Prólogo — O nascimento da coisa
Nas terras frias de Niflheim, para além dos fiordes onde os corvos de Odin perdiam a voz, existia um reino chamado Danação Nacional. Seus habitantes haviam erguido templos, lavrado campos, construído estradas e atravessado rios com pontes de pedra. Durante séculos, acreditaram que a finalidade do governo era proteger a comunidade, administrar a justiça e preservar o fruto do trabalho dos homens.Mas os deuses abandonaram aquele reino quando seus governantes passaram a confundir o tesouro público com o próprio espólio. Foi então que nasceu o Troll. Ele não nasceu de mulher, nem foi gerado pelo amor, tampouco veio ao mundo pelas vias naturais que regem a criação. Ele foi concebido por uma vontade monstruosa: a vontade de expelir aquilo que deveria ter permanecido fora de toda ordem civilizada.
O Diabo, contemplando aquela criatura, percebeu que sua monstruosidade não consistia apenas na aparência, pois o Troll possuía inteligência suficiente para governar, astúcia suficiente para enganar e ambição suficiente para destruir tudo aquilo que não pudesse devorar. Por isso, o Diabo fez dele homem - e, para completar a obra, deu-lhe nove dedos. Assim surgiu o homem-trolha, criatura que conservava a aparência de um governante, mas cuja alma pertencia às profundezas anteriores à própria criação.
O Troll não desejava simplesmente possuir o reino - ele desejava que o reino inteiro se tornasse semelhante a ele.
Canto I — O reino dos tributos eternos
Quando o Troll ascendeu ao trono, convocou os jarls, os sacerdotes da administração e os escribas do tesouro.
— De hoje em diante — proclamou —, todo homem deverá pagar por sua própria existência.
E instituiu tributos sobre o pão, o sal, a madeira, o ferro, a navegação, a moradia e até mesmo sobre a esperança de que as coisas pudessem melhorar. Se um pescador lançasse sua rede ao mar, o Troll cobraria pela água; se um camponês colhesse o trigo, cobraria pela terra; Se um ferreiro fabricasse uma espada, cobraria pelo metal e pela possibilidade de que a espada viesse a ser utilizada na defesa do reino.
Os habitantes perguntaram:
— Senhor, para que servem tantas cobranças?
O Troll sorriu, mostrando dentes semelhantes a fragmentos de ossos antigos.
— Para que possais continuar pagando.
Não havia resposta mais verdadeira em toda Danação Nacional.
Os impostos já não financiavam a ordem pública. A ordem pública existia para justificar os impostos. E os impostos, por sua vez, alimentavam uma corte de funcionários que inventava novas razões para que o reino jamais pudesse viver sem eles.
Foi assim que o tesouro se transformou em altar. E o contribuinte tornou-se vítima sacrificial desse altar onde tudo está no Estado e nada pode estar fora dele ou contra ele, pois o Estado tornou-se religião total, a nova ordem que decorre dessa conformidade de coisas que decorre desse animal que mente.
Canto II — A religião da ponte
O Troll compreendeu que a população ainda conservava uma esperança perigosa: acreditava que as obras públicas poderiam melhorar a vida dos homens.
Decidiu, portanto, apoderar-se dessa esperança. Ele anunciou a construção da Ponte dos Nove Dedos, uma estrutura monumental que ligaria duas margens separadas por um abismo. Vieram arquitetos, engenheiros, pedreiros e marinheiros. Os melhores materiais foram extraídos das montanhas, o ferro foi fundido nas forjas do norte, os trabalhadores receberam ordens para erguer pilares capazes de resistir às tempestades.
Mas, antes que a primeira pedra fosse assentada, o Troll convocou os seus conselheiros.
— Quanto custa construir uma ponte? — perguntou.
— Depende dos materiais, dos trabalhadores, do terreno e da dificuldade da obra — respondeu o mestre de engenharia.
— Errado. Custa tudo aquilo que conseguirmos convencer o povo a pagar.
E assim começou a grande fraude - os contratos foram multiplicados, os preços foram inflados, as pedras destinadas aos pilares foram substituídas por materiais inferiores. Os prazos foram prorrogados para que novas verbas pudessem ser exigidas.
A cada inverno, o Troll inaugurava uma nova etapa da obra; a cada primavera, anunciava que faltava apenas mais um investimento; e, a cada verão, seus arautos proclamavam que a ponte representava a chegada de uma nova era. Entretanto, as duas margens continuavam separadas, já que a ponte existia apenas nos pergaminhos, pois, nas contas do reino, ela custava dez vezes mais do que deveria, enquanto nos discursos oficiais ela era a maior conquista da civilização, quando, na realidade, ela consistia em pilares frágeis que avançavam sobre o vazio, ligando do nada ao lugar nenhum.
Foi então que um velho ferreiro compreendeu a natureza da criatura.
— Ele não é um construtor — disse. — É um trolha.
