Introdução
A sociedade contemporânea elevou a abertura à condição de princípio universal.
Fala-se em sociedade aberta, economia aberta, ciência aberta, cultura aberta, fronteiras abertas e até espiritualidade aberta. O verbo abrir adquiriu um estatuto quase sagrado: quanto mais aberta for uma sociedade, mais livre e mais avançada ela parecerá.
Mas essa aparente evidência esconde uma questão fundamental: abrir para quê?
Toda ação humana supõe um fim: abre-se uma porta para entrar; abre-se um livro para aprender; abre-se a alma para amar. Quando o fim desaparece e a ação passa a justificar-se por si mesma, produz-se uma alteração profunda na ordem moral. A abertura deixa de ser meio e converte-se em fim.
Essa transformação não ocorreu por acaso. Ela foi precedida por uma mudança ainda mais radical: a modernidade passou a conceber a liberdade como um ato que encontra sua perfeição em si mesmo. Em outras palavras, a modernidade criou uma espécie de intransitividade do verbo divino. E a sociedade aberta é uma das consequências dessa transformação.
A gramática da ação humana
A gramática contém mais filosofia do que geralmente se imagina. Há verbos naturalmente transitivos: ama-se alguém; conhece-se alguma coisa; serve-se a uma causa; constrói-se uma cidade. A perfeição dessas ações depende de sua relação com um objeto. Elas são orientadas para algo que as transcende.
Quando o objeto desaparece, a ação torna-se autorreferente. Ama-se o amor; conhece-se pelo prazer de conhecer; escolhe-se apenas para continuar escolhendo; abre-se apenas para continuar abrindo. A transitividade desaparece.
A ação passa a bastar a si mesma. É precisamente essa transformação que caracteriza boa parte do espírito moderno.
Aristóteles: economia e crematística
Aristóteles compreendeu que toda atividade humana se ordena a um fim. A riqueza, por exemplo, não é um fim último. Ela serve à vida boa, pois serve à família e à cidade.
Por isso, ele distingue duas formas de aquisição: a primeira é a economia doméstica, a oikonomia. Nela, os bens materiais são meios ordenados a um bem humano superior.
A segunda é a crematística. Nela, a riqueza deixa de ser meio e transforma-se em finalidade autônoma. Não se acumula riqueza para viver bem. Vive-se para acumular riqueza. A ação torna-se circular. Seu fim está nela mesma.
Aristóteles vê nisso uma perversão da ordem natural, pois todo meio que se converte em fim absoluto tende ao infinito. E aquilo que tende ao infinito raramente produz satisfação.
A sociedade aberta corre risco semelhante, pois 1uando a abertura deixa de ser instrumento para o florescimento humano e passa a existir para si mesma, ela se transforma numa espécie de crematística política. Abre-se indefinidamente, multiplicam-se as possibilidades, mas já não se sabe em direção a qual bem tudo isso se orienta.
Mises e a praxeologia
A modernidade econômica radicalizou essa transformação. Ludwig von Mises definiu a economia como parte de uma ciência mais ampla: a praxeologia, isto é, a ciência da ação humana. Segundo ele, o homem age para substituir um estado de coisas menos satisfatório por outro mais satisfatório.
A definição é elegante, mas ela possui uma característica decisiva: ela não questiona qual é a hierarquia dos fins, pois a praxeologia descreve a ação - ela não julga seu objeto nem distingue, em sua estrutura lógica, entre quem busca riqueza, quem busca santidade ou quem busca poder. Dentro dessa lógica, Todos agem, todos escolhem. Todos procuram atingir seus objetivos. Neste sentido. a questão fundamental de Aristóteles desaparece: agir para quê?
Essa neutralidade possui consequências profundas. Se não existe um bem objetivo capaz de ordenar as ações humanas, então todas as finalidades tornam-se equivalentes. A ação deixa de ser medida pelo seu objeto.Passa a ser medida apenas pela sua eficácia.
Nesse sentido, a praxeologia não é necessariamente uma sistematização da crematística, mas ela se torna uma linguagem particularmente adequada para descrevê-la, uma vez que a crematística é precisamente a atividade que se recusa a perguntar pela finalidade superior da riqueza.
