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terça-feira, 8 de setembro de 2026

O dinheiro físico como infraestrutura de segurança: a lição da Suécia

Durante anos, a Suécia foi apresentada como um dos exemplos mais avançados da sociedade sem dinheiro físico: cartões, aplicativos de pagamento e outras formas de transação eletrônica substituíram rapidamente as notas e moedas no cotidiano. A transformação foi tão profunda que, em determinado momento, estabelecimentos podiam simplesmente informar aos clientes: “não aceitamos dinheiro em espécie”.

Mas a própria Suécia começou a perceber o problema de depender excessivamente de uma única infraestrutura de pagamentos. Em 2026, o Parlamento sueco aprovou medidas para fortalecer novamente a posição do dinheiro físico, obrigando, com determinadas exceções, supermercados e farmácias com caixas atendidos a aceitar pagamentos em espécie.

A mudança não significa que a Suécia esteja abandonando a digitalização. Pelo contrário: o país continua investindo em pagamentos eletrônicos e em mecanismos que permitam realizar determinadas transações mesmo quando as comunicações de dados estiverem interrompidas. O que mudou foi a percepção de que eficiência não é a mesma coisa que resiliência.

A experiência sueca permite, portanto, uma conclusão importante: uma sociedade não precisa escolher entre dinheiro físico e pagamentos digitais. O verdadeiro objetivo de uma política de pagamentos madura deve ser preservar ambos, porque cada meio possui vantagens e vulnerabilidades diferentes.

O problema da dependência digital

Um sistema de pagamentos digitais depende de uma cadeia tecnológica relativamente complexa: eletricidade, redes de comunicação, servidores, sistemas bancários, terminais de pagamento, instituições financeiras e, em muitos casos, empresas privadas que operam infraestruturas de alcance internacional.

Em condições normais, tudo isso funciona extraordinariamente bem. O problema aparece justamente quando as condições deixam de ser normais, pois uma queda prolongada de energia, uma interrupção das telecomunicações, uma falha de servidores, um ataque cibernético ou mesmo uma situação de guerra pode comprometer simultaneamente vários componentes dessa cadeia.

É nesse ponto que o dinheiro físico apresenta uma característica singular: ele não depende, no momento da transação, de uma rede eletrônica funcionando, pois uma nota não precisa de bateria, uma moeda não precisa de conexão à internet e não é necessário que o banco esteja online para que duas pessoas possam trocar uma determinada quantidade de dinheiro físico por uma mercadoria.

Isso transforma o dinheiro em algo mais do que um simples instrumento de pagamento: ele passa a funcionar como uma espécie de infraestrutura de contingência da sociedade. O próprio Sveriges Riksbank, o banco central sueco, recomenda que a população disponha de diferentes meios de pagamento justamente para continuar realizando transações caso um deles deixe de funcionar. Entre suas recomendações está a manutenção de aproximadamente 1.000 coroas suecas em dinheiro físico por adulto, além de cartões e outras alternativas.

O dinheiro como redundância

Há uma regra fundamental de engenharia que também se aplica às finanças: sistemas críticos não devem depender de um único ponto de falha. É exatamente por isso que aviões possuem sistemas redundantes, hospitais possuem geradores de emergência e centros de dados possuem múltiplas fontes de energia e conexão.

Os pagamentos também são uma infraestrutura crítica, pois se uma sociedade utiliza exclusivamente cartões, por exemplo, uma interrupção generalizada da infraestrutura de cartões pode impedir a compra de alimentos mesmo que as pessoas tenham dinheiro em suas contas bancárias e se ela utiliza exclusivamente aplicativos de celular, a perda de eletricidade, de conectividade ou do próprio aparelho pode produzir o mesmo efeito.

O dinheiro físico oferece uma alternativa de natureza diferente. Por isso, a questão não deveria ser “dinheiro ou cartão”, mas “quantos meios independentes de pagamento uma sociedade possui?”

A própria autoridade monetária sueca recomenda que as famílias tenham diferentes formas de pagamento, incluindo cartões, meios de pagamento por celular e dinheiro em espécie. Essa diversificação é uma forma de seguro.

A experiência sueca é especialmente significativa

O caso sueco é particularmente interessante porque não se trata de um país tecnologicamente atrasado tentando preservar uma prática antiga. Trata-se de justamente o contrário: a Suécia está entre as sociedades mais digitalizadas do mundo e o uso do dinheiro físico caiu a níveis extremamente baixos: apenas cerca de 5% dos suecos declararam ter utilizado dinheiro na última compra presencial.

A conclusão sueca, portanto, não é uma rejeição da modernidade, mas uma consequência da própria modernidade. Quanto mais uma sociedade depende de sistemas digitais para funções essenciais, mais importante se torna conservar mecanismos capazes de funcionar quando esses sistemas falham.

A digitalização aumenta a eficiência cotidiana, mas também pode concentrar riscos.