— Que queres dizer? — perguntaram-lhe.
— O pedreiro ergue uma parede para proteger uma casa. O construtor levanta uma ponte para unir os homens. Mas o homem-trolha ergue uma obra para esconder o buraco que ele próprio abriu.
E o velho acrescentou:
— Sua ponte não conduz de uma margem à outra. Ela conduz do dinheiro público ao abismo.
Canto III — A máquina metafísica
Os sábios de Danação Nacional acreditavam que a corrupção era apenas um vício dos governantes, mas estavam enganados, pois com o passar dos anos, descobriram que o reino havia começado a sofrer transformações impossíveis de explicar pelas leis ordinárias da natureza, uma vez que as estradas construídas pelo Troll terminavam em lugares onde nunca houvera povoação; os hospitais inaugurados por seus ministros não possuíam médicos; as escolas erguidas em seu nome não tinham professores; os portos monumentais não recebiam navios, e as ferrovias terminavam diante de muralhas.
Era como se a própria realidade tivesse sido contaminada pela mentira administrativa, pois os astrônomos observaram que, sempre que uma obra superfaturada era anunciada, uma pequena região do céu desaparecia, enquanto os monges descobriram que os relógios atrasavam perto dos edifícios abandonados e os geômetras verificaram que certas distâncias aumentavam conforme o valor dos contratos públicos.
A ciência do reino denominou o fenômeno como entropia institucional. Segundo essa teoria, cada unidade monetária desviada produzia uma pequena desorganização do mundo material. Quando o desvio era suficientemente grande, a desorganização ultrapassava as fronteiras da matéria e alcançava o próprio sentido das coisas.
Uma ponte deixava de ser uma ponte, uma escola deixava de ser uma escola, uma promessa deixava de apontar para o futuro. Tudo permanecia aparentemente no mesmo lugar, mas sua finalidade havia sido devorada. Os sábios chamaram àquilo de "Abismo".
O Troll, porém, conhecia o fenômeno muito antes de seus estudiosos, pois era precisamente disso que se alimentava. Não lhe bastava roubar moedas - ele queria destruir a correspondência entre o esforço humano e o resultado, entre a palavra e a verdade, entre a autoridade e o dever, pois seu verdadeiro banquete era a realidade desfeita.
Canto IV — O banquete dos nove dedos
Em seu palácio, o Troll organizava banquetes que duravam nove noites. Sobre mesas de ouro, serviam-se carnes trazidas dos confins do reino, vinhos de terras distantes e iguarias reservadas aos reis. Ao redor dele sentavam-se os ministros, os empreiteiros, os cobradores e os sacerdotes da prosperidade oficial.
Cada convidado trazia uma oferenda, um contrato, uma concessão, uma autorização, um orçamento suplementar. O Troll recebia cada documento com a solenidade de um sacerdote que acolhe uma relíquia sagrada.
— Eis a nossa fé — proclamava. — O lucro é o princípio de todas as coisas, e a despesa é a prova de nossa grandeza.
Os cortesãos aplaudiam, mas, sob o palácio, existiam galerias onde os escribas registravam os nomes dos homens que haviam pago por aquelas festas. Eram milhares: pescadores, viúvas, ferreiros, agricultores, marinheiros e artesãos. Homens que jamais veriam os salões onde seu trabalho era consumido.
O Troll conhecia seus nomes, mas não os considerava pessoas - eles eram apenas unidades de arrecadação.
Quando um velho camponês morreu sem conseguir pagar o tributo anual, o ministro do tesouro ordenou que sua dívida fosse transferida aos filhos; quando os filhos fugiram para as montanhas, o Troll mandou cobrar o valor dos vizinhos; quando os vizinhos já não tinham recursos, instituiu uma taxa sobre a fuga. Foi então que seus próprios conselheiros perceberam o que significava viver sob o governo do homem-trolha: não havia dívida que pudesse ser quitada, porque a finalidade da dívida era manter o devedor submetido.
A danação não era um destino futuro, mas a estrutura administrativa do próprio presente.
Canto V — A rebelião dos homens sem ponte
Durante muitos invernos, o povo suportou o domínio do Troll - alguns ainda acreditavam em seus discursos, enquanto utros temiam perder o pouco que lhes restava, ao passo que Muitos haviam aprendido a considerar inevitável aquilo que, no início, lhes parecera intolerável.
Mas, nas aldeias do norte, começaram a surgir homens que se recusavam a esquecer: um ferreiro guardou os registros dos contratos fraudulentos; uma viúva conservou os recibos dos tributos pagos; um antigo engenheiro desenhou a estrutura verdadeira da Ponte dos Nove Dedos; um marinheiro percorreu os fiordes levando cópias dos documentos e um jovem escriba reuniu os testemunhos num livro chamado A Contabilidade do Abismo. Eles não possuíam exércitos. nem palácios, nem mesmo uma ponte que lhes permitisse atravessar o grande rio, mas possuíam algo que o Troll não conseguira destruir: a capacidade de distinguir a realidade daquilo que o poder dizia sobre ela.
