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domingo, 9 de agosto de 2026

Do lar reticular: sobre a relação entre pluralidade de domicílios, nacionidade e santificação através do trabalho

Introdução — Uma casa pode existir em mais de um lugar

A linguagem comum tende a identificar lar e endereço, uma vez que toda família deveria possuir uma casa, situada em determinado lugar; quando ela se muda de endereço, ela muda de lar. Juridicamente e sociologicamente, porém, a realidade pode ser muito mais complexa.

O próprio Código Civil brasileiro admite essa complexidade, pois seu art. 70 estabelece, como regra, que o domicílio da pessoa natural é o lugar em que ela estabelece residência com ânimo definitivo. Logo em seguida, porém, o art. 71 dispõe que, havendo diversas residências nas quais a pessoa viva alternadamente, qualquer delas pode ser considerada seu domicílio. O art. 72 acrescenta ainda o domicílio profissional: o lugar onde a profissão é exercida; sendo exercida em diversos lugares, cada um deles constitui domicílio quanto às respectivas relações profissionais.

Essa pluralidade jurídica sugere uma possibilidade antropológica mais ampla: talvez o lar não precise ser concebido exclusivamente como um ponto, já que ele pode ser concebido como rede, pois uma família pode organizar sua existência entre duas ou mais cidades, atribuindo a cada uma delas funções complementares: trabalho, estudo, comércio, patrimônio, relações familiares, apostolado, descanso, produção intelectual ou atividade empresarial.

Se essas diferentes localizações servem à mesma comunidade familiar e são ordenadas ao mesmo fim, a distância física não necessariamente fragmenta a casa, mas pode ampliá-la. Surge assim o conceito de lar reticular: uma unidade doméstica cuja presença se distribui territorialmente sem perder sua unidade moral.

1. O Código Civil e a pluralidade real de domicílios

O ponto de partida não é uma metáfora, pois o direito civil brasileiro efetivamente recusa a ideia de que toda pessoa natural deva possuir um único domicílio possível. O art. 71 do Código Civil reconhece expressamente diversas residências alternadas, enquanto o art. 72 reconhece ainda que a profissão pode estabelecer domicílios próprios e que, exercida em lugares distintos, pode produzir uma pluralidade de domicílios profissionais - o que significa que a ordem jurídica consegue reconhecer uma existência territorial policêntrica, pois se alguém pode efetivamente viver entre duas cidades, então ele pode trabalhar em mais de uma localidade e pode possuir relações juridicamente relevantes vinculadas a diferentes lugares. 

Há, contudo, uma importante ressalva: domicílio civil não é automaticamente sinônimo de domicílio tributário ou residência fiscal, pois o Código Tributário Nacional possui regras próprias. Para pessoas naturais, o art. 127 parte, na ausência de eleição válida segundo a legislação aplicável, da residência habitual ou, se esta for incerta ou desconhecida, do centro habitual de atividade. A distinção torna-se ainda mais importante quando os lugares estão em países diferentes, pois o fato de ter casas, vínculos econômicos ou mesmo residência civil em diferentes jurisdições não significa necessariamente ser residente fiscal de todas elas, uma vez que entram em cena a legislação de cada Estado e, conforme o caso, convenções internacionais. Mas essa cautela tributária não reduz a força da constatação civil, pois a pessoa pode possuir mais de um centro territorial verdadeiro de vida.

2. Da pluralidade domiciliar à nacionidade policêntrica

Se tomarmos a nacionidade como uma relação concreta de pertença — e não apenas como sinônimo de nacionalidade jurídica —, a pluralidade de domicílios produz uma consequência especialmente interessante, pois a pertença territorial deixa de ser necessariamente exclusiva, uma vez que uma pessoa pode possuir uma relação densa com duas cidades ao mesmo tempo - o que não significa possuir vínculos duas soberanias municipais - uma vez que município não é nação soberana nem sua residência cria uma nova nacionalidade -, mas que a experiência concreta da nacionidade pode possuir mais de um foco territorial. E nesse caso. teríamos uma nacionidade policêntrica, pois a pessoa não abandona necessariamente o primeiro lugar ao adquirir um segundo, mas pode integrar ambos numa única economia de vida, a ponto de um deles pode fornecer determinada oportunidade profissional, enquanto o outro oferece outra vantagem geográfica, a ponto de atuarem em sinergia. Ou mesmo um lugar pode abrigar uma empresa, enquanto outro favarece determinada atividade intelectual. Ou um lugar pode oferecer conexão portuária, enqaunto outro oferece relação fronteiriça ou acesso a determinado mercado. Isso cria uma rede complentaridades a partir duas gografias aparentemente separadas - e as possibilidades são infinitas

3. A micronacionidade municipal deixa de ser insular

Isso modifica a teoria da micronacionidade municipal, pois se cada município representa a menor escala institucional em que a nacionidade pode ser territorialmente experimentada, alguém com vínculos reais a dois Municípios pode participar de dois microcosmos locais simultaneamente

Não se tratam de dois microcosmos rivais, uma vez que eles podem cooperar dentro da mesma vida familiar, já que uma família pode, por exemplo, desempenhar parte de sua atividade produtiva numa cidade e parte noutra, pois o patrimônio pode estar distribuído em vários lugares, uma vez que os clientes podem concentrar-se num lugar enquanto fornecedores estão noutro, a ponto de uma residência poder servr mais à vida quotidiana e outra à realização de certa profissão - e nesse sentido a pluralidade domiciliar permite, portanto, que a própria família funcione como uma ponte entre micronacionidades, já que ela transporta conhecimento.transporta capital, cria relações comerciais. integra comunidades, forma redes, pois, se Platão afirmou que o homem é ave, a família, neste caso, é bando - e o deslocamento, nesse sentido, deixa de significar simples ausência e pode constituir uma forma de integração territorial. 

4. O estado como mesofederação das redes familiares

Essa concepção também reforça a função do estado enquanto mesofederação, pois os municípios oferecem diferentes combinações de território, infraestrutura, patrimônio e oportunidades e o estado coordena essas diferentes micronacionidades e permite que os fluxos entre elas formem uma economia regional, a ponto de servir de corpo intermediário entre seus interesses em conjunto com a União

Uma família polidomiciliada entre duas cidades do mesmo estado pode tornar-se, em escala pequena, aquilo que a infraestrutura estadual realiza em escala grande: um agente de conexão, pois se os Municípios possuem especializações distintas, a pluralidade domiciliar permite que pessoas e famílias internalizem essas complementaridades. 

Assim, a integração federativa não ocorre apenas por rodovias e repartições públicas - ela ocorre também por biografias, pois as pessoas carregam consigo contratos, hábitos, investimentos, conhecimento e relações, pois uma federação não é só construída institucionalmente de cima para baixo, mas também é costurada diariamente pelos movimentos concretos de seus habitantes, de baixo para cima.

5. Harm de Blij e a família que aproveita vários lugares

A tese de Harm de Blij acerca do poder persistente do lugar ganha aqui uma aplicação nova, pois se lugares são diferentes, uma família não precisa necessariamente escolher apenas um e renunciar aos demais, já que ela pode combinar vantagens. 

Essa combinação não elimina a geografia. Muito pelo contrário: ela pressupõe que a geografia seja relevante, pois se dois lugares fossem economicamente idênticos, pouco haveria para complementar e a lógica do lar reticular nasce precisamente da seguinte diferença o lugar A possui aquilo que lugar B não possui; lugar B oferece aquilo que A não consegue proporcionar, e a família integra os dois numa única ordem de vida.

Nesse sentido, a desigualdade geográfica pode gerar não apenas especialização econômica regional, mas também estratégias domésticas de complementaridade territorial.

6. O trabalho como costura entre os lugares

O elemento que transforma diversas residências numa unidade não é apenas a propriedade, mas sobretudo através da santificação através do trabalho, pois uma segunda residência sem qualquer relação com a atividade familiar pode ser apenas lugar de lazer, mas quando diferentes lugares participam da mesma economia doméstica, o trabalho começa a funcionar como uma costura, pois uma empresa situada num município pode financiar a casa localizada noutro; uma profissão exercida em duas localidades pode manter uma única família; uma propriedade pode abrigar atividades complementares às desenvolvidas na outra; o produto obtido num território pode ser comercializado por meio de redes existentes no segundo.

Assim, a pluralidade espacial é subordinada a uma unidade econômica, pois a família continua sendo uma, mas o seu patrimônio é plural, pois ss funções são plurais, uma vez que o fim permanece comum.

7. A unidade de vida na tradição católica

É nesse ponto que a construção pode receber uma interpretação especificamente cristã, pois a doutrina católica sobre a vocação dos leigos não exige uma separação entre vida religiosa e vida temporal. A encíclica Christifideles Laici insiste justamente na unidade entre fé, família, profissão, relações sociais, cultura e demais atividades seculares;, uma vez que São João Paulo II apresenta a vida quotidiana e profissional como campo no qual o fiel leigo vive sua vocação à santidade.

Já a Laborem Exercens, por sua vez, situa o trabalho dentro da própria vocação humana e enfatiza sua dimensão pessoal e comunitária. Consequentemente, para uma família cristã, a unidade não precisa decorrer da imobilidade. Ela pode decorrer da finalidade, pois se diferentes atividades profissionais, realizadas em diferentes cidades, são ordenadas ao sustento da família, ao serviço das outras pessoas e à vivência coerente da fé, então a multiplicidade dos locais não precisa fragmentar a existência espiritual.

Poderíamos formular:

pluralidade espacial + unidade familiar + unidade de finalidade = unidade de vida.

Em linguagem cristã, os vários lugares podem ser ordenados em Cristo, por Cristo e para Cristo, sem que seja necessário afirmar que cada escolha geográfica seja, por si só, uma determinação divina particular.

A geografia torna-se matéria da vocação.

8. A casa deixa de ser apenas arquitetura

Daí emerge uma concepção mais rica de lar. Uma casa é edifício, mas um um lar é uma relação, pois se a unidade do lar repousa principalmente na comunhão familiar, a arquitetura é seu suporte, não necessariamente seu limite, uma vez que duas residências podem funcionar como partes de uma única economia doméstica, pois uma pode conter a biblioteca e o escritório, enquanto outra pode estar próxima da atividade produtiva.ou mesmo uma casa pode conectar determinada geração da família a um território e outra pode servir às oportunidades da geração seguinte. Nesse sentid o lar passa de uma estrutura exclusivamente arquitetônica para uma estrutura relacional e territorial.

É por isso que “rede” talvez seja melhor metáfora que “ponto”.

9. Um só lar funcional em lugares distantes

Podemos então introduzir uma distinção: há unidade física de residência, quando a família está concentrada num único imóvel e há unidade funcional do lar, quando diversos imóveis e lugares são coordenados pela mesma comunidade doméstica.

