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quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Todo império perecerá, menos o império da quantidade? - sobre a mortalidade dos impérios políticos e a permanência de uma mentalidade civilizacional, de Jean-Baptiste Duroselle a René Guénon

Há uma ironia na história que merece ser examinada. Jean-Baptiste Duroselle deu a um de seus livros o título Todo Império Perecerá (Tout empire périra), sintetizando a vulnerabilidade das grandes construções políticas diante da passagem do tempo. Entretanto, se observarmos a modernidade à luz do pensamento de René Guénon, poderemos perguntar se existe um império que parece destinado a sobreviver à queda de todos os demais: o império da quantidade.

A questão não é meramente retórica. Enquanto impérios políticos dependem de territórios, instituições, forças militares e condições econômicas específicas, o império da quantidade, tal como descrito por Guénon em O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos, encontra sua força em algo mais profundo: a própria maneira pela qual a civilização moderna compreende e organiza a realidade.

Os impérios perecem, é verdade. Mas será que perecem também os princípios que orientam a civilização que os produziu?

1. A mortalidade dos impérios

A história demonstra que nenhuma construção política está livre da decadência, pois o Império Romano do Ocidente desapareceu, a monarquia hispânica perdeu sua preeminência, o Império Britânico se dissolveu como potência imperial e a União Soviética deixou de existir em 1991. Cada um desses casos possui suas particularidades, mas todos demonstram que a extensão territorial, a capacidade militar e a influência econômica não asseguram a perpetuidade de uma ordem política.

É nesse horizonte que se insere a reflexão de Duroselle, uma vez que um império não é uma realidade imune à história; sua existência depende de condições que podem se deteriorar, de contradições que podem se acumular e de circunstâncias que podem tornar insustentável sua continuidade.

A força que permite a expansão de um império nem sempre é suficiente para garantir sua conservação, pois a conquista de territórios pode ampliar as obrigações administrativas e militares; o crescimento econômico pode ocultar desequilíbrios; a centralização política pode produzir rigidez institucional. Em determinadas circunstâncias, os instrumentos que favoreceram a grandeza imperial passam a contribuir para sua fragilidade.

A queda de um império, portanto, não exige necessariamente que ele seja derrotado por uma potência superior em todos os aspectos, mas pode resultar da combinação de dificuldades internas, pressões externas e perda progressiva da capacidade de reproduzir a ordem estabelecida.

A lição histórica é relativamente clara: a duração de uma estrutura política não deve ser confundida com sua eternidade. No entanto, essa conclusão suscita uma pergunta adicional: quando um império desaparece, desaparecem também as ideias, os valores e os critérios de organização social que lhe deram sustentação? A experiência histórica sugere que não.

2. O reino da quantidade

É nesse ponto que a reflexão de René Guénon se torna particularmente relevante.

Publicado em 1945, O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos constitui uma crítica à civilização moderna, interpretada pelo autor como expressão de um processo de afastamento progressivo dos princípios tradicionais. Para Guénon, uma das características fundamentais desse processo consiste na predominância crescente da quantidade sobre a qualidade.

A distinção exige precisão, pois a quantidade corresponde ao que pode ser contado, medido e submetido a relações numéricas, enquanto a qualidade, por sua vez, diz respeito àquilo que determina a natureza própria de uma coisa, às suas características intrínsecas e ao significado que ela possui para além de sua mensuração.

Guénon não está simplesmente contestando a matemática, a ciência ou a utilidade prática dos números, mas sua crítica dirige-se à transformação da quantidade em critério dominante de realidade e valor, como se aquilo que pode ser medido constituísse a totalidade do que existe ou importa.

A diferença entre essas duas atitudes é fundamental, uma vez que medir a riqueza de uma sociedade pode ser útil; concluir que a riqueza mensurável esgota tudo aquilo que torna essa sociedade boa é outra coisa. Contar livros publicados pode informar sobre a atividade editorial, mas não permite, por si só, determinar a qualidade intelectual de uma civilização. Calcular a produtividade de um trabalhador pode auxiliar a administração de uma empresa, mas não significa que o valor humano desse trabalhador se reduza à sua produtividade.

