Quando Washington Luís disse:
"Governar é abrir estradas."
muitos ouviram apenas a parte material da frase. Pensaram em máquinas, cascalho, pontes e automóveis. Mas havia uma ideia mais profunda escondida nela, pois uma estrada não é apenas uma faixa de terra ou asfalto. Uma estrada é uma promessa de presença. Ela diz: "daqui até lá existe um caminho; daqui até lá existe uma ligação." Décadas antes, no Império, Dom Pedro II havia compreendido outro princípio:
"Governar é povoar."
Para o imperador, um país gigantesco não poderia permanecer como um desenho no mapa. Era preciso que houvesse homens, famílias, fazendas, cidades e instituições espalhadas pelo território, pois um território vazio é uma fronteira esperando para ser perdida; um território habitado é uma pátria.
Durante o Segundo Reinado, o Brasil avançava lentamente para o interior. Vinham colonos, imigrantes, agricultores, comerciantes.Núcleos de povoamento nasciam. mas muitas vezes havia um obstáculo: depois de criar uma vila, era preciso ligá-la ao restante do país.
O povoamento criava pontos; a estrada linhas - e um país só se torna plenamente integrado quando os pontos se unem pelas linhas.
Foi esse encontro que aconteceu no século XX, quando Brasília foi construída no Planalto Central, onde a antiga ideia imperial de povoar encontrou a ideia republicana de abrir estradas.
A nova capital não deveria apenas existir - ela deveria irradiar desenvolvimento, pois cada estrada que partia de Brasília era uma espécie de lança fincada no interior do Brasil:
- rumo ao Norte;
- rumo ao Nordeste;
- rumo ao Sudeste;
- rumo ao Centro-Oeste.
E atrás das máquinas vinham os homens, vinham caminhoneiros, vinham comerciantes, vinham agricultores, vinham famílias. A estrada puxava o povoamento e o povoamento justificava a estrada.
Anos depois, um historiador caminhava por uma pequena cidade que nascera às margens de uma rodovia. Ele observava o comércio, os postos de gasolina, as oficinas, as escolas e as casas; pensou nos velhos debates do Congresso, pensou nos homens que chamaram as rodovias de "estradas de bobagem" e percebeu que eles haviam cometido um erro de perspectiva.
Eles perguntavam:
— Para que abrir uma estrada onde quase ninguém mora?
Mas a História respondeu:
— Muitas vezes, é preciso abrir a estrada para que as pessoas possam morar.
Assim, dois pensamentos aparentemente separados se encontraram:
Dom Pedro II queria povoar para consolidar o território.
Washington Luís queria abrir estradas para conectar o território.
Um criou a necessidade; o outro criou o instrumento. E, juntos, formaram uma das grandes características do Brasil moderno: um país construído não apenas pelas cidades antigas do litoral, mas pelos caminhos que levaram brasileiros para dentro do continente.
No fim, a velha frase imperial e a frase republicana diziam quase a mesma coisa:
Governar é fazer com que o território deixe de ser apenas espaço e se torne nação.
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