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segunda-feira, 6 de julho de 2026

O ouro, os bens concretos e a ordem moral: Aristóteles, Carl Menger, Ortega y Gasset e Padre André Beltrami

Introdução

No capítulo "O Ouro é Terra Brilhante", da obra A Esmola, Padre André Beltrami apresenta uma reflexão que, à primeira vista, parece apenas uma exortação moral contra a avareza. Entretanto, uma leitura mais atenta revela uma crítica profunda à inversão da ordem dos bens promovida pelo apego ao dinheiro.

Ao afirmar que o ouro não alimenta, não cura e não aquece, Beltrami desloca o centro da discussão econômica para uma questão muito mais fundamental: o que significa verdadeiramente ser rico?

Essa pergunta permite aproximar seu pensamento de três importantes tradições filosóficas:

  • a filosofia política de Aristóteles;
  • a teoria subjetiva do valor de Carl Menger;
  • a filosofia da circunstância de José Ortega y Gasset.

Embora pertençam a épocas e contextos distintos, essas tradições convergem na rejeição da ideia de que o valor econômico possa ser compreendido isoladamente da natureza humana e de sua finalidade.

O ouro como bem imaginário

Beltrami escreve:

"Que é esse ouro?... É um pouco de terra brilhante... O ouro não serve para alimento, nem remédio."

Naturalmente, o autor não ignora que o ouro possui utilidade econômica, mas sua crítica dirige-se ao fenômeno pelo qual um simples metal passa a ocupar, na imaginação humana, um lugar superior aos bens indispensáveis à vida.

O ouro converte-se, assim, nma espécie de bem imaginário. Não imaginário porque seja fictício, mas porque sua importância decorre principalmente de uma convenção social, psicológica e econômica, enquanto o trigo, a lenha, a água, o carvão e os alimentos permanecem indispensáveis independentemente da opinião dos homens. Beltrami, nesse ponto, pretende restabelecer essa hierarquia.

Aristóteles e a crítica da crematística

É impossível ler esse trecho sem recordar Aristóteles. Na Política, o filósofo distingue duas formas completamente diferentes de lidar com a riqueza.

A primeira é a economia doméstica (oikonomia) e seu objetivo consiste em administrar os bens necessários para uma vida virtuosa.

A segunda é a crematística - esta transforma a acumulação de riqueza em finalidade da existência.

Segundo Aristóteles, o dinheiro nasceu como instrumento de troca;  quando ele deixa de ser meio para tornar-se fim, ocorre uma perversão da ordem natural.

Beltrami parece desenvolver exatamente esse raciocínio, ao perguntar:

"Que é esse ouro?"

ele obriga o leitor a separar duas coisas:

  • o valor natural dos bens;
  • o valor convencional atribuído pelo mercado.

A idolatria do ouro nasce justamente quando essas duas dimensões são confundidas.

Carl Menger e a utilidade dos bens

À primeira vista, poderia parecer que Beltrami contradiz Carl Menger. Na realidade, a aproximação é mais sutil, pois Menger demonstra que os bens possuem valor porque satisfazem necessidades humanas.

Não existe valor objetivo independente da relação entre o bem e a pessoa - nesse sentido, tanto o trigo quanto o ouro possuem valor. A diferença encontra-se na natureza da necessidade satisfeita; o trigo atende diretamente à alimentação; A lenha fornece calor; O carvão produz energia; o ouro normalmente satisfaz necessidades indiretas:

  • reserva de riqueza;
  • meio de troca;
  • proteção patrimonial;
  • aplicações industriais.

Beltrami não rejeita essa utilidade - o que ele rejeita é a tendência humana de inverter essa ordem, passando a considerar superiores precisamente os bens cuja utilidade imediata é menor. Sua crítica é moral, não econômica.

A circunstância em Ortega y Gasset

José Ortega y Gasset afirma:

"Eu sou eu e minha circunstância."

A existência humana nunca ocorre no vazio, pois vivemos inseridos numa família, numa sociedade, numa tradição e numa determinada realidade histórica.

Beltrami amplia essa perspectiva, pois sua circunstância não é apenas social, mas também providencial: o homem vive diante de Deus. Nesse sentido, as circunstâncias materiais recebem significado porque fazem parte da ordem criada. Assim, o trigo não vale apenas porque alimenta, mas porque participa da conservação da vida que Deus concedeu; o ouro, por sua vez, não pode ser compreendido isoladamente das responsabilidades morais associadas ao seu uso.

A ordem objetiva dos bens

O capítulo propõe implicitamente uma hierarquia. No primeiro nível encontram-se os bens indispensáveis à existência. São eles:

  • o alimento;
  • a água;
  • o abrigo;
  • a energia;
  • os instrumentos de trabalho.

No segundo nível aparecem os bens úteis para facilitar as trocas econômicas - entre eles encontra-se o ouro.

Quando essa ordem é invertida, surgem distorções econômicas e espirituais: a riqueza deixa de servir ao homem - e nesse sentido o homem passa a servir à riqueza. Essa inversão constitui precisamente aquilo que Aristóteles chamava essa desordem de crematística.