O problema começa quando o instrumento de avaliação passa a ocupar o lugar da própria realidade avaliada. Nesse sentido, o reino da quantidade não deve ser compreendido apenas como uma economia dominada pelo dinheiro ou como uma sociedade obcecada por estatísticas: trata-se de uma disposição intelectual mais abrangente, na qual a mensuração tende a substituir o julgamento qualitativo e a equivalência numérica passa a prevalecer sobre as diferenças de natureza.

A quantidade deixa de ser um instrumento e se converte em princípio de organização.

3. O império que sobrevive à queda dos imperadores

A comparação entre Duroselle e Guénon permite identificar uma diferença decisiva entre duas formas de poder, pois um império político precisa conservar uma estrutura institucional reconhecível, uma vez que pode sofrer uma derrota militar, perder suas províncias, enfrentar uma crise sucessória ou desintegrar-se em unidades independentes, uma vez que sua continuidade depende de condições históricas determinadas.

O império da quantidade, por outro lado, não depende de uma dinastia, de uma capital ou de uma bandeira, uma vez que sua persistência está associada à reprodução de uma determinada mentalidade.

Considere-se o desaparecimento da União Soviética. A dissolução do Estado soviético alterou profundamente o mapa político e econômico internacional, mas ela não significou o abandono da industrialização em massa, da administração burocrática, dos indicadores de desempenho ou da busca pelo crescimento econômico mensurável, pois muitos dos instrumentos de organização que caracterizaram o mundo moderno continuaram presentes, ainda que inseridos em instituições e sistemas econômicos diferentes.

Isso não significa que a União Soviética e as sociedades capitalistas fossem idênticas, nem que suas diferenças políticas e econômicas fossem irrelevantes, uma vez que a mudança de regime não implica, necessariamente, a transformação de todos os pressupostos intelectuais que orientam uma civilização.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado a outras mudanças históricas. Monarquias dão lugar a repúblicas; impérios coloniais se desfazem; governos são substituídos; sistemas econômicos passam por reformas profundas, mas a tendência de avaliar a realidade segundo critérios quantitativos pode atravessar todas essas transformações. É por isso que o império da quantidade parece possuir uma capacidade de sobrevivência superior à de qualquer império político particular, poise Ele não precisa preservar as mesmas instituições. Basta que a lógica que o caracteriza continue sendo reproduzida por instituições diferentes, pois a queda de um imperador não derruba necessariamente o princípio de autoridade que sustentava seu governo. Do mesmo modo, a queda de um império não derruba necessariamente a mentalidade que organizava sua civilização.

4. A quantificação da existência

A crítica de Guénon ganha uma dimensão particularmente expressiva quando observamos o cotidiano contemporâneo.

Na educação, a aprendizagem é frequentemente representada por notas, índices, classificações e resultados padronizados. Essas medidas podem ser úteis, mas não esgotam a compreensão, a maturidade intelectual ou a capacidade de julgamento de um estudante.

Na economia, o crescimento do produto interno bruto, a rentabilidade e a produtividade fornecem informações importantes sobre a atividade econômica. Entretanto, não respondem isoladamente a todas as questões relativas à justiça, à finalidade do trabalho ou à qualidade da vida social.

Na cultura, o número de exemplares vendidos, as visualizações e a audiência podem indicar a circulação de uma obra. Não determinam necessariamente seu mérito artístico ou sua importância intelectual.

Nas relações sociais, a renda, o patrimônio, o prestígio e os indicadores de popularidade podem se converter em critérios de avaliação pessoal. A posição ocupada por alguém em uma hierarquia mensurável passa, então, a obscurecer as qualidades que não cabem facilmente em uma classificação.

O desenvolvimento tecnológico amplia essas possibilidades, pois sistemas digitais registram comportamentos, plataformas quantificam a atenção e algoritmos organizam preferências em categorias estatísticas. Nesse sentido, a sociedade torna-se progressivamente capaz de transformar aspectos cada vez mais numerosos da existência em dados.

