1. Introdução: o império que governa o coração dos homens
Jean-Baptiste Duroselle, em Todo Império Perecerá, dedicou-se ao problema da duração e da decadência dos impérios, examinando as condições históricas que permitem a determinadas estruturas políticas sobreviver, expandir-se ou desaparecer. Entretanto, existe uma forma de império cuja duração não depende diretamente da conservação de territórios, dinastias ou fronteiras: o império da quantidade, descrito por René Guénon em O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos.
Sua particularidade reside na capacidade de ultrapassar os limites das instituições que lhe dão expressão e incorporar-se aos costumes, aos hábitos e às mentalidades. Enquanto um império político pode desaparecer com a derrota de seus exércitos e uma ordem econômica pode sofrer transformações quando suas bases materiais se alteram, o império da quantidade possui um mecanismo adicional de perpetuação: ele participa da formação dos próprios indivíduos que deverão reproduzi-lo.
Toda criança nasce em uma sociedade que a precede. Antes mesmo de adquirir capacidade para examinar criticamente o mundo, ela começa a assimilar as concepções de sucesso, prestígio, riqueza, produtividade e utilidade que organizam a vida dos adultos. Ao longo da educação e da convivência social, esses critérios passam a integrar sua maneira de compreender a realidade. Quando chega à idade adulta, o indivíduo pode acreditar que escolheu livremente seus valores, embora boa parte deles tenha sido incorporada durante sua formação.
O império da quantidade encontra, assim, uma fonte de continuidade na transmissão entre gerações, pois cada geração recebe uma ordem de valores que não criou e, ao reproduzi-la, transmite-a à geração seguinte, mas essa capacidade de reprodução contém uma contradição, pois se o império da quantidade consegue perpetuar-se porque os homens reconhecem seus critérios como legítimos, o que acontece quando esses mesmos critérios deixam de oferecer uma finalidade convincente para a existência?
É nesse ponto que a crítica aristotélica da crematística, a análise weberiana da ética econômica, a reflexão de Guénon sobre a predominância da quantidade e a concepção de Viktor Frankl acerca da vontade de sentido permitem formular uma hipótese: o império da quantidade pode começar a perder sua legitimidade quando a riqueza, a produtividade e a mensuração deixam de servir à vida humana e passam a exigir que a vida humana sirva a elas.
2. Aristóteles e a inversão entre os meios e os fins
Em A Política, Aristóteles distingue a administração dos recursos necessários à vida da aquisição de riqueza que deixa de reconhecer limites em uma finalidade humana. A distinção entre economia e crematística permite compreender o problema de uma sociedade na qual a acumulação monetária se transforma em objetivo independente das necessidades que deveria atender, pois a riqueza não é, por si mesma, um mal, uma vez que os recursos materiais são indispensáveis à manutenção da vida, à organização doméstica, à produção e ao funcionamento das comunidades políticas, mas o problema surge quando a aquisição de riqueza deixa de ser um meio subordinado a determinado fim e passa a constituir um fim em si mesma.
Neste caso, a inversão é profunda, pois os homens já não procuram acumular recursos para viver bem; mas para acumular recursos como um fim em si mesmo a ponto de a vida ser centrada nisso.
Essa mudança de finalidade todo o sentido da organização social, pois o trabalho deixa de ser avaliado primordialmente por sua contribuição à vida da comunidade e passa a ser julgado segundo sua capacidade de produzir resultados mensuráveis e a educação tende a ser interpretada como investimento em capital humano, enquanto o tempo é medido como um recurso a ser otimizado, ao passo que as relações sociais são medidas pelas oportunidades ganhas ou perdidas no contexto da obtenção de vantagens.
