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segunda-feira, 6 de julho de 2026

O projeto pombalino de uma Igreja Nacional Portuguesa: regalismo, febronianismo, galicanismo e josefismo na crise entre Portugal e Roma (1760–1770)

Introdução

Entre os diversos episódios que marcaram o reinado de D. José I, poucos são tão significativos quanto a ruptura diplomática entre Portugal e a Santa Sé durante o ministério do Marquês de Pombal. Durante aproximadamente dez anos (1760–1770), Portugal viveu uma situação extraordinária: rompeu relações com Roma, restringiu severamente a atuação pontifícia no reino, submeteu a administração eclesiástica ao Estado e desenvolveu uma fundamentação teológica que, caso levada às últimas consequências, poderia conduzir à constituição de uma Igreja nacional semelhante, em alguns aspectos institucionais, à Igreja Anglicana.

Embora essa ruptura nunca tenha produzido um cisma formal, ela representa um dos momentos mais radicais da história do regalismo católico europeu. O projeto pombalino não surgiu isoladamente. Ele dialogava com correntes intelectuais que percorriam toda a Europa iluminista, especialmente o regalismo ibérico, o galicanismo francês, o febronianismo alemão e aquilo que, poucos anos depois, seria conhecido como josefismo no Império Austríaco.

Compreender esse episódio significa entender como os Estados absolutistas procuraram redefinir as relações entre poder temporal e autoridade espiritual às vésperas da Revolução Francesa.

O contexto político do século XVIII

O século XVIII assistiu ao fortalecimento das monarquias absolutas europeias.

Os reis buscavam concentrar todos os poderes administrativos sob sua autoridade. Nesse contexto, a Igreja Católica representava uma instituição peculiar: possuía patrimônio próprio, tribunais próprios, legislação própria e obedecia a uma autoridade situada fora das fronteiras nacionais — o Papa.

Para muitos ministros ilustrados, isso constituía um obstáculo à centralização estatal.

Portugal não era exceção: desde o século XV, graças ao Padroado Português, a Coroa possuía amplos poderes sobre a organização eclesiástica do império ultramarino.

O rei podia:

  • indicar bispos;
  • criar dioceses;
  • administrar recursos eclesiásticos;
  • controlar boa parte da expansão missionária.

O título de "Rei Fidelíssimo", concedido pelo Papa Bento XIV a D. João V em 1748, simbolizava justamente a estreita colaboração entre Lisboa e Roma.

Paradoxalmente, esse enorme poder tornou ainda mais tentadora a ideia de dispensar a autoridade papal.

A expulsão dos jesuítas

A ruptura teve como estopim a expulsão da Companhia de Jesus em 1759. Pombal acusou os jesuítas de conspirarem contra o Estado, especialmente após o chamado Processo dos Távoras.

A expulsão possuía diversos objetivos:

  • eliminar um centro autônomo de poder;
  • reformar o ensino;
  • fortalecer o Estado;
  • controlar diretamente a formação intelectual do reino.

Roma protestou - o núncio apostólico tornou-se um dos principais opositores das medidas portuguesas.

Em 1760 ocorreu a ruptura diplomática entre Portugal e a Santa Sé. Durante aproximadamente dez anos:

  • não houve relações diplomáticas;
  • Roma perdeu praticamente toda influência administrativa em Portugal;
  • o governo ampliou seu controle sobre a Igreja nacional.

O regalismo pombalino

O conceito central para compreender esse período é o regalismo. 

O Regalismo designa a doutrina segundo a qual o soberano possui direitos especiais sobre a Igreja existente em seu território. Não se trata necessariamente de negar a autoridade espiritual do Papa - o objetivo consiste em limitar sua atuação prática em favor do Estado.

No caso português, Pombal levou essa lógica ao extremo. Entre outras medidas:

  • restringiu a atuação dos núncios;
  • submeteu a Inquisição ao rei;
  • criou a Real Mesa Censória;
  • limitou as censuras eclesiásticas;
  • subordinou diversas decisões canônicas ao governo.

O resultado foi uma profunda estatização da administração religiosa.