No segundo caso, a distância não elimina a unidade, pois um lugar completa o outro. Isto vale dentro do território nacional e pode, sociologicamente, valer entre diferentes países, pois uma família pode manter patrimônio, relações e atividades em duas sociedades distintas. Ela precisa respeitar duas ordens jurídicas, regimes tributários próprios, normas migratórias e todas as demais consequências da fronteira.

Mas essas diferenças jurídicas não impedem que, para a própria família, ambas as localidades constituam partes de uma só história doméstica.

10. Da nacionidade à internacionidade

Quando a rede ultrapassa as fronteiras brasileiras, a escala muda, pois a pluralidade entre Municípios produz uma micronacionidade policêntrica; a pluralidade entre Estados brasileiros atravessa diferentes mesofederações; a pluralidade entre países introduz aquilo que pode ser denominado internacionidade familiar.

Internacionidade não significaria ausência de nações. Muito ao contrário: só existe porque há lugares e comunidades políticas distintas e a família torna-se conexão entre elas. Ela pode servir de ponte entre culturas, pode transportar conhecimentos. pode formar filhos capazes de circular entre idiomas e tradições, pode desenvolver negócios complementares, pode realizar obras intelectuais destinadas a públicos diferentes. Em vez de se dissolver o senso de se tomar o seu país como um lar em Cristo, por Cristo e para Cristo, essa rede pode multiplicar esse senso em outros lugares. No lugar de ter um vínculo só, a família terá vínculo de nacionalidade com vários Estados, a ponto de serem objeto de proteção de mais de um Estado, por conta serem aquilo que os americanos chamam de asset family (um grupamento de assent men reunidos em uma só família)

11. A família como pequena instituição de integração

A família polidomiciliar torna-se então algo mais que unidade de consumo, pois ela pode funcionar como uma instituição elementar de integração territorial

Essa percepção é particularmente importante porque as grandes teorias de integração normalmente privilegiam Estados, empresas multinacionais, estradas, portos ou tratados, milhões de pequenas conexões são realizadas por famílias, pois uma avó vive num país, um filho trabalha noutro, um imóvel permanece numa cidade, uma pequena empresa funciona em outra. Os membros falam línguas diferentes e nela circulam livros, alimentos, tradições, capitais e conhecimentos de diferentes naturezas e a integração do mundo não ocorre apenas em instituições internacionais, pois ela também acontece à mesa das famílias.

12. A missão cristã não exige desenraizamento

Há ainda uma consequência teológica, pois o mandato missionário cristão é universal e a tradição católica entende que o leigo participa da missão da Igreja precisamente dentro das realidades temporais — família, profissão, cultura e sociedade. A encíclica Christifideles Laici descreve o mundo inteiro como campo da missão dos fiéis leigos e rejeita a ideia de duas vidas paralelas, uma espiritual e outra secular - o que permite compreender a mobilidade de maneira diferente, pois servir a Cristo em lugares distantes não precisa significar deixar de possuir raízes, mas estender raízes, pois a família não abandona necessariamente o lar - ela amplia sua área de serviço, pois o trabalho realizado noutro Município ou país pode continuar pertencendo à mesma unidade moral da família.

13. Ourique como símbolo providencial — com a necessária distinção histórica

É aqui que pode entrar a tradição de Ourique, pois segundo uma tradição portuguesa desenvolvida em torno da Batalha de Ourique, D. Afonso Henriques teria recebido uma manifestação sobrenatural de Cristo ligada ao destino do novo reino. Ao longo dos séculos, essa narrativa adquiriu enorme importância religiosa, política, iconográfica e identitária.

Contudo, uma utilização intelectualmente rigorosa precisa distinguir tradição religiosa e memória nacional de comprovação documental contemporânea ao acontecimento. A historiografia mostra que a narrativa do Milagre e especialmente suas formas mais elaboradas se consolidaram posteriormente; estudos sobre o século XVII mostram como o Juramento de Afonso Henriques e a iconografia do Milagre participaram da construção dessa memória fundadora.

Portanto, é mais preciso escrever:

“segundo a tradição providencial de Ourique”

do que:

“Cristo comprovadamente pronunciou em 1139 determinado programa geopolítico”.

Essa distinção não esvazia o símbolo. Muito pelo contrário: permite compreender exatamente o que ele é, pois Ourique torna-se uma gramática providencial da expansão e a interpretação religiosa de que uma comunidade política não recebeu seus dons apenas para si, mas possui responsabilidades que ultrapassam seu território imediato.

14. De Ourique ao lar reticular

Aplicada à família, essa tradição ganha escala menor e muito interessante, pois um reino pode compreender sua posição histórica como missão, já que uma cidade pode compreender sua geografia como serviço, enquanto uma família pode compreender seus domicílios como campos de responsabilidade.

Temos então três escalas:

território recebido → trabalho realizado → serviço prestado.

O lugar deixa de ser mero privilégio e transforma-se em responsabilidade, pois se uma família possui acesso a duas cidades, dois mercados, duas línguas ou dois países, a leitura cristã não precisa limitar-se à pergunta:

“quanto podemos ganhar com isso?”

Pode acrescentar:

“o que podemos servir graças a isso?”

É nesse ponto que a vantagem territorial deixa de ser simplesmente estratégia econômica e passa a integrar uma ética da vocação.

15. Em Cristo, por Cristo e para Cristo

A fórmula “em Cristo, por Cristo e para Cristo” oferece uma chave para impedir que a multiplicação dos lugares produza fragmentação dos fins.

O primeiro termo — em Cristo — fornece a unidade da identidade cristã.

O segundo — por Cristo — ordena meios, capacidades e trabalhos.

O terceiro — para Cristo — define a finalidade última.

A família pode então possuir vários centros materiais sem possuir vários centros morais, pois dois territórios tornam-se complementares porque estão subordinados ao mesmo bem familiar e à mesma finalidade espiritual. Isso não significa transformar cada contrato ou aquisição imobiliária em ato religioso, mas reconhecer que também as decisões temporais podem ser incorporadas à unidade da vida cristã.

16. Uma economia doméstica de vários territórios

Isso produz aquilo que poderíamos denominar economia doméstica reticular, pois o patrimônio familiar não precisa estar concentrado num único lugar, uma vez que as rendas podem surgir em lugares diferentes e as despesas podem ser suportadas por fontes distintas. as oportunidades profissionais podem alternar-se, pois uma propriedade pode gerar renda, enqauntp outra pode permitir trabalho e outra pode servir de residência.

O importante é que não existam economias familiares completamente independentes, pois há um único patrimônio ordenado ao mesmo grupo familiar. Geograficamente, é disperso; economicmente, é coordenado; moralmente, é uno.

17. A nacionidade polidomiciliar

Podemos finalmente definir o conceito. nacionidade polidomiciliar é a forma de pertença territorial na qual uma pessoa ou família mantém vínculos reais e duradouros com mais de uma comunidade local, integrando-as numa única ordem doméstica, econômica e biográfica, sem confundir essa pluralidade sociológica com a nacionalidade jurídica ou com a residência fiscal.

Quando ocorre dentro de um mesmo estado, integra micronacionidades, quando atravessa estados federados, conecta mesofederações; quando atravessa fronteiras nacionais, pode produzir internacionidade. E, numa interpretação cristã, todas essas escalas podem ser ordenadas à mesma vocação.

Conclusão — O lar não termina necessariamente na porta da casa

A pluralidade domiciliar prevista pelo Código Civil brasileiro contém uma intuição mais profunda que sua função técnica imediata, pois a vida humana pode possuir mais de um centro territorial verdadeiro, uma vez que a pessoa pode residir alternadamente em lugares diferentes, pois sua profissão pode conectá-la juridicamente a mais de uma localidade.

A teoria da nacionidade permite dar a essa realidade uma interpretação social, pois a família deixa de ser necessariamente uma unidade ligada a um único ponto territorial e passa a poder constituir uma rede de pertenças complementares, uma vez que Harm de Blij explica por que isso importa: lugares diferentes proporcionam possibilidades diferentes, pois o direito fornece a possibilidade da pluralidade domiciliar, uma vez que o trabalho converte as diferenças geográficas em complementaridade econômica, pois a família dá unidade humana à rede e a tradição cristã oferece a possibilidade de uma unidade ainda mais profunda: a vida temporal, familiar e profissional pode ser compreendida dentro da mesma vocação à santidade e ao serviço.

Ourique, tomada rigorosamente como tradição providencial e memória fundadora portuguesa, acrescenta uma imagem histórica a essa concepção: aquilo que é recebido como vantagem não precisa terminar naquele que o recebe; pode tornar-se instrumento de serviço para terras mais distantes.

A arquitetura completa seria, portanto:

pluralidade de lugares → complementaridade geográfica → unidade econômica da família → unidade de vida → serviço.

O Município continua sendo a pequena via da nação, o estado funciona como mesofederação e a nação integra essas diferenças numa ordem política maior. A internacionidade cria pontes entre as nações e a família pode atravessar todas essas escalas sem deixar de constituir uma só casa.

Nesse sentido, lar não é necessariamente o ponto no mapa onde a família permanece imóvel, uma vez que lar pode ser a unidade que faz de vários pontos do mapa uma mesma história. E, numa leitura cristã dessa realidade, dois lugares distantes podem tornar-se partes complementares da mesma casa quando trabalho, patrimônio, relações e responsabilidades são ordenados a uma única vida familiar — em Cristo, por Cristo e para Cristo.

Sobre a relação entre nacionidade e culturas de sobrevivência ou sobre o conhecimento que uma nação tomada como um lar em Cristo, por Cristo e para Cristo precisa acumular para atravessar séculos de história em meio às crises

A nacionidade pode ser entendida não apenas como pertencimento jurídico a um Estado nem simplesmente como identidade cultural, mas como um patrimônio histórico de conhecimentos acumulados por uma comunidade ao longo de sucessivas gerações, pois uma nação não transmite apenas língua, religião, costumes, literatura e símbolos -  ala também transmite maneiras de reagir às adversidades.

Nesse sentido, determinadas sociedades desenvolvem aquilo que se pode chamar de culturas de sobrevivência: conjuntos de instituições, comportamentos, memórias e conhecimentos práticos que surgem de crises históricas recorrentes e que permanecem disponíveis para as gerações posteriores.

A Polônia e o Brasil oferecem dois exemplos particularmente interessantes desse fenômeno, pois são histórias muito diferentes: enquanto a Polônia precisou aprender a preservar sua existência nacional durante períodos em que perdeu soberania territorial e esteve submetida a impérios estrangeiros, o Brasil, por sua vez, especialmente durante as décadas de inflação elevada do século XX, desenvolveu uma cultura econômica voltada à sobrevivência diante da deterioração permanente do poder de compra da moeda. Enquanto uma sociedade aprendeu a sobreviver à fragilidade do Estado nacional,  a outra aprendeu a sobreviver à fragilidade da moeda.