Essas interpretações podem ter utilidade em contextos específicos, mas o problema está em sua transformação em princípios universais de julgamento, pois quando toda atividade precisa justificar-se pela produção de riqueza, aquilo que não pode ser facilmente convertido em retorno financeiro corre o risco de ser considerado inútil, uma vez que a formação intelectual, a preservação de conhecimentos tradicionais, o cuidado familiar e o cultivo de virtudes podem perder reconhecimento quando avaliados exclusivamente por critérios econômicos.
Nesse sentido. a crítica aristotélica permite identificar a origem dessa inversão: os meios passam a ocupar o lugar dos fins e o império da quantidade representa, nessa perspectiva, uma ordem na qual os instrumentos de organização da vida adquirem autoridade para definir o que merece ser vivido.
3. René Guénon e a civilização submetida à quantidade
Em O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos, René Guénon examina a tendência da civilização moderna a privilegiar os aspectos quantitativos da realidade, em detrimento de suas dimensões qualitativas e dos princípios que, segundo sua perspectiva tradicionalista, deveriam ordenar a existência, uma vez que s quantidade possui uma vantagem operacional evidente, pois aquilo que pode ser contado, comparado e calculado pode ser incorporado a procedimentos administrativos, econômicos e técnicos, uma vez que indicadores permitem estabelecer metas, comparar resultados e coordenar atividades complexas.
No entanto, a facilidade de mensuração não significa que tudo aquilo que importa possa ser mensurado da mesma maneira. O Produto Interno Bruto (PIB), por exemplo, é um indicador útil da atividade econômica, pois permite estimar o valor dos bens e serviços finais produzidos em determinado território durante certo período e pode auxiliar a formulação de políticas públicas, mas ele não mede diretamente a justiça das instituições, a qualidade das relações familiares, a sabedoria de uma comunidade ou a realização espiritual de seus integrantes.
O problema começa quando uma medida parcial da realidade passa a ser tratada como medida abrangente do progresso social, uma vez que uma sociedade pode aumentar sua produção sem melhorar proporcionalmente as condições de vida de todos os seus membros, pode elevar a renda média sem eliminar as situações de privação das necessidades entre os membros mais pobres da sociedade, assim como pode ampliar o consumo sem desenvolver a capacidade de distinguir entre necessidades legítimas e desejos induzidos.
O indicador econômico nesse caso, que deveria servir à compreensão de uma dimensão da vida social, adquire então uma autoridade que ultrapassa sua finalidade original - e a sociedade deixa de perguntar apenas se a economia está a serviço do bem comum e começa a avaliar o próprio bem comum segundo os resultados econômicos que consegue contabilizar.
É nesse sentido que a crítica de Guénon encontra a distinção aristotélica entre meios e fins, pois a predominância da quantidade não consiste simplesmente em contar coisas, mas em conferir àquilo que pode ser contado uma autoridade excessiva sobre aquilo que deve ser valorizado, uma vez que o império da quantidade não precisa negar explicitamente os bens superiores. Basta que os torne secundários diante das grandezas mensuráveis.
4. O poder que se incorpora às mentalidades
A resistência do império da quantidade não pode ser explicada apenas por sua presença nas instituições econômicas e políticas. É necessário considerar sua capacidade de participar da formação das mentalidades, uma vez que o poder não se manifesta exclusivamente por meio de ordens explícitas, leis ou decisões de autoridades identificáveis, mas pode operar através dos critérios pelos quais as pessoas avaliam a si mesmas e aos demais.
Quando uma sociedade identifica o sucesso com a prosperidade material, essa associação passa a orientar inúmeras decisões cotidianas, pois os pais procuram preparar os filhos para profissões consideradas promissoras e as escolas são avaliadas por resultados que podem ser quantificados, as empresas organizam suas atividades segundo metas de produtividade e os indivíduos aprendem a comparar suas trajetórias por meio da renda e do patrimônio.