Crises revelam aquilo que a normalidade esconde

Em períodos normais, é fácil considerar o dinheiro físico antiquado, pois se o cartão funciona, por que carregar notas? Se o celular permite pagar instantaneamente, por que utilizar moedas? Se o banco está disponível vinte e quatro horas por dia, por que manter dinheiro em casa? O problema dessas perguntas é que elas partem da premissa de que a infraestrutura continuará funcionando.

Uma crise, entretanto, justamente significa que alguma premissa deixou de ser verdadeira e a documentação do Riksbank trata a resiliência dos pagamentos como uma questão de segurança nacional e considera situações que vão desde perturbações comuns até ameaças mais graves, incluindo ataques cibernéticos e situações de guerra.

A própria experiência que motivou a discussão sueca demonstra o problema: uma sociedade pode descobrir subitamente que seus meios de pagamento eletrônicos são vulneráveis justamente quando mais precisa deles. Nesse contexto, uma nota guardada em casa pode ter uma importância desproporcional ao seu valor nominal, não porque seja melhor do que um cartão em circunstâncias normais, mas porque continua sendo útil justamente quando o cartão pode deixar de funcionar.

O dinheiro físico também é uma questão de inclusão

Existe ainda outra dimensão: uma economia completamente digital pode ser extremamente eficiente para quem possui smartphone, conta bancária, cartão, conexão à internet e familiaridade com aplicativos.

Mas nem todos possuem essas condições, pois idosos, pessoas com determinadas deficiências e indivíduos com menor familiaridade tecnológica podem enfrentar dificuldades quando o dinheiro físico deixa de ser aceito. Por essa razão, o governo sueco também associou a preservação do dinheiro à inclusão. A reforma não procura simplesmente manter uma tecnologia antiga por razões sentimentais: procura assegurar que determinados bens essenciais continuem acessíveis por meio de dinheiro físico.

Essa é uma distinção importante, pois uma sociedade não deve avaliar um sistema de pagamentos apenas pela velocidade ou conveniência para o usuário médio. Deve também perguntar quem fica para trás quando determinada tecnologia se torna obrigatória.

Não se trata de abandonar o dinheiro digital

A experiência sueca tampouco demonstra que devemos retornar a uma economia baseada predominantemente em notas e moedas. Esta seria uma interpretação equivocada, pois o próprio Riksbank trabalha com o fortalecimento dos pagamentos digitais e com soluções que permitam que determinados instrumentos eletrônicos continuem funcionando durante interrupções de conectividade.

A solução mais racional é, portanto, a coexistência, já que cartões são excelentes para determinadas situações enqaunto transferências eletrônicas são extremamente eficientes e aplicativos tornam pequenas transações rápidas e convenientes. Já o dinheiro físico, por sua vez, oferece uma forma de pagamento independente de determinadas infraestruturas digitais, pois cada meio funciona como uma camada adicional de segurança.

Preservar o dinheiro exige preservar sua infraestrutura

Existe, porém, um problema menos evidente: não basta simplesmente possuir notas e moedas. Para que o dinheiro físico seja efetivamente uma alternativa, é necessário que exista uma cadeia de circulação do dinheiro. É preciso haver caixas eletrônicos ou outros meios de saque, instituições capazes de receber depósitos, transporte de numerário, serviços de contagem e armazenamento e estabelecimentos preparados para receber pagamentos.

O Riksbank chama atenção justamente para esse problema. A cadeia do dinheiro físico envolve uma combinação de instituições públicas e empresas privadas, e interrupções em determinados serviços podem comprometer sua disponibilidade. Por isso, a política sueca também procurou assegurar que consumidores possam realizar depósitos em dinheiro e que empresas tenham acesso a serviços adequados para administrar troco e depósitos de suas receitas.

Preservar o dinheiro significa, portanto, preservar todo o ecossistema que permite que ele circule.

Uma lição para outros países

A experiência sueca contém uma lição que ultrapassa suas fronteiras, pois a modernização de uma sociedade não deve ser confundida com a eliminação de todas as tecnologias anteriores,uma vez que algumas tecnologias sobrevivem não porque sejam mais eficientes, mas porque oferecem redundância.

O papel pode ser menos eficiente do que um banco de dados eletrônico, mas uma cópia física pode continuar existindo quando um sistema digital está indisponível. Um gerador pode ser utilizado poucas vezes durante o ano, mas ninguém considera inútil possuir um quando ocorre um apagão. Da mesma maneira, uma pessoa pode utilizar dinheiro físico poucas vezes e ainda assim se beneficiar enormemente de tê-lo disponível quando os meios eletrônicos falham.

É precisamente essa lógica que parece estar orientando a mudança sueca, pois o país não está dizendo que o futuro será feito de dinheiro vivo - ele está dizendo para algo mais prudente: o futuro não pode depender exclusivamente de uma única forma de pagamento. Essa talvez seja a maior lição da experiência sueca. Uma economia verdadeiramente moderna não é aquela que elimina todas as formas antigas de pagamento, mas aquela que consegue continuar funcionando quando alguma de suas infraestruturas deixa de funcionar.