Essas duas experiências ajudam a compreender a nacionidade como algo maior que uma identidade passiva, pois ela também é memória operacional: aquilo que uma sociedade sabe fazer porque, em determinado momento de sua história, precisou aprender a fazê-lo para continuar existindo, diante de circunstâncias adversas

Quando a nação precisa sobreviver sem o Estado

A experiência polonesa constitui talvez um dos exemplos históricos mais expressivos da diferença entre Estado e nação, pois com as partilhas do final do século XVIII, culminando na Terceira Partilha de 1795, o Estado polonês desapareceu do mapa político europeu. A independência somente seria restaurada em 1918.

Durante 123 anos, portanto, os poloneses viveram distribuídos principalmente entre os impérios Russo, Prussiano e Habsburgo. Seria possível imaginar que o desaparecimento do Estado provocasse gradualmente o desaparecimento da própria nacionalidade, mas ocorreu justamente o contrário, pois a ausência de soberania transformou determinadas instituições sociais em instrumentos fundamentais de preservação nacional.

A família transmitia a língua e a memória; a literatura conservava a consciência histórica; a religião preservava vínculos comunitários; a paróquia organizava relações sociais; as associações reproduziam formas de solidariedade e a diáspora criava extensões territoriais da própria comunidade nacional. Assim, mesmo quando o Estado deixou de existir, a Polônia continuou existindo enquanto comunidade histórica.

Esse fenômeno demonstra que a nacionalidade não depende exclusivamente da existência de instituições estatais, pois em determinadas circunstâncias ela pode sobreviver justamente porque desenvolveu mecanismos capazes de funcionar independentemente delas.

A experiência polonesa produziu, portanto, uma espécie de redundância institucional - quando o Estado nacional desaparecia, outras instituições assumiam parte de suas funções culturais e sociais. Elas não substituíam completamente o Estado, mas impediam que sua ausência significasse a dissolução da comunidade.

A diáspora como extensão da nacionidade

A diáspora polonesa é parte fundamental desse sistema, pois ela não é simplesmente resultado do comunismo instalado depois da Segunda Guerra Mundial. Sua formação é muito anterior - durante o século XIX e o início do século XX, guerras, perseguições políticas, transformações econômicas e pobreza provocaram sucessivas ondas migratórias.

Milhões de pessoas de origem polonesa estabeleceram-se em outros territórios europeus e nas Américas. Chicago tornou-se um dos maiores centros da vida polonesa fora da Europa, enquanto outras famílias permaneceram ou estabeleceram-se dentro de territórios pertencentes ao antigo Império Austro-Húngaro.

Essa dispersão produziu uma característica interessante: a nacionalidade passou a existir através de diferentes jurisdições, pois o polonês podia viver na Áustria, nos Estados Unidos, no Brasil ou em outro país sem necessariamente abandonar sua memória cultural, uma vez que a nação tornou-se, portanto, parcialmente extraterritorial

É nesse ponto que a diáspora deixa de ser simplesmente consequência da migração e passa a funcionar como instituição de sobrevivência, pois uma família espalhada por diferentes países possui riscos distribuídos, pois uma comunidade cultural localizada em diferentes jurisdições dificilmente desaparece completamente diante de uma única ruptura política e a própria dispersão converte-se em mecanismo de continuidade.

O Brasil e a sobrevivência diante da inflação

O Brasil desenvolveu outro tipo de cultura de sobrevivência, pois durante décadas, especialmente nos anos 1980 e início dos anos 1990, a inflação tornou-se parte estruturante da vida econômica brasileira, uma vez que a moeda não exercia perfeitamente uma das funções fundamentais que dela se espera: conservar valor ao longo do tempo - o que obrigou famílias e empresas a desenvolverem comportamentos defensivos: o salário recebido precisava ser rapidamente utilizado, compras eram antecipadas, estoques domésticos podiam funcionar como proteção contra aumentos futuros e preços precisavam ser permanentemente comparados.

Aplicações indexadas tornavam-se essenciais, pois o gerenciamento de caixa adquiria enorme importância. Enqaunto As empresas aprendiam a administrar prazos de pagamento e recebimento com extraordinária atenção, qualquer intervalo de tempo poderia produzir ganho ou perda real.

O brasileiro comum desenvolveu, portanto, uma sofisticada percepção da relação entre tempo e dinheiro, pois um cruzeiro hoje não era economicamente equivalente ao mesmo cruzeiro algumas semanas depois e a população aprendeu, pela experiência cotidiana, algo que os manuais de economia expressam abstratamente: moeda possui dimensão temporal.

Conhecimento econômico transmitido pelas crises

Quando uma sociedade atravessa crises prolongadas, determinados conhecimentos inicialmente defensivos podem transformar-se em cultura. No caso brasileiro, isso aparece até hoje na atenção dada a juros, parcelamento, aplicações financeiras, correção monetária, indexadores e proteção patrimonial. 

Mesmo pessoas sem formação acadêmica em economia frequentemente possuem alguma familiaridade intuitiva com esses mecanismos, pois a memória inflacionária produziu uma espécie de alfabetização econômica informal, já que Muitas famílias aprenderam que simplesmente guardar dinheiro não significa necessariamente preservar patrimônio, uma vez que era necessário compreender onde o dinheiro estava colocado, durante quanto tempo permaneceria ali e qual remuneração receberia.

Essa experiência possui enorme valor histórico, pois uma sociedade que já atravessou processos inflacionários graves conserva um repertório que pode voltar a ser utilizado se circunstâncias semelhantes reaparecerem. É conhecimento acumulado pela nacionidade.

Duas culturas, dois tipos de ameaça

As experiências polonesa e brasileira não devem ser confundidas, pois os problemas enfrentados foram profundamente diferentes. A Polônia enfrentou perda de soberania, ocupações estrangeiras, guerras, deslocamentos populacionais e regimes políticos hostis, enquantp o Brasil enfrentou, entre outros desafios, longos processos de instabilidade monetária e inflação elevada.

Mas existe uma estrutura comparável: A Polônia precisou responder à pergunta: como uma comunidade nacional continua existindo quando seu Estado deixa de protegê-la ou simplesmente desaparece?

Já o Brasil precisou responder: como uma família preserva sua capacidade econômica quando a moeda deixa de conservar adequadamente o valor de seu trabalho?

As respostas produziram instituições e comportamentos distintos pois família, Igreja, língua, memória e diáspora tornaram-se mecanismos poloneses de continuidade nacional, enquanto indexação, diversificação patrimonial, administração de prazos e rapidez na circulação monetária tornaram-se mecanismos brasileiros de sobrevivência econômica.

Em ambos os casos, a sociedade aprende a construir estruturas paralelas de segurança.

A nacionidade como patrimônio de soluções

Essa comparação permite formular uma concepção mais ampla de nacionidade, pois uma nação não é apenas aquilo que seus membros lembram. mas é também aquilo que aprenderam coletivamente a fazer.

Nesse sentido, a memória nacional possui uma dimensão tecnológica, pois há tecnologias de caráter político, de caráter familiar, de caráter financeiro, assim como hpa tecnologias de carátercomunitário, que vão desde técnicas de preservação da língua. passando por mecanismos de transmissão religiosa, por  formas de organização patrimonial, a estratégias migratórias e dferentes maneiras de se construir redes internacionais. 

Cada geração recebe parcialmente esse conjunto de conhecimentos a partir das gerações anteriores. Alguns desses saberes históricos tornam-se desnecessários durante períodos de estabilidade, mas não desaparecem completamente, pois permanecem como memória latente, mas quando circunstâncias históricas semelhantes retornam, eles podem ser recuperados.

A sobrevivência pela redundância

Há um princípio comum às duas experiências: não colocar toda a continuidade da vida numa única instituição. Enquanto os poloneses aprenderam que a existência nacional não poderia depender exclusivamente do Estado, os brasileiros aprenderam que a preservação econômica não poderia depender exclusivamente da moeda corrente.

A resposta, em ambos os casos, foi criar redundância, pois se uma instituição falha, outra preserva parte de sua função. A família protege aquilo que o Estado não consegue preservar; a comunidade protege aquilo que a administração pública não alcança; A diáspora protege aquilo que o território deixa de oferecer; O patrimônio protege aquilo que a moeda deixa de conservar; a poupança, o investimento e a diversificação protegem aquilo que a renda corrente sozinha não consegue garantir. Essa lógica constitui uma verdadeira arquitetura de sobrevivência.

Aprender outra nacionidade

Existe ainda uma consequência importante, pois se a nacionidade contém conhecimento acumulado, aproximar-se seriamente de outra cultura significa mais do que apreciar sua música, culinária ou literatura. Isso significa também aprender as soluções históricas que essa cultura desenvolveu, pois tomar a Polônia como um lar em Cristo, por Cristo e para Cristo implica, portanto, estudar como os poloneses preservaram identidade, fé, família e memória diante de impérios, guerras e regimes políticos sucessivos.

Da mesma maneira, um polonês interessado na experiência brasileira poderia aprender com uma sociedade que desenvolveu enorme capacidade prática de adaptação à inflação, instabilidade monetária e mudanças constantes de regras econômicas.

O intercâmbio desses dois sensos torna-se torna-se então um intercâmbio de conhecimentos de sobrevivência, pois uma cultura pode ensinar à outra aquilo que precisou aprender dolorosamente.

Nacionidade não é isolamento

Essa perspectiva também impede que o senso de tomar o país como um lar seja reduzido a fechamento tribal, pois se cada nação acumulou conhecimentos específicos em razão de sua história, então o contato entre diferentes nacionalidades pode ampliar o repertório de ambas.

Não se trata de apagar diferenças. Muito pelo contrário: é justamente porque as histórias são diferentes que a troca possui valor: a Polônia possui experiências que o Brasil não possui e o Brasil possui experiências que a Polônia não possui, pois uma sociedade que aprendeu a sobreviver à perda territorial possui algo a ensinar, enqaunto uma sociedade que aprendeu a sobreviver à desorganização monetária possui outra coisa a ensinar.

O encontro das duas experiências cria conhecimento novo.

A nação como memória viva

É possível, então, compreender a nacionidade como uma forma de memória coletiva aplicada, pois a história deixa de ser apenas relato do passado e passa a funcionar como reservatório de soluções, pois uma geração encontra problemas, experimenta respostas. Algumas fracassam e outras funcionam. As que funcionam transformam-se em hábitos, instituições, histórias familiares, costumes, regras prudenciais e memória cultural.

A geração seguinte recebe esse patrimônio e essa talvez seja uma das funções mais profundas da tradição: impedir que cada geração precise reaprender do zero aquilo que seus antepassados descobriram por meio do sofrimento.

