a perda de forma, medida e autoridade na cultura moderna. Guardini ajuda a compreender por que a escrita se tornou inflacionária e desprovida de responsabilidade.

JOSÉ ORTEGA Y GASSET. A Rebelião das Massas.
Obra-chave para entender o desaparecimento do critério de excelência e o triunfo da opinião sem fundamento. Essencial para a crítica à ideia moderna de que toda voz merece automaticamente espaço público.

Da teoria da permissão como fundamento para uma cultura de sucessão

Introdução

A teoria da permissão, tal como formulada por Seth Godin no campo do marketing, costuma ser compreendida de maneira reduzida: como uma técnica para atrair atenção voluntária em oposição à propaganda de interrupção. No entanto, essa leitura é insuficiente quando deslocamos a permissão do plano meramente mercadológico para o plano antropológico, moral e cultural. Neste artigo, sustento que a teoria da permissão, corretamente compreendida, pode fundamentar uma cultura da sucessão, entendida como a transmissão justa e ordenada de bens — materiais, intelectuais e simbólicos — àqueles que podem dar a eles a melhor destinação possível, nos méritos de Cristo, pois a verdade é o fundamento da liberdade.

1. Da publicidade como chamamento público

A publicidade, em sua acepção mais nobre, não é manipulação nem sedução vulgar, mas convocação. Ao difundir postagens, ideias ou obras por meio da publicidade, o autor não força adesão; ele se torna visível e se oferece ao juízo alheio. Trata-se de um chamamento público: quem quiser, aproxima-se; quem não quiser, passa adiante.

Essa distinção é decisiva. A publicidade, aqui, não visa capturar massas indiferenciadas, mas atrair leitores que voluntariamente concedem atenção. Essa atenção é o primeiro ato de liberdade do outro e, portanto, o primeiro sinal de permissão.

2. A permissão como critério de discernimento

Quando um leitor concede atenção reiterada, ele não apenas consome um conteúdo: ele autoriza uma relação intelectual mínima. A permissão não é ainda amizade, nem comunhão, mas cria o espaço legítimo para o discernimento.

É nesse ponto que a teoria da permissão ultrapassa o marketing e ingressa no terreno da ética da convivência. O autor passa a observar os perfis, as reações, a formação e a visão de mundo daqueles que se aproximam. Não para manipulá-los, mas para responder à pergunta decisiva: com quem vale a pena dialogar?

Esse discernimento não é neutro. Ele se funda em critérios objetivos:

  • formação intelectual,

  • disposição para a verdade,

  • rejeição de mentalidades ideológicas que negam a realidade objetiva,

  • abertura à ordem moral.

Aqui se torna legítima a exclusão do diálogo quando não há base comum suficiente, pois diálogo sem verdade compartilhada degenera em ruído ou disputa de poder.

3. Idem velle, idem nolle: o princípio da comunhão real

A tradição clássica ensina que a amizade verdadeira — e, por extensão, qualquer comunhão duradoura — exige idem velle, idem nolle: querer as mesmas coisas e rejeitar as mesmas coisas. Esse princípio não é sentimental, mas moral e racional.

Aplicado à teoria da permissão, ele opera como filtro qualitativo. Entre os leitores atraídos, apenas alguns compartilham uma visão comum do bem, da verdade e da ordem. Esses poucos constituem o núcleo possível de uma comunhão mais profunda, fundada não em identidade psicológica, mas na convergência da vontade orientada ao verdadeiro Bem.

Quando essa convergência se funda no verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, ela deixa de ser mera afinidade humana e se torna participação numa ordem superior da realidade.

4. Da sucessão de bens como ato de justiça

A partir desse núcleo, emerge naturalmente a questão da sucessão. Todo homem que produz algo — bens materiais, obras intelectuais, patrimônio simbólico — se depara, cedo ou tarde, com o problema de sua destinação. A modernidade costuma tratar esse problema de duas formas igualmente defeituosas: ou pela lógica fria do mercado, ou pela dissolução impessoal do Estado.

