Cheguei à conclusão de que o estrangeiro pode ser compreendido de uma maneira diferente daquela pela qual normalmente o Direito e a burocracia estatal o classificam, pois o estrangeiro não é simplesmente aquele que possui outra nacionalidad:. em um sentido mais profundo, estrangeiro é o nacional que ainda está aprendendo a tomar a pátria onde se encontra instalado como um lar em Cristo, por Cristo e para Cristo, dentro de sua pequena via.
Essa transformação não acontece de um dia para o outro, muito menos resulta automaticamente de um passaporte, de uma certidão de naturalização ou do transcurso de determinado prazo de residência, poiseEla exige enraizamento e isso constitui um processo histórico.
Entre o território e a pátria
Uma pessoa pode residir durante muitos anos em determinado país sem que esse país tenha efetivamente se transformado em sua pátria, uma vez que essa pessoa trabalha ali, paga impostos, utiliza os serviços públicos, compra imóveis, cria empresas e até constitui família. Ainda assim, pode continuar percebendo o território apenas como o lugar em que circunstancialmente se dá a sua vida.
Há, portanto, uma diferença essencial entre estar em um território e pertencer a uma pátria: enqaunto o território é geográfico, a pátria é relacional, pois ela nasce quando o espaço físico começa a ser preenchido por memória, dever, reciprocidade, vínculos familiares, trabalho, vizinhança, cultura e responsabilidade pelas gerações seguintes.
É quando deixamos de perguntar apenas: “O que este país pode oferecer a mim?”
e começamos também a perguntar: “O que eu devo a esta comunidade da qual passei a fazer parte?”
É nesse momento que começa verdadeiramente alma passa por um processo de nacionidade.
A naturalização jurídica não basta
O Direito necessita trabalhar com categorias objetivas. Por isso estabelece critérios para aquisição e perda da nacionalidade, uma vez que há nacionais natos, naturalizados, estrangeiros, residentes e não-residentes. Essas categorias são indispensáveis ao funcionamento do Estado, mas elas não esgotam o fenômeno da pertença, pois uma pessoa pode adquirir juridicamente determinada nacionalidade sem ainda ter desenvolvido profunda ligação cultural com aquela pátria. Da mesma maneira, alguém pode estar profundamente integrado à vida de um país antes mesmo de adquirir formalmente sua nacionalidade.
Podemos, portanto, distinguir dois processos. A primeira é a naturalização jurídica.
A segunda é aquilo que poderíamos chamar de nacionidade civilizacional.
A primeira pode resultar de um ato jurídico-administrativo, enquanto a segunda é construída pela vida.
A pequena via da nacionidade
A pátria é frequentemente representada por símbolos grandiosos: bandeiras, hinos, forças armadas, constituições, monumentos e grandes acontecimentos históricos.
Tudo isso é importante, mas a experiência concreta da pátria normalmente começa em escala muito menor. Ela começa na rua em que moramos, na vizinhança, na escola dos filhos, na paróquia, no comércio local, no município, na praça onde caminhamos, no hospital em que nossos familiares são tratados, no cemitério onde enterramos nossos mortos.
É essa dimensão que chamo de pequena via da pátria, pois a grande nação torna-se compreensível por meio de pequenas experiências de pertença - antes de amar abstratamente milhões de pessoas que nunca conheceremos, aprendemos a cumprir nossos deveres em relação às pessoas concretas que aparecem diante de nós.
A nacionidade, vista desse modo, não é uma classificação cultural ou política, é também uma forma de responsabilidade, pois amar é uma decisão e o senso de tomar uma terra como um lar em Cristo, por Cristo e para Cristo é parte do processo.
O município como primeira escola da pátria
A integração de um estrangeiro ocorre principalmente no cotidiano, pois ele aprende os costumes do lugar, descobre como as pessoas trabalham, conhece as festas locais, participa das instituições comunitárias, aprende a história daquele território, compreende suas dificuldades e passa a defender aquilo que considera bom naquela comunidade e a trabalhar para corrigir aquilo que considera errado.Aos poucos, aquele espaço deixa de ser exclusivamente “o país dos outros” e torna-se também seu.