Certa noite, os homens e as mulheres reuniram-se diante das ruínas de uma ponte inacabada e o velho ferreiro ergueu um martelo.
— Não construiremos uma ponte para o Troll — declarou. — Construiremos uma ponte para atravessar o rio.
Os trabalhadores trouxeram madeira, pedra e ferro, os engenheiros calcularam as cargas, os carpinteiros ajustaram as vigas, os habitantes das duas margens trabalharam juntos. Não houve cerimônia de inauguração, nem estátua do governante, muito menos contrato secreto superfaturado - o que houve foi apenas uma obra necessária, construída com recursos conhecidos e destinada a uma finalidade concreta.
Quando o primeiro grupo atravessou o rio, os sinos das aldeias tocaram. E, pela primeira vez em muitos anos, o céu recuperou uma de suas estrelas.
O Abismo havia sofrido uma pequena derrota.
Canto VI — A queda do homem-trolha
O Troll recebeu a notícia com fúria. Ele Mmndou confiscar o martelo do ferreiro, prender o engenheiro e destruir os registros da contabilidade, mas os documentos já haviam sido copiados.
Ele Mandou derrubar a ponte. mas os homens das duas margens a defenderam.
Ele mandou proclamar que a obra era ilegal, mas os habitantes perguntaram qual lei poderia justificar a destruição de uma construção que servia ao bem comum.
Pela primeira vez, o Troll não encontrou palavras capazes de transformar sua vontade em legitimidade, pois seu poder dependia de que todos aceitassem a mesma mentira.
Agora, cada mentira precisava enfrentar uma testemunha.
Os ministros começaram a abandonar o palácio, pois os empreiteiros esconderam os contratos, os escribas deixaram de registrar despesas fictícias, os soldados perceberam que haviam jurado defender o reino, não a criatura que o devorava.
O Troll subiu à torre mais alta e contemplou sua obra: ss estradas terminavam no nada, os hospitais estavam vazios, as escolas permaneciam silenciosas, A Ponte dos Nove Dedos desabava sob o próprio peso e, além das muralhas, o povo atravessava o rio por uma ponte modesta que não levava seu nome.
Naquele instante, o Troll compreendeu que não estava perdendo apenas o governo. Ele Estava perdendo o monopólio da realidade.
Então o Diabo apareceu atrás dele:
— Fiz-te homem — disse — porque pensei que a inteligência tornaria tua monstruosidade mais útil.
O Troll voltou-se para o antigo senhor.
— E não fui útil?
— Foste útil à destruição. Mas confundiste o poder de arruinar com o poder de criar.
O Diabo apontou para o rio.
— Aqueles homens fizeram uma ponte. Tu fizeste um abismo e lhe deste o nome de ponte.
Então o chão da torre rachou. os nove dedos do Troll agarraram as pedras, mas nenhuma delas lhe ofereceu sustentação. A estrutura, construída sobre séculos de fraude, desfez-se sob o peso de sua própria falsidade. E o homem-trolha caiu. Ele não caiu no inferno, pois o inferno já não precisava recebê-lo. Ele Caiu na obra que havia construído.
Epílogo — A última inscrição
Muito tempo depois, os habitantes de Danação Nacional encontraram, entre os escombros do palácio, uma placa de bronze. Nela estavam gravadas as palavras que o Troll mandara inscrever na inauguração de sua grande ponte: por esta obra, o reino alcançará a eternidade.
Os habitantes levaram a placa até a margem do rio e a fundiram para fabricar ferramentas; com o metal, produziram pregos, dobradiças e peças para novas embarcações. A ponte verdadeira permaneceu de pé. E os cronistas registraram três lições daquela época:
A primeira: o imposto sem finalidade legítima transforma a autoridade em instrumento de espoliação.
A segunda: a corrupção não destrói apenas recursos; destrói a confiança que permite aos homens organizar a realidade em comum.
A terceira: nenhuma civilização pode sobreviver indefinidamente quando chama progresso àquilo que a conduz ao abismo.
Quanto ao Troll, os poetas continuaram a contar sua história durante os longos invernos. Diziam que, nas noites de tempestade, ainda era possível ouvir sua gargalhada sob as ruínas da velha ponte, mas já ninguém confundia aquele ruído com uma voz de autoridade, pois era apenas o eco de um homem-trolha, condenado a contemplar eternamente as obras que não soube construir.
E, no último verso da saga, o cronista deixou esta advertência: "teme o rei que devora o tesouro, mas teme ainda mais aquele que devora o sentido das coisas. O primeiro rouba o pão, enquanto o segundo faz com que os homens já não saibam para que serve o pão. E, quando a mentira se torna a arquitetura do reino, todo caminho termina no abismo".
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