A cultura da sucessão aqui proposta rejeita ambas. Não se trata apenas de vender, nem de simplesmente transferir por direito formal, mas de colocar bens nas mãos certas. A pergunta orientadora não é “quem paga mais?”, mas “quem pode tirar melhor proveito deste bem, segundo a verdade?”

A propriedade, nesse sentido, não é fim absoluto, mas custódia ordenada à transmissão. Transferir corretamente o que um dia foi seu é um ato de justiça, pois respeita tanto o bem em si quanto a liberdade daquele que o recebe.

5. Permissão e liberdade: da transferência à libertação

Quando a sucessão é bem ordenada, ela deixa de ser perda e se torna libertação mútua. Quem transmite se liberta do peso da posse estéril; quem recebe se liberta da necessidade, podendo frutificar aquilo que recebeu.

A teoria da permissão cria as condições dessa libertação porque:

  • seleciona interlocutores por afinidade com a verdade;

  • forma herdeiros por comunhão de vontade, não por acaso biológico;

  • impede que bens valiosos caiam em mãos incapazes de compreendê-los ou respeitá-los.

Assim, a necessidade inevitável de transferir o que um dia foi seu se converte em liberdade para o outro — liberdade fundada na verdade, e não no arbítrio.

6. Cristo como fundamento último da sucessão

Nada disso se sustenta sem um fundamento último. Se a verdade fosse relativa, a sucessão seria apenas disputa; se a liberdade fosse mera escolha, a transmissão seria indiferente. É nos méritos de Cristo que a estrutura se fecha com coerência.

Cristo garante:

  • a objetividade da verdade,

  • a inteligibilidade do bem,

  • e o sentido redentor da transmissão.

Nele, a sucessão deixa de ser simples continuidade biográfica e se torna participação numa ordem que ultrapassa o indivíduo, sem anulá-lo. A verdade, como Ele mesmo afirma, é o fundamento da liberdade — e, por consequência, da sucessão justa.

Conclusão

A teoria da permissão, elevada do marketing à antropologia moral, revela-se capaz de sustentar uma verdadeira cultura da sucessão. Por meio da publicidade como chamamento, da permissão como critério de discernimento e do idem velle, idem nolle como princípio de comunhão, torna-se possível transmitir bens — materiais e imateriais — àqueles que podem dar a eles a melhor destinação.

Trata-se, em última análise, de ordenar a herança segundo a verdade, para que aquilo que foi produzido no tempo não se perca no caos, mas frutifique na liberdade, nos méritos de Cristo.

Bibliografia comentada

1. Seth Godin e a teoria da permissão

GODIN, Seth. Permission Marketing: Turning Strangers into Friends and Friends into Customers.
Nova York: Simon & Schuster, 1999.

Obra fundadora do conceito de permission marketing. Embora escrita no contexto empresarial, Godin introduz uma noção decisiva: a atenção voluntária como ato de liberdade. O livro não desenvolve implicações morais ou antropológicas, mas oferece o ponto de partida técnico para reinterpretar a permissão como condição legítima de relação, não como manipulação. A leitura aqui proposta eleva o conceito do plano mercadológico ao plano cultural.

GODIN, Seth. Tribes: We Need You to Lead Us.
Nova York: Portfolio, 2008.

Complementa Permission Marketing ao tratar da formação de comunidades em torno de valores compartilhados. Godin reconhece que toda “tribo” se organiza em torno de uma visão comum do mundo, ainda que não forneça critérios objetivos para julgar essa visão. A obra é útil para entender o aspecto agregador da permissão, mas precisa ser corrigida por uma metafísica da verdade para não degenerar em relativismo tribal.

2. Filosofia clássica: amizade, bem e sucessão

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco.
Especialmente os Livros VIII e IX.