O dinheiro físico, nesse sentido, não representa apenas o passado, pois ele pode ser uma reserva de resiliência para o futuro.

Bibliografia comentada

1. SVERIGES RIKSDAG. Lag (2026:769) om skyldighet för livsmedelsbutiker och apotek att ta emot kontant betalning. 2026.

Legislação sueca que estabelece a obrigação de determinados supermercados e farmácias com caixas atendidos aceitarem dinheiro físico, sujeita às exceções previstas na própria lei. É a fonte jurídica fundamental para compreender a mudança legislativa.

Por que é importante: demonstra que o fortalecimento do dinheiro físico deixou de ser apenas uma recomendação política e passou a constituir uma obrigação legal em setores considerados essenciais.

2. SVERIGES RIKSDAG. The possibility to use cash to be improved (FiU39). 27 maio 2026.

Documento oficial sobre a decisão parlamentar destinada a melhorar as possibilidades de utilização do dinheiro físico. A reforma não se limita à aceitação do numerário: também aborda a possibilidade de depósito de dinheiro e os serviços necessários às empresas para administrar numerário.

Por que é importante: mostra que preservar o dinheiro significa preservar também a infraestrutura necessária para sua circulação.

3. SVERIGES RIKSDAG. Åtgärder för att stärka kontanternas funktionssätt (Betänkande 2025/26). 2026.

Relatório do Comitê de Finanças do Parlamento sueco sobre as medidas destinadas a fortalecer o funcionamento do dinheiro físico.

Por que é importante: apresenta a reforma dentro de uma política mais ampla de segurança, acessibilidade e funcionamento do sistema de pagamentos.

4. SVERIGES REGERING. Åtgärder för att stärka kontanternas funktionssätt (Proposition 2025/26:199). 2026.

Proposição governamental que fundamentou a reforma. É particularmente relevante para compreender as razões apresentadas pelo governo sueco para fortalecer a posição do numerário, inclusive no acesso a bens essenciais.

Por que é importante: permite compreender a preservação do dinheiro físico como questão de infraestrutura social e inclusão, e não simplesmente como preferência de consumidores.

5. SVERIGES RIKSBANK. Payments Report 2026. Estocolmo: Sveriges Riksbank, 2026.

Principal referência institucional para a discussão econômica e técnica. O banco central examina segurança, acessibilidade e resiliência do sistema de pagamentos e a necessidade de preservar diferentes meios de pagamento.

Por que é importante: fornece a fundamentação técnica para o conceito central deste artigo: redundância. Um sistema de pagamentos resiliente não deve depender exclusivamente de uma infraestrutura tecnológica.

6. SVERIGES RIKSBANK. Payments in Sweden – Payments Report 2026. 2026.

Documentação do banco central sobre a evolução dos hábitos de pagamento na Suécia, incluindo a extraordinária redução da utilização de dinheiro físico e os problemas associados a essa transformação.

Por que é importante: permite compreender a peculiaridade da experiência sueca: não se trata de um país atrasado tentando preservar o passado, mas de uma sociedade extremamente digitalizada que percebeu a necessidade de manter uma alternativa física.

7. SVERIGES RIKSDAG. The possibility to use cash to be improved (FiU39) – decision of 27 May 2026. 2026.

Registro oficial da decisão parlamentar e de seus desdobramentos. É útil para acompanhar a evolução da política sueca e a possibilidade de futuras medidas envolvendo outros serviços.

Por que é importante: demonstra que a discussão sobre o dinheiro físico permanece aberta e pode ultrapassar os setores de supermercados e farmácias.

Fonte de partida

TURBOSCRIBE. Por que a Suécia quer voltar ao dinheiro vivo. Transcrição fornecida pelo autor. 2026.

A transcrição do vídeo constitui a fonte jornalística que deu origem à reflexão desenvolvida neste artigo. Ela apresenta a redução do uso de dinheiro na Suécia, a preocupação com vulnerabilidades dos pagamentos digitais, a recomendação de manter uma reserva de dinheiro físico e a dimensão de inclusão relacionada a idosos e pessoas com dificuldades diante dos meios digitais.

Na versão publicada, entretanto, o vídeo deve ser entendido como fonte de partida, e não como principal autoridade documental. A legislação, os documentos parlamentares e as publicações do Sveriges Riksbank oferecem a base primária para as afirmações sobre a política sueca.

A distinção é importante porque permite chegar a uma conclusão mais sólida: a Suécia não está simplesmente “voltando ao dinheiro vivo”. Ela está procurando construir um sistema de pagamentos no qual a digitalização conviva com uma infraestrutura física capaz de funcionar como mecanismo de redundância e contingência.

É justamente essa combinação que transforma a experiência sueca em uma lição de interesse internacional.

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