I. Marco institucional e função original
Universidade do Brasil
(atual Universidade Federal do Rio de Janeiro)
A consolidação universitária no Brasil republicano ocorreu no início do século XX, culminando na formalização da Universidade do Brasil (criada em 1920 e reorganizada em 1922, no centenário da Independência).
Seu objetivo central era:
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Estruturar formação superior integrada.
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Profissionalizar quadros técnicos.
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Suprir o Estado de especialistas.
Ou seja, a universidade nasce fortemente vinculada à administração pública e à racionalização burocrática.
Isso não é singular ao Brasil — é característica de vários Estados modernos —, mas no Brasil ganhou um peso cultural específico: o diploma tornou-se via privilegiada de mobilidade social e acesso ao poder institucional.
II. Do símbolo ao credencialismo
Em tese, o diploma deveria ser:
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Certificação de percurso formativo.
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Reconhecimento de competência técnica.
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Indício de disciplina intelectual.
Nesse sentido, ele poderia funcionar como a “jóia de família”: símbolo de uma trajetória, não fonte autônoma de poder.
O problema surge quando ocorre uma inversão:
O diploma deixa de apontar para a formação e passa a substituí-la.
Aqui entra a lógica do simulacro (no sentido de Jean Baudrillard):
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O título passa a circular como se fosse a própria competência.
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A autoridade deriva do papel, não do hábito intelectual.
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A legitimação se dá pela forma, não pela substância.
Nesse ponto, o diploma torna-se funcionalmente uma “soulstone institucional”: ele parece conter poder condensado.
III. Impessoalidade e tecnocracia
O princípio da impessoalidade na administração pública é juridicamente necessário para evitar favoritismo e patrimonialismo.
Contudo, quando combinado com credencialismo excessivo, pode produzir efeito colateral:
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A autoridade se desloca do caráter para o certificado.
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A função se autonomiza em relação à virtude.
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O título passa a ser mecanismo automático de ascensão.
Aqui a referência a Aristóteles é pertinente. Na Política, ele distingue economia (ordenação prudente da casa) de crematística (acumulação como fim em si).
Analogamente:
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Formação intelectual é ordenação do intelecto.
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Acumulação de títulos pode tornar-se crematística simbólica.
Quando o diploma vira capital de poder em si mesmo, ele deixa de ser meio e torna-se fim.
IV. O “mito do doutor”
No Brasil, consolidou-se culturalmente a figura do “doutor” como categoria social ampla, não restrita ao doutorado acadêmico.
O título assume função quase sacramental invertida:
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Confere status.
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Confere deferência automática.
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Confere expectativa de superioridade moral ou intelectual.
Mas aqui ocorre a ruptura simbólica:
No símbolo autêntico:
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O objeto remete a uma realidade interior.
No simulacro tecnocrático:
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O objeto substitui a realidade interior.
Se o diploma não corresponde a hábito intelectual consolidado, ele opera como máscara.
V. “Bruxaria tecnocrática” como metáfora
A expressão é metafórica e pode ser analisada estruturalmente.
A magia, como discutimos, promete efeito sem causa proporcional. A tecnocracia pode assumir feição análoga quando:
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O título legitima decisões sem prudência.
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A especialização técnica se apresenta como competência total.
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A autoridade técnica invade esferas morais e políticas.
Nesse caso, a técnica deixa de ser instrumento e torna-se princípio ordenador absoluto.
O “horror metafísico” aqui mencionado pode ser entendido como:
A inversão entre meio e fim.
Quando o meio (certificação técnica) se converte em fonte última de autoridade, a hierarquia natural entre sabedoria prática e especialização instrumental é alterada.
VI. Monarquia versus República: uma distinção conceitual
É possível distinguir dois modelos ideais:
Modelo personalista-patrimonial (no sentido simbólico positivo)
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Autoridade vinculada à figura pessoal.
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Continuidade encarnada.
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Relação quase familiar entre governante e governados.
Modelo burocrático-impessoal
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Autoridade vinculada à função.
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Continuidade normativa.
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Relação mediada por regras.
O primeiro enfatiza símbolo pessoal.
O segundo enfatiza técnica institucional.
Ambos possuem riscos:
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O primeiro pode degenerar em favoritismo.
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O segundo pode degenerar em tecnocracia despersonalizada.
O ponto decisivo não é se a autoridade permanece subordinada à prudência que é própria da conformidade com o Todo que vem de Deus. Como a monarquia no Brasil tem sua origem a partir do Milagre de Ourique, a origem do seu poder é de origem divina, bem como da missão de servir a Ele em terras distantes - enquanto o monarca, enquanto vassalo de Cristo, servir fielmente ao verdadeiro Deus e verdadeiro, que é a fonte de toda a autoridade, por ser o Rei dos Reis, fará o regime ser sempre legítimo aos olhos de Deus e do povo, que é a voz de Deus. Já a República tem suas origens remetendo à Revolução Francesa - ela atentou contra a Igreja de Cristo e contra as casas reais de toda a Europa. Seus precedentes denunciam o seu conservantismo e a natureza desse regime, que favorece à ambição pessoal que é própria de quem faz da política uma carreira, não um serviço ao próximo.
VII. Entropia institucional
Quando:
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Títulos substituem formação.
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Regras substituem virtude.
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Funções substituem responsabilidade pessoal.
O sistema torna-se estruturalmente entrópico:
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Cresce em complexidade formal.
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Torna-se mais fraco em coesão substancial.
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Multiplica credenciais.
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Reduz densidade intelectual real.
O diploma, então, deixa de ser símbolo de percurso e torna-se amuleto burocrático.
Conclusão
O diploma pode operar de duas maneiras:
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Como símbolo legítimo — indicador de formação real, inserido numa tradição viva.
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Como simulacro tecnocrático — certificado autonomizado que pretende conter autoridade em si.
Ele se torna “soulstone institucional” quando a cultura passa a tratar o título como portador intrínseco de poder, independente da substância formativa.
A solução não está na rejeição da universidade, nem na rejeição do princípio de impessoalidade.
A solução está em restaurar a hierarquia correta:
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Formação antes de certificação.
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Prudência antes de técnica.
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Caráter antes de título.