Resumo
O presente ensaio propõe o conceito de anti-intelectualismo afetivo para designar uma disposição cultural pela qual relações interpessoais são consideradas suficientemente profundas quando existe convivência, atração, familiaridade emocional ou compartilhamento de experiências, sem que se julgue igualmente necessário conhecer de maneira sistemática o pensamento, a história intelectual, os princípios morais e a concepção de mundo da pessoa amada. Partindo de uma inspiração boaventuriana, segundo a qual conhecimento e afeto não precisam constituir atividades antagônicas, argumenta-se que o conhecimento intelectual do outro pode ser colocado a serviço da caridade. Essa hipótese é posteriormente relacionada ao diagnóstico de Zygmunt Bauman acerca da fragilidade dos vínculos na modernidade líquida. Sustenta-se que a liquidez afetiva pode ser favorecida não apenas pela dificuldade de assumir compromissos duradouros, mas também pela superficialidade do conhecimento anterior e posterior ao compromisso. No caso brasileiro, a associação entre anti-intelectualismo afetivo e divórcio deve ser considerada hipótese sociológica a ser investigada, não relação causal já demonstrada. Por fim, propõe-se compreender a fidelidade conjugal como forma longitudinal de conhecimento da pessoa: conhecer suficientemente para escolher e continuar conhecendo para permanecer capaz de amar.
Palavras-chave: amor; conhecimento; São Boaventura; Zygmunt Bauman; modernidade líquida; casamento; fidelidade; intimidade; anti-intelectualismo.
1. Introdução: é possível amar profundamente aquilo que não se procura conhecer?
Entre as concepções contemporâneas do amor encontra-se frequentemente a pressuposição de que a autenticidade dos sentimentos dispensa investigação intelectual. Afinal, ama-se porque se sente - nesse sentido a relação seria autêntica enqaunto ela for espontânea e o excesso de reflexão poderia até ser interpretado como ameaça à espontaneidade.
Agora, pretendo propor a hipótese contrária: quanto maior a pretensão de permanência de um vínculo, maior deveria ser a disposição para conhecer profundamente a pessoa com quem esse vínculo será estabelecido, pois uma promessa de fidelidade destinada idealmente a atravessar décadas não pode repousar exclusivamente sobre a situação presente dos envolvidos, pois a aparência física muda, bem como as condições financeiras as de saúde, assim como as preferências, os ambientes sociais e as profissões. Em razão de os corpos envelhecerem, as famílias precisam aprender a atravessar crises, pois o que permanece não é uma coleção imutável de características, mas uma pessoa cuja identidade se desenvolve historicamente.
Por isso, perguntar se alguém conhece verdadeiramente a pessoa amada durante toda a vida é uma questão mais profunda do que perguntar há quanto tempo convivem, pois é possível conviver muito e conhecer pouco, pois é igualmente possível, mediante leitura, correspondência, conversação profunda e estudo atento de uma trajetória intelectual, conhecer aspectos importantes da interioridade de alguém que jamais seriam revelados por anos de simples convivência rotineira.
Essa constatação permite formular a tese central deste ensaio: a fragilidade dos vínculos contemporâneos pode estar relacionada não somente à incapacidade de permanecer, mas também à incapacidade de conhecer profundamente antes de prometer permanência.
2. Uma precisão filosófica: natureza humana e pessoa concreta
Quando afirmo que o amor exige conhecimento da “natureza da pessoa amada”, é necessário fazer uma precisão terminológica, pois em sentido metafísico clássico, nós não possuímos uma natureza diferente para cada indivíduo, uma vez que compartilhamos a natureza humana, mas o que se deseja conhecer numa relação não é, portanto, uma suposta essência metafísica exclusiva de determinado indivíduo, mas a pessoa concreta na maneira singular pela qual esta pessoa realiza historicamente sua humanidade.
Isso compreende:
- sua inteligência;
- sua vontade;
- seu caráter;
- sua memória;
- seus hábitos;
- suas virtudes;
- suas fraquezas;
- sua concepção de bem;
- suas referências religiosas;
- sua relação com a família;
- sua interpretação do sofrimento;
- sua atitude diante do dinheiro;
- suas concepções sobre trabalho e dever;
- sua compreensão da sexualidade;
- seus projetos;
- seus medos;
- e aquilo pelo qual considera que vale a pena sacrificar-se.
Consequentemente, conhecer uma pessoa é tarefa incomparavelmente mais complexa do que acumular informações sobre seus gostos, pois saber qual é sua comida favorita é conhecimento verdadeiro, mas superficial, enquanto saber o que ela considera uma vida boa pertence a uma camada muito mais profunda da intimidade.