Ninguém precisa impor continuamente essa concepção de mundo, pois as instituições, as famílias e os próprios indivíduos encarregam-se de reproduzi-la. Essa dinâmica pode ser aproximada, com as devidas ressalvas, da análise de Michel Foucault sobre a governamentalidade, pois o poder também atua por meio de conhecimentos, procedimentos e técnicas que orientam a conduta dos indivíduos, inclusive a maneira como eles próprios se governam e o resultado é uma forma de continuidade social que ultrapassa a permanência de governantes ou instituições específicas, pois um governo pode ser substituído sem que se altere a concepção dominante de progresso, uma empresa pode desaparecer sem que se modifique a crença de que o valor de uma atividade depende de sua rentabilidade, uma reforma administrativa pode transformar procedimentos sem questionar a ideia de que tudo aquilo que importa deve ser traduzido em indicadores.
O império da quantidade torna-se particularmente resistente quando deixa de depender apenas de mecanismos externos de coerção e passa a contar com a adesão espontânea dos indivíduos. Nesse sentido, a sociedade reproduz, em sua vida cotidiana, os critérios pelos quais é governada.
5. Max Weber e a secularização dos eleitos e condenados
Em A ética protestante e o espírito do capitalismo, Max Weber investigou as relações históricas entre determinadas formas de ascetismo protestante e o desenvolvimento de disposições favoráveis ao trabalho metódico, à disciplina profissional e à organização racional da atividade econômica.
Sua análise da predestinação calvinista exige precisão, pois a riqueza não comprava a salvação, e a eleição divina não era conquistada pelo sucesso financeiro, mas em determinados contextos, o êxito na vocação profissional e a conduta disciplinada podiam ser interpretados como sinais de uma condição espiritual favorável.
O interesse dessa análise para a crítica do império da quantidade está na possibilidade de sobrevivência de práticas e critérios de avaliação depois que suas justificações religiosas originais perdem força, pois a disciplina econômica pode continuar sendo exigida mesmo quando já não está vinculada à crença que lhe conferia significado, uma vez que o indivíduo passa a trabalhar meticulosamente, acumular recursos e organizar racionalmente sua vida porque as estruturas econômicas e sociais assim o exigem. Nesse sentido a riqueza pode adquirir uma função de reconhecimento que ultrapassa sua utilidade material e na sociedade secularizada os bem-sucedidos economicamente correm o risco de serem tratados como indivíduos mais competentes, disciplinados ou merecedores, enquanto os que não alcançam a prosperidade esperada podem ser considerados incapazes ou irresponsáveis.
Não se trata de afirmar que a sociedade contemporânea reproduza integralmente a teologia calvinista: trata-se de identificar uma analogia, pois a possibilidade de a riqueza assumir a função de sinal de legitimidade pessoal, mesmo quando desaparece a linguagem religiosa que anteriormente poderia ter conferido significado a determinadas formas de avaliação. O sistema econômico deixa de distribuir apenas recursos, pois ele também participa da distribuição do prestígio e do reconhecimento social.
Surge, assim, uma divisão simbólica entre eleitos e condenados, pois os primeiros parecem confirmar, por seu sucesso, a legitimidade da ordem existente, enquanto os segundos correm o risco de interpretar sua condição como prova de fracasso pessoal. Essa contradição aparece quando a sociedade promete que o esforço e o mérito conduzirão à prosperidade, embora os resultados econômicos também dependam de circunstâncias históricas, condições familiares, oportunidades e estruturas de distribuição de recursos.
A desigualdade material passa, então, a receber uma interpretação moral que não pode ser justificada apenas pelos resultados econômicos observados, pois o império da quantidade não se limita a medir a riqueza: ele pode converter a riqueza em medida do valor humano.
6. Viktor Frankl e a crise de sentido
A contribuição de Viktor Frankl permite deslocar a discussão do funcionamento das instituições para a finalidade da existência.
Em Em Busca de Sentido, Frankl atribui importância central à vontade de sentido, isto é, à busca humana por uma finalidade que torne a existência inteligível e permita ao indivíduo reconhecer significado em suas responsabilidades, ações e experiências.