Ela quer apenas continuar acumulando como um fim si mesmo. Neste sentido. a praxeologia moderna corre o risco de transformar-se numa gramática dos meios sem finalidade última.
A intransitividade do verbo divino
Essa mudança não ocorreu apenas na economia. Ela possui raízes metafísicas.
A tradição clássica sempre compreendeu Deus como inteligência, verdade e amor. Seu agir é livre, mas não arbitrário. Deus cria porque Ele é bom; Ele Conhece porque Ele é a verdade. Ele ama porque Ele é amor. Sua liberdade não consiste em escolher qualquer coisa. Ela consiste em querer perfeitamente o bem.
A modernidade, porém, passou gradualmente a imaginar Deus de outra maneira. Um Deus definido sobretudo por Sua vontade: uma vontade absoluta, uma liberdade sem limites. A perfeição deixa de residir na ordenação ao bem - ela passa a residir na ausência de condicionamentos.
Cria-se, assim, uma espécie de intransitividade do verbo divino, onde o agir divino já não parece ordenar-se a nada além de si mesmo. E o homem, criado à imagem desse Deus reinterpretado, passa a desejar para si a mesma condição: ele não quer servir, eleNão quer obedecer, ele Não quer ordenar sua liberdade a uma verdade. Ele quer apenas permanecer livre. Livre para continuar escolhendo. Livre para permanecer aberto.
A sociedade aberta como consequência
A sociedade aberta é a expressão política dessa metafísica.
Ela não pergunta: qual é a vida boa? Qual é a verdade sobre o homem? Qual é o fim da liberdade?
Ela pergunta apenas: como preservar indefinidamente a possibilidade de escolher?
Toda finalidade objetiva torna-se suspeita. Toda hierarquia parece opressiva. Todo compromisso duradouro parece uma ameaça.
A abertura torna-se um valor absoluto, mas uma abertura absoluta é indistinguível do vazio, porque abrir pressupõe um destino. Uma porta aberta para lugar nenhum não conduz a parte alguma. Uma liberdade sem verdade não sabe o que escolher. Uma ação sem finalidade não sabe por que agir.
O amor líquido e a abertura infinita
É por isso que os fenômenos descritos por Zygmunt Bauman não se restringem aos relacionamentos. Eles expressam uma crise civilizacional. Ama-se enquanto for conveniente. Permanece-se no relacionamente enquanto houver satisfação. Escolhe-se enquanto houver alternativas. O compromisso passa a ser visto como perda ea fidelidade parece uma renúncia à liberdade. O amor transforma-se numa experiência e a liberdade transforma-se numa disponibilidade permanente. E a abertura converte-se em um fim em si mesmu. Tudo permanece aberto, mas nada permanece estável.
Conclusão
Talvez o maior problema da sociedade aberta não seja a abertura. O problema é a intransitividade: o homem precisa amar alguém; ele recisa conhecer alguma coisa; ele precisa servir a uma causa; ele precisa ordenar sua liberdade a um bem. Quando isso não acontece, a ação degenera - a economia converte-se em crematística; a liberdade converte-se em arbitrariedade e a política converte-se em administração de possibilidades. E a sociedade, embora extraordinariamente aberta, perde gradualmente a consciência do seu destino.
A questão decisiva do nosso tempo talvez não seja: "quanto devemos abrir?", mas: "qual é o bem em direção ao qual devemos abrir nossas vidas?"
Uma civilização fundada sobre verbos intransitivos pode multiplicar indefinidamente suas possibilidades, mas dificilmente saberá o que fazer com elas.
Bibliografia Comentada
1. Aristóteles. Política.
É a obra fundamental para a compreensão da distinção entre economia (oikonomia) e crematística (chrematistiké). Aristóteles argumenta que a riqueza deve estar subordinada à vida boa e critica a acumulação ilimitada de bens quando ela se torna um fim em si mesma. O capítulo dedicado à crematística constitui um dos pilares filosóficos deste ensaio.
Importância para o artigo: fornece a crítica clássica à intransitividade dos meios e à perversão das finalidades.