3. São Boaventura: quando conhecimento e amor deixam de ser rivais
A inspiração de São Boaventura é especialmente importante porque sua arquitetura intelectual oferece instrumentos para escapar de uma oposição simplista entre conhecimento e amor, pois na leitura acadêmica contemporânea de sua obra, a sua sabedoria não se reduz nem à contemplação intelectual abstrata nem à ação prática isoladamente: ela integra conhecimento e afeto e os ordena à transformação da pessoa.
Isso é decisivo, pois o conhecimento não precisa terminar em si mesmo, já que conhecer pode ser uma maneira de aprender a amar e essa formulação permite distinguir duas espécies radicalmente diferentes de curiosidade acerca de outra pessoa.
A primeira procura informação para adquirir poder, uma vez que querer descobrir suas vulnerabilidades porque elas me tornam capaz de manipulá-la. Do mesmo modo, querer conhecer os desejos de alguém é uma forma de controlá-lo, pois é uma forma adquirir vantagem sobre ela e essa curiosidade converte conhecimento em instrumento de domínio.
Mas existe outra possibilidade, pois querer compreender seus medos para não provocar sofrimento desnecessário, querer compreender suas aspirações para poder ajudá-la, querer compreender sua formação porque determinadas atitudes atuais somente adquirem sentido quando relacionadas à sua história, querer conhecer seus autores porque eles me permitem ingressar no universo de referências através do qual aquela pessoa interpreta o mundo, querer compreender o que ela considera sagrado porque aquilo que considero um detalhe talvez seja para ela questão fundamental, tudo isso faz com que o conhecimento não esteja ordenado à posse, mas ao serviço. É preciso conhecer para se poder amar melhor - essa distinção é fundamental.
4. A biografia intelectual como dimensão da intimidade
Toda pessoa possui uma biografia corporal e social: ela nasceu em determinado lugar, frequentou determinadas escolas, conheceu determinadas pessoas, trabalhou em certas instituições, experimentou acontecimentos familiares específicos.
Mas pessoas intelectualmente ativas possuem também aquilo que poderíamos chamar de biografia intelectual, pois elas leram determinados livros, foram influenciadas por certos professores, abandonaram algumas convicções, encontraram autores que modificaram sua compreensão do mundo, produziram textos, registraram reflexões, discordaram de suas próprias posições anteriores, desenvolveram conceitos, retornaram obsessivamente a determinados problemas.
Um arquivo pessoal pode, portanto, ser também um mapa parcial da interioridade. Livros anotados, blogs, cartas, redes sociais, cadernos, diários e ensaios permitem acompanhar não somente o que alguém pensa, mas eventualmente como alguém chegou a pensar dessa maneira.
A diferença é enorme, pois uma opinião isolada informa uma conclusão, mas uma trajetória intelectual revela o processo e compreender processos normalmente é indispensável para se compreender motivações.
Uma pessoa que encontra milhares de páginas escritas ao longo de vinte anos não possui diante de si apenas um conjunto de textos independentes: ela possui potencialmente uma autobiografia intelectual distribuída, pois certos temas aparecem durante décadas,algumas intuições embrionárias transformam-se em conceitos, autores antes centrais desaparecem e outros passam a ocupar posição decisiva.Nesse processo há correções, amadurecimentos e rupturas e a pessoa deixa vestígios documentais da formação de sua própria consciência.
É evidente que esses documentos jamais esgotam sua identidade, mas ignorá-los deliberadamente significa abrir mão de uma das vias disponíveis para conhecê-la.
5. O anti-intelectualismo afetivo
É neste ponto que proponho a expressão anti-intelectualismo afetivo, uma vez que não pretendo apresentá-la aqui como categoria sociológica já consolidada na literatura, pois se trata de um conceito heurístico proposto para investigação.
Por anti-intelectualismo afetivo entendo: a disposição pela qual se considera desnecessário conhecer intelectualmente a pessoa para estabelecer com ela vínculos afetivos de grande profundidade e duração.
Ele aparece quando se pressupõe que: "se existe química, basta”; “se gostamos das mesmas coisas, basta”; “se nos damos bem, basta”; “se existe atração, basta”; “essas conversas profundas podem vir depois”.
O problema é que o “depois” poderá ocorrer quando compromissos muito difíceis de desfazer já tiverem sido assumidos. Imagine duas pessoas que namoram durante quatro anos. Durante esse tempo, elas viajaram juntas, frequentaram restaurantes, conhecem os amigos uma da outra, passaram férias juntas. Assistiram às mesmas séries e conhecem os hábitos domésticos recíprocos, mas jamais discutiram seriamente: o que é casamento? Queremos filhos? Quantos? Como serão educados? O que significa fidelidade? O que faremos se um de nós adoecer gravemente? Como administraremos o dinheiro? Temos obrigação de sustentar pais idosos? O trabalho está subordinado à família ou a família deve adaptar-se ao trabalho? Existe Deus? Se existe, que consequências isso possui para nossa vida? O que significa perdoar?Existem atos imperdoáveis? Há deveres dos quais não podemos escapar nem quando deixam de nos proporcionar satisfação?