O metalismo como fenômeno cultural

Historicamente, muitas civilizações associaram o ouro ao poder: reis acumulavam ouro e impérios mediam sua força pelas reservas metálicas. Mais tarde, diversos sistemas monetários fundamentaram-se no padrão-ouro.

Beltrami não discute política monetária. Sua preocupação é anterior: ele procura compreender por que o ser humano atribui tamanha importância psicológica ao metal precioso.

Nesse aspecto, o metalismo não é apenas uma teoria econômica, mas uma mentalidade.

O ouro passa a representar:

  • segurança;
  • poder;
  • prestígio;
  • superioridade social.

Essa transformação simbólica explica por que o homem frequentemente prefere acumular ouro a produzir riqueza concreta.

A riqueza como sinal de salvação

Outra consequência dessa inversão aparece quando a riqueza passa a ser interpretada como indicador da própria dignidade moral.

Ao longo da história, determinadas correntes religiosas aproximaram prosperidade material e eleição divina. Nessa perspectiva, enriquecer torna-se quase uma confirmação da salvação.

Beltrami combate precisamente essa lógica, pois os bens materiais não possuem valor absoluto - seu valor depende da finalidade para a qual são utilizados, pois a riqueza só é boa quando permanece subordinada à justiça, à caridade e ao bem comum.

Economia e ordem moral

Beltrami não escreve um tratado de economia, mas sua reflexão possui consequências econômicas importantes.

Ela recorda que nenhuma teoria do valor pode ser separada completamente da antropologia - toda economia responde, consciente ou inconscientemente, a uma pergunta anterior:

Quem é o homem?

Se o homem existe apenas para consumir, acumular e competir, então o ouro naturalmente ocupa o centro da vida econômica.

Se, porém, o homem possui uma finalidade moral e espiritual, então a riqueza transforma-se em instrumento de realização humana.

Essa diferença modifica completamente o significado da atividade econômica.

Conclusão

O pequeno capítulo "O Ouro é Terra Brilhante", de Padre André Beltrami, revela uma profundidade filosófica surpreendente.

Sua crítica ao ouro não constitui uma condenação da riqueza, tampouco uma rejeição do comércio ou da propriedade.

O que Beltrami denuncia é a perda da hierarquia objetiva dos bens. Nesse ponto, sua reflexão dialoga com Aristóteles, ao denunciar a crematística como fim em si mesma; aproxima-se de Carl Menger ao reconhecer que o valor dos bens depende de sua relação com as necessidades humanas, embora insista que essas necessidades devem ser compreendidas à luz de uma ordem moral; e pode ser colocada em conversa com José Ortega y Gasset, na medida em que situa o indivíduo em suas circunstâncias concretas, ampliando essa circunstância para incluir a relação do homem com Deus e com a ordem da criação.

O ouro continua sendo apenas "terra brilhante". O que lhe confere poder não é sua natureza física, mas a imaginação humana e as instituições sociais. Em contraste, os bens que sustentam a vida — o alimento, a energia, a moradia e o trabalho — conservam sua importância independentemente das convenções econômicas. A verdadeira riqueza, portanto, não consiste na acumulação ilimitada de meios de troca, mas na correta ordenação dos bens segundo sua finalidade própria e segundo o bem da pessoa inserida em uma comunidade e aberta ao seu fim último.

Bibliografia comentada

ARISTÓTELES. Política.
Obra fundamental para compreender a distinção entre oikonomia e crematística. Fornece o fundamento clássico da crítica à acumulação ilimitada de riqueza e à inversão entre meios e fins.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco.
Complementa a Política ao apresentar a noção de felicidade (eudaimonia) como finalidade da vida humana e o papel instrumental dos bens materiais para a prática da virtude.

BELTRAMI, André. A Esmola.
Texto de espiritualidade cristã que utiliza a reflexão sobre a caridade para discutir o verdadeiro significado da riqueza, da pobreza e do uso moral dos bens materiais. O capítulo "O Ouro é Terra Brilhante" oferece uma crítica da idolatria do dinheiro por meio de uma linguagem simples, mas filosoficamente densa.

MENGER, Carl. Princípios de Economia Política.
Marco fundador da Escola Austríaca de Economia. Sua teoria subjetiva do valor permite compreender por que bens distintos adquirem valor econômico conforme sua capacidade de satisfazer necessidades humanas, oferecendo um contraponto útil à crítica moral desenvolvida por Beltrami.

ORTEGA Y GASSET, José. Meditações do Quixote.
Fonte da célebre fórmula "Eu sou eu e minha circunstância". A obra fornece instrumentos para pensar a inserção concreta da pessoa na realidade histórica, perspectiva que pode ser enriquecida, em chave cristã, pela reflexão de Beltrami sobre a ordem providencial da criação.

TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica (especialmente as questões relativas à propriedade, justiça e avareza).
Integra a tradição aristotélica à teologia cristã, explicando por que os bens materiais são legítimos quando subordinados à justiça, à caridade e ao bem comum. É uma referência indispensável para compreender o pano de fundo filosófico e teológico do pensamento de Beltrami.

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