Nada disso é, por si só, uma demonstração de que a crítica guénoniana esteja integralmente correta, pois a quantificação também permite identificar problemas antes invisíveis, combater desperdícios, aperfeiçoar diagnósticos e ampliar o conhecimento. O problema não reside necessariamente na existência de métricas, mas na pretensão de que elas possam substituir todas as demais formas de compreensão, pois há uma diferença entre reconhecer que algo pode ser medido e afirmar que somente aquilo que pode ser medido possui valor. Essa diferença separa o uso legítimo da mensuração de sua transformação em uma visão de mundo.

5. A modernidade muda, mas permanece moderna

Uma das consequências mais interessantes dessa análise é a possibilidade de compreender certas transformações históricas como mudanças internas a uma mesma ordem civilizacional, pois uma sociedade pode abandonar determinada ideologia sem abandonar os critérios quantitativos pelos quais avalia o sucesso, uma vez que pode substituir um sistema de governo sem alterar a predominância dos indicadores econômicos, enquanto pode desenvolver tecnologias revolucionárias e, ainda assim, conservar a mesma concepção de progresso baseada na expansão mensurável da produção, do consumo e da capacidade de controle.

A inovação, portanto, não equivale necessariamente à ruptura, pois uma civilização pode transformar profundamente seus instrumentos e conservar os pressupostos que orientam seu uso, uma vez que pode se tornar tecnologicamente irreconhecível em comparação com o seu passado, mas continuar subordinada a uma lógica intelectual semelhante.

A inteligência artificial constitui um exemplo contemporâneo dessa ambivalência, pois ela permite realizar tarefas complexas, processar grandes quantidades de informação e ampliar certas capacidades humanas. Ao mesmo tempo, sua utilização pode reforçar a tendência de traduzir atividades intelectuais em indicadores de eficiência, velocidade e produtividade, mas o desenvolvimento tecnológico não determina, por si só, o resultado dessa tensão, pois uma ferramenta pode servir à investigação qualitativa ou à padronização indiscriminada; pode auxiliar o julgamento humano ou incentivar sua substituição por métricas automáticas.

A questão decisiva não é apenas o que a tecnologia consegue fazer, mas quais finalidades orientam sua utilização. Sob essa perspectiva, o império da quantidade não precisa impedir toda inovação. Ao contrário, pode prosperar por meio dela, pois cada nova tecnologia pode ampliar sua influência quando a capacidade de medir, comparar e controlar passa a ser considerada um fim em si mesmo.

6. Guénon e a questão do fim dos tempos

Existe, contudo, uma ressalva importante. Embora a expressão império da quantidade sugira uma ordem destinada a durar indefinidamente, a doutrina cíclica de Guénon não apresenta a modernidade como uma realidade eterna.

Em sua interpretação tradicionalista, a predominância da quantidade corresponde a uma fase terminal do ciclo de manifestação da humanidade, pois o processo descrito em O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos não é concebido como uma marcha ilimitada rumo a uma sociedade quantitativa permanente, mas como parte de uma trajetória que culmina no encerramento de um ciclo. Por essa razão. afirmar que o império da quantidade não perecerá tão cedo constitui uma observação sobre sua capacidade histórica de reprodução, não uma conclusão que deva ser atribuída diretamente a Guénon.

A distinção é importante, pois uma ordem pode demonstrar extraordinária capacidade de adaptação sem ser eterna, uma vez que pode atravessar crises, absorver críticas, modificar suas instituições e incorporar seus próprios adversários sem eliminar as condições que, segundo determinada interpretação, conduzirão à sua transformação final.

Além disso, a perspectiva cíclica de Guénon não deve ser confundida com uma previsão empírica convencional: trata-se de uma interpretação metafísica da história, cujas premissas precisam ser examinadas como tais.

Ainda assim, a observação histórica permanece pertinente: a longevidade de uma mentalidade não se mede apenas pela duração das instituições que a expressam, mas também por sua capacidade de reaparecer sob formas novas.