Antônio Pereira de Figueiredo: o teólogo do Estado

Toda revolução política necessita de uma fundamentação intelectual. No caso português, esse papel coube ao padre Antônio Pereira de Figueiredo. Erudito, latinista e posteriormente tradutor da Bíblia para o português, tornou-se o principal formulador da política religiosa pombalina. Sua obra "Da Suprema Potestade dos Reis" defendia a superioridade do poder régio na esfera temporal.

Mais importante ainda foi sua "Tentativa Teológica" (1766), pois ali sustentava que, impossibilitado o recurso ao Papa, os bispos poderiam exercer diretamente diversas competências normalmente reservadas à Santa Sé.

Isso solucionava problemas práticos:

  • dispensas matrimoniais;
  • administração eclesiástica;
  • continuidade da vida sacramental.

Mas possuía implicações muito maiores: na prática, Pereira construía uma teoria segundo a qual uma Igreja nacional poderia funcionar indefinidamente sem depender do Papa.

O febronianismo

As ideias de Pereira não nasceram em Portugal - sua principal inspiração foi Johann Nikolaus von Hontheim, que escreveu sob o pseudônimo de Febrônio.

Em 1763, Febrônio publicou "De statu Ecclesiae". Nesse livro, ele defendia que:

  • Cristo concedera autoridade diretamente aos bispos;
  • o Papa possuía apenas primazia de honra e coordenação;
  • a Igreja deveria funcionar de forma mais colegiada;
  • o centralismo romano precisava ser reduzido.

O febronianismo não pretendia abolir o papado, mas pretendia enfraquecê-lo institucionalmente. enquanto Pereira adaptou essas teses ao contexto português. 

Enquanto Febrônio discutia uma reforma universal da Igreja, Pereira oferecia instrumentos concretos para que o Estado português administrasse sua própria Igreja.

Galicanismo

O galicanismo francês constitui outro antecedente importante - desde a Idade Média, os reis franceses buscavam limitar a autoridade pontifícia.

As chamadas Liberdades Galicanas afirmavam que:

  • o rei não estava submetido politicamente ao Papa;
  • concílios gerais possuíam autoridade superior ao pontífice em determinados casos;
  • costumes nacionais limitavam a intervenção romana.

O galicanismo preservava plenamente a comunhão com Roma, mas reduzia significativamente sua autoridade prática. Nesse aspecto, Pombal aproxima-se muito mais do modelo francês do que do inglês.

Josefismo

Poucos anos depois, surgiria na Áustria um fenômeno semelhante: o imperador José II promoveu profundas reformas religiosas.

Entre elas:

  • fechamento de centenas de mosteiros;
  • reorganização das dioceses;
  • controle estatal dos seminários;
  • regulamentação da liturgia;
  • forte fiscalização das atividades eclesiásticas.

Esse conjunto de políticas ficou conhecido como josefismo - embora cronologicamente posterior, guarda impressionantes semelhanças com o programa português, pois ambos representam expressões do chamado absolutismo esclarecido, já que o Estado procurava transformar a Igreja numa instituição pública subordinada aos interesses nacionais.

Portugal poderia ter criado uma Igreja nacional?

Sob Pombal Portugal caminhava nessa direção. A obra de Pereira de Figueiredo sobre o direito dos metropolitanos portugueses defendia que os próprios bispos poderiam consagrar novos bispos, pois esse era precisamente o mecanismo necessário para garantir sucessão apostólica independente de Roma.

Sob esse aspecto, a comparação com a Inglaterra possui fundamento - entretanto, havia diferenças fundamentais: Henrique VIII rompeu definitivamente com o Papa; Pombal jamais proclamou uma nova Igreja pois ele não modificou:

  • os sacramentos;
  • a doutrina;
  • a liturgia;
  • o Credo;
  • a tradição teológica.

Seu objetivo era transformar o Papa numa autoridade essencialmente honorífica, preservando a unidade católica de forma aparente. Em outras palavras, ele pretendia criar um catolicismo nacional altamente autônomo, e isso tendia para a criação de uma nova confissão religiosa, cismática e herética.

Por que o cisma não ocorreu?

Diversos fatores impediram a ruptura definitiva.