Fonte clássica do princípio idem velle, idem nolle. Aristóteles demonstra que a amizade verdadeira não se funda no prazer nem na utilidade, mas na comunhão no bem. Esse princípio é essencial para justificar racionalmente a seleção de interlocutores e herdeiros por afinidade moral, e não por critérios meramente formais ou sentimentais.

ARISTÓTELES. Política.

Fundamenta a ideia de que os bens existem para o uso conforme a virtude. A propriedade não é negada, mas subordinada à finalidade correta. Essa noção prepara o terreno para compreender a sucessão como ato de justiça, não como simples transmissão patrimonial.

3. Santo Tomás de Aquino e a ordem da propriedade

TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, II-II, q. 66 (Do furto e da propriedade).

Texto central para a compreensão cristã da propriedade. Tomás distingue entre o direito de posse e o direito de uso, afirmando que os bens devem servir ao bem comum. Essa distinção fundamenta a ideia de propriedade como custódia orientada à destinação correta, base conceitual da cultura da sucessão proposta no artigo.

TOMÁS DE AQUINO. Comentário à Ética a Nicômaco.

Desenvolve e cristianiza o conceito aristotélico de amizade, elevando-o à ordem da caridade. Aqui se encontra o elo entre idem velle, idem nolle e a comunhão fundada em Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.

4. Doutrina Social da Igreja e sucessão de bens

LEÃO XIII. Rerum Novarum.
1891.

Documento fundamental da doutrina social da Igreja. Afirma o direito à propriedade privada, mas rejeita sua absolutização. A encíclica sustenta que o capital é fruto do trabalho acumulado ao longo do tempo, o que permite compreender tanto o capital material quanto o intelectual como bens que exigem destinação responsável e sucessão justa.

PIO XI. Quadragesimo Anno.
1931.

Aprofunda a noção de ordem social e de responsabilidade na gestão dos bens. Introduz com mais clareza o princípio da subsidiariedade, essencial para rejeitar tanto a estatização da sucessão quanto sua redução ao mercado impessoal.

5. Verdade, liberdade e Cristo como fundamento

JOÃO 8,32 — “A verdade vos libertará.”

Base evangélica explícita da tese central do artigo. A liberdade não é entendida como escolha arbitrária, mas como consequência da adesão à verdade. Sem esse fundamento, a permissão se reduz a consentimento psicológico e a sucessão se torna mero ato jurídico.

BENTO XVI. Caritas in Veritate.
2009.

Desenvolve a relação intrínseca entre verdade e caridade, mostrando que toda ação social justa depende da verdade objetiva. A encíclica oferece sustentação teológica moderna à ideia de que a transmissão de bens deve estar ordenada ao bem real do outro, e não apenas à intenção subjetiva.

6. Leituras complementares (crítica da modernidade)

MACINTYRE, Alasdair. After Virtue.
Notre Dame: University of Notre Dame Press, 1981.

Análise rigorosa da fragmentação moral moderna. Ajuda a compreender por que a cultura contemporânea perdeu a noção de sucessão significativa, reduzindo-a a contratos ou heranças vazias de sentido.

SCRUTON, Roger. How to Be a Conservative.
Londres: Bloomsbury, 2014.

Defesa da continuidade cultural, da herança e da responsabilidade intergeracional. Embora não teológico, o livro reforça a ideia de que conservar e transmitir corretamente é um dever moral, não um apego irracional ao passado.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Dezordem: ortografia, linguagem e a negação da lei

Introdução

A linguagem nunca é neutra. Ela carrega, mesmo quando não percebemos, camadas de sentido que vão da fonética ao símbolo, da pedagogia à metafísica. Certas grafias abandonadas ou consideradas “erradas” à luz da normatividade moderna revelam, quando revisitadas com atenção, uma capacidade interpretativa que a ortografia padronizada tende a apagar.

É o caso da forma “dezordem”, registrada de modo ocasional no português antigo e imperial. Longe de ser apenas uma variação gráfica arcaica, essa escrita permite uma leitura que articula pronúncia, ensino da língua e teologia moral, revelando algo essencial sobre o próprio conceito de desordem.