Essas duas pessoas podem possuir enorme familiaridade e reduzidíssima intimidade intelectual e confundir as duas coisas pode ser um dos problemas do relacionamento contemporâneo.
6. A assimetria entre prudência econômica e prudência afetiva
Há nisso um paradoxo peculiar, pois uma pessoa racional pode dedicar semanas à escolha de um automóvel - ela pesquisa motores, o consumo de combustível, o seguro, o valor de revenda, a disponibilidade de peças, a segurança do veículo Ela analisa o financiamento antes de adquirir um imóvel, ela verifica juros, o prazo para pagamento, o IPVA, a documentação, a manutenção. Ela investiga tudo isso e muitas outras coisas,, mas pode considerar excessivamente racional dedicar igual esforço para compreender a pessoa com quem pretende compartilhar quarenta ou cinquenta anos.
Não se trata, evidentemente, de transformar o namoro numa auditoria, pois a pessoa não é um simples ativo. E é justamente por ela ser mais do que um ativo que ela merece mais atenção, pois a decisão matrimonial possui consequências existenciais superiores a de muitas decisões patrimoniais fundadas em análises econômicas e contábeis profundas,
Ainda assim, existe uma cultura segundo a qual o amor perderia sua pureza caso fosse acompanhado de discernimento rigoroso Na verdade, talvez seja precisamente o contrário: o discernimento protege o amor das ilusões produzidas pela paixão.
7. Bauman: do vínculo à conexão
É neste ponto que a reflexão encontra Zygmunt Bauman. Em Liquid Love: On the Frailty of Human Bonds, publicado originalmente em 2003, Bauman concentra sua atenção justamente na fragilidade dos vínculos humanos dentro da modernidade líquida. A própria apresentação editorial da obra destaca o indivíduo contemporâneo que deseja relacionamento e, simultaneamente, teme os compromissos capazes de limitar sua liberdade futura.
A própria metáfora do líquido é poderosa porque líquidos não conservam facilmente uma forma própria, pois eles se adaptam, se deslocam, são fugidio e a natureza dessa modernidade é marcada, em Bauman, por instituições e relações cuja permanência se torna mais difícil. Neste sentido, sua análise mais ampla contrapõe justamente formas modernas “pesadas” e relativamente estáveis a estruturas crescentemente leves e mutáveis.
Quando isso é aplicado ao amor, o problema não é simplesmente que alguns relacionamentos terminam. O problema mais profundo surge quando a própria estrutura mental da relação é formada sob a expectativa de substituição: você pode estar com alguém, mas vai continuar querendo preservar todas as minhas possibilidades alternativas.
Você não quer perder a relação, mas também não quer que a relação restrinja excessivamente minha possibilidade de abandoná-la.
Há um desejo intimidade sem irreversibilidade e um desejo de segurança sem obrigação e um deesejo companhia sem dependência e um desejo compromisso enquanto ele for facilmente revogável.
Eis aí que surge uma tensão estrutural.
8. A liquidez começa antes da ruptura
É aqui que proponho acrescentar algo ao diagnóstico de Bauman Talvez a liquidez de uma relação não comece quando alguém decide terminá-la - ela p ode começar muito antes. Ela pode começar quando ninguém considera necessário conhecer profundamente aquele com quem se deseja ter uma relação permanete
A substituição é particularmente fácil quando as pessoas são conhecidas através de atributos.
Pessoa A:
bonita;
divertida;
boa companhia;
profissão interessante;
gostos semelhantes.
Pessoa B:
mais bonita;
mais divertida;
melhor companhia;
profissão mais interessante;
ainda mais gostos semelhantes.
Se a pessoa for reduzida a um conjunto de atributos, sempre poderá existir no mercado social outra combinação aparentemente superior.
É a lógica da comparação permanente, mas o conhecimento profundo transforma essa percepção, pois a pessoa deixa de ser uma coleção de características.: Ela adquire história e a pessoa torna-se progressivamente insubstituível, não porque seja objetivamente superior a todas as demais pessoas, mas porque existe uma história relacional singular que não pode ser replicada mediante substituição de atributos.
A densidade biográfica combate a fungibilidade.
9. Amor líquido e mercado afetivo
Isso permite formular outra consequência, pois a lógica contemporânea do consumo pode penetrar os relacionamentos sem que os envolvidos percebam.
Num mercado convencional, um produto é substituído quando outro oferece melhor combinação entre custo e benefício; se transportada indevidamente para a vida afetiva, essa racionalidade produz perguntas como: Estou recebendo suficientemente desta relação? Posso encontrar alguém que ofereça mais? Estou deixando passar oportunidades? Existe alguém mais adequado? O problema não está em reconhecer incompatibilidades reais, pois elas existem e determinadas relações não deveriam sequer ter começado.
O problema está na transformação do outro em produto permanentemente submetido à comparação. Nesse universo, a fidelidade torna-se irracional porque significa renunciar voluntariamente às opções futuras.
A lógica do casamento tradicional diz: escolho esta pessoa e, mediante essa escolha, renuncio às demais possibilidades conjugais.
A lógica líquida tende a responder: escolho esta pessoa enquanto essa escolha permanecer competitiva diante das alternativas.
São antropologias diferentes.
10. São João Paulo II: escolha consciente e comunhão de pessoas
A antropologia cristã fornece uma resposta particularmente interessante a essa tensão. Na Carta às Famílias, de 1994, São João Paulo II apresenta o casamento como comunhão de pessoas surgida de uma escolha consciente e livre. Ele associa explicitamente essa escolha à necessidade de considerar a verdade integral da pessoa enquanto ser racional e livre.
Isso possui consequências profundas, pois uma escolha somente pode ser tanto mais consciente quanto maior for o conhecimento relevante de seu objeto.
Isso não significa conhecer exaustivamente o futuro cônjuge — o que é uma tarefa impossível, mas significa recusar voluntariamente a superficialidade, pois a promessa matrimonial não exige onisciência, mas exige discernimento suficiente, uma vez que São João Paulo II também relaciona o consentimento matrimonial ao bem comum dos esposos, incluindo amor, fidelidade, honra e permanência.
Surge daí uma sequência:
conhecimento → discernimento → escolha → compromisso → aprofundamento do conhecimento.
O casamento não interrompe o conhecimento, mas rransforma sua modalidade.
11. O casamento como conhecimento longitudinal
Talvez possamos, então, descrever o casamento de uma maneira pouco habitual: o casamento é também uma instituição de conhecimento longitudinal da pessoa.
Durante décadas, alguém observa outro ser humano transformar-se.
Você o conhece aos vinte anos, depois aos trinta, aos quarenta, aos cinquenta, aos setenta, eventualmente aos noventa. Nenhuma amizade episódica consegue reproduzir exatamente essa continuidade.
O cônjuge testemunha versões sucessivas da mesma pessoa: conhece sonhos abandonados, conhece projetos realizados, testemunha nascimentos e mortes, acompanha doenças, assiste a mudanças profissionais, vê filhos nascerem e crescerem, conhece períodos de fervor e de aridez religiosa, conhece erros e reconciliações.
Nesse sentido, a fidelidade produz conhecimento que somente a própria fidelidade tornou possível, mas existe, portanto, uma circularidade virtuosa: conheço para decidir permanecer; permanecendo, torno-me capaz de conhecer ainda mais; conhecendo mais, adquiro novas razões para amar de maneira mais inteligente.
Esse conhecimento nunca termina.
12. O conhecimento também protege contra casamentos imprudentes
Entretanto, o mesmo princípio possui consequência inversa, pois conhecer profundamente alguém pode mostrar que não se deve casar com aquela pessoa.
Esse ponto é indispensável, pois a defesa do conhecimento não é uma defesa do casamento a qualquer custo, mas defesa do discernimento, pois duas pessoas podem amar-se afetivamente e descobrir incompatibilidades fundamentais.
Uma deseja filhos, mas a outra rejeita definitivamente a maternidade ou a paternidade.
Uma entende fidelidade de maneira estrita, enquanto a outra deseja relacionamento aberto.
Uma entende a religião como fundamento da casa, enquanto a outra considera qualquer prática religiosa intolerável.
Uma pretende sustentar pais idosos, enquanto a outra considera inadmissível destinar recursos familiares a isso.
Não estamos falando de diferenças banais - estamos falando de concepções distintas do próprio objeto do compromisso. Quanto mais cedo aparecem, maior a liberdade dos envolvidos para decidir prudentemente.
Nesse sentido, o conhecimento profundo pode reduzir tanto rompimentos posteriores quanto casamentos que jamais deveriam ter ocorrido.
13. O Brasil: uma hipótese, não uma causalidade demonstrada
Chegamos então à questão brasileira. Há motivos legítimos para investigar se determinados padrões de sociabilidade brasileiros valorizam intensamente proximidade emocional e convivência, mas atribuem importância relativamente menor ao conhecimento sistemático da formação intelectual do outro.
Entretanto, isso deve ser formulado como hipótese, pois mão possuímos, a partir dessa observação filosófica, autorização metodológica para concluir:
“o anti-intelectualismo brasileiro causa divórcios”.
Tal afirmação exigiria evidência empírica específica.
Seriam necessárias pesquisas sobre:
- hábitos de conversação entre casais;
- conhecimento recíproco de valores;
- leitura;
- religião;
- expectativas anteriores ao casamento;
- educação financeira;
- projetos familiares;
- causas declaradas de ruptura;
- duração dos relacionamentos;
- diferenças regionais;
- escolaridade;
- geração;
- renda;
- e múltiplas variáveis de controle.
Os dados disponíveis demonstram a presença social relevante do divórcio, não sua causa intelectual. Segundo as Estatísticas do Registro Civil do IBGE, o Brasil registrou 428.301 divórcios em 2024, 2,8% menos que em 2023, depois de três anos consecutivos de aumento.
Esse número deve ser utilizado com cuidado, pois ele não prova Bauman, nem o anti-intelectualismo afetivo, muito menos demonstra uma relação causal entre ambos, mas Serve para mostrar apenas que estamos discutindo um fenômeno social de grande escala cuja interpretação merece investigação interdisciplinar, pois é precisamente assim que uma hipótese intelectual deve transformar-se em programa de pesquisa.
14. Sociabilidade intensa não é necessariamente intimidade profunda
Há ainda uma distinção especialmente relevante ao Brasil: as pessoas em uma sociedade podem ser extremamente sociáveis e, ao mesmo tempo, terem reduzida capacidade de intimidade intelectual.
São coisas diferentes, uma vez que pode haver: muitas festas; muita conversa; forte convivência familiar; mensagens frequentes; presença física constante; presença aparente de muitos amigos e ainda assim pouca discussão sobre princípios fundamentais.
Nesse contexto, pessoas podem saber detalhadamente o que aconteceu umas com as outras sem saber como umas compreendem aquilo que aconteceu.
A diferença é epistemologicamente importante, pois narrar acontecimentos não equivale a expor critérios de interpretação.
Dizer: “perdi meu emprego” é diferente de explicar: “esta perda atingiu profundamente minha identidade porque aprendi desde jovem a identificar dignidade com capacidade de sustentar uma família”.
A segunda afirmação oferece acesso muito maior ao universo interior, pois uma cultura da intimidade intelectual exige não apenas relato - ela exige interpretação compartilhada.
15. Os textos como portas de entrada para a pessoa
É aqui que livros, blogs, cartas, diários e cadernos adquirem importância. Eles não substituem a convivência, mas a complementam, pois uma pessoa pode dizer numa conversa o que pensa hoje, mas seus escritos permitem eventualmente descobrir o caminho percorrido até chegar ali.
Isso cria uma profundidade temporal que a interação imediata dificilmente oferece. Por essa razão, quando alguém possui produção intelectual extensa, estudá-la pode constituir autêntico gesto de amor, não porque o relacionamento deva transformar-se em seminário acadêmico, mas porque, em determinados casos, os textos são parte objetiva da história da pessoa e ignorá-los significa ignorar deliberadamente parte de sua experiência.
16. O limite moral: conhecer não significa invadir
Tudo isso exige uma restrição fundamental, pois o direito de amar alguém não produz um direito ilimitado de investigá-la.
Existem documentos privados, existem segredos legítimos, existem correspondências protegidas, existem pensamentos que a pessoa ainda não decidiu compartilhar, mas o conhecimento amoroso precisa respeitar consentimento e limites. Caso contrário, aquilo que parecia amor transforma-se em vigilância.
A diferença entre estudar e espionar está não somente na intenção, mas também nos meios empregados. Um blog publicado voluntariamente foi disponibilizado ao conhecimento de terceiros, enquanto um diário guardado numa gaveta não foi, pois o princípio da caridade não elimina a intimidade. Pelo contrário: exige respeitá-la, uma vez que conhecer melhor para servir melhor é compatível com o amor e conhecer clandestinamente para adquirir controle não é.
17. Outro limite: ninguém pode ser reduzido ao próprio arquivo
Também seria um erro interpretar escritos antigos como sentença definitiva sobre uma pessoa, pois seres humanos mudam, mas um texto produzido aos vinte anos não necessariamente representa alguém aos cinquenta, uma vez que elas abandonam posições, convertem-se, aprendem, arrependem-se, adquirem experiência. Por isso, o arquivo intelectual precisa ser interpretado historicamente.
A pergunta não é simplesmente:
“O que você escreveu?”
Mas:
“Quando escreveu?”
“Por que escreveu?”
“Continuou pensando assim?”
“O que mudou?”
A intimidade intelectual verdadeira possui uma característica indispensável: permite ao outro narrar novamente a própria história.
O arquivo informa, mas a pessoa interpreta o arquivo, pois nenhum documento possui autoridade superior ao próprio sujeito vivo para declarar aquilo que atualmente pensa.
18. Do arquivo ao diálogo
Consequentemente, a leitura deve conduzir à conversa.
Não do modo:
“Li tudo sobre você; portanto sei quem você é.”
Mas:
“Li o que você escreveu; agora consigo formular perguntas melhores.”
Essa diferença é enorme, pois a primeira postura encerra a pessoa dentro de uma interpretação, enquanto a segunda utiliza o conhecimento documental como instrumento para aprofundar o encontro, pois o objetivo final não é dominar uma biografia, mas estabelecer comunhão.
19. Anti-intelectualismo afetivo e cultura do divórcio
Podemos agora formular de maneira mais rigorosa a hipótese originalmente proposta.
Não devemos afirmar:
anti-intelectualismo → divórcio.
A relação plausível é mais complexa:
superficialidade intelectual → menor discernimento prévio → maior probabilidade de incompatibilidades fundamentais permanecerem ocultas → maior vulnerabilidade diante de crises → possível aumento do risco de ruptura.
Trata-se de uma cadeia hipotética, pois cada ligação precisaria ser testada, uma vez que também é possível pensar numa relação inversa: uma cultura que já não atribui grande valor à permanência pode reduzir os incentivos para investir no conhecimento profundo anterior ao compromisso. Se a relação é entendida como provisória, por que dedicar anos à compreensão daquela pessoa?
Nesse caso:
liquidez → menor investimento cognitivo.
Portanto, talvez exista retroalimentação:
liquidez produz superficialidade, e superficialidade produz mais liquidez.
Essa me parece uma hipótese sociológica muito mais fecunda do que simplesmente culpar o divórcio pela decadência das relações ou atribuir todos os divórcios a uma causa moral única.
20. O contraponto necessário: nem todo divórcio representa liquidez
Também é indispensável evitar outra simplificação: nem todo divórcio é manifestação de modernidade líquida.
Existem:
violência doméstica;
abuso;
abandono;
dependências destrutivas;
infidelidade persistente;
situações de grave risco;
e inúmeras histórias pessoais que não podem ser reduzidas à teoria sociológica.
Neste sentido, s análise estrutural de Bauman não funciona como julgamento individual de cada pessoa divorciada, pois uma teoria da sociedade não substitui a análise concreta de vidas particulares. Esse cuidado é especialmente importante numa perspectiva cristã, precisamente porque pessoas nunca podem ser transformadas em exemplos abstratos destinados apenas a comprovar uma tese.
21. Da liquidez à densidade
Se quisermos encontrar o contrário do amor líquido, não basta responder: “um relacionamento que dura”, pois existem casamentos que permanecem juridicamente durante décadas e cuja vida comum está afetivamente morta, uma vez que permanência física não é necessariamente comunhão.
O verdadeiro contrário da liquidez talvez seja a densidade relacional, densidade de memória.densidade intelectual, densidade afetiva, densidade espiritual, densidade de dever, densidade de experiências compartilhadas, densidade de perdão, densidade de conhecimento recíproco. Quanto maior essa densidade, menos a relação pode ser reduzida àquilo que oferece no presente, pois o passado compartilhado adquire peso e o futuro prometido também.
22. Conhecimento, liberdade e fidelidade
Chegamos então ao paradoxo final, pois para ser autenticamente fiel, é preciso ser livre. Mas a liberdade não significa ausência de vínculos - ela significa capacidade de reconhecer um bem e comprometer-se voluntariamente com ele, ua vez que a escolha deixa de ser livre apenas quando é imposta, não quando produz obrigações, uma que prometer já significa utilizar a liberdade presente para estabelecer deveres futuros.
É exatamente isso que torna uma promessa moralmente significativa, pois se eu puder revogá-la sempre que deixar de desejar aquilo que prometi, não fiz propriamente uma promessa, mas expressei uma preferência,
A fidelidade começa quando a vontade atual respeita a palavra dada pela vontade passada. E para que essa decisão seja prudente, é preciso conhecer, tanto quanto humanamente possível, a pessoa diante da qual estou assumindo esse compromisso.
23. Conhecer para se levar ao bem
Para uma visão cristã, porém, existe ainda um nível superior, pois não desejo conhecer a pessoa amada simplesmente para maximizar a estabilidade do relacionamento, uma vez que isso seria insuficiente.
Na verdade, eu desejo conhecê-la para colaborar para o seu próprio bem. E o bem último, dentro da perspectiva cristã, não termina nesta vida, pois amar alguém é desejar a sua salvação.
IE sso muda completamente a finalidade da intimidade, pois quero descobrir seus talentos para ajudá-la a desenvolvê-los, quero compreender suas dificuldades com o intuito de ajudá-la a enfrentá-las, quero conhecer sua história espiritual para respeitar aquilo que Deus vem realizando nela, quero reconhecer suas fraquezas não para explorá-las, mas para não aumentar desnecessariamente seu peso.
O conhecimento, nesse sentido, torna-se ministério recíproco.
Conclusão: conhecer para amar e amar para continuar conhecendo
A modernidade líquida colocou diante do indivíduo uma quantidade extraordinária de possibilidades, mas a multiplicação das possibilidades cobra um preço, pois toda escolha real significa renúncia, uma vez que não posso construir todas as famílias possíveis e não posso viver simultaneamente todas as vidas possíveis, assim como não posso casar-me com todas as pessoas que hipoteticamente poderiam combinar comigo, pois a maturidade consiste precisamente em transformar possibilidades abstratas numa existência concreta - o que exige escolha, discernimento e isso pede conhecimento. E o conhecimento, quando ordenado pela caridade, torna-se parte do próprio ato de amar.
Nesse sentido, o anti-intelectualismo afetivo merece investigação porque talvez tenhamos cometido uma estranha inversão cultural: jamais tivemos tantos instrumentos para conhecer pessoas e, ao mesmo tempo, talvez tenhamos desenvolvido relações cada vez mais estruturadas pela velocidade, pela impressão imediata e pela substituição.
Contra essa tendência, uma concepção boaventuriana oferece outro caminho.
Conhecimento e amor não precisam competir, pois o intelecto pode servir à caridade e talvez uma das formas mais profundas de intimidade seja justamente esta: quero conhecer aquilo que existe dentro de você porque aquilo que existe dentro de você importa para mim.
A promessa de fidelidade adquire então uma formulação mais exigente: eu conheço você suficientemente para escolher permanecer — e permanecerei também para continuar conhecendo a pessoa que você ainda se tornará.
O casamento aparece, assim, não como encerramento do conhecimento, mas como sua institucionalização numa escala temporal extraordinária.
Conhecer.
Escolher.
Permanecer.
Continuar conhecendo.
Continuar escolhendo.
Continuar amando.
E, para quem contempla o amor à luz da fé cristã, acrescenta-se o horizonte definitivo: conhecer a pessoa amada cada vez melhor para ajudá-la a alcançar o bem — e desejar que, ao término da história compartilhada nesta vida, ambos possam apresentar-se diante de Deus não como consumidores que esgotaram reciprocamente sua utilidade, mas como pessoas que colaboraram, durante toda uma existência, para a santificação uma da outra.
Bibliografia comentada
BAUMAN, Zygmunt. Liquid Love: On the Frailty of Human Bonds. Cambridge: Polity Press, 2003.
Obra central para a hipótese desenvolvida neste ensaio. Bauman investiga a tensão existente entre o desejo contemporâneo de estabelecer relações e o receio de que vínculos demasiadamente sólidos reduzam a liberdade de escolha futura. A contribuição proposta no presente artigo consiste em acrescentar ao problema da dificuldade de manter vínculos a possível dificuldade cultural de conhecer suficientemente as pessoas antes de constituí-los.
BAUMAN, Zygmunt. Liquid Modernity. Cambridge: Polity Press, 2000.
Fornece o quadro sociológico mais amplo dentro do qual Liquid Love pode ser compreendido. Bauman contrapõe formas sociais relativamente estáveis da modernidade “sólida” às estruturas mais flexíveis e mutáveis da modernidade líquida. É especialmente útil para compreender por que a fragilidade afetiva não pode ser analisada isoladamente de mudanças mais abrangentes no trabalho, identidade, instituições e expectativas individuais.
SÃO BOAVENTURA. Itinerarium Mentis in Deum [Itinerário da mente para Deus].
Texto fundamental para compreender a integração boaventuriana entre conhecimento, contemplação, afeto e orientação da pessoa para Deus. Uma edição acadêmica contemporânea especialmente útil é a tradução anotada de Regis J. Armstrong, publicada pela Catholic University of America Press em 2020, que apresenta o texto latino e uma tradução acompanhada de amplo comentário histórico-teológico.
É importante, entretanto, não cometer anacronismo: São Boaventura não elaborou uma “teoria da intimidade conjugal” nos termos empregados neste artigo. Sua contribuição encontra-se num nível antropológico e teológico anterior: conhecimento e amor podem integrar-se dentro de uma sabedoria ordenada à transformação e ao bem. A literatura filosófica especializada destaca justamente a união entre conhecimento e afeto em sua concepção de sabedoria.
SÃO BOAVENTURA. De reductione artium ad theologiam [Da redução das artes à teologia].
Complementa o Itinerarium ao apresentar uma visão na qual as diferentes formas de conhecimento encontram sua ordenação última numa compreensão teológica da realidade. É importante para a concepção segundo a qual atividade intelectual e vida espiritual não constituem compartimentos estanques.
JOÃO PAULO II. Carta às Famílias — Gratissimam Sane. Vaticano, 2 fev. 1994.
Documento particularmente importante para a antropologia da pessoa utilizada neste ensaio. João Paulo II associa casamento, comunhão de pessoas, escolha consciente e livre, fidelidade e bem comum familiar. Oferece fundamento para interpretar o matrimônio não como simples cristalização de sentimentos, mas como escolha racional e livre de uma pessoa por outra pessoa.
JOÃO PAULO II. Familiaris Consortio. Vaticano, 22 nov. 1981.
A exortação apostólica descreve o matrimônio como aliança de amor conjugal livre e conscientemente escolhida e como comunidade íntima de vida e amor. É especialmente relevante para aprofundar a relação entre liberdade, consentimento, compromisso e permanência.
WOJTYŁA, Karol. Amor e Responsabilidade.
Embora anterior ao pontificado de João Paulo II, esta obra é extremamente importante como ponte entre personalismo e ética afetiva. Wojtyła procura pensar a sexualidade e o amor a partir da dignidade da pessoa e rejeita sua redução a objeto de utilização. Para a tese deste artigo, oferece uma base importante para distinguir conhecimento orientado à caridade de conhecimento destinado à manipulação.
GIDDENS, Anthony. The Transformation of Intimacy: Sexuality, Love and Eroticism in Modern Societies. Stanford: Stanford University Press, 1992.
Constitui excelente contraponto a Bauman. Giddens analisa transformações da intimidade moderna, incluindo aquilo que denomina “relação pura”, cuja continuidade depende crescentemente da satisfação que a própria relação proporciona aos envolvidos. Sua leitura permite colocar a tese do anti-intelectualismo afetivo dentro de uma discussão sociológica mais ampla sobre individualização e transformação do vínculo conjugal.
ILLOUZ, Eva. Cold Intimacies: The Making of Emotional Capitalism. Cambridge: Polity Press, 2007.
Ajuda a compreender a crescente interpenetração entre racionalidades econômicas, cultura terapêutica e vida emocional. É útil especialmente para desenvolver a seção sobre a transformação do relacionamento num espaço de avaliação e comparação permanente.
FROMM, Erich. The Art of Loving. New York: Harper & Brothers, 1956.
Fromm oferece importante contraposição à concepção espontaneísta do amor. Sua tese de que amar exige aprendizagem, disciplina e desenvolvimento de capacidades aproxima-se do argumento aqui apresentado segundo o qual amor profundo não deve ser entendido somente como acontecimento emocional.
IBGE — INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Estatísticas do Registro Civil 2024.
Fonte empírica indispensável para qualquer tentativa de estudar seriamente casamento e divórcio no Brasil. Em 2024 foram registrados 428.301 divórcios judiciais de primeira instância ou extrajudiciais, redução de 2,8% diante de 2023. Esses dados permitem mensurar o fenômeno, mas não autorizam inferir suas causas. Uma pesquisa sobre “anti-intelectualismo afetivo” teria de combinar os dados demográficos do IBGE com levantamento próprio sobre valores, conhecimento recíproco, religião, expectativas matrimoniais e práticas de comunicação entre casais.
Nota metodológica para desenvolvimento futuro
O conceito de anti-intelectualismo afetivo pode ser transformado de hipótese ensaística em objeto de pesquisa empírica.
Um instrumento de pesquisa poderia perguntar separadamente a cada integrante de um casal se conhece:
- os cinco acontecimentos considerados mais importantes na formação intelectual do outro;
- suas principais referências religiosas e filosóficas;
- sua concepção de casamento;
- seus objetivos financeiros de longo prazo;
- sua posição sobre filhos e educação;
- sua compreensão de fidelidade;
- seus maiores medos;
- seus principais projetos profissionais;
- as obrigações que considera possuir perante pais e familiares;
- aquilo que considera seu propósito de vida.
As respostas poderiam depois ser comparadas com aquilo que o próprio companheiro declara sobre si.
Seria possível construir, dessa maneira, um índice de conhecimento conjugal recíproco.
A pesquisa poderia então verificar se maior correspondência entre aquilo que uma pessoa pensa sobre o companheiro e aquilo que o companheiro declara sobre si apresenta alguma associação estatística com satisfação conjugal, duração do relacionamento, confiança, resolução de conflitos e intenção de permanência.
Isso permitiria sair da simples afirmação cultural — “as pessoas não procuram conhecer umas às outras” — para uma pergunta cientificamente examinável:
quanto os parceiros realmente conhecem a estrutura moral, intelectual e biográfica um do outro, e que relação esse conhecimento apresenta com a estabilidade de seus vínculos?
Nesse ponto, a intuição filosófica encontraria a sociologia empírica.
E seria justamente essa passagem — de São Boaventura a Bauman, da filosofia da pessoa aos dados sobre intimidade — que poderia transformar a expressão anti-intelectualismo afetivo numa categoria analítica mais robusta.
Nenhum comentário:
Postar um comentário