É por isso que o município ocupa posição tão importante nesse processo, pois ele funciona como uma espécie de pequena via da nação e é muito difícil amar verdadeiramente um país inteiro se não conseguimos amar alguma porção concreta dele.
A pátria como um lar em Cristo
Para uma concepção cristã da nacionidade, entretanto, o enraizamento não pode ser entendido simplesmente como apego territorial, pois a terra não se transforma em algo absoluto, uma vez que a pátria permanece subordinada a uma ordem moral superior.
Por isso digo que a verdadeira integração consiste em aprender a tomar a terra onde se vive como um lar em Cristo, por Cristo e para Cristo.
“Em Cristo”, porque a dignidade das pessoas com quem convivemos não deriva de sua utilidade econômica, de sua etnia ou de sua posição social; “Por Cristo”, porque a pertença implica serviço; E “para Cristo”, porque nenhuma comunidade política pode ser transformada em ídolo.
A pátria deve ser amada sem se tornar divindade, pois o patriotismo cristão, portanto, não deveria produzir desprezo pelo estrangeiro. Ao contrário: ele deveria ser capaz de enxergar naquele estrangeiro um possível futuro compatriota.
O estrangeiro como nacional em formação
Essa perspectiva altera profundamente a maneira de pensar a imigração, pois o estrangeiro deixa de ser visto exclusivamente como alguém externo à comunidade e passa a ser percebido como alguém que pode estar atravessando um processo de incorporação à comunidade nacional.
Poderíamos representar esse caminho aproximadamente da seguinte forma:
estrangeiro → instalado → integrado → enraizado → nacional
Não se trata de etapas jurídicas obrigatórias, mas de estágios possíveis de pertença, pois o estrangeiro recém-chegado ainda observa a sociedade de fora. Com o tempo, começa a compreendê-la e depois começa a participar dela, determinadas experiências daquela sociedade passam a integrar sua própria memória, a tal ponto que acontecimentos ocorridos naquela terra passam a ser sentidos não simplesmente como “a história deles”, mas como a nossa própria história.
É nesse instante que a pátria começa verdadeiramente a nascer dentro da pessoa.
A obra de várias gerações
Esse processo frequentemente não termina em uma única geração, pois a primeira geração de imigrantes costuma conservar relações muito intensas com o país de origem, uma vez que ela compara permanentemente os dois países, mantém hábitos anteriores, fala a língua materna dentro de casa, preserva lembranças de infância, parentes, festas e paisagens que pertencem a outra terra. Isso não representa necessariamente um problema, mas é simplesmente a realidade biográfica daquela geração.
Os filhos, entretanto, já começam a viver outra experiência - eles possuem a memória familiar dos pais, mas desenvolvem sua própria memória no país de nascimento ou de criação; Já na terceira geração, frequentemente ocorre uma nova mudança: o país que para os avós era terra de imigração já pode ser percebido pelos netos como a pátria evidente de sua infância.
Os túmulos da família já estão ali, as fotografias antigas foram tiradas ali, as histórias familiares começaram a ocorrer ali.
A própria genealogia passou a ter geografia. É assim que a nacioidade se sedimenta.
Os mortos também enraízam os vivos
Há algo particularmente profundo na relação entre morte e pertença, pois quando uma família começa a enterrar seus mortos em determinada terra, ocorre uma transformação simbólica importante, pois aquele solo passa a guardar parte da memória familiar, uma vez que já não é simplesmente um lugar onde se vive., mas também o lugar onde repousam aqueles que viveram antes de nós.
Surge então uma continuidade entre as gerações, pois os vivos passam a caminhar por uma terra que contém sua própria história e talvez poucas coisas transformem tanto um território em pátria quanto essa acumulação de memória.
A internacionidade
Reconhecer o processo de integração não significa exigir que alguém destrua os vínculos com sua pátria original. Pelo contrário: uma pessoa pode incorporar uma nova pátria sem precisar apagar a antiga.