1. A verdade fonética da grafia

No português, o s intervocálico realiza-se foneticamente como [z].
Não dizemos des-ór-dem, mas dez-ór-dem.

A ortografia moderna optou por uma escrita etimológica e convencional, sacrificando a transparência fonética. Já a grafia dezordem faz o movimento inverso: submete a escrita à fala, aproximando grafema e som.

Do ponto de vista pedagógico — especialmente para estrangeiros — isso não é irrelevante. Línguas como o espanhol, o polonês ou o italiano tendem a preservar maior coerência entre escrita e pronúncia. Para esses falantes, dezordem não é erro: é clareza.

Nesse sentido, a grafia antiga não é ignorância, mas uma forma distinta de inteligência linguística.

2. A flutuação ortográfica no português pré-normativo

Antes das reformas ortográficas do século XX, o português conhecia ampla variação gráfica. O uso de s e z não era rigidamente fixado, assim como ph/f, y/i, x/ch.

É fundamental ser preciso: dezordem não foi a forma normativa dominante, mas foi uma forma possível, compatível com o estado da língua antes da padronização moderna.

Isso nos obriga a abandonar uma visão anacrônica da ortografia, como se o passado estivesse submetido aos critérios do presente. A grafia flutuante não era sinal de caos, mas de liberdade formal, anterior à centralização normativa do Estado moderno.

3. Dez ordens contra a Ordem

É aqui que a reflexão ganha densidade propriamente filosófica e teológica.

A palavra desordem, entendida apenas como ausência de ordem, empobrece o conceito. A leitura simbólica de “dezordem” como “dez ordens” abre uma compreensão mais profunda: a desordem não nasce do nada, mas do excesso ilegítimo de ordens.

O contraste com o Decálogo é inevitável:

  • O Decálogo são dez palavras, mas uma única Lei.

  • A dezordem, lida simbolicamente, são dez ordens autônomas, concorrentes, contraditórias.

Não se trata de falta de mandamentos, mas de multiplicação arbitrária deles.

Onde a Lei divina é una, inteligível e ordenadora, a “dezordem” representa:

  • fragmentação da autoridade,

  • dispersão da norma,

  • substituição da verdade por comandos contingentes.

A desordem, portanto, não é caos absoluto, mas tirania normativa: muitas ordens onde deveria haver uma só.

4. Linguagem, lei e autoridade

Essa leitura permite uma conclusão decisiva: a desordem moral e política não se caracteriza pela ausência de regras, mas pela inflação normativa dissociada da verdade.

Quando cada instância emite sua própria “ordem”, quando cada poder se arroga legislador último, quando a Lei deixa de ser referência transcendente para se tornar produto da vontade, temos exatamente isso: dez ordens no lugar da Ordem.

A grafia dezordem passa então de curiosidade linguística a símbolo conceitual. Ela nomeia com precisão aquilo que a modernidade frequentemente produz: um mundo saturado de normas, mas vazio de Lei.

Conclusão

Reabilitar a forma dezordem não é propor uma reforma ortográfica nem defender um retorno acrítico ao passado. É, antes, um exercício de atenção à linguagem, capaz de revelar verdades que a padronização esconde.

Foneticamente, dezordem diz a verdade da fala.
Historicamente, é compatível com um português não normatizado.
Simbolicamente, exprime algo decisivo: a negação da Lei una pela proliferação de ordens humanas.

Nesse sentido, a palavra deixa de ser apenas um signo linguístico e se torna um diagnóstico moral. Onde há dez ordens, já não há ordem alguma.

Bibliografia comentada

1. Câmara Jr., Joaquim Mattoso

Estrutura da Língua Portuguesa. Petrópolis: Vozes.

Obra clássica da linguística brasileira. Mattoso Câmara descreve com precisão os fenômenos fonéticos do português, entre eles a sonorização do /s/ intervocálico, ponto fundamental para compreender por que desordem é pronunciada como dezordem. O livro oferece base técnica sólida para sustentar a legitimidade fonética da grafia analisada, sem recorrer a especulações.