2. Aristóteles. Ética a Nicômaco.
Complementa a Política ao desenvolver a ideia de que toda ação humana tende a um fim e que existe um bem supremo (summum bonum) que ordena todos os demais bens. A felicidade (eudaimonia) não é mero prazer, mas a realização plena da natureza humana.
Importância para o artigo: fundamenta a noção de transitividade moral da ação humana.
3. Tomás de Aquino. Suma Teológica.
Especialmente as questões relativas à vontade, ao livre-arbítrio e ao fim último do homem. Tomás sustenta que a liberdade não consiste na ausência de finalidade, mas na capacidade racional de ordenar-se ao bem.
Importância para o artigo: permite distinguir o agir divino clássico da interpretação moderna criticada no ensaio.
4. Ludwig von Mises. Ação Humana.
Obra central da Escola Austríaca de Economia. Mises propõe a praxeologia como ciência geral da ação humana, abstraindo juízos morais sobre os fins perseguidos pelos agentes.
Importância para o artigo: representa o principal contraponto teórico. A crítica desenvolvida no ensaio não consiste em negar a praxeologia, mas em questionar sua neutralidade quanto à hierarquia dos fins e sua eventual afinidade com a lógica da crematística.
5. Karl Polanyi. A Grande Transformação.
Polanyi argumenta que a economia moderna deixou de estar inserida nas relações sociais e passou a dominá-las. O mercado deixa de ser instrumento da sociedade e torna-se seu princípio organizador.
Importância para o artigo: oferece uma crítica histórica e sociológica à autonomização dos meios econômicos.
6. Alasdair MacIntyre. Depois da Virtude.
MacIntyre sustenta que a modernidade fragmentou a ética ao abandonar a noção aristotélica de finalidade humana. Em consequência, os debates morais transformaram-se em disputas entre preferências subjetivas.
Importância para o artigo: reforça a tese de que a perda da transitividade moral conduz ao relativismo e à crise das instituições.
7. Karl Popper. A Sociedade Aberta e seus Inimigos.
Popper defende a sociedade aberta como uma ordem política baseada na crítica racional, na liberdade e na rejeição de sistemas fechados de pensamento.
Importância para o artigo: constitui o principal interlocutor e contraponto político do ensaio. A tese aqui desenvolvida não rejeita a abertura em si, mas questiona sua elevação a princípio absoluto e desvinculado de uma finalidade objetiva.
8. Zygmunt Bauman. Amor Líquido.
Bauman descreve a fragilidade dos vínculos humanos na modernidade tardia. Relações, compromissos e identidades tornam-se provisórios, refletindo uma cultura que valoriza mais a abertura das possibilidades do que a permanência.
Importância para o artigo: fornece exemplos concretos das consequências existenciais da intransitividade moderna.
9. João Paulo II. Veritatis Splendor.
Encíclica dedicada à relação entre liberdade e verdade. João Paulo II rejeita a ideia de uma liberdade desvinculada do bem objetivo e afirma que a verdade não limita a liberdade, mas a torna possível.
Importância para o artigo: oferece a crítica teológica mais direta à noção moderna de liberdade como pura autodeterminação.
10. João Paulo II. Centesimus Annus.
Encíclica social que reconhece as virtudes da economia de mercado, mas insiste em que a atividade econômica deve permanecer subordinada à dignidade da pessoa humana e ao bem comum.
Importância para o artigo: demonstra que a crítica à crematística não implica rejeição da economia de mercado, mas a necessidade de sua ordenação moral.
11. Mário de Andrade. Amar, Verbo Intransitivo.
Romance modernista cujo título inspira a analogia central deste ensaio. Embora a obra possua objetivos literários próprios, a expressão "verbo intransitivo" tornou-se uma metáfora poderosa para refletir sobre ações humanas que parecem encontrar sua finalidade em si mesmas.
Importância para o artigo: oferece a imagem literária que articula a reflexão filosófica sobre a intransitividade da ação na modernidade.
Essa bibliografia cria um arco intelectual bastante amplo: Aristóteles estabelece a teleologia; Tomás de Aquino a integra à teologia cristã; Mises e Popper representam aspectos centrais da modernidade; Polanyi, MacIntyre, Bauman e João Paulo II fornecem diferentes críticas aos efeitos da perda de uma finalidade objetiva da ação humana.