Introdução
A figura de São Toríbio de Mongrovejo permanece, ainda hoje, relativamente desconhecida entre os católicos, apesar de sua importância histórica, espiritual e civilizacional. Bispo de Lima no século XVI, jurista, magistrado e reformador do clero, sua vida oferece um exemplo eloquente de como a santidade pessoal pode e deve irradiar-se para as esferas pública, jurídica e política.
Sua trajetória está intimamente ligada ao reinado de Felipe II, monarca que compreendia o governo não como mera administração de interesses materiais, mas como serviço ao bem comum ordenado à glória de Deus e à salvação das almas. A relação entre ambos revela uma concepção de poder profundamente cristã, na qual a virtude, a fé e a justiça eram critérios essenciais para o exercício da autoridade.
Este artigo analisa o contexto histórico, espiritual e político da missão de São Toríbio, destacando sua importância para a evangelização do Peru, a reforma do clero, a proteção dos indígenas e a consolidação do cristianismo na América espanhola.
1. Formação, Virtude e Vocação
São Toríbio nasceu em 1538, na Espanha, em uma família nobre. Desde cedo, revelou inclinação à virtude, horror ao pecado e profunda devoção mariana. Sua vida espiritual era marcada por práticas regulares de oração, penitência e fidelidade à doutrina católica.
Ao mesmo tempo, destacou-se intelectualmente. Estudou em Valladolid e Salamanca — centros de excelência acadêmica da época — tornando-se especialista em Direito Canônico e professor universitário. Importa notar que, naquele contexto, o estudo do direito civil e do direito canônico era integrado, refletindo uma visão unitária da ordem jurídica e moral.
Essa combinação de virtude pessoal, devoção religiosa e excelência intelectual chamou a atenção do rei Felipe II, que o nomeou magistrado em Granada e, posteriormente, presidente do tribunal da Inquisição local. Toríbio ainda era leigo, mas já demonstrava retidão moral, prudência e firmeza na aplicação da justiça.
2. Felipe II e a concepção cristã do poder
A escolha de São Toríbio para cargos de responsabilidade não foi casual. Felipe II compreendia o governo como uma missão espiritual e política orientada ao bem comum, não como instrumento de interesses pessoais, partidários ou econômicos.
Em vez de privilegiar alianças oportunistas ou critérios ideológicos, o monarca buscava homens de virtude comprovada, capazes de exercer autoridade com justiça, temor de Deus e fidelidade à Igreja. Santa Teresa de Ávila referia-se a ele como “Nuestro Santo Rey Felipe”, reconhecendo sua piedade e compromisso com a fé católica.
Quando a sé episcopal de Lima ficou vaga, Felipe II indicou Toríbio para o cargo, apesar de ele ainda não ser sacerdote. A escolha revelou não apenas discernimento espiritual, mas também uma visão clara dos desafios morais e pastorais enfrentados nas colônias americanas.
3. A missão no Peru: reforma e evangelização
Ordenado sacerdote e consagrado bispo aos 43 anos, São Toríbio partiu para o Peru, assumindo uma das maiores dioceses do mundo na época. O contexto era marcado por:
Inspirado pelo Concílio de Trento, Toríbio iniciou uma reforma rigorosa do clero, punindo escândalos públicos e restaurando a disciplina moral. Ele rejeitava qualquer tentativa de adaptar a doutrina aos costumes decadentes, afirmando, com Tertuliano, que “Cristo é a Verdade, não o costume”.
Ao mesmo tempo, dedicou-se intensamente à evangelização dos indígenas. Aprendeu línguas locais como o quéchua e o aimará, produziu catecismos em idiomas nativos e percorreu milhares de quilômetros a pé ou em mula para administrar sacramentos.
4. Sacrifício, Justiça e Bem Comum
Apesar de sua origem nobre e de uma carreira acadêmica prestigiosa, São Toríbio aceitou uma vida de privações, perigos e isolamento. Enfrentou rios, doenças, perseguições e ameaças, sempre movido pelo zelo apostólico e pelo senso de responsabilidade para com o bem comum cristão.
Seu exemplo desmonta a caricatura revolucionária da nobreza como classe inútil e privilegiada. Ao contrário, a nobreza cristã implicava dever, sacrifício e serviço.
O bispo não se limitou à piedade individual: atuou também na esfera pública, jurídica e administrativa, demonstrando que santidade e governo não são esferas opostas, mas complementares quando orientadas à verdade.
5. Atualidade do Exemplo de São Toríbio
O contraste entre o século XVI e a modernidade é evidente. Hoje, a política frequentemente se orienta por interesses ideológicos, partidários e econômicos, enquanto a virtude pessoal é vista como irrelevante para o exercício do poder.
São Toríbio representa um modelo de liderança cristã integral:
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Espiritualmente sólida
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Intelectualmente formada
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Moralmente reta
-
Publicamente responsável
Seu testemunho lembra que o verdadeiro bem comum não é apenas material, mas também espiritual, moral e cultural. Uma sociedade só se ordena corretamente quando a autoridade reconhece sua responsabilidade diante de Deus.