7. O império da quantidade pode cair?

Se a quantidade constitui uma mentalidade civilizacional, então sua superação não poderia ser reduzida à queda de um governo ou à substituição de um sistema econômico por outro, pois uma transformação dessa natureza exigiria uma mudança nos próprios critérios de julgamento, uma vez que não bastaria reorganizar a produção, modificar as instituições políticas ou introduzir novas tecnologias. Seria necessário reconsiderar a relação entre os instrumentos de mensuração e os fins aos quais eles devem servir, mas isso não significa rejeitar os números, a ciência ou a administração racional: trata-se de reconhecer seus limites e impedir que métodos concebidos para responder a perguntas específicas sejam transformados em critérios universais de valor, pois uma educação de qualidade precisa de informações quantitativas, mas não pode ser reduzida a elas; uma economia eficiente precisa de indicadores, mas não pode encontrar neles, isoladamente, sua finalidade, assim como uma cultura pode utilizar estatísticas para compreender sua circulação, sem confundir popularidade com excelência.

Em todos esses casos, a questão é restabelecer uma hierarquia entre meios e fins, pois a mensuração deve servir ao julgamento, e não substituí-lo, uma vez que a eficiência deve servir a uma finalidade, e não determinar sozinha qual finalidade merece ser perseguida. 

Na perspectiva de Guénon, porém, essa transformação não seria apenas uma reforma administrativa ou uma correção de excessos, pois ela implicaria uma mudança muito mais profunda na relação entre a civilização moderna e os princípios tradicionais que, segundo sua interpretação, foram progressivamente relegados.

É justamente por isso que a questão permanece tão difícil, pois uma sociedade pode reconhecer os efeitos negativos da quantificação excessiva e, ainda assim, continuar dependendo dela para organizar praticamente todos os seus domínios de atividade, uma vez que o império da quantidade não se sustenta apenas porque existem pessoas que o defendem, mas também porque seus critérios se encontram incorporados aos hábitos, às instituições e aos mecanismos pelos quais a sociedade funciona.

Conclusão: os impérios perecem, mas seus princípios sobrevivem

A aproximação entre Jean-Baptiste Duroselle e René Guénon permite distinguir dois níveis de permanência histórica: enquanto no primeiro encontram-se os impérios políticos, cuja existência depende de condições materiais, institucionais e estratégicas sujeitas à transformação, no segundo encontra-se a mentalidade civilizacional que determina o que uma sociedade considera importante, verdadeiro ou desejável, pois os impérios podem cair sem que essa mentalidade desapareça, podem mudar as fronteiras, os governantes e os sistemas econômicos, enquanto permanecem os critérios que orientam a organização da vida coletiva.

É nesse sentido que o império da quantidade parece mais duradouro do que os impérios tradicionais, não porque seja necessariamente eterno, mas porque sua continuidade não depende da sobrevivência de uma estrutura política particular, pois a ironia da história consiste em que uma civilização pode assistir à queda sucessiva de suas potências sem questionar os princípios que orientam sua própria existência, enquanto puder interpretar cada mudança de regime como uma ruptura decisiva, embora continue a avaliar o mundo segundo critérios fundamentalmente semelhantes.

Duroselle convida-nos a reconhecer a mortalidade dos impérios, enquanto Guénon leva-nos a perguntar se a queda de um império basta para transformar a civilização que o tornou possível.

Talvez a questão mais profunda não seja quando perecerá o atual império da quantidade, mas o que seria necessário para que sua eventual queda representasse algo mais do que a substituição de uma ordem quantitativa por outra, pois, afinal, um império político pode desaparecer quando perde o controle de seus territórios. Um império intelectual, entretanto, pode continuar governando mesmo depois que seus antigos soberanos já não existem.

Todo império perecerá, mas a questão é saber se, quando eles caem, os homens conseguem também abandonar o reino outrora que aprenderam a tomar como um lar através das medidas, dos hábitos e dos costumes.

 

Bibliografia comentada

1. Obras fundamentais

DUROSELLE, Jean-Baptiste. Tout empire périra: une vision théorique des relations internationales. Paris: Université de Paris I, Panthéon-Sorbonne, Institut d'histoire des relations internationales contemporaines, 1981.