A ideia de que o homem pode suportar grandes sofrimentos quando encontra uma razão para fazê-lo não deve ser convertida em uma lei psicológica absoluta, uma vez que a capacidade de suportar dificuldades varia entre indivíduos e circunstâncias. Ainda assim, a perspectiva de Frankl ajuda a compreender por que a satisfação das necessidades materiais, embora indispensável, não esgota a questão do sentido, pois o homem não procura apenas condições para sobreviver, mas também procura razões para trabalhar, criar, cuidar, aprender e transmitir algo às gerações seguintes.
É possível aceitar sacrifícios quando se reconhece a finalidade a que eles servem, pois um trabalho difícil pode adquirir significado quando contribui para uma obra considerada valiosa, uma privação pode ser suportada quando está vinculada a uma responsabilidade reconhecida, um esforço prolongado pode ser sustentado quando existe uma finalidade que transcende a recompensa imediata. Mas o que acontece quando a sociedade exige disciplina, produtividade e acumulação sem conseguir explicar para que essas exigências servem? Se a resposta for apenas produzir mais para consumir mais, acumular mais para demonstrar sucesso e competir mais para conservar uma posição social, a justificativa torna-se circular: produz-se para consumir; consome-se para sustentar determinado padrão de vida; sustenta-se esse padrão para obter reconhecimento; e busca-se reconhecimento para confirmar o próprio sucesso.
A questão sobre a finalidade última desse processo permanece sem resposta, pois é nesse ponto que o império da quantidade pode começar a perder seu sentido, não necessariamente porque deixe de produzir resultados materiais, mas porque esses resultados já não são suficientes para justificar os sacrifícios exigidos, pois uma ordem social pode continuar economicamente funcional e, ao mesmo tempo, enfrentar uma crise de legitimidade existencial, uma vez que o indivíduo pode cumprir suas obrigações, receber sua remuneração e participar da economia sem reconhecer nessas atividades uma finalidade capaz de conferir significado à sua vida, pois o sistema dispõe de meios, mas já não oferece fins satisfatórios.
7. O homem como animal que erra: a autonomização de suas próprias criações
O ser humano é capaz de construir instituições, técnicas, sistemas econômicos e instrumentos de avaliação para resolver problemas concretos, mas também pode esquecer as finalidades para as quais essas estruturas foram criadas.
Um indicador concebido para auxiliar a administração pública passa a determinar a maneira como a administração deve agir, pois uma instituição criada para atender a determinadas necessidades começa a exigir que a sociedade se adapte às condições necessárias à sua preservação, uma convenção social é transmitida durante gerações até que sua origem histórica desapareça da consciência coletiva.
Nesse sentido, o homem passa a obedecer às próprias criações como se elas constituíssem necessidades absolutas da realidade e a expressão animal que erra permite destacar uma característica peculiar da condição humana: o homem não apenas comete erros individuais, mas também pode institucionalizá-los, transmiti-los culturalmente e construir mecanismos que os reproduzem sem que cada geração precise reinventá-los.
O império da quantidade pode ser compreendido como uma dessas construções históricas, pois seus instrumentos possuem utilidade real, mas podem adquirir uma autonomia relativa em relação às finalidades humanas que originalmente justificaram sua existência.
Essa autonomia não significa que as instituições sejam independentes dos homens, mas que, depois de estabelecidas, elas criam interesses, dependências materiais, expectativas e rotinas que dificultam sua transformação. Por isso, a perda de legitimidade não conduz automaticamente ao desaparecimento de uma ordem social, pois uma instituição pode continuar funcionando mesmo quando seus integrantes já não acreditam plenamente na finalidade que a justificava.