Sobreviver para transmitir

Por isso, culturas de sobrevivência não devem ser vistas simplesmente como culturas marcadas pelo trauma, pois elas também são culturas de continuidade, já que a verdadeira vitória não consiste apenas em sobreviver a determinada crise, mas em conseguir transmitir às gerações seguintes aquilo que tornou a sobrevivência possível.

A Polônia sobreviveu às partilhas porque conseguiu transmitir sua própria ideia de Polônia, enqaunto o Brasil atravessou sucessivas crises monetárias porque famílias, empresas e instituições desenvolveram mecanismos de adaptação e proteção patrimonial.

Quando esses conhecimentos são preservados, a experiência histórica converte-se em capital cultural. É nesse sentido que nacionidade e sobrevivência encontram seu ponto de união, pois a nacionidade é também o conjunto de soluções que os mortos deixam aos vivos para que estes não precisem começar novamente do zero.

Esta é talvez uma das formas mais profundas de se tomar um outro país como um lar em Cristo, por Cristo e para Crist: aprender aquilo que seus antepassados descobriram quando estes precisaram sobreviver — e oferecer, em troca, aquilo que a própria história de origem ensinou.

Nesse encontro, o vínculo com o Brasil deixa de ser apenas fronteira e torna-se escola.

Bibliografia comentada

I — Nacionidade, pertencimento e memória coletiva

ANDERSON, Benedict. Imagined Communities: Reflections on the Origin and Spread of Nationalism. Londres: Verso.

Obra fundamental para compreender a nação como uma comunidade construída historicamente por pessoas que, embora jamais conheçam pessoalmente a maioria de seus compatriotas, reconhecem-se como integrantes de uma mesma comunidade. Publicado originalmente em 1983 e posteriormente ampliado, o livro oferece uma base importante para entender como língua, imprensa, memória e instituições permitem que uma nacionalidade ultrapasse a experiência imediata de seus membros. Para a tese deste artigo, Anderson ajuda a explicar por que uma comunidade nacional pode continuar existindo mesmo quando seus integrantes estão territorialmente dispersos.

BORNEMAN, John. Belonging in the Two Berlins: Kin, State, Nation. Cambridge: Cambridge University Press, 1992.

Embora dedicado à Alemanha dividida da Guerra Fria, Borneman oferece uma ferramenta conceitual particularmente importante para a noção de nacionidade desenvolvida neste artigo. Sua análise relaciona parentesco, Estado, nação e práticas cotidianas de pertencimento, mostrando que a vinculação nacional não se reduz ao estatuto jurídico conferido pelo Estado. É especialmente útil para pensar como família, memória, território e instituições produzem formas concretas de pertencimento. A comparação permite aplicar essas categorias a situações nas quais a nacionalidade atravessa fronteiras políticas ou sobrevive à transformação dos Estados.

JOÃO PAULO II. Memory and Identity: Conversations at the Dawn of a Millennium. 2005.

João Paulo II oferece uma leitura filosófica e cristã da relação entre memória, identidade, cultura, povo e experiência histórica. A obra é particularmente importante para uma concepção de nacionidade que não seja apenas política: a comunidade recebe um patrimônio cultural das gerações anteriores e tem responsabilidade pela sua transmissão. Para o argumento deste artigo, sua importância reside na compreensão da memória não simplesmente como recordação do sofrimento, mas como instrumento de discernimento para o presente.

A leitura pode ser complementada pela encíclica Slavorum Apostoli, de 1985, na qual João Paulo II examina a relação entre evangelização e as diferentes culturas dos povos eslavos. Ela é particularmente interessante para compreender como universalidade cristã e diversidade nacional não precisam ser categorias antagônicas.

II — Polônia: nação, partilhas, diáspora e sobrevivência institucional

DAVIES, Norman. God's Playground: A History of Poland. Oxford: Oxford University Press.

Uma das grandes sínteses da história polonesa. Davies permite acompanhar a formação da Comunidade Polaco-Lituana, as partilhas, o desaparecimento do Estado em 1795, a experiência dos poloneses sob os impérios vizinhos e a reconstrução da soberania. Para a tese da “cultura de sobrevivência”, é particularmente importante porque permite observar historicamente a diferença entre desaparecimento do Estado e desaparecimento da nação: a estrutura política podia ser destruída sem que língua, religião, memória e consciência histórica fossem automaticamente eliminadas.

SNYDER, Timothy. The Reconstruction of Nations: Poland, Ukraine, Lithuania, Belarus, 1569–1999. New Haven: Yale University Press, 2003.

Snyder examina a transformação histórica das identidades nacionais polonesa, ucraniana, lituana e bielorrussa ao longo de vários séculos. É especialmente útil para impedir uma leitura excessivamente estática da nacionalidade. Fronteiras, Estados e populações mudam; as identidades nacionais também são construídas, reconstruídas e disputadas. Para a noção de nacionidade, a obra permite compreender que a continuidade nacional não significa imobilidade, mas capacidade de reorganização diante das alterações territoriais e políticas.

PORTER-SZŰCS, Brian. Poland in the Modern World: Beyond Martyrdom. Wiley-Blackwell, 2014.

A importância dessa obra está justamente na advertência contida no subtítulo: compreender a Polônia para além do martírio. Isso é essencial para o conceito de cultura de sobrevivência aqui empregado. Uma sociedade não deve ser definida apenas pelas agressões que sofreu, mas pelas instituições, escolhas, adaptações e formas de organização que permitiram que ela continuasse existindo. O livro ajuda a substituir uma narrativa exclusivamente vitimária por uma história social e cultural mais ampla da Polônia moderna.

LIBRARY OF CONGRESS. “The Nation of Polonia”. Coleção Polish/Russian Immigration and Relocation in U.S. History.

Fonte particularmente importante para o argumento sobre a diáspora anterior ao comunismo. A Library of Congress registra a grande expansão da imigração polonesa para os Estados Unidos no final do século XIX e início do XX e estima que mais de dois milhões de poloneses haviam emigrado para os Estados Unidos até a década de 1920. Chicago tornou-se um dos grandes centros dessa comunidade. Isso demonstra que a Polonia internacional já estava solidamente constituída décadas antes da instalação do regime comunista depois da Segunda Guerra Mundial.

A fonte também é importante conceitualmente: mostra como uma comunidade nacional pode reproduzir-se fora de seu território por intermédio de famílias, igrejas, associações, imprensa, escolas e redes migratórias. Nesse sentido, a diáspora não é simplesmente dispersão; pode converter-se em infraestrutura extraterritorial da nacionidade.

III — Brasil: inflação, indexação e cultura econômica de sobrevivência

ARIDA, Pérsio; LARA RESENDE, André. “Inertial Inflation and Monetary Reform in Brazil”. Texto para Discussão nº 85. Departamento de Economia da PUC-Rio, 1985.

Texto clássico da discussão brasileira sobre inflação inercial. Arida e Lara Resende analisam mecanismos pelos quais a inflação pode adquirir dinâmica própria mediante contratos, expectativas e sistemas de indexação. Para este artigo, a importância do trabalho está em mostrar que a inflação brasileira não era simplesmente uma sucessão episódica de aumentos de preços: ela penetrara profundamente na arquitetura institucional da economia.

Isso ajuda a compreender por que a sociedade brasileira precisou desenvolver conhecimentos práticos igualmente sofisticados. Se contratos, salários, aplicações financeiras e preços incorporavam expectativas inflacionárias, famílias e empresas precisavam aprender a pensar permanentemente em valor real, e não apenas em valor nominal.

SIMONSEN, Mario Henrique. 30 anos de indexação. Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas, 1995.

Simonsen examina uma das características centrais da experiência econômica brasileira do século XX: a ampla utilização de mecanismos de indexação. A obra é particularmente importante para compreender como a economia brasileira criou instituições destinadas a permitir a sobrevivência de contratos e ativos em ambiente inflacionário. O catálogo bibliográfico registra a obra como publicada pela FGV em 1995 e dedicada precisamente à indexação e à inflação no Brasil.

Para a tese aqui apresentada, Simonsen ajuda a demonstrar que uma cultura de sobrevivência econômica não é formada apenas por comportamentos domésticos. Ela pode tornar-se arquitetura jurídica, financeira e contratual.

CARDOSO, Eliana. “Da inércia à megainflação: o Brasil nos anos 80”. Pesquisa e Planejamento Econômico, v. 21, n. 1, abril de 1991.

Cardoso analisa a aceleração da inflação brasileira durante os anos 1980 e relaciona seu desenvolvimento à crise do balanço de pagamentos, às desvalorizações cambiais, às políticas econômicas e ao fracasso de sucessivos programas de estabilização. É uma referência especialmente adequada para reconstruir a passagem de uma inflação já elevada para uma situação cada vez mais próxima da megainflação.

Sua utilidade para este artigo é histórica: ajuda a explicar o ambiente no qual famílias e empresas brasileiras adquiriram aquelas práticas de defesa patrimonial que depois permaneceriam na memória econômica nacional.

IPEA. “Anos 1980, década perdida ou ganha?”

Material institucional útil para contextualização histórica. O Ipea registra que a inflação brasileira ultrapassou a marca de 100% ao ano já em 1980 e relaciona a década à crise da dívida externa, à estagnação e ao desenvolvimento da inflação inercial.

Embora não substitua os trabalhos acadêmicos especializados, constitui uma boa fonte para apresentar ao leitor não economista a escala da ruptura que marcou aquela geração.

FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL. Estudos históricos sobre inflação e estabilização brasileira.

Os estudos do FMI fornecem um ponto de comparação internacional e quantitativo. Uma análise sobre os juros brasileiros registra que a inflação anual foi muito elevada entre 1980 e 1988, com média superior a 200%, enquanto outros trabalhos destacam a estabilização proporcionada pelo Plano Real a partir de 1994.

Essas fontes são especialmente úteis para sustentar empiricamente uma tese importante do artigo: a geração brasileira formada durante aqueles anos não enfrentou uma inflação marginalmente superior à de economias estáveis, mas uma alteração profunda do funcionamento temporal da moeda.

IV — Chave interpretativa: culturas de sobrevivência

Nenhuma dessas obras, isoladamente, formula exatamente a categoria de “cultura de sobrevivência” utilizada neste artigo. Trata-se de uma construção interpretativa produzida pela comparação entre experiências históricas distintas.

De Borneman pode-se retirar a análise do pertencimento construído entre parentesco, Estado e nação.

De Anderson, a capacidade de uma comunidade nacional existir como realidade social para além do contato direto entre seus membros.

De Davies, Snyder e Porter-Szűcs, a experiência concreta da continuidade polonesa através de mudanças de fronteira, partilhas, guerras, ocupações e reorganizações políticas.