É aqui que aparece aquilo que denomino internacionidade, pois uma pessoa pode ter aprendido a tomar duas comunidades como um mesmo lar em Cristo, por Cristo e para Crist a ponto de compreender as dores históricas de ambas e carregar consigo suas memórias a ponto de sentir obrigação moralde elaldade em relação às duas, o qu representa uma ampliação das relações de pertença, pois um brasileiro instalado durante décadas na Polônia, por exemplo, pode continuar profundamente brasileiro ao mesmo tempo em que aprende a tratar a Polônia como uma pátria incorporada à sua própria biografia.
Da mesma forma, descendentes de poloneses, italianos, alemães, portugueses, japoneses ou ucranianos no Brasil podem ser profundamente brasileiros sem necessidade de renunciar à memória familiar de seus antepassados, pois a integração autêntica não precisa produzir amnésia.
A memória como patrimônio
Uma comunidade nacional não é formada apenas por pessoas que vivem simultaneamente dentro das mesmas fronteiras, já que ela é formada também por uma continuidade de memória, pois cada geração recebe alguma coisa das anteriores: recebe uma língua, recebe instituições. recebe edifícios. recebe estradas, recebe histórias familiares, recebe hábitos, recebe documentos, recebe dívidas, recebe conflitos ainda não resolvidos r recebe também possibilidades, uma vez que tornar-se nacional significa começar a perceber esse patrimônio como algo que também nos foi confiado, pois não somos simplesmente consumidores temporários da sociedade, mas administradores de uma herança que nos foi dada por Deus (depositários)
Da nacionidade como responsabilidade intergeracional
Essa concepção possui uma consequência decisiva, pois a pátria não pertence exclusivamente à geração atualmente viva, pois nós a recebemos de pessoas que já morreram e a transmitiremos a pessoas que ainda não nasceram.
Nesse sentido, a nacionidade assume, portanto, caráter intergeracional, pois o estrangeiro começa a deixar de ser estrangeiro quando seus projetos deixam de estar limitados exclusivamente à duração de sua própria permanência; quando ele planta uma árvore esperando que seus filhos desfrutem dela; quando participa de uma instituição esperando que ela continue funcionando depois de sua morte; quando preserva um prédio histórico que não foi construído por seus antepassados, mas que ele deseja entregar aos descendentes; quando começa a pensar no futuro daquele lugar como parte de seu próprio futuro familiar.
Nesse momento, ocorre verdadeira mudança de consciência.
Não basta morar: é preciso habitar
Talvez seja possível resumir toda essa diferença utilizando dois verbos: morar e habitar, pois morar é ocupar um espaço, enquanto habitar é transformá-lo em mundo.
O estrangeiro pode inicialmente apenas morar em determinado país, mas a integração começa quando ele passa a habitá-lo, quando seus hábitos se cruzam com os hábitos da comunidade, quando sua história familiar começa a se entrelaçar à história local, quando ele já não consegue contar sua própria biografia sem mencionar aquela terra.
Uma definição possível
A concepção pode, portanto, ser condensada da seguinte maneira: O estrangeiro é o nacional em processo de aprendizagem da nova pátria. Ele se torna progressivamente nacional quando, pela pequena via da vida cotidiana, transforma a terra onde vive em lar, memória, responsabilidade e herança — em Cristo, por Cristo e para Cristo.
A naturalização jurídica pode acontecer em determinado momento perfeitamente identificável. Mas o processo de nacionidade, entretanto, pode necessitar de décadas.Às vezes, de gerações.
Conclusão
Uma pátria não nasce somente das fronteiras estabelecidas pelos Estados, pois ela nasce também das relações entre pessoas, territórios e gerações.
O estrangeiro que chega encontra inicialmente uma sociedade formada por outros. Depois começa a trabalhar nela, constrói relações, cria filhos, acumula memória, enterra seus mortos, recebe algo das gerações anteriores entrega algo às posteriore
E em determinado momento, já não está simplesmente vivendo naquele país. Ele passa a pertencer a esse país também - talvez seja exatamente essa a transformação fundamental, pois a estrangeiridade desaparece progressivamente quando a pessoa deixa de compreender o território como cenário provisório de sua existência e passa a considerá-lo uma comunidade da qual é também partícipe, nos méritos de Cristo.
Neste sentido, antiga terra estrangeira transforma-se em pátria, não porque a pátria de origem tenha necessariamente sido esquecida, mas porque uma nova dimensão de pertença foi incorporada à vida. E é dessa maneira, geração após geração, pela pequena via dos deveres cotidianos, que uma sociedade deixa de ser formada por estranhos e começa verdadeiramente a tornar-se uma comunidade nacional.
Bibliografia comentada
A tese desenvolvida neste artigo — segundo a qual o estrangeiro pode ser compreendido como um nacional em processo de formação, cuja incorporação à nova pátria ocorre por meio do enraizamento cotidiano e pode levar várias gerações — dialoga com diferentes tradições da filosofia política, da sociologia, da antropologia e do pensamento cristão. Nenhum dos autores abaixo formula exatamente a tese nos termos aqui apresentados; eles fornecem, porém, instrumentos conceituais para desenvolvê-la.
ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo.
Anderson tornou célebre a definição da nação como uma “comunidade política imaginada”. O conceito é útil porque demonstra que a pertença nacional não depende do conhecimento pessoal entre todos os membros da comunidade. Milhões de pessoas podem reconhecer-se como pertencentes ao mesmo corpo político sem jamais se encontrarem.
Para a tese deste artigo, entretanto, é importante avançar além de Anderson. A comunidade nacional não é apenas imaginada: ela é também vivida, herdada e territorialmente sedimentada. Família, município, vizinhança, instituições, cemitérios, festas, língua e memória transformam a representação abstrata da nação em experiência concreta.
AUGUSTINUS, Aurelius. De Civitate Dei [A Cidade de Deus].
Santo Agostinho oferece um ponto fundamental para impedir que o patriotismo se transforme em idolatria política. A comunidade terrena possui importância real, mas não constitui o fim último do homem.
É precisamente essa hierarquia que permite falar em uma pátria vivida “em Cristo, por Cristo e para Cristo”. Amar a própria terra não significa divinizá-la. Pelo contrário: a pátria pode ser amada adequadamente justamente porque permanece subordinada a uma ordem moral transcendente.
A concepção apresentada neste artigo procura distinguir, portanto, patriotismo cristão e nacionalismo absoluto.
AQUINO, Tomás de. Summa Theologiae [Suma Teológica].
São Tomás é especialmente importante para compreender a virtude da pietas, pela qual o homem reconhece deveres particulares para com aqueles de quem recebeu existência, formação e pertencimento.
Essa tradição ajuda a compreender que os deveres para com a pátria não são simplesmente manifestações emocionais. Existe uma dimensão moral de gratidão, reciprocidade e responsabilidade.
Aplicado ao estrangeiro, isso permite formular uma questão interessante: à medida que uma nova sociedade passa efetivamente a sustentá-lo, educar seus filhos, acolher sua família e receber o seu trabalho, surgem também novos vínculos concretos de obrigação.
A incorporação nacional torna-se, assim, não somente uma mudança de identidade, mas uma ampliação dos deveres.
BURKE, Edmund. Reflections on the Revolution in France [Reflexões sobre a Revolução na França].
Burke concebe a sociedade como uma parceria não apenas entre os vivos, mas também entre os mortos e aqueles que ainda nascerão.
Essa percepção é fundamental para a concepção de pátria intergeracional defendida neste artigo.
Uma sociedade não pertence exclusivamente à população momentaneamente existente. Cada geração recebe instituições, costumes, patrimônio, conhecimento e memória das anteriores e possui responsabilidade perante as posteriores.
O imigrante começa profundamente a integrar-se quando também passa a participar dessa cadeia temporal: quando a história daquele lugar deixa de ser somente história dos outros e passa a constituir parte da herança que ele próprio deseja transmitir.
DE SOTO, Hernando. The Mystery of Capital: Why Capitalism Triumphs in the West and Fails Everywhere Else.
Embora sua preocupação principal seja econômica e institucional, Hernando de Soto ajuda a perceber a importância da integração entre pessoas, patrimônio, propriedade e instituições formais.
Sua obra é particularmente útil para compreender que o enraizamento não ocorre somente no plano sentimental. A aquisição de propriedade, a participação na economia formal, a construção de empresas, a transmissão patrimonial e a inserção institucional transformam progressivamente o indivíduo em participante duradouro de determinada sociedade.
A ideia pode ser ampliada: quem começa a constituir patrimônio intergeracional em determinado lugar começa também a vincular seu futuro ao futuro daquele lugar.
FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala; Sobrados e Mucambos.
Freyre é indispensável para qualquer reflexão sobre a formação social brasileira porque percebe a sociedade não apenas por meio das instituições estatais, mas através da casa, da família, das relações cotidianas, dos costumes e das formas concretas de convivência.
Mesmo quando suas interpretações precisam ser criticadas ou atualizadas, o método é importante para a tese aqui desenvolvida: uma nacionalidade é construída também dentro das casas.
O processo pelo qual grupos inicialmente externos acabam incorporados a uma sociedade frequentemente ocorre por casamento, parentesco, alimentação, linguagem, religião, trabalho e vizinhança — isto é, por mecanismos muito anteriores ou mais profundos que uma simples declaração jurídica de nacionalidade.
MacINTYRE, Alasdair. After Virtue [Depois da virtude].
MacIntyre sustenta que o indivíduo só pode compreender plenamente sua própria existência dentro de narrativas e tradições que o antecedem.
Esse ponto é especialmente fecundo para compreender a nacionalidade como inserção narrativa.
O estrangeiro encontra inicialmente uma história que não começou com ele. A integração ocorre quando começa a compreender essa narrativa, localizar-se dentro dela e assumir responsabilidade por sua continuidade.
Uma pátria torna-se verdadeiramente nossa quando não conseguimos mais contar nossa própria história sem contar também parte da história daquele lugar.
RENAN, Ernest. Qu'est-ce qu'une nation? [O que é uma nação?].
O célebre texto de Renan é particularmente relevante por sua rejeição de definições puramente raciais, linguísticas ou geográficas da nação.
Sua ideia da nação como resultado de uma memória compartilhada e de uma vontade contínua de viver em comum aproxima-se de alguns aspectos da tese aqui desenvolvida.
Há, contudo, uma diferença importante.
A formulação deste artigo procura conferir maior peso à sedimentação intergeracional da pertença. Não basta simplesmente uma vontade política instantânea. A nacionalidade profunda emerge através de memórias, deveres, instituições e relações que são progressivamente incorporadas à vida.
SIMMEL, Georg. “The Stranger” [“O estrangeiro”].
O ensaio de Simmel é fundamental para a sociologia do estrangeiro.
O estrangeiro não é simplesmente aquele que está fisicamente distante. Ele pode estar presente e participar da comunidade, mas continuar ocupando uma posição particular dentro dela: simultaneamente próximo e distante.
Essa formulação é extremamente útil para compreender a existência de graus de integração.
A tese do artigo propõe um desenvolvimento possível da questão de Simmel: o que acontece quando essa distância diminui através das gerações?
O estrangeiro sociológico pode progressivamente transformar-se em participante pleno da memória coletiva.
TOCQUEVILLE, Alexis de. De la démocratie en Amérique [A democracia na América].
Tocqueville chama atenção para a importância das associações, dos costumes e das instituições locais na sustentação da vida política.
Para a concepção da pequena via da pátria, essa percepção é particularmente valiosa.
A integração nacional não precisa começar no relacionamento direto entre indivíduo e Estado central. Ela pode começar no município, na associação, na comunidade religiosa, na escola, na vizinhança e nas demais instituições intermediárias.
Antes de pertencer abstratamente a uma nação de milhões de habitantes, a pessoa aprende a participar de pequenas comunidades concretas.
VERDERY, Katherine. The Political Lives of Dead Bodies: Reburial and Postsocialist Change.
Verdery demonstra de maneira particularmente expressiva como os mortos podem continuar ocupando lugar central na construção política e simbólica das comunidades.
Embora seu objeto específico seja outro, sua análise ajuda a compreender uma das ideias mais profundas deste artigo: os mortos também territorializam a memória dos vivos.
Quando gerações de uma família passam a ser sepultadas numa terra, aquela paisagem incorpora uma dimensão genealógica.
O território deixa de ser exclusivamente geografia.
Transforma-se em memória.
WEIL, Simone. L'Enracinement [O enraizamento].
Talvez seja a obra que mais diretamente dialogue com a tese central deste artigo.
Simone Weil considera o enraizamento uma necessidade fundamental da alma humana. O indivíduo precisa participar de comunidades que conservem tesouros do passado e pressentimentos do futuro.
A formulação é extremamente próxima da ideia aqui defendida de que a nacionalização civilizacional ocorre através de um processo no qual o indivíduo passa a receber, conservar e transmitir determinada herança.
Weil também permite compreender o desenraizamento como problema político e espiritual.
O estrangeiro não deveria ser condenado a uma situação permanente de desenraizamento. A comunidade que o recebe deve possibilitar sua incorporação; ao mesmo tempo, ele precisa gradualmente assumir responsabilidades em relação à terra que o acolheu.
WOJTYŁA, Karol / JOÃO PAULO II. Memória e identidade.
João Paulo II oferece uma compreensão particularmente rica da relação entre pessoa, cultura, nação e memória.
Sua própria experiência polonesa demonstra que a nação não pode ser reduzida simplesmente ao aparato estatal. Estados podem desaparecer, fronteiras podem mudar e regimes políticos podem cair enquanto uma comunidade nacional continua existindo através de sua cultura, religião, língua e memória.
Essa perspectiva é fundamental para a tese aqui desenvolvida.
A pátria existe também como patrimônio espiritual recebido e transmitido.
Por isso, integrar-se a uma nova pátria significa progressivamente aprender a participar da cultura e da memória daquele povo sem necessariamente destruir os vínculos legítimos com a terra de origem.
Uma síntese bibliográfica
A partir dessas obras, é possível visualizar quatro dimensões complementares da tese:
- Enraizamento — Simone Weil ajuda a compreender a necessidade humana de pertencer a comunidades históricas concretas.
- Memória e continuidade intergeracional — Burke, João Paulo II, MacIntyre e Verdery mostram, por caminhos diferentes, que as comunidades ligam mortos, vivos e gerações futuras.
- Integração cotidiana — Simmel, Tocqueville, Freyre e De Soto ajudam a perceber como pertença, instituições, propriedade, associações, família e vida local transformam gradualmente a posição do estrangeiro.
- Limites cristãos da nacionidade — Santo Agostinho e São Tomás permitem compreender a pátria como objeto legítimo de amor e dever, mas jamais como realidade absoluta.
Dessa combinação emerge a proposição central:
a nacionalidade jurídica estabelece uma relação entre indivíduo e Estado; o enraizamento transforma essa relação em pertença histórica.
É por isso que alguém pode receber uma certidão de naturalização em determinado dia e, ainda assim, participar de um processo de naturalização civilizacional que atravessa décadas — e eventualmente gerações.
Nesse sentido, a expressão “estrangeiro” pode descrever não apenas uma oposição permanente entre “nós” e “eles”, mas uma condição histórica de passagem.
O estrangeiro é aquele que chegou.
O imigrante é aquele que começou a construir.
O integrado é aquele que começou a pertencer.
E seus descendentes poderão chegar ao momento em que a antiga terra estrangeira será simplesmente chamada de: pátria.