A transformação começa quando se torna possível recuperar a consciência de que as estruturas sociais são produtos da atividade humana e, portanto, podem ser novamente submetidas ao julgamento de seus fins. O retorno das coisas à sua condição de produtos humanos não significa a abolição indiscriminada das instituições, das técnicas ou dos instrumentos econômicos, mas retirar-lhes a aparência de necessidade absoluta, uma vez que elas não se fundaram em Deus, mas no homem, a ponto de se tornarem um ídolo.
A maior prova disso é que o PIB pode continuar sendo utilizado, desde que não seja confundido com uma definição completa do bem comum, pois o dinheiro pode continuar facilitando as trocas, desde que não se transforme na medida universal do valor das pessoas, e a produtividade pode continuar orientando a organização do trabalho, desde que não elimine a consideração pelas finalidades humanas da produção.
A questão decisiva não é abolir os meios, mas restituir-lhes seu lugar subordinado.
8. A perda de sentido como possível limite do império da quantidade
A hipótese central pode agora ser formulada com maior precisão: o império da quantidade pode enfrentar uma crise de legitimidade quando deixa de oferecer uma finalidade humana convincente para a reprodução de seus mecanismos. Essa crise não precisa começar com uma recessão, uma derrota política ou uma incapacidade produtiva, mas pode começar quando as pessoas deixam de reconhecer na prosperidade material a justificativa suficiente para suas responsabilidades e sacrifícios, pois uma sociedade pode produzir mais e, ainda assim, experimentar uma crise de sentido; pode dispor de instrumentos técnicos cada vez mais eficientes sem conseguir determinar para que finalidades devem ser empregados e pode ampliar suas capacidades de mensuração sem desenvolver critérios adequados para distinguir aquilo que é apenas mensurável daquilo que é verdadeiramente valioso.
O problema não consiste em afirmar que o crescimento econômico seja inútil ou que a pobreza seja desejável, uma vez que s prosperidade material pode ampliar a liberdade efetiva dos indivíduos e reduzir sofrimentos evitáveis. O problema consiste em confundir essas contribuições com a totalidade do bem humano.
Quando a riqueza se torna o principal critério de reconhecimento, a sociedade corre o risco de transformar seus resultados econômicos em justificações morais. Quando a produtividade se torna finalidade absoluta, o homem passa a ser avaliado segundo sua capacidade de contribuir para um mecanismo que deveria servir à vida coletiva e quando os indicadores se convertem em objetivos supremos, a realidade é reorganizada para satisfazer essas medidas como se fossem fins em si mesmos.
Nesse cenário, a perda de sentido pode abrir uma possibilidade de transformação, mas não há garantia de que ela conduza necessariamente a uma ordem superior, uma vez isso pode produzir renovação, apatia, niilismo ou a procura de novas formas de submissão, pois a crise de uma finalidade não cria, por si só, uma finalidade melhor, uma vez que é necessário que os homens recuperem a capacidade de julgar seus objetivos e de formular uma concepção de bem que não se esgote na acumulação e na mensuração.
O império da quantidade não desapareceria simplesmente porque os números deixaram de ser utilizados, uma vez que sua superação exigiria que os números voltassem a ocupar o lugar de instrumentos, subordinados a finalidades que não podem ser reduzidas a eles.
9. Conclusão: a restituição dos meios às finalidades humanas
A resistência do império da quantidade decorre de sua capacidade de incorporar-se à formação das mentalidades, pois ele sobrevive não apenas por meio das instituições que o sustentam, mas também pelos hábitos de julgamento que cada geração transmite à seguinte.
A crematística, quando transforma a acumulação em finalidade, perde de vista o bem a que os recursos deveriam servir e a riqueza, quando se converte em sinal de mérito, corre o risco de dividir a sociedade entre aqueles que parecem merecedores de reconhecimento e aqueles cuja condição material é interpretada como fracasso pessoal, enqaunto o poder, quando se incorpora aos costumes e às expectativas, pode reproduzir-se sem depender exclusivamente de uma autoridade visível.
A reflexão de Viktor Frankl acrescenta uma dimensão decisiva: o funcionamento de uma ordem social não basta para justificar os sacrifícios que ela exige, pois os homens não procuram apenas meios para sobreviver; procuram razões para viver, trabalhar, criar e transmitir algo às gerações futuras. É possível, portanto, que o império da quantidade encontre seu limite não apenas em suas contradições econômicas, mas também na incapacidade de oferecer uma finalidade humana que justifique sua reprodução indefinida.
Essa possibilidade não constitui uma previsão de queda inevitável, mas uma hipótese sobre a relação entre legitimidade e duração histórica, pois uma ordem pode continuar materialmente operante depois que sua justificação se enfraquece, mas sua transformação torna-se concebível quando os homens voltam a interrogar os fins que deveriam orientar suas atividades.
Talvez o império da quantidade comece a perder seu sentido precisamente quando os homens perceberem que suas instituições, seus indicadores, seus sistemas econômicos e suas hierarquias não são necessidades absolutas da existência, mas produtos de sua própria atividade histórica, pois o homem deixa, então, de perguntar apenas como deve adaptar-se ao mundo que recebeu e volta a perguntar que mundo merece construir e transmitir, pois a questão decisiva já não é quanto uma sociedade consegue produzir, acumular ou mensurar, mas saber a serviço de que concepção do homem ela produz, acumula e mede.
O fim do império da quantidade, caso venha a ocorrer, talvez não comece quando a sociedade perde a capacidade de produzir riqueza, mas quando recupera a capacidade de perguntar para que a riqueza deve servir e a quem (e nesse ponto, a pergunta se aponta para Deus). Nesse momento, os meios voltam a ser julgados pelos fins, e as criações humanas deixam de reivindicar uma autoridade absoluta sobre seus próprios criadores.
Bibliografia comentada
1. Fundamentos filosóficos e crítica da quantidade
ARISTÓTELES. Política.
Obra fundamental para compreender a distinção entre a administração dos recursos necessários à vida e a aquisição ilimitada de riqueza. A crítica aristotélica à crematística oferece a base filosófica para questionar uma sociedade na qual a acumulação monetária deixa de ser um meio e passa a constituir uma finalidade independente. É a referência central para estabelecer a subordinação da economia aos fins da vida humana.
GUÉNON, René. O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos.
É a principal referência teórica do artigo. Guénon examina a predominância da quantidade na civilização moderna e a tendência de reduzir a realidade àquilo que pode ser mensurado. Sua crítica permite compreender por que os indicadores econômicos, as técnicas e os procedimentos de mensuração podem ultrapassar sua função instrumental e adquirir autoridade sobre os próprios fins da existência. A obra deve ser lida como uma interpretação tradicionalista da modernidade, com pressupostos metafísicos próprios.
GUÉNON, René. A Crise do Mundo Moderno.
Complementa O Reino da Quantidade ao apresentar uma crítica mais abrangente aos fundamentos intelectuais e espirituais da civilização moderna. É especialmente útil para aprofundar a hipótese de que a crise de uma ordem não se limita às suas instituições políticas e econômicas, podendo envolver os princípios que orientam sua concepção de mundo.
2. Riqueza, capitalismo e hierarquias de valor
WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.
Obra indispensável para investigar as relações históricas entre determinadas formas de ascetismo protestante, a disciplina profissional e o desenvolvimento do capitalismo moderno. Weber ajuda a compreender como práticas econômicas podem conservar sua força social mesmo quando suas justificações religiosas originais perdem importância. Sua análise também permite examinar, com cautela, a transformação do êxito econômico em sinal de mérito e reconhecimento social. É importante não confundir sua interpretação histórica com a afirmação de que o protestantismo ensinava que a riqueza garantia a salvação.
WEBER, Max. Economia e Sociedade.