Da história da Polonia, encontra-se a demonstração de que a diáspora pode constituir uma extensão territorial da comunidade nacional e não simplesmente seu abandono.

De João Paulo II emerge a dimensão moral da memória: aquilo que uma comunidade recorda participa da formação daquilo que ela se torna.

De Arida, Lara Resende, Simonsen e Cardoso vem a experiência brasileira de uma sociedade obrigada a construir instituições e comportamentos capazes de funcionar quando a moeda deixava de oferecer estabilidade temporal.

A aproximação dessas bibliografias permite propor uma formulação mais precisa: nacionidade é também conhecimento social acumulado, pois uma nação transmite não somente aquilo em que acredita ou aquilo que recorda, mas também aquilo que aprendeu a fazer para continuar existindo. A experiência polonesa acumulou conhecimentos sobre preservação comunitária diante da perda de soberania, das mudanças territoriais e da dispersão populacional. enquanto a experiência brasileira acumulou conhecimentos sobre preservação econômica diante da inflação, da indexação e da instabilidade monetária. Não são experiências equivalentes - são, porém, comparáveis enquanto processos pelos quais crises prolongadas transformam soluções emergenciais em memória institucional transmissível.

É justamente aí que o intercâmbio fundado no senso de se tomar esses dois países como um mesmo lar em Cristo, por Cristo e para Cristo adquire significado mais profundo, pois  receber outra nação como um lar desse modo não significa apenas receber seus símbolos, mas tambem tornar-se aluno de sua experiência histórica, aprender aquilo que ela descobriu sobre sobrevivência, transmitir aquilo que a própria história ensinou e permitir que os conhecimentos adquiridos mediante o sofrimento de uma geração possam servir à prudência das gerações seguintes.

sábado, 8 de agosto de 2026

Do fundo patrimonial, da quota de pertença e do dividendo geográfico como elementos do município enquanto sociedade territorial

Da renda territorial à arquitetura institucional

Se admitirmos que determinados lugares possuem um patrimônio geográfico capaz de gerar renda econômica extraordinária, a seguinte questão (como transformar o poder econômico do lugar em patrimônio duradouro da comunidade que nele vive?) deixa de ser filosófica e passa a ser institucional, pois a resposta pode ser construída mediante quatro instituições sucessivas:

função territorial estratégica → compensação territorial → fundo patrimonial → dividendo de pertença territorial 

O município não se transforma juridicamente numa sociedade empresária, pois seus moradores não seriam acionistas da prefeitura. Contudo, a analogia com a sociedade empresarial permite compreender uma realidade econômica: uma comunidade pode possuir um ativo coletivo, converter os frutos desse ativo em patrimônio financeiro e distribuir parte dos rendimentos àqueles que mantêm com o território determinado vínculo permanente, o que seria uma forma de sociedade territorial em sentido econômico, não no sentido próprio do direito empresarial.

1. O território como capital originário

Toda sociedade possui alguma espécie de capital. Enquanto numa empresa ele se consiste em dinheiro, máquinas, imóveis, tecnologia, propriedade intelectual ou outros ativos, numa comunidade territorial parte do capital é anterior à própria organização econômica e é composta de:

  • posição geográfica;
  • litoral;
  • baías;
  • proximidade de rotas;
  • fronteiras;
  • relevo;
  • acesso fluvial;
  • posição relativa perante mercados.

E a isso se acrescenta o capital produzido historicamente:

  • portos;
  • ferrovias;
  • estradas;
  • aeroportos;
  • redes de energia;
  • saneamento;
  • urbanização;
  • instituições;
  • conhecimento acumulado.

O patrimônio territorial resulta, portanto, da interação entre natureza, história e organização social, pois uma empresa pode explorar economicamente esse patrimônio que não foi criado por ela integralmente. É daí que surge a possibilidade de uma compensação territorial.

2. A Compensação Financeira pela Função Territorial Estratégica

O instituto que anteriormente chamamos de “royalty territorial de superfície” poderia receber uma denominação juridicamente mais precisa: poderíamos chamá-la de Compensação Financeira pela Função Territorial Estratégica — CFFTE Embora Ela não existA atualmente no sistema constitucional brasileiro, Sua criação, caso estruturada como obrigação compulsória autônoma, exigiria fundamento constitucional próprio, pois não bastaria uma prefeitura instituí-la por lei e denominá-la “royalty”, já que a lógica seria análoga, embora não idêntica, à compensação pela exploração de determinados recursos naturais prevista no art. 20, §1.º, da Constituição.

Sua hipótese seria outra, pois quando determinada atividade econômica utiliza intensivamente uma vantagem geográfica extraordinária, que produz externalidades relevantes para além do território e que a hospeda parte dessa renda posicional, ela tem direito a uma compensação em razão da função territorial desempenhada.

Não seria uma cobrança sobre toda empresa, pois ela estaria relacionada a atividades em que o lugar constitui componente material da produtividade. Portos são o exemplo mais evidente, mas também poderia haver hipóteses envolvendo grandes terminais intermodais, determinadas infraestruturas aeroportuárias, corredores logísticos e instalações de fronteira.

3. A compensação não deveria ser simplesmente consumida

Aqui está talvez a decisão institucional mais importante, pois se um Município recebesse R$ 100 milhões de compensação territorial e imediatamente gastasse os R$ 100 milhões, a geração presente teria consumido uma vantagem que também pertence às gerações futuras. Mas ocorre que o amanhã tem valor, em razão do custo de oportunidade a resposta mais sensata seria criar um Fundo Patrimonial Territorial Permanente.

Existe fundamento geral no direito financeiro brasileiro para fundos especiais: a Lei 4.320/1964 define fundo especial como produto de receitas especificadas vinculadas por lei a determinados objetivos e permite que seu saldo seja carregado para exercícios posteriores, mas desde o advento da EC 109/2021, a própria Constituição veda a criação desnecessária de fundos públicos quando seus objetivos puderem ser alcançados por simples vinculação de receitas ou execução orçamentária direta. Logo, um fundo territorial precisaria justificar sua existência precisamente pelaquilo que um orçamento anual não faz bem: poupança intergeracional, formação permanente de patrimônio e gestão financeira de longo prazo.

Não seria um cofre para despesas correntes: seria, na verdade, um patrimônio.

4. Maricá oferece um precedente institucional interessante

O Brasil já possui uma experiência municipal que demonstra parte dessa arquitetura: Maricá mantém um Fundo Soberano alimentado, entre outras fontes, por receitas associadas ao petróleo, pois sua legislação estabelece objetivos como formação de poupança pública, sustentabilidade fiscal, redução da dependência dos recursos naturais e financiamento de projetos estratégicos.

Em 15 de maio de 2026, o portal oficial do Fundo informava patrimônio superior a R$ 2,1 bilhões. O município não constitui precedente para o direito territorial que estamos propondo, mas demonstra concretamente algo essencial para o que estamos estudando: um município brasileiro pode converter uma receita extraordinária proveniente de sua posição diante de determinado recurso em patrimônio financeiro intergeracional.

Nossa proposta apenas deslocaria o seguinte fundamento:

Maricá: recurso mineral → royalties → fundo.

Modelo territorial: posição geográfica → compensação territorial → fundo.

5. O principal pertence às gerações; os frutos podem pertencer à comunidade presente

A regra fundamental deveria ser simples: o principal não se distribui, pois o capital do Fundo Territorial deveria possuir proteção intergeracional, uma vez que a distribuição ocorreria apenas sobre uma parcela sustentável dos rendimentos e isso reproduz uma distinção elementar do direito patrimonial:

capital ≠ fruto.

Enquanto geração presente administraria o capital recebido das anteriores e usufruiria apenas parte de seus frutos.

Por exemplo:

CFFTE recebida → Fundo Territorial → investimento → rendimento → reserva + reinvestimento + dividendo.

A fórmula impediria que uma administração municipal popular financiasse benefícios presentes mediante destruição do patrimônio futuro.

6. A quota de pertença territorial

Chegamos então ao elemento mais peculiar da teoria, pois o direito ao dividendo poderia depender de uma quota de pertença territorial. Ela não seria comprada em bolsa e não ser livremente negociável, já que não possuiria preço de mercado, por ser um direito moral, um bem fora do coméricio. Além de não concederia poder político adicional, sua função seria apenas comprovar uma relação econômica suficientemente intensa entre determinada pessoa e aquela comunidade.

No modelo mais rigorosamente patrimonial que estamos construindo, a quota surgiria quando três elementos se combinassem:

pessoa natural + domicílio habitual + propriedade imobiliária no Município.

Temos aqui o equivalente territorial da participação societária: enquanto o imóvel funciona como âncora patrimonial, o domicílio funciona como âncora pessoal. E é necessário possuir ambos.

7. O imóvel seria requisito, não multiplicador

Esta distinção é essencial, pois se alguém possui dez imóveis no Município, não deveria receber dez dividendos pessoais. Caso contrário, o sistema se converteria rapidamente numa renda proporcional à riqueza imobiliária e deixaria de possuir natureza comunitária.

Portanto:

uma pessoa qualificada = uma quota territorial.

O imóvel funciona como requisito de ingresso, não como quantidade de ações, uma vez que possuir R$ 10 milhões em imóveis não produziria dez vezes o dividendo de quem possui uma pequena residência.

É uma maneira de conciliar a dimensão patrimonial com a igualdade cívica, pois a propriedade demonstra permanência, mas não determina o valor da pessoa.

8. A residência principal como critério

Também não bastaria possuir um imóvel para férias, pois imagine alguém residente em São Paulo que compre um pequeno apartamento em Angra apenas para capturar dividendos: isso destruiria o conceito.

A pessoa precisaria demonstrar que aquele Angra constitui realmente seu centro habitual de vida, uma vez que poderiam ser utilizados critérios objetivos, tais como:

  • domicílio civil;
  • endereço fiscal;
  • cadastro eleitoral, quando aplicável;
  • contas de consumo;
  • utilização do imóvel como residência principal;
  • tempo mínimo de permanência;
  • inscrição municipal específica.

Nenhum critério isolado seria suficiente, pois o objetivo seria verificar substância territorial. Trata-se de uma ideia semelhante à distinção entre empresa verdadeiramente estabelecida num Município e simples endereço formal.

9. Da necesssidade de um período de aquisição do direito

A quota também não deveria surgir imediatamente, uma vez que isso poderia existir um período de aquisição — algo semelhante ao vesting societário. Por exemplo, a legislação poderia exigir alguns anos contínuos de domicílio e propriedade antes da aquisição integral do direito.

Não proponho aqui um número específico, pois o princípio é mais importante que o prazo, uma vez que a pertença territorial é adquirida pela permanência, não por uma operação imobiliária feita na véspera da distribuição, o que dificultaria arbitragem territorial.