Comentário: Obra fundamental para o primeiro eixo deste artigo: a vulnerabilidade histórica dos impérios e das grandes potências. Duroselle examina as relações internacionais a partir de uma perspectiva teórica que procura identificar regularidades na conduta dos Estados, nas relações de força e nos processos de transformação política. Sua contribuição consiste em mostrar que a existência de uma potência depende de condições históricas concretas, e não de uma suposta garantia de perpetuidade. É o ponto de partida para contrastar a duração limitada das estruturas políticas com a possível permanência de uma mentalidade civilizacional. <Cite refs={["turn682240search5","turn682240search12"]}/>

GUÉNON, René. Le règne de la quantité et les signes des temps. Paris: Gallimard, 1945.

Comentário: Esta é a referência central do segundo eixo do artigo. Guénon interpreta a civilização moderna como expressão de um processo de afastamento dos princípios tradicionais, identificando na predominância da quantidade um dos sinais característicos desse processo. Os capítulos iniciais, especialmente os dedicados à distinção entre qualidade e quantidade, à medida e à uniformidade, são particularmente relevantes para a discussão. A obra permite formular a hipótese de que uma mentalidade pode atravessar mudanças de regime e sobreviver à dissolução das instituições que anteriormente a representavam. É importante observar, contudo, que Guénon insere essa transformação em uma doutrina metafísica dos ciclos, e não apenas em uma teoria sociológica da modernidade. <Cite refs={["turn682240search0","turn682240search1"]}/>

2. Leituras complementares

MÜLLER, Jerry Z. The Tyranny of Metrics. Princeton: Princeton University Press, 2018.

Comentário: Müller oferece uma crítica contemporânea à utilização excessiva de indicadores quantitativos na administração, na educação, na medicina e em outras instituições. Seu argumento é particularmente útil para aproximar a crítica filosófica de Guénon de fenômenos observáveis nas organizações modernas. A obra não adota a metafísica tradicionalista de Guénon; sua contribuição é mais delimitada e empírica: demonstrar como a transformação de indicadores em objetivos pode distorcer as atividades que deveriam avaliar. É uma referência adequada para fundamentar os exemplos contemporâneos apresentados no artigo.

WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva.

Comentário: A obra de Weber permite compreender a expansão da racionalização, da burocracia e dos procedimentos formais de cálculo na organização das sociedades modernas. Embora Weber não formule a crítica guénoniana à predominância da quantidade, sua análise ajuda a investigar os mecanismos institucionais pelos quais a calculabilidade e a previsibilidade adquirem importância crescente. A leitura é especialmente útil para evitar que a discussão permaneça exclusivamente no plano metafísico: ela oferece instrumentos sociológicos para examinar como a racionalidade formal se incorpora às estruturas administrativas e econômicas.

POLANYI, Karl. A grande transformação: as origens políticas e econômicas do nosso tempo.

Comentário: Polanyi examina a transformação histórica das relações entre economia, sociedade e instituições, com especial atenção à expansão da economia de mercado. Sua obra contribui para a discussão ao mostrar que a organização econômica não constitui uma esfera isolada, independente dos demais aspectos da vida social. Embora sua abordagem seja distinta da de Guénon, ela ajuda a investigar como critérios econômicos podem adquirir precedência sobre outras finalidades humanas. É particularmente pertinente para a seção do artigo dedicada à tendência de avaliar a sociedade por indicadores de crescimento, produtividade e rentabilidade.

3. Nota sobre a interpretação das obras

As referências acima não devem ser tratadas como se seus autores defendessem uma única doutrina. Duroselle estuda a dinâmica histórica das relações internacionais; Guénon desenvolve uma interpretação metafísica da civilização moderna; Müller critica práticas contemporâneas de mensuração institucional; Weber analisa a racionalização social; e Polanyi investiga a transformação histórica das relações entre economia e sociedade.

A aproximação entre essas obras é, portanto, interpretativa. Seu objetivo não é atribuir a todos os autores a mesma tese, mas reunir perspectivas distintas para examinar uma questão comum: a diferença entre a queda de estruturas políticas particulares e a permanência dos critérios intelectuais e institucionais pelos quais uma civilização organiza a realidade.

A tese de que o império da quantidade pode sobreviver à queda dos impérios políticos constitui a hipótese interpretativa deste artigo, inspirada sobretudo no contraste entre Duroselle e Guénon. Ela não deve ser apresentada como uma conclusão expressamente formulada por ambos.

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