Amplia a análise das relações entre poder, legitimidade, dominação e organização social. É uma referência complementar para compreender por que determinadas ordens permanecem estáveis não apenas pela coerção, mas também pela aceitação de sua legitimidade. Ajuda a distinguir a permanência material das instituições da crença social que sustenta sua autoridade.
3. Poder, comportamento e reprodução social
FOUCAULT, Michel. Segurança, Território, População.
Curso no qual Foucault desenvolve suas análises sobre governamentalidade, articulando formas de governo, saberes e técnicas de condução das condutas. A leitura é útil para examinar como os critérios quantitativos podem orientar comportamentos sem depender exclusivamente de ordens explícitas. Oferece uma perspectiva complementar à crítica de Guénon: enquanto este enfatiza a predominância civilizacional da quantidade, Foucault ajuda a investigar os mecanismos concretos pelos quais determinadas racionalidades passam a organizar a vida social.
FOUCAULT, Michel. Nascimento da Biopolítica.
Aprofunda o estudo da racionalidade governamental e do liberalismo, com atenção às formas pelas quais os princípios econômicos passam a orientar a compreensão e a administração da sociedade. É particularmente relevante para a discussão sobre a expansão dos critérios econômicos para domínios que não se limitam à produção e à troca de mercadorias.
4. O sentido da existência e a crise de finalidade
FRANKL, Viktor E. Em Busca de Sentido.
É a referência central para a dimensão existencial do artigo. Frankl apresenta sua experiência como prisioneiro em campos de concentração e desenvolve sua reflexão sobre a vontade de sentido. Sua contribuição permite compreender por que a eficiência material, a acumulação e a organização institucional não bastam, por si sós, para conferir significado à existência. A obra fundamenta a hipótese de que uma ordem social pode conservar sua capacidade operacional e, ainda assim, enfrentar uma crise de finalidade.
FRANKL, Viktor E. A Vontade de Sentido.
Complementa a obra anterior ao desenvolver aspectos conceituais da logoterapia e da busca humana por significado. É uma leitura indicada para aprofundar a distinção entre a satisfação de necessidades materiais e a descoberta de finalidades que orientam as escolhas e responsabilidades humanas.
5. Civilização, finalidade e crítica do progresso
DUROSELLE, Jean-Baptiste. Todo Império Perecerá.
Referência para a reflexão sobre a duração e a decadência das estruturas políticas. Sua inclusão permite estabelecer o contraste que orienta o artigo: a queda de um império político não implica necessariamente o desaparecimento das mentalidades e dos critérios de valor que se reproduzem através das gerações. A comparação com Guénon amplia o problema da permanência histórica, deslocando a atenção das instituições para os princípios que orientam a vida coletiva.
Síntese da bibliografia
As obras selecionadas desempenham funções distintas e complementares:
Aristóteles fornece a distinção entre os meios econômicos e os fins da vida.
Guénon oferece a crítica metafísica da predominância da quantidade.
Weber investiga a formação histórica de uma ética econômica e a transformação dos critérios de reconhecimento social.
Foucault permite examinar a relação entre saber, poder e condução das condutas.
Frankl introduz a dimensão existencial da vontade de sentido.
Duroselle fornece o contraponto histórico para pensar a duração e a decadência dos impérios.
A articulação entre esses autores não pressupõe que compartilhem a mesma filosofia ou que suas conclusões sejam equivalentes. A força da investigação está justamente em aproximar perspectivas diferentes para examinar um problema comum: o que acontece quando os instrumentos criados pelos homens deixam de servir a finalidades humanas claramente reconhecidas e passam a reivindicar autoridade sobre a própria existência?
É nessa pergunta que a crítica da crematística, a análise do poder, a hierarquia social fundada na riqueza e a crise de sentido convergem para a hipótese central do artigo: a possibilidade de que o império da quantidade perca sua legitimidade quando já não consegue justificar a finalidade de sua própria reprodução.
Nenhum comentário:
Postar um comentário