10. Esse direito é um bem fora do comércio

Outra característica seria fundamental é a quota territorial não deveria ser negociável, pois uma pessoa não poderia vender seu “direito aos dividendos de Angra” para alguém de São Paulo, mas, se fizesse isso, a quota deixaria de representar pertença territorial e passaria a representar simplesmente um ativo financeiro.

Nesse sentido: o imóvel é alienável, mas a quota territorial não. Logo, esse acessório não segue a sorte do principal, pois quando alguém vende sua residência e deixa definitivamente o Município, essa pessoa perde a qualificação após as regras de transição estabelecidas. Agora, quando outra pessoa adquire o imóvel, ela não compra automaticamente a quota, pois ela precisará cumprir seus próprios requisitos de domicílio e permanência.

11. E a sucessão?

A mesma lógica resolve a sucessão, pois o imóvel pode ser herdado, mas o dividendo territorial, entretanto, não deveria ser hereditário como crédito perpétuo, pois se um proprietário domiciliado em Angra falece e seus filhos vivem em Curitiba, os filhos podem herdar o imóvel, mas não deveriam herdar automaticamente uma renda territorial vitalícia, pois, para adquirir a quota, precisariam cumprir os requisitos:

propriedade + domicílio + permanência.

Assim, o patrimônio imobiliário é transmitido por causa da morte, mas a pertença territorial precisa ser novamente demonstrada, uma vez que isso impediria a formação de uma classe de rentistas territoriais vivendo indefinidamente longe da comunidade que produz a renda.

12. A quota não é cidadania

Também é importante separar o instituto dos direitos políticos, pois quem não possui imóvel continuaria tendo exatamente a mesma dignidade constitucional continuaria votando e vontinuaria elegível nos termos gerais.Nesse sentido continuaria utilizando os serviços municipaise  continuaria possuindo todos os direitos fundamentais, pois a Constituição garante igualdade perante a lei e também reconhece a propriedade como direito fundamental submetido à sua função social.

Nesse sentido. a quota territorial não poderia tornar-se uma segunda categoria de cidadania política, pois ela seria apenas uma posição econômica patrimonial.

Em linguagem societária, o proprietário-domiciliado poderia ter direito econômico adicional, mas jamais voto político adicional.

13. Sobre a objeção constitucional mais difícil: a condição do locatário

Esta seria provavelmente a principal controvérsia jurídica. por que alguém que mora há vinte anos no município, trabalha ali e paga aluguel não receberia, enquanto o proprietário recebe? Pois a simples afirmação “porque possui imóvel” provavelmente seria insuficiente para justificar qualquer benefício financiado indistintamente pelo orçamento público.

Seria necessário estabelecer conexão objetiva entre:

fonte da renda + patrimônio territorial + propriedade participante.

Por isso, existem duas versões possíveis do modelo.

Modelo patrimonial estrito

Somente domiciliados-proprietários recebem -  este é o modelo mais próximo da analogia societária proposta, mas é também aquele que exigiria fundamento constitucional mais robusto.

Modelo misto

Todo residente permanente recebe uma parcela básica da renda territorial, mas o proprietário residente recebe uma parcela patrimonial adicional, pois esse sistema reconheceria duas formas de participação:

pertença humana e pertença patrimonial.

Do ponto de vista constitucional, tende a oferecer justificativa distributiva mais ampla.

14. A teoria das duas contas

Uma estrutura especialmente elegante seria separar completamente os dois componentes, a ponto de criar duas contas: uma conta comunitária - que financia infraestrutura, mitigação de externalidades, saneamento, mobilidade e serviços ligados à atividade estratégica - e uma conta patrimonial, que acumula capital e produz rendimentos e é a partir desses rendimentos que sairia o dividendo territorial, o que resolveria uma objeção importante, pois o royalty não seria simplesmente distribuído aos proprietários enquanto a prefeitura continua pagando os custos da atividade, uma vez que, em primeiro lugar. o território seria compensado para depois o patrimônio ser formado. Somente depois que o patrimônio é formado é que apareceriam os dividendos.

15. Uma fórmula possível

Em termos conceituais:

Receita territorial bruta
– custos territoriais extraordinários
= renda territorial líquida

Uma parcela da renda líquida seria incorporada ao Fundo.

Depois:

rendimento nominal do fundo
– inflação
– reserva prudencial
– reinvestimento mínimo
= resultado potencialmente distribuível

E finalmente:

resultado distribuível ÷ número de quotas qualificadas = dividendo territorial unitário.

Assim, não haveria promessa de valor fixo, pois se o fundo rendesse menos, o dividendo cairia; se rendesse mais, poderia aumentar dentro dos limites legais, pois a comunidade passaria a pensar como proprietário de patrimônio, e não apenas como beneficiária de receitas públicas.

16. A conexão com o IPTU

Aqui reaparece o IPTU, pois o cadastro imobiliário municipal poderia ser um dos mecanismos de identificação da quota territorial, mas seria importante não transformar o dividendo numa simples restituição de IPTU, uma vez que são coisas diferentes, pois o IPTU continua sendo tributo patrimonial municipal, enquanto a quota territorial utiliza a propriedade apenas como elemento de vinculação ao patrimônio local.

Portanto:

IPTU → obrigação decorrente da propriedade.

quota territorial → qualificação patrimonial para participação num fundo específico.

Uma coisa não extinguiria a outra.

17. E a conexão com o IBS?

No sistema posterior à reforma tributária, o IBS torna ainda mais interessante a compensação territorial.

O IBS é de competência compartilhada entre Estados, Municípios e Distrito Federal, dentro de uma arquitetura fortemente vinculada ao destino. A LC 214/2025 disciplina sua estrutura, e a LC 227/2026 avançou sobre a distribuição do produto arrecadado entre os entes.

O dividendo territorial responderia a outra pergunta, pois o IBS acompanha fundamentalmente: onde está o consumo?

A compensação territorial perguntaria: qual lugar forneceu a posição estratégica e a infraestrutura que permitiram o fluxo econômico?

Não são perguntas incompatíveis, mas representam duas territorialidades distintas.

18. Angra sob esse modelo

Imagine, teoricamente, uma Angra transformada em grande nó naval, logístico e portuário. Determinadas atividades utilizam sua posição privilegiada. Uma CFFTE é paga segundo critérios nacionais, já que parte financia diretamente as externalidades produzidas pela atividade, enqaunto outra parte forma o Fundo Patrimonial Territorial de Angra. Depois de décadas, o fundo acumula patrimônio considerável, pois seus rendimentos financiam parcialmente a cidade e produzem dividendo aos participantes qualificados.

O resultado seria extraordinariamente diferente de uma simples política de redução de impostos para atrair empresas, pois Angra não diria apenas: “venham porque aqui o imposto é menor”, mas diria: “esta geografia possui valor; vamos explorá-la produtivamente, cobrar de maneira racional pela função que desempenha e transformar parte desse valor em patrimônio permanente da comunidade”.

19. A cidade deixa de viver exclusivamente do orçamento

Essa talvez seja uma das consequências mais profundas, pois normalmente pensamos o município como entidade que:

arrecada → gasta → arrecada novamente.

O fundo introduziria outro ciclo:

arrecada → capitaliza → investe → recebe frutos → reinveste e distribui.

O município adquire uma dimensão patrimonial e isso já aparece, em outra configuração, na experiência de Maricá: seu Fundo Soberano tem como objetivos expressos formar poupança pública, garantir sustentabilidade fiscal e criar novas fontes de receita.

A diferença da teoria aqui proposta está em adicionar a participação individual territorial.

20. Um município patrimonializado

Poderíamos chamar o resultado de município patrimonializado. Isso não significa privatizar o Município, mas significa fazer com que parte de sua prosperidade deixe de depender exclusivamente da tributação futura, pois o território converte receitas extraordinárias presentes em ativos capazes de produzir receitas futuras.

É a mesma diferença existente, na escala doméstica, entre: viver somente de salário possuir também patrimônio produtor de renda.

Na escala municipal:

tributos = fluxo corrente

fundo territorial = estoque patrimonial

rendimentos = renda patrimonial pública

dividendo = participação comunitária nos frutos.

21. O limite constitucional da vinculação

Há ainda um detalhe técnico importante: a Constituição restringe a vinculação de receitas de impostos a fundos e despesas, salvo hipóteses específicas - o que favorecea  uma conclusão importante para nossa construção: o Fundo Territorial não deveria depender simplesmente de reservar determinada porcentagem do IPTU, pois seria mais coerente financiá-lo principalmente com:

  • compensações territoriais próprias;
  • transferências federativas específicas;
  • receitas patrimoniais;
  • rendimentos do próprio fundo;
  • outras receitas constitucionalmente aptas à vinculação.

Isso também preservaria a distinção entre imposto e renda territorial.

22. A regra de ouro intergeracional

Toda a instituição poderia ser resumida numa regra: ninguém pode receber hoje aquilo que reduz injustificadamente a participação das gerações futuras no patrimônio territorial.

Por isso, o dividendo precisa ser fruto, nunca liquidação sistemática do capital.

Essa regra transforma o vínculo territorial numa relação entre três grupos:

antepassados → habitantes presentes → habitantes futuros.

Enqaunto os primeiros construíram parte da infraestrutura, os segundos administram, os terceiros herdarão e a comunidade territorial deixa de ser apenas espacial. Torna-se também temporal e a política torna-se continuação da trindade.

Conclusão — Da cidade tributária à cidade patrimonial

A teoria começou com Harm de Blij e a constatação de que o lugar continua importando, depois apareceu a ideia do royalty territorial: se determinadas posições geográficas produzem valor nacional, o território que suporta sua utilização deve participar dessa renda. O passo seguinte foi transformar parte dessa receita em fundo permanente. Agora aparece o último elemento: o dividendo de pertença territorial.

A arquitetura completa pode ser escrita assim:

geografia privilegiada
→ atividade econômica territorialmente dependente
→ função de interesse supralocal
→ compensação territorial
→ mitigação dos custos locais
→ fundo patrimonial permanente
→ rendimento financeiro
→ dividendo de pertença.

A propriedade imobiliária, nesse sistema, deixa de ser apenas um patrimônio isolado, pois ela se torna também uma âncora de pertença econômica ao território. Mas o direito decorrente dela não seria livremente comercializável, multiplicável pela quantidade de imóveis nem transmissível automaticamente por herança, pois s pessoa não compraria uma ação do Município, uma vez ela adquiriria, pela ação do tempo, pelo domicílio e pelo patrimônio, uma posição dentro de uma comunidade territorial.