2. Cunha, Celso; Cintra, Lindley

Nova Gramática do Português Contemporâneo. Rio de Janeiro: Lexikon.

Embora normativa, esta gramática reconhece explicitamente a distância entre pronúncia real e grafia convencional no português. É uma fonte importante para mostrar que a ortografia moderna é fruto de convenções estabilizadas, não de transparência fonética. Serve como contraponto: o que hoje é considerado “correto” não é necessariamente o que melhor expressa o som.

3. Teyssier, Paul

História da Língua Portuguesa. Lisboa: Sá da Costa.

Referência indispensável para compreender a flutuação ortográfica do português até o século XIX. Teyssier demonstra que a ausência de padronização não era exceção, mas regra, o que torna plausível o uso de grafias como dezordem. A obra impede leituras anacrônicas da língua e fundamenta historicamente o argumento.

4. Said Ali, Manuel

Dificuldades da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Acadêmica.

Said Ali é particularmente útil por tratar das tensões entre uso, tradição e norma. Ele mostra como muitas “dificuldades” da língua surgem justamente da tentativa de congelar um organismo vivo. A obra ajuda a compreender por que grafias antigas não devem ser lidas automaticamente como erros.

5. Santo Agostinho

De Ordine (Sobre a Ordem).

Texto fundamental para a dimensão metafísica do artigo. Agostinho define a ordem como princípio que integra multiplicidade e unidade sob a razão divina. A partir dele, fica claro que a desordem não é simples ausência de estrutura, mas afastamento da ordem verdadeira, ideia que sustenta a leitura simbólica de “dez ordens” contra a Ordem.

6. Bíblia Sagrada

Êxodo 20 — O Decálogo.

Fonte primária e insubstituível para a reflexão teológica proposta. O Decálogo aparece como pluralidade formal (dez palavras) que exprime unidade moral. Essa tensão entre plural e uno é essencial para compreender por que a multiplicação de ordens humanas não equivale à verdadeira ordem.

7. São Tomás de Aquino

Suma Teológica, I-II, questões 90–97 (Tratado da Lei).

Tomás fornece o arcabouço racional para distinguir:

  • lei eterna,

  • lei natural,

  • lei humana.

Essas distinções permitem compreender por que a inflação de normas humanas, quando desligadas da lei superior, produz desordem moral, e não ordem. É a base filosófica mais robusta para o argumento central do artigo.

8. Voegelin, Eric

Ordem e História, vol. I.

Voegelin é crucial para o diagnóstico político implícito no texto. Ele demonstra como a perda da referência transcendente da ordem conduz à proliferação ideológica de sistemas normativos. A “dezordem” moderna aparece aqui como fenômeno histórico, não apenas linguístico ou moral.

9. Olavo de Carvalho

O Jardim das Aflições. São Paulo: É Realizações.

A obra articula linguagem, símbolo, filosofia política e teologia em chave crítica da modernidade. Embora não trate diretamente de ortografia, oferece o método de leitura simbólica que legitima interpretações como a de dezordem enquanto diagnóstico cultural e espiritual.

A França como potência transcontinental: a fronteira invisível entre a União Europeia e o Mercosul

Quando se fala em França, o imaginário político médio a reduz a um Estado europeu clássico, ator relevante dentro da União Europeia, dotado de peso diplomático, cultural e militar. Essa leitura, porém, é incompleta e conduz a erros analíticos relevantes. A França não é apenas um país da União Europeia: ela é uma potência transcontinental, com presença soberana direta na América do Sul. Esse fato, longe de ser periférico, tem implicações geopolíticas profundas — especialmente para o Brasil.

A Guiana Francesa não é colônia: é França

A Guiana Francesa não possui o estatuto de colônia, território associado ou protetorado. Trata-se de um departamento ultramarino, juridicamente equivalente a qualquer outro departamento metropolitano francês. Isso significa que:

  • O território é parte integrante da República Francesa.

  • O direito francês e, por extensão, o direito europeu, aplicam-se integralmente.

  • A França possui ali soberania plena, inclusive militar.

Consequentemente, a França tem uma fronteira terrestre direta com o Brasil. Mais do que isso: a União Europeia toca fisicamente o território brasileiro. Esse dado, por si só, já deveria bastar para elevar a França a uma categoria estratégica diferenciada no pensamento geopolítico sul-americano.

A única fronteira terrestre UE–Mercosul

Não existe outro ponto no globo em que a União Europeia possua fronteira terrestre direta com um país do Mercosul. Esse fato cria uma singularidade absoluta:

  • A UE não depende exclusivamente de acordos, missões diplomáticas ou presença indireta para atuar na região.

  • Existe um contato territorial contínuo, permanente e soberano.

Isso altera qualitativamente o tipo de presença europeia na América do Sul. Não se trata apenas de influência; trata-se de presença estatal plena.

Projeção de poder além da Europa

A partir da Guiana Francesa, a França projeta poder em múltiplas dimensões:

Militar

A França mantém forças armadas permanentes no território, garantindo:

  • Controle de fronteiras

  • Capacidade de resposta rápida

  • Projeção militar no Atlântico Sul

Do ponto de vista brasileiro, isso significa fazer fronteira com:

  • Uma potência nuclear

  • Membro permanente do Conselho de Segurança da ONU

  • Um dos poucos países do mundo com capacidade militar expedicionária autônoma

Jurídica e institucional

O território amazônico francês opera sob:

  • Direito francês

  • Direito da União Europeia

Isso insere, de modo silencioso, a governança europeia dentro da Amazônia, criando um ponto de contato direto entre normas ambientais, jurídicas e administrativas europeias e o espaço amazônico sul-americano.

Tecnológica e espacial

O Centro Espacial de Kourou é um dos ativos estratégicos mais importantes da Europa:

  • Localização equatorial privilegiada

  • Infraestrutura crítica para lançamentos civis e militares

  • Pilar da autonomia espacial europeia

A soberania francesa na Guiana não é apenas territorial: ela é tecnológica e estratégica, conectando o espaço amazônico à corrida espacial contemporânea.

Implicações para o Brasil

O Brasil, frequentemente tratado como potência regional isolada, compartilha fronteira com um Estado que:

  • Integra o núcleo duro da União Europeia

  • Possui poder militar global

  • Atua simultaneamente na Europa, África, Caribe e América do Sul

Qualquer discussão séria sobre:

  • Amazônia

  • Defesa

  • Política ambiental

  • Relações UE–Mercosul

  • Atlântico Sul

não pode ignorar o papel singular da França. Paris não é apenas um interlocutor diplomático distante: é vizinho geopolítico direto.

França como ponte institucional UE–América do Sul

Na prática, a França funciona como:

  • Porta de entrada europeia na América do Sul

  • Vetor de interesses estratégicos da UE na região

  • Mediadora institucional potencial (ou tensionadora, conforme o caso) nas relações entre UE e Mercosul

Esse papel raramente é assumido explicitamente no discurso oficial, mas opera de forma contínua no plano estrutural.

Conclusão

A França não é apenas um país europeu com interesses globais. Ela é uma potência transcontinental amazônica, atlântica, europeia e espacial. Sua fronteira com o Brasil transforma o mapa político da União Europeia e altera o equilíbrio estratégico sul-americano de maneira profunda e duradoura.

Subestimar esse dado leva a análises frágeis — tanto sobre a política externa francesa quanto sobre a posição do Brasil no sistema internacional. Reconhecê-lo, ao contrário, é condição mínima para qualquer pensamento geopolítico sério no século XXI.

Bibliografia Comentada

1. Obras de Geopolítica e Estratégia

BRZEZINSKI, Zbigniew. The Grand Chessboard: American Primacy and Its Geostrategic Imperatives.
Livro clássico para compreender a lógica das potências que operam além de seus continentes de origem. Embora centrado nos EUA, o modelo analítico de Brzezinski é útil para entender a França como ator que projeta poder extraeuropeu de forma estrutural, não episódica.

COHEN, Saul Bernard. Geopolitics: The Geography of International Relations.
Referência fundamental para compreender como geografia, fronteiras e continuidade territorial moldam o poder político. A situação da Guiana Francesa encaixa-se perfeitamente na noção de “regiões geoestratégicas de contato”, conceito central da obra.

KAPLAN, Robert D. The Revenge of Geography.
Kaplan ajuda a recolocar o território no centro da análise política. Sua abordagem ilumina por que a fronteira franco-brasileira não é um detalhe administrativo, mas um dado estrutural permanente que condiciona decisões políticas de longo prazo.

2. França, Poder Global e Territórios Ultramarinos

ALDEN, Chris; MORPHET, Sally; VIEIRA, Marco Antonio. The South in World Politics.
Obra relevante para situar a França como ator híbrido: potência do Norte com presença soberana no Sul Global. A Guiana Francesa aparece implicitamente como exemplo de sobreposição entre Norte institucional e Sul geográfico.

COOPER, Frederick. Citizenship between Empire and Nation.
Livro essencial para entender como antigas estruturas imperiais foram juridicamente reconfiguradas sem desaparecer. Ajuda a compreender por que a Guiana Francesa não é “colônia”, mas também não pode ser analisada como simples extensão metropolitana europeia.

HUNTINGTON, Samuel P. The Clash of Civilizations.
Embora controverso, Huntington oferece uma chave útil ao mostrar como a França é uma das poucas potências europeias com linhas de fratura civilizacionais diretas fora da Europa — inclusive na América do Sul.

3. União Europeia, Direito e Projeção Institucional

WEILER, J. H. H. The Constitution of Europe.
Fundamental para compreender como o direito europeu se projeta para além do espaço continental estrito. Esclarece por que a Guiana Francesa é, juridicamente, União Europeia em solo amazônico.

CRAIG, Paul; DE BÚRCA, Gráinne. EU Law: Text, Cases, and Materials.
Referência técnica que permite compreender os efeitos concretos da aplicação do direito da UE em territórios ultramarinos, incluindo temas ambientais, comerciais e administrativos.

SCHMITT, Carl. O Nomos da Terra.
Obra indispensável para leitura estrutural da relação entre terra, direito e poder. A presença francesa na Guiana pode ser lida como um caso moderno de nomos transcontinental, onde a ordem jurídica europeia se ancora fisicamente em outro continente.

4. Amazônia, Defesa e Atlântico Sul

MIYAMOTO, Shiguenoli. Geopolítica e Poder no Brasil.
Obra central para entender a posição brasileira diante de potências externas. Ajuda a contextualizar a fronteira com a França dentro das preocupações históricas brasileiras com soberania e defesa.

FREITAS, Jorge Manuel da Silva. Atlântico Sul: Geopolítica e Estratégia.
Analisa o Atlântico Sul como espaço estratégico emergente. A Guiana Francesa aparece como ponto de ancoragem europeia em uma região tradicionalmente pensada como sul-americana e africana.

MEIRA MATTOS, Carlos de. Geopolítica e Modernidade.
Clássico brasileiro que permite compreender como potências externas operam em espaços periféricos por meio de presença territorial, infraestrutura estratégica e controle indireto.

5. Espaço, Tecnologia e Soberania

LOGSDON, John M. John F. Kennedy and the Race to the Moon.
Embora focado nos EUA, fornece base conceitual para entender o espaço como extensão direta da soberania estatal. Essencial para compreender o papel de Kourou como ativo estratégico, e não apenas tecnológico.

SHEEHAN, Michael. The International Politics of Space.
Análise clara sobre como bases espaciais são instrumentos de poder internacional. A Guiana Francesa surge como exemplo raro de território equatorial soberano pertencente a uma potência do Norte.