Em primero lugar, Roma modificou sua postura, pois o Papa Clemente XIV demonstrou disposição para negociar. A maior prova disso é que em 1770 as relações diplomáticas foram restabelecidas. Poucos anos depois, em 1773, ele suprimiu a Companhia de Jesus, retirando um dos principais motivos do conflito.

Outro fator decisivo foi a própria tradição política portuguesa - a legitimidade da monarquia encontrava-se profundamente ligada ao catolicismo. Romper definitivamente com Roma significaria colocar em risco a própria fundamentação religiosa da Coroa.

Além disso, muitos bispos permaneceram leais ao Papa. A existência dessa resistência interna dificultava qualquer tentativa de institucionalizar uma Igreja independente.

A Viradeira

Com a morte de D. José I, em 1777, ocorreu a chamada Viradeira. D. Maria I promoveu a progressiva reaproximação com a Igreja Católica. Diversas medidas pombalinas foram revistas - e o próprio Antônio Pereira de Figueiredo, nos últimos dias de vida, solicitou sua readmissão à Congregação do Oratório.

Seu retorno pouco antes da morte simboliza, de certo modo, o encerramento daquele projeto político-religioso.

Conclusão

O episódio pombalino constitui um dos mais importantes experimentos de nacionalização da Igreja Católica durante o século XVIII. Embora nunca tenha produzido um cisma formal, isso aproximou Portugal de uma redefinição radical das relações entre Igreja e Estado.

Mais do que um conflito isolado, tratou-se da convergência entre quatro grandes correntes europeias:

  • o regalismo, ao afirmar os direitos do soberano sobre a Igreja;
  • o galicanismo, ao limitar a autoridade prática do Papa;
  • o febronianismo, ao fortalecer a autonomia do episcopado;
  • o josefismo, ao integrar a Igreja ao aparelho estatal.

Sob essa perspectiva, o projeto de pombalino representou um elo entre o absolutismo ilustrado e as profundas transformações religiosas e políticas que culminariam na Revolução Francesa e na redefinição das relações entre Estado e Igreja durante a contemporaneidade.

Bibliografia comentada

Azevedo, João Lúcio de. O Marquês de Pombal e a sua época.

Obra clássica sobre Pombal. Embora escrita no início do século XX, permanece uma das principais referências para compreender o contexto político, administrativo e religioso das reformas pombalinas.

Maxwell, Kenneth. Marquês de Pombal: Paradoxo do Iluminismo.

Provavelmente o estudo moderno mais influente sobre Pombal. Analisa suas reformas à luz do Iluminismo europeu, destacando as tensões entre modernização e autoritarismo.

Seabra, João. Pombal contra Roma.

Estudo específico sobre o conflito diplomático entre Portugal e a Santa Sé. Examina detalhadamente Antônio Pereira de Figueiredo, o regalismo português e as possibilidades reais de formação de uma Igreja nacional.

Hontheim, Johann Nikolaus (Febrônio). De statu Ecclesiae.

Obra fundamental do febronianismo. Influenciou diretamente Pereira de Figueiredo e grande parte do episcopalismo católico do século XVIII.

Black, Jeremy. Eighteenth-Century Europe (1700–1789).

Excelente panorama político da Europa do século XVIII, permitindo situar o caso português no contexto do absolutismo ilustrado.

Chadwick, Owen. The Popes and European Revolution.

Analisa as relações entre o papado, os Estados absolutistas e os movimentos reformistas que antecederam a Revolução Francesa.

Boxer, Charles R. The Portuguese Seaborne Empire.

Embora centrado no império ultramarino, explica de maneira clara o funcionamento do Padroado Português, elemento essencial para compreender o regalismo lusitano.

Martina, Giacomo. History of the Church.

Apresenta a perspectiva da história da Igreja sobre o século XVIII, incluindo as controvérsias envolvendo regalismo, galicanismo, febronianismo e josefismo.

Burleigh, Michael. Earthly Powers.

Estudo amplo sobre as relações entre religião e política na Europa moderna, oferecendo uma visão comparativa extremamente útil para interpretar o caso português.

Duffy, Eamon. Saints and Sinners: A History of the Popes.

Excelente síntese da história do papado, contextualizando as posições de Bento XIV, Clemente XIII e Clemente XIV diante das pressões exercidas pelas monarquias católicas do século XVIII.

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