Pesquisar este blog

sábado, 13 de junho de 2026

A sociedade aberta e a questão da intransitividade do verbo divino criada pela modernidade

Introdução

A sociedade contemporânea elevou a abertura à condição de princípio universal.

Fala-se em sociedade aberta, economia aberta, ciência aberta, cultura aberta, fronteiras abertas e até espiritualidade aberta. O verbo abrir adquiriu um estatuto quase sagrado: quanto mais aberta for uma sociedade, mais livre e mais avançada ela parecerá.

Mas essa aparente evidência esconde uma questão fundamental: abrir para quê?

Toda ação humana supõe um fim: abre-se uma porta para entrar; abre-se um livro para aprender; abre-se a alma para amar. Quando o fim desaparece e a ação passa a justificar-se por si mesma, produz-se uma alteração profunda na ordem moral. A abertura deixa de ser meio e converte-se em fim.

Essa transformação não ocorreu por acaso. Ela foi precedida por uma mudança ainda mais radical: a modernidade passou a conceber a liberdade como um ato que encontra sua perfeição em si mesmo. Em outras palavras, a modernidade criou uma espécie de intransitividade do verbo divino. E a sociedade aberta é uma das consequências dessa transformação.

A gramática da ação humana

A gramática contém mais filosofia do que geralmente se imagina. Há verbos naturalmente transitivos: ama-se alguém; conhece-se alguma coisa; serve-se a uma causa;  constrói-se uma cidade. A perfeição dessas ações depende de sua relação com um objeto. Elas são orientadas para algo que as transcende.

Quando o objeto desaparece, a ação torna-se autorreferente. Ama-se o amor; conhece-se pelo prazer de conhecer; escolhe-se apenas para continuar escolhendo; abre-se apenas para continuar abrindo. A transitividade desaparece.

A ação passa a bastar a si mesma. É precisamente essa transformação que caracteriza boa parte do espírito moderno.

Aristóteles: economia e crematística

Aristóteles compreendeu que toda atividade humana se ordena a um fim. A riqueza, por exemplo, não é um fim último. Ela serve à vida boa, pois serve à família e à cidade. 

Por isso, ele distingue duas formas de aquisição: a primeira é a economia doméstica, a oikonomia. Nela, os bens materiais são meios ordenados a um bem humano superior.

A segunda é a crematística. Nela, a riqueza deixa de ser meio e transforma-se em finalidade autônoma. Não se acumula riqueza para viver bem. Vive-se para acumular riqueza. A ação torna-se circular. Seu fim está nela mesma. 

Aristóteles vê nisso uma perversão da ordem natural, pois todo meio que se converte em fim absoluto tende ao infinito. E aquilo que tende ao infinito raramente produz satisfação.

A sociedade aberta corre risco semelhante, pois 1uando a abertura deixa de ser instrumento para o florescimento humano e passa a existir para si mesma, ela se transforma numa espécie de crematística política. Abre-se indefinidamente, multiplicam-se as possibilidades, mas já não se sabe em direção a qual bem tudo isso se orienta.

Mises e a praxeologia

A modernidade econômica radicalizou essa transformação. Ludwig von Mises definiu a economia como parte de uma ciência mais ampla: a praxeologia, isto é, a ciência da ação humana. Segundo ele, o homem age para substituir um estado de coisas menos satisfatório por outro mais satisfatório.

A definição é elegante, mas ela possui uma característica decisiva: ela não questiona qual é a hierarquia dos fins, pois a praxeologia descreve a ação - ela não julga seu objeto nem distingue, em sua estrutura lógica, entre quem busca riqueza, quem busca santidade ou quem busca poder. Dentro dessa lógica, Todos agem, todos escolhem. Todos procuram atingir seus objetivos. Neste sentido. a questão fundamental de Aristóteles desaparece: agir para quê?

Essa neutralidade possui consequências profundas. Se não existe um bem objetivo capaz de ordenar as ações humanas, então todas as finalidades tornam-se equivalentes. A ação deixa de ser medida pelo seu objeto.Passa a ser medida apenas pela sua eficácia.

Nesse sentido, a praxeologia não é necessariamente uma sistematização da crematística, mas ela se torna uma linguagem particularmente adequada para descrevê-la, uma vez que a crematística é precisamente a atividade que se recusa a perguntar pela finalidade superior da riqueza.

Ela quer apenas continuar acumulando como um fim si mesmo. Neste sentido. a praxeologia moderna corre o risco de transformar-se numa gramática dos meios sem finalidade última.

A intransitividade do verbo divino

Essa mudança não ocorreu apenas na economia. Ela possui raízes metafísicas.

A tradição clássica sempre compreendeu Deus como inteligência, verdade e amor. Seu agir é livre, mas não arbitrário. Deus cria porque Ele é bom; Ele Conhece porque Ele é a verdade. Ele ama porque Ele é amor. Sua liberdade não consiste em escolher qualquer coisa. Ela consiste em querer perfeitamente o bem.

A modernidade, porém, passou gradualmente a imaginar Deus de outra maneira. Um Deus definido sobretudo por Sua vontade: uma vontade absoluta, uma liberdade sem limites. A perfeição deixa de residir na ordenação ao bem - ela passa a residir na ausência de condicionamentos.

Cria-se, assim, uma espécie de intransitividade do verbo divino, onde o agir divino já não parece ordenar-se a nada além de si mesmo. E o homem, criado à imagem desse Deus reinterpretado, passa a desejar para si a mesma condição: ele não quer servir, eleNão quer obedecer, ele Não quer ordenar sua liberdade a uma verdade. Ele quer apenas permanecer livre. Livre para continuar escolhendo. Livre para permanecer aberto.

A sociedade aberta como consequência

A sociedade aberta é a expressão política dessa metafísica.

Ela não pergunta: qual é a vida boa? Qual é a verdade sobre o homem? Qual é o fim da liberdade?

Ela pergunta apenas: como preservar indefinidamente a possibilidade de escolher? 

Toda finalidade objetiva torna-se suspeita. Toda hierarquia parece opressiva. Todo compromisso duradouro parece uma ameaça.

A abertura torna-se um valor absoluto, mas uma abertura absoluta é indistinguível do vazio, porque abrir pressupõe um destino. Uma porta aberta para lugar nenhum não conduz a parte alguma. Uma liberdade sem verdade não sabe o que escolher. Uma ação sem finalidade não sabe por que agir.

O amor líquido e a abertura infinita

É por isso que os fenômenos descritos por Zygmunt Bauman não se restringem aos relacionamentos. Eles expressam uma crise civilizacional. Ama-se enquanto for conveniente. Permanece-se no relacionamente enquanto houver satisfação. Escolhe-se enquanto houver alternativas. O compromisso passa a ser visto como perda ea fidelidade parece uma renúncia à liberdade. O amor transforma-se numa experiência e a liberdade transforma-se numa disponibilidade permanente. E a abertura converte-se em um fim em si mesmu. Tudo permanece aberto, mas nada permanece estável.

Conclusão

Talvez o maior problema da sociedade aberta não seja a abertura. O problema é a intransitividade: o homem precisa amar alguém; ele recisa conhecer alguma coisa; ele precisa servir a uma causa; ele precisa ordenar sua liberdade a um bem. Quando isso não acontece, a ação degenera - a economia converte-se em crematística; a liberdade converte-se em arbitrariedade e a política converte-se em administração de possibilidades. E a sociedade, embora extraordinariamente aberta, perde gradualmente a consciência do seu destino.

A questão decisiva do nosso tempo talvez não seja: "quanto devemos abrir?", mas: "qual é o bem em direção ao qual devemