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sábado, 15 de agosto de 2026

Sobre um novo aniversário que me desejaram lá na Ucrânia: o dia do arqueólogo, celebrado no dia 15 de agosto

Há uma diferença importante entre recordar o passado por curiosidade e voltar a ele por estudiosidade. Quando falo de minha própria história, não pretendo construir um almanaque de efemérides pessoais nem acumular curiosidades biográficas. Volto ao passado porque nele encontro vestígios capazes de explicar aquilo que sou hoje naquilo que fui um dia

Nesse sentido, minha própria biografia também pode ser objeto de escavação, pois quando tinha 14 anos, quando estava na sétima série no Centro Educacional Novo Mundo, encontrei-me diante de duas possibilidades profissionais que me atraíam profundamente: o Direito e a Arqueologia. No final, escolhi o Direito, formei-me na área e incorporei à minha maneira de pensar aquilo que a formação jurídica ensina: examinar documentos, confrontar versões, interpretar textos, distinguir fatos de alegações, reconstruir relações de causa e consequência e procurar o sentido das instituições.

Mas a Arqueologia não desapareceu do meu ser, pois, durante muito tempo, poderia parecer que aquela escolha adolescente tivesse sido simplesmente abandonada em favor de outra profissão. Hoje compreendo que não foi exatamente isso que aconteceu. Embora eu não tenha me tornado arqueólogo profissional, alguma coisa daquela vocação permaneceu em minha natureza intelectual e ela reaparece continuamente naquilo que faço enquanto escritor, historiador e filósofo, uma vez que o arqueólogo trabalha com vestígios, pois, diante de fragmentos, ele procura reconstruir mundos e é exatamente isso que muitas vezes faço quando escrevo.

Meu passado não é uma coleção de efemérides

Quando menciono alguma coisa que aconteceu comigo há dez, vinte ou trinta anos, quase nunca o faço simplesmente porque determinada lembrança é interessante. Interessa-me aquilo que ela permite compreender. Trata-se da diferença entre curiositas e studiositas, pois a curiosidade pode contentar-se com o fato isolado: “quando eu tinha 14 anos, pensei em ser arqueólogo”, enquanto a estudiosidade pergunta outra coisa: o que aquela escolha revela sobre aquilo em que me transformei?

Quando formulo a pergunta dessa maneira, percebo que aquele adolescente não desapareceu, pois o objeto de sua vocação apenas mudou de matéria. Talvez eu não escave sítios arqueológicos com instrumentos próprios da profissão, mas escavo livros, documentos, conceitos, instituições, cidades, tradições, legislações, memórias e acontecimentos históricos, pois há uma arqueologia do pensamento, há uma arqueologia das instituições, há uma arqueologia das palavras, há também uma arqueologia da própria alma.

Anastasia e o 15 de agosto

Foi justamente por isso que me chamou tanto a atenção o gesto de Anastasia, uma ucraniana de Kiev que conheci no Amal Date, ao associar o 15 de agosto, Dia do Arqueólogo na Ucrânia, à minha pessoa, sinal de que ela foi uma leitora profunda de meu blog, enquanto há muita gente que tenta descobrir quem sou por meio de impressões rápidas. 

É por esse motivo que sempre digo, nessas ocasiões, costumo dar uma resposta simples aos que querem me conhecer movidos pela curiosidade: leiam o meu blog, pois ali está provavelmente o trabalho mais autobiográfico que produzi em toda a minha vida, não porque eu escreva continuamente sobre minha intimidade ou sobre as pessoas que passaram por minha vida, uma vez que elas aparecem, naturalmente, porque ninguém vive sozinho. Entretanto, meu blog não é essencialmente uma crônica de personagens particulares, pois ele possui um fundo profundamente gassetiano: eu sou eu e minhas circunstâncias.

Minha autobiografia está nas circunstâncias que escolho observar: o Brasil que interpreto, os livros que leio, os problemas jurídicos que examino, as questões econômicas que me interessam, as cidades que observo, as instituições que estudo, a religião que estrutura minha compreensão do mundo, os acontecimentos históricos que tento reconstruir — tudo isso acaba revelando aquele que escreve.

Por isso, alguém que leia meu blog atentamente talvez descubra sobre mim coisas que dificilmente seriam percebidas numa conversa superficial, pois se ela, a Anastasia, identificou no dia 15 de agosto alguma coisa profundamente relacionada comigo, ela tocou justamente numa camada antiga de minha formação: o arqueólogo que um dia pensei em ser e isso não é uma adivinhação psicológica, mas leitura.E talvez essa seja uma das experiências mais interessantes que um escritor possa ter: descobrir que alguém não apenas passou os olhos por aquilo que escreveu, mas percebeu as continuidades subterrâneas existentes entre textos produzidos em épocas diferentes.

Meu blog como sítio arqueológico

Quanto mais penso nisso, mais percebo que meu blog possui uma dupla natureza arqueológica: em primeiro lugar, escrevendo, eu escavo, uma vez que procuro documentos, confronto informações, recupero autores, volto a acontecimentos históricos, observo instituições e tento compreender como aquilo que existe hoje foi formado pelas camadas anteriores.

Mas também existe um segundo movimentoo próprio blog vai se transformando num sítio arqueológico de minha vida intelectual, pois Cada texto permanece como uma camada e aquilo que pensei em determinado momento fica registrado, uma vez que minhas preocupações intelectuais deixam vestígios. Enqaunto algumas ideias desaparecem; outras amadurecem e outras retornam muitos anos depois sob formas que eu mesmo talvez não pudesse prever quando escrevi originalmente.

Quem percorre esse material cronologicamente pode observar a sedimentação de uma consciência. Nesse sentido, meu blog não é simplesmente um diário da minha vida, um diário da minha consciência diante do mundo, pois minha biografia está menos na enumeração daquilo que me aconteceu do que na maneira pela qual os acontecimentos passaram por mim e se transformaram em pensamento.

Confessar minhas circunstâncias a Deus

Existe ainda uma dimensão mais profunda: se Ortega y Gasset me oferece a fórmula segundo a qual “eu sou eu e minha circunstância”, minha condição cristã acrescenta outra questão: diante de quem interpreto minhas circunstâncias? Minha resposta é: diante de Deus, pois quando escrevo sobre aquilo que vejo, penso, aprendo ou descubro, existe em tudo isso uma espécie de confissão intelectual, pois não estou me confessando ao público no sentido banal de revelar intimidades, mas colocando minhas circunstâncias diante daquele que não posso enganar.

Posso interpretar mal um acontecimento, posso cometer um erro, posso mudar de opinião, posso descobrir amanhã que aquilo que compreendi hoje era incompleto, mas não posso ocultar minha existência daquele que me criou, pois Deus conhece o autor que sou antes que eu conheça completamente a própria obra.

Por isso, quando minha vida se manifesta nas linhas do blog, existe ali também uma espécie de busca pela compreensão daquilo que a Providência foi permitindo que aparecesse em meu caminho, pous escrever torna-se uma maneira de perguntar: o que significam estas circunstâncias que me foram dadas? Talvez seja aqui que a arqueologia intelectual encontre sua dimensão espiritual, poisescavar o passado não significa viver preso ao que passou. Significa procurar compreender o desenho daquilo que permanece.

Meus vários aniversários

Foi também por isso que comecei a pensar em determinadas datas como uma espécie de calendário pessoal de vocações.

Tenho primeiro meu aniversário de nascimento, que recorda minha chegada ao mundo; tenho meu imieniny, vinculado a São José, que introduzem meu nome numa tradição cristã muito maior do que minha própria biografia; tenho o Dia do Escritor, em 25 de julho, que reconheço como uma data profundamente relacionada àquilo que faço; tenho o Dia do Advogado, em agosto, relacionado à formação que efetivamente escolhi. r agora posso olhar também para o 15 de agosto, Dia do Arqueólogo na Ucrânia, como outro aniversário simbólico.

Não porque eu pretenda reivindicar uma profissão que não exerço, pois seria intelectualmente desonesto fazê-lo, mas porque posso reconhecer naquela data uma vocação que tomou outra forma, pois o arqueólogo que não se tornou arqueólogo profissional continuou trabalhando silenciosamente dentro do escritor. E há algo curioso na proximidade dessas datas:

25 de julho — o escritor.

11 de agosto — o advogado.

15 de agosto — o arqueólogo.

Em poucas semanas, encontro três dimensões fundamentais da maneira pela qual penso, pois o advogado procura provas, o arqueólogo procura vestígios e o escritor procura transformar aquilo que encontrou em linguagem inteligível.Eu poderia resumir esse movimento em três palavras: prova, vestígio e narrativa.

Sobre a profissão que não escolhi, mas que nunca abandonei

Talvez por isso o Dia do Arqueólogo tenha adquirido para mim uma beleza particular: embora o Direito represente a profissão que escolhi estudar e a escrita representa a vocação que exerço, a Arqueologia representa a profissão que não escolhi, mas cuja disposição intelectual nunca me abandonou completamente.

Ela sobrevive na maneira como olho para ruínas, pois uma ruína não precisa ser feita de pedra, já que yma palavra antiga é uma ruína, uma instituição transformada pelo tempo é uma ruína, um documento esquecido é uma ruína, uma tradição interrompida é uma ruína, uma ideia que sobrevive apenas parcialmente numa sociedade também pode ser uma ruína e o escritor pode tornar-se arqueólogo quando percebe esses vestígios e começa a perguntar de onde vieram, enquanto a historiador faz arqueologia do tempo e o filósofo faz arqueologia das ideias. Talvez todo homem que procure compreender honestamente a própria vida faça, em algum momento, arqueologia da alma.

A Ucrânia como lar em Cristo

Há ainda outra razão pela qual esse gesto vindo da Aanstasia em Kyiv tenhs profundo significado para mim, pois quando uma cultura estrangeira consegue reconhecer alguma coisa verdadeira a meu respeito, ela deixa de ser inteiramente estrangeira e não preciso deixar de ser brasileiro para sentir afinidade por outro país, mas também não preciso transformar afinidade espiritual em nacionalidade jurídica ou biológica, uma vez que existe outra forma de pertencimento, pois posso reconhecer determinado lugar como um lar em Cristo e eese lar não precisa ser entendido apenas como o ponto geográfico onde nasci, mas também em lugares aos quais nos vinculamos pela fé, pela cultura, pela história, pelas pessoas, pelos livros e pelos símbolos que nos ajudam a compreender alguma coisa sobre nós mesmos.

Nesse sentido, receber da Ucrânia uma data que me recorda aquele arqueólogo de 14 anos possui uma espécie de reciprocidade, pois eu recebi um convite estudar aquele país e compreender sua história, através seus símbolos, tal como já faço com a Polônia E, de algum modo, através da admiração de uma ucraniana pelo meu trabalho isso me devolvido na minha própria história.

Cultivar e escavar os campos da alma

Costumo pensar na escrita como uma forma de cultivar os campos da alma, pois a metáfora agrícola sempre me pareceu apropriada porque escrever exige preparação, semeadura, paciência, trabalho e colheita.

Mas o 15 de agosto acrescentou outra imagem, pois antes de cultivar determinados campos, algumas vezes é preciso escavá-los, já que há sementes antigas enterradas sob aquilo que aparentemente é apenas terra, há vestígios que explicam por que determinado solo produz aquilo que produz. Talvez seja por isso que escritor e arqueólogo possam conviver tão facilmente dentro da mesma pessoa.

Enquan um cultiva, o outro escava, pois ambos procuram alguma coisa que está escondida e que precisa ser trazida à luz. Por isso, quando penso hoje naquele adolescente dividido entre Direito e Arqueologia, não imagino duas vidas possíveis das quais apenas uma conseguiu existir.

Hoje vejo algo diferente, pois vejo duas vocações que acabaram se encontrando. Eu escolhi o Direito, mas me tornei escritor, mas continuei escavando. Por isso, o dia 15 de agosto pode entrar legitimamente no meu calendário pessoal como o aniversário simbólico daquela profissão que não exerci, mas cuja marca permaneceu em mim, pois o arqueólogo não desapareceu. Ele apenas trocou a terra pelas camadas da memória, da história, das ideias e da alma.

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