Conclusão
São Toríbio de Mongrovejo não foi apenas um santo pessoalmente virtuoso, mas um verdadeiro reformador da sociedade cristã. Sua vida revela a harmonia possível entre fé, justiça, autoridade e missão evangelizadora.
Com o apoio de Felipe II e do vice-rei Dom Francisco de Toledo, ele consolidou no Peru uma Cristandade marcada pela disciplina, pela defesa dos mais fracos e pela centralidade de Cristo na vida pública.
Num mundo marcado pela secularização, relativismo e crise de autoridade, seu exemplo permanece atual: a santidade não é fuga da realidade, mas transformação profunda da ordem social à luz da verdade.
Bibliografia Comentada
1. MONGROVEJO, Toribio de. Cartas Pastorais e Relatórios Episcopais.
Arquivo Arquidiocesano de Lima / Edições históricas diversas.
As cartas de São Toríbio constituem fontes primárias fundamentais para compreender sua ação pastoral, sua visão da missão evangelizadora e as dificuldades enfrentadas no Peru colonial. Nelas aparecem descrições detalhadas das visitas pastorais, da administração dos sacramentos, das viagens missionárias e da reforma do clero. Também revelam sua espiritualidade, sua obediência à Igreja e sua concepção do episcopado como serviço sacrificial ao bem comum cristão.
2. VARGAS UGARTE, Rubén. Vida de Santo Toribio Alfonso de Mogrovejo.
Lima: Imprenta Santa María, várias edições.
Obra clássica da historiografia peruana sobre São Toríbio. O autor reconstrói a trajetória do santo com base em documentos históricos, processos de canonização e arquivos eclesiásticos. O livro aborda sua formação jurídica em Salamanca, sua nomeação por Felipe II, sua ação como bispo de Lima e sua importância na consolidação da Igreja no Peru. É uma referência indispensável para o estudo histórico rigoroso do personagem.
3. CONCÍLIO DE TRENTO. Decretos e Cânones.
Traduções oficiais da Igreja Católica.
Os decretos tridentinos são essenciais para compreender o horizonte teológico, disciplinar e moral que orientou a ação de São Toríbio. Sua reforma do clero, sua defesa da ortodoxia doutrinária e sua rejeição do relativismo moral derivam diretamente das decisões do Concílio. A aplicação concreta dessas normas no Peru mostra como a Reforma Católica foi mais que doutrina: foi prática institucional.
4. TERESA DE ÁVILA. Cartas e Escritos Autobiográficos.
Edições críticas diversas.
Santa Teresa refere-se a Felipe II como “Nuestro Santo Rey Felipe”, evidenciando o reconhecimento, no próprio século XVI, de seu zelo religioso e compromisso com a Igreja. Essas referências ajudam a compreender o ambiente espiritual e político no qual São Toríbio foi escolhido para cargos de responsabilidade. A obra confirma que a piedade não era vista como incompatível com o exercício do poder.
5. ELLIOTT, J. H. Imperial Spain 1469–1716.
London: Penguin Books.
Estudo clássico sobre a Espanha imperial. O autor analisa o reinado de Felipe II, a administração das colônias e a relação entre política, religião e poder. A obra permite compreender por que a Coroa via a evangelização como missão essencial do Império, e não como mero instrumento econômico. Fornece o pano de fundo político para a missão de São Toríbio.
6. LÓPEZ DE GOICOECHEA, José. Santo Toribio de Mogrovejo: Pastor y Reformador.
Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos.
Análise teológica e pastoral da figura de São Toríbio. O autor destaca seu papel como reformador do clero, defensor da disciplina e promotor da catequese indígena. A obra enfatiza a dimensão espiritual de sua liderança e sua fidelidade à tradição católica contra adaptações moralistas dos costumes.
7. PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA. Revolução e Contra-Revolução.
São Paulo: Editora Vera Cruz.
Embora não trate diretamente de São Toríbio, esta obra fornece a chave interpretativa para compreender o contraste entre a Cristandade tradicional e a decadência moderna mencionada no artigo. A noção de “ordem cristã”, “bem comum espiritual” e “autoridade fundada na virtude” ajuda a interpretar o papel de Felipe II e São Toríbio como representantes da Contra-Revolução católica.
8. DE LA PUENTE BRUNKE, José. La Iglesia en el Perú Colonial.
Lima: Fondo Editorial PUCP.
Estudo histórico sobre a estrutura eclesiástica do Peru colonial. Analisa o clero, os bispos, as missões e as tensões morais do período. São Toríbio aparece como figura central da reforma eclesiástica. A obra contextualiza os escândalos clericais e mostra por que sua atuação foi decisiva.
9. BORGES, Pedro. La Evangelización de América.
Madrid: BAC.
Trata da evangelização no continente americano sob a perspectiva católica tradicional. Mostra como a missão não era meramente cultural ou política, mas essencialmente espiritual. A atuação de São Toríbio encaixa-se no modelo de evangelização integral defendido pelo autor.
10. PIO XI. Rerum Ecclesiae (Encíclica, 1926).
Embora posterior ao período estudado, esta encíclica oferece uma síntese doutrinária sobre a missão evangelizadora da Igreja, permitindo interpretar retrospectivamente a obra de São Toríbio como modelo clássico de ação missionária católica.