É precisamente isso que diferencia o dividendo territorial da renda de cidadania, pois enquanto a renda de cidadania afirma: “você pertence ao país; por isso participa.", a sociedade territorial afirmaria: “você estabeleceu aqui sua vida e parte de seu patrimônio; por isso participa dos frutos do patrimônio específico deste lugar.”

A primeira deriva da cidadania abstrata, enqauntp a segunda deriva de uma pertença concreta. E a analogia societária finalmente se completa:

o território é o ativo originário;
a infraestrutura é o capital acumulado;
a comunidade é a organização permanente;
o fundo é seu patrimônio financeiro;
e o dividendo representa os frutos distribuíveis dessa riqueza comum.

Dividendo territorial: quando a geografia de uma cidade se transforma em patrimônio de seus habitantes

Introdução

A renda de cidadania costuma ser concebida como um direito atribuído ao indivíduo em razão de sua condição política geral: alguém recebe determinada prestação porque integra uma comunidade nacional, independentemente de possuir patrimônio, exercer profissão específica ou estar ligado economicamente a determinado território, mas é possível, contudo, imaginar uma figura bastante diferente, pois em vez de uma renda decorrente da nacionalidade de forma abstrata, seria perfeitamente possível conceber uma renda territorial decorrente de um vínculo concreto com determinado lugar, pois seu fundamento não seria simplesmente: “sou cidadão brasileiro”. Na verdadeseria: “sou domiciliado numa comunidade territorial que possui determinada vantagem geográfica e mantenho nela um vínculo patrimonial estável”.

Essa diferença altera completamente a natureza do instituto, pois não estaríamos propriamente diante de uma renda universal de cidadania, mas de algo mais próximo de um dividendo territorial cívico-patrimonial, pois o conceito parte de uma constatação simples, já que certas cidades possuem posições geográficas que funcionam como ativos econômicos escassos e quando essas posições são transformadas em infraestrutura e atividades organizadas capazes de produzir riqueza para regiões muito maiores, surge uma renda territorial coletiva.

A questão é saber quem participa dessa renda.

1. Da renda de cidadania ao dividendo territorial

Uma renda de cidadania convencional fundamenta-se essencialmente na pertença política, pois seu raciocínio pode ser esquematizado assim:

nacionalidade ou residência política → participação na comunidade → direito à prestação.

O dividendo territorial obedeceria a uma lógica diferente:

domicílio efetivo + vínculo patrimonial territorial → participação numa comunidade produtora de renda espacial → direito à parcela dessa renda.

O direito deixa de ser abstrato e passa a ser ancorado num lugar. E não em qualquer lugar, mas num território cuja localização produz vantagens econômicas excepcionais, uma vez que é possível morar no mesmo país e estar ligado a realidades territoriais completamente diferentes, pois uma pessoa domiciliada numa cidade portuária estratégica participa diariamente de uma comunidade submetida às vantagens e aos custos relacionados àquela posição, enqaunto uma pessoa domiciliada numa cidade de fronteira participa de outra estrutura territorial. Enquanto a geografia diferencia as comunidades, o dividendo territorial procurara transformar essa diferença numa categoria patrimonial e federativa.

2. O território como patrimônio econômico

A premissa fundamental é que a geografia pode funcionar como patrimônio, mas isso não significa que o município seja proprietário da posição geográfica no mesmo sentido em que alguém possui um terreno, mas significa que a comunidade territorial administra e suporta coletivamente as condições que permitem transformar aquela posição em valor econômico, pois uma baía não foi produzida pela prefeitura, uma vez que uma fronteira internacional não foi criada pelo proprietário de um imóvel, ao passo que uma posição atlântica não nasceu da iniciativa de uma empresa, mas portos, estradas, zoneamento, fiscalização, segurança, infraestrutura urbana, serviços públicos e instituições transformam essa geografia em atividade econômica organizada.

Assim, o valor territorial possui duas fontes:

geografia preexistente + organização humana acumulada.

O resultado pode ser uma renda que não pertence exclusivamente nem ao proprietário individual nem à empresa que explora determinada atividade, pois oarte dela é uma renda territorial coletiva.

3. A analogia com uma sociedade empresarial

É nesse ponto que a analogia societária se torna particularmente útil, pois numa sociedade empresária os sócios aportam capital ou assumem determinada participação patrimonial, já que a empresa utiliza seus ativos para desenvolver atividade econômica e, havendo resultado distribuível, ela pode pagar dividendos.

Mas algo semelhante poderia ser imaginado em relação ao território, pois a cidade possui um patrimônio territorial coletivo, uma vez que esse patrimônio inclui sua localização, sua infraestrutura, sua inserção em redes econômicas e sua capacidade institucional e esses elementos permitem que determinadas atividades sejam exercidas, pois elas produzem receitas públicas e externalidades econômicas e parte desse resultado poderia alimentar um fundo territorial - o que poderia distribuir rendimentos aos integrantes qualificados da comunidade.

O encadeamento seria:

território → atividade econômica → compensação territorial → fundo → dividendo.

Naturalmente, o Município não se tornaria juridicamente uma sociedade anônima, mas o cidadão não passaria a possuir ações da prefeitura. Trata-se de uma analogia funcional, pois o objetivo é reconhecer que alguém pode possuir uma espécie de participação econômica territorial, derivada de sua ligação duradoura com aquela comunidade.

4. A quota cívico-territorial

Essa participação poderia ser chamada de quota cívico-territorial. Não se trata de uma quota societária formal, mas de uma posição jurídica que permitiria participar dos frutos econômicos de determinado patrimônio territorial coletivo.

A questão central seria estabelecer seus requisitos, pois uma possibilidade seria exigir simultaneamente: domicílio efetivo no Município propriedade imobiliária no território municipal. A primeira exigência demonstraria pertencimento social concreto, a segunda demonstraria pertencimento patrimonial. A combinação dos dois elementos criaria um vínculo mais estável do que a simples residência passageira ou a mera propriedade especulativa, pois quem possui apartamento na cidade, mas vive permanentemente em outro Estado, possui vínculo patrimonial, mas não necessariamente participa da comunidade cotidiana.

Quem aluga imóvel e vive permanentemente na cidade participa da comunidade, mas não possui vínculo patrimonial imobiliário, e quem reúne os dois elementos apresenta aquilo que poderíamos chamar de pertença territorial qualificada.

5. Propriedade como participação territorial

Essa concepção atribui à propriedade imobiliária uma dimensão nova, pois normalmente um imóvel é tratado como ativo privado, mas ele pode produzir moradia, aluguel, valorização ou servir de base para atividade econômica.

Com relação  ao dividendo territorial, a propriedade também representaria uma espécie de participação na continuidade econômica da cidade, pois o proprietário não seria remunerado simplesmente porque possui patrimônio, uma vez que ele participaria de determinado fundo porque mantém capital imobilizado dentro de uma comunidade territorial produtora de uma renda específica.

Assim, o imóvel funcionaria simbolicamente como uma espécie de quota territorial, pois quanto mais estável o vínculo patrimonial, maior seria a evidência de integração daquele indivíduo ao destino econômico da comunidade.

Isso aproxima a propriedade imobiliária da ideia de sociedade, pois o proprietário assume riscos ligados ao lugar, pois se a cidade se deteriora, seu patrimônio pode perder valor; se a cidade prospera, seu patrimônio pode valorizar-se; se a comunidade constrói infraestrutura, o imóvel tende a capturar parte desse benefício. O vínculo territorial, portanto, já existe economicamente e o dividendo apenas o reconheceria de maneira explícita.

6. O problema da dupla apropriação

Há, entretanto, uma objeção importante, pois o proprietário imobiliário já se beneficia da valorização da localização, pois se um porto é ampliado e determinada região se torna mais estratégica, terrenos e imóveis próximos podem valorizar-se, uma vez que o proprietário já captura, portanto, parte da renda produzida pelo território.

Se ele ainda recebesse integralmente um dividendo público decorrente da mesma valorização, poderia ocorrer dupla apropriação, uma vez que é necessário distinguir três espécies de renda:

renda do capital privado, produzida pelo investimento realizado no imóvel;

renda privada de localização, capturada pela valorização do terreno;

renda territorial coletiva, gerada pelo funcionamento econômico de toda a comunidade.

O dividendo deveria nascer exclusivamente da terceira, pois essa distinção é essencial para que a teoria não se transforme simplesmente num mecanismo de transferência adicional para proprietários.

7. E quem não possui imóvel?

A questão mais difícil aparece imediatamente. E o domiciliado que não é proprietário? Pois um trabalhador que mora durante décadas numa cidade portuária, paga aluguel, utiliza os serviços públicos e suporta as externalidades territoriais participa concretamente da comunidade.

Seria razoável excluí-lo completamente? Talvez não - o que permite conceber um sistema com duas parcelas: uma parcela cívica e outra patrimonial

Parcela cívica

Recebida pelo domiciliado permanente, pois ela reconheceria sua participação humana, econômica e social na comunidade.

Parcela patrimonial

Recebida pelo proprietário domiciliado, pois reconheceria o vínculo patrimonial estável mantido com o território.

Teríamos então:

dividendo territorial = parcela cívica + parcela patrimonial.

Esse modelo preservaria a especificidade da propriedade sem transformar o não proprietário em cidadão territorial de segunda categoria.

8. O conceito de pertença territorial

A teoria permitiria ainda recuperar uma noção antiga de pertencimento que o mundo moderno frequentemente reduz à nacionalidade formal, pois uma pessoa pertence simultaneamente a diferentes escalas: Ela pertence ao país, ao estado, ao município, a um bairro, pois mantêm vínculos patrimoniais concretos. 

Por trabalhar em determinados lugares e participar de redes locais de cooperação, o dividendo territorial reconheceria especificamente a escala municipal da qual ela faz parte, pois transformaria o domicílio em algo economicamente relevante, pois não bastaria dizer: “este é meu endereço”, uma vez que seria necessário demonstrar: “esta é a comunidade territorial à qual está ligada parte estável da minha vida e do meu patrimônio”.

9. De Blij e a participação no poder do lugar

A teoria de Harm de Blij oferece um fundamento geográfico importante para essa construção, pois se os lugares continuam condicionando oportunidades, então as pessoas não vivem simplesmente dentro de Estados abstratos, mas em pontos específicos do território.

Um cidadão brasileiro domiciliado em Tabatinga participa de uma condição geográfica diferente daquela de alguém domiciliado em Belo Horizonte, pois uma pessoa instalada em Natal ocupa outra posição diante do Atlântico, enquanto um proprietário domiciliado em Angra está ligado a outra estrutura costeira e logística.

As diferenças espaciais não são acidentais, já que elas formam aquilo que de Blij chama atenção ao falar do poder persistente do lugar, pois o dividendo territorial seria uma maneira de transformar parte desse poder geográfico em participação econômica da própria comunidade local.

10. Angra dos Reis como sociedade territorial metafórica

Angra fornece um exemplo particularmente útil: Imagine que a cidade tenha desenvolvido de maneira significativa suas funções portuárias, navais e logísticas. Essas atividades gerariam benefícios para empresas situadas em outros municípios e estados, pois o sistema de compensação territorial que discutido anteriormente poderia direcionar uma parcela dessa renda para Angra, já que parte dessa renda seria utilizada para financiar infraestrutura municipal, enquanto outra parte alimentaria um fundo permanente.

Esse fundo seria investido de maneira prudente, pois seus rendimentos poderiam ser distribuídos aos moradores qualificados.

A estrutura poderia ser:

atividade estratégica → compensação territorial → fundo de Angra → rendimento → dividendo territorial.

O morador-proprietário passaria, em termos econômicos, a ocupar posição semelhante à de alguém que possui participação numa organização produtora de renda, não porque seja dono da prefeitura, mas porque está integrado ao patrimônio territorial comum.

11. Não distribuir o principal

Um elemento prudencial seria fundamental: uma sociedade bem administrada não distribui indiscriminadamente seu capital. Da mesma forma, um fundo territorial deveria preservar seu principal, pois a compensação financeira recebida não precisaria ser imediatamente consumida, 

Ela poderia ser acumulada num Fundo Permanente de Patrimônio Territorial. Esse fundo investiria os recursos. e somente uma parcela sustentável dos rendimentos seria distribuída.

Assim:

royalty territorial → patrimônio coletivo → rendimento financeiro → dividendo.

Isso transforma uma vantagem geográfica presente em patrimônio intergeracional, pois uma geração não consumiria integralmente a renda decorrente de um ativo territorial que pertencerá também às gerações seguintes.

12. O paralelo com royalties tradicionais

Aqui retorna a analogia com recursos naturais: quando petróleo ou minérios geram royalties, surge sempre a questão de como utilizar uma renda ligada a recurso localizado. Uma solução responsável é converter parte dessa receita extraordinária em patrimônio duradouro.

O mesmo raciocínio seria ainda mais importante para a renda geográfica, pois a localização não se esgota como uma jazida, mas suas formas de exploração econômica podem variar, e atividades podem desaparecer, pois um porto pode perder importância, uma rota comercial pode mudar e uma tecnologia pode tornar determinada infraestrutura obsoleta. Por isso transformar parte da renda territorial presente em capital financeiro diversificado permitiria proteger a comunidade contra essas mudanças.

13. O dividendo não seria assistência social

É importante distinguir claramente esse pagamento de uma política assistencial, uma vez que a assistência social pressupõe normalmente algum tipo de vulnerabilidade, necessidade ou finalidade redistributiva, enquanto o dividendo territorial obedeceria a outra lógica, já que ele seria uma participação em rendimento patrimonial coletivo, pois uma pessoa poderia ser rica e continuar tendo direito ao dividendo caso satisfizesse os critérios objetivos estabelecidos. 

Da mesma maneira que um acionista não perde direito aos dividendos de uma companhia por possuir elevada renda em outra atividade, isso não impediria a existência de progressividade ou mecanismos distributivos., mas a natureza do pagamento seria distinta, pois não seria: “o Estado está ajudando esta pessoa”. Na verdadeseria: “esta pessoa participa de uma comunidade titular de determinado patrimônio territorial produtor de renda”.

14. Cidadania e patrimônio

Essa teoria produz uma interessante convergência entre cidadania e propriedade, pois historicamente os dois conceitos mantiveram relações complexas, pois em alguns sistemas antigos direitos políticos chegaram a depender da propriedade, ao passo que nnma democracia contemporânea, evidentemente, não deve condicionar a dignidade política fundamental à riqueza patrimonial.

O dividendo territorial não precisaria fazer isso, pois os direitos políticos continuariam iguais - o que mudaria seria a existência de uma categoria econômica adicional, relacionada ao patrimônio territorial.

A cidadania permaneceria universal, mas a participação patrimonial territorial seria específica, pois assim como nem todo cidadão é acionista de todas as sociedades comerciais do país, nem todo brasileiro teria participação patrimonial em todos os fundos territoriais municipais.

15. O imóvel como âncora territorial

A exigência de propriedade teria ainda uma função prática. Os domicílios podem ser mudados rapidamente, mas em determinadas circunstâncias uma pessoa poderia transferir artificialmente sua residência para um município apenas para receber determinado benefício.

O vínculo imobiliário reduz essa possibilidade, pois o imóvel funciona como âncora territorial, pois ele demonstra comprometimento patrimonial de longo prazo.

Ainda assim, seria necessário criar requisitos de permanência, como comprar um pequeno imóvel na véspera da distribuição do fundo não deveria produzir automaticamente direito integral ao dividendo, poderia se exigir determinado período de domicílio e propriedade de modo a se tornar elegível para o benfício. Com isso, o direito amadureceria ao longo do tempo.

16. Da propriedade absoluta à propriedade inserida

A teoria também modifica a percepção da propriedade, pois O imóvel não é unidade isolada, já que seu valor depende da comunidade, da rua, do saneamento da segurança, dos transportes. da posição da cidade.das instituições que fazem parte dela e da atividade de milhares de pessoas que sustentam a cidade

Nesse sentido, toda propriedade territorial é simultaneamente privada e inserida numa ordem coletiva. Nesse sentido, o proprietário possui o bem, mas ele não criou sozinho o lugar no qual o bem está situado e o dividendo territorial reconheceria justamente essa dupla dimensão.

17. Um novo tipo de patrimônio coletivo

Poderíamos então distinguir:

patrimônio público administrativo — prédios, veículos e outros ativos pertencentes ao Município;

patrimônio ambiental — recursos naturais e ecossistemas;

patrimônio cultural — monumentos, tradições e bens históricos;

patrimônio territorial posicional — vantagens econômicas provenientes da localização da comunidade;

patrimônio financeiro territorial — fundo formado pela monetização prudente dessas vantagens.

O dividendo seria fruto da última categoria, pois a geografia seria progressivamente convertida em patrimônio financeiro coletivo.

18. A sociedade territorial

Chegamos, assim, a uma metáfora mais ampla, uma que vez que é perfeitamente possível pensar o município como uma sociedade territorial, desde que a expressão não seja tomada literalmente em sentido empresarial, já que seus habitantes participam de uma realidade comum, possuem interesses compartilhados, suportam custos coletivos, constroem infraestrutura, recebem benefícios das gerações anteriores e transmitirão ativos às seguintes.

A cidade possui, nesse sentido, algo semelhante a um capital social acumulado, mas o erro seria imaginar que apenas o governo é titular desse capital, pois o município é uma instituição política, enqaunto a comunidade é anterior e mais ampla - nesse sentido, o fundo territorial deveria existir em benefício dessa comunidade.

19. Um dividendo de pertença

A denominação mais adequada talvez seja dividendo de pertença territorial, pois ele expressa precisamente a diferença em relação à renda de cidadania.Enquanto a renda de cidadania diz que você recebe porque pertence politicamente à comunidade nacional, o dividendo territorial diz: você participa porque está concretamente integrado a este patrimônio espacial específico.

Não existe contradição entre os dois mecanismos, mas eles podem coexistir, embora possuam fundamentos diferentes: um tem natureza política, ao passo que o outro é  tem natureza patrimonial e territorial.

20. O risco do fechamento territorial

Toda teoria de pertença precisa, entretanto, evitar um risco, pois transformar vantagens territoriais em privilégio fechado poderia gerar cidades que tentassem impedir novos moradores para proteger dividendos maiores - o que seria uma perversão do sistema, já que o dividendo deveria reconhecer pertença estável sem transformar o território numa corporação fechada. 

Por isso, seriam necessárias regras nacionais de mobilidade, igualdade jurídica e acesso. A participação poderia exigir tempo, mas não poderia depender de origem familiar, raça, religião ou qualquer condição semelhante. A territorialidade deve significar vínculo objetivo, mas não fechamento comunitário.

21. Federação de sociedades territoriais abertas

A combinação desses elementos produziria uma visão diferente de federação, pois o país seria composto por comunidades territoriais abertas, cada uma dotada de patrimônios e funções distintas. Algumas possuiriam ativos portuários; outras, ativos fronteiriços; outras, recursos naturais; outras, centralidade administrativa.

A União garantiria circulação, direitos fundamentais e equilíbrio federativo. Enquanto estados e municípios desenvolveriam suas especializações. E parte das rendas extraordinárias poderia ser transformada em patrimônio das comunidades correspondentes.

Assim, diversidade territorial e unidade nacional deixariam de parecer opostas.

Conclusão — Do cidadão abstrato ao participante concreto do lugar

A ideia de renda de cidadania parte de uma relação abstrata e legítima:

pessoa → comunidade política → direito.

O dividendo territorial acrescenta outra relação:

pessoa → domicílio → propriedade → território → patrimônio coletivo → rendimento.

Não se trata de substituir cidadania pela propriedade, muito menos de atribuir diferentes dignidades políticas a proprietários e não proprietários. Trata-se de reconhecer que algumas pessoas possuem uma relação concreta, duradoura e patrimonial com determinados lugares, pois esses lugares podem produzir riqueza. E quando a geografia privilegiada de uma cidade é transformada em atividade econômica organizada, surge uma renda que não deve necessariamente ser apropriada integralmente pela empresa, pelo proprietário privado ou pelo governo.

Pode existir uma quarta possibilidade: a comunidade territorial participar dos frutos.

A analogia empresarial ajuda a compreender a estrutura, pois o lugar é o ativo; a infraestrutura é o capital acumulado; a atividade econômica gera fluxos; o royalty territorial captura parte da renda espacial, enquantoo  fundo preserva o patrimônio e o dividendo distribui parte dos frutos.

Nesse sentido, o domiciliado-proprietário não seria juridicamente sócio da cidade, mas poderia ser compreendido economicamente como participante de um patrimônio territorial comum.

A diferença é decisiva, mas não se receberia simplesmente porque se possui determinada nacionalidade. O critério para se fazer jus ao recebimento decorre do fato de pertencer concretamente a um lugar, de participar de seus riscos, de mantern patrimônio na cidade e contribuir para a continuidade de uma comunidade cuja geografia possui valor econômico (o bem comum)

Essa talvez seja a formulação final do conceito: sividendo de pertença territorial é a participação periódica nos rendimentos de um patrimônio financeiro coletivo constituído a partir da remuneração de funções geográficas e econômicas exercidas por determinada comunidade, atribuída segundo critérios objetivos de vínculo territorial duradouro.

Assim, o poder do lugar deixaria de ser apenas uma explicação sobre por que alguns lugares são economicamente privilegiados e passa a transformar numa teoria acerca de quem deve participar dos frutos produzidos por esse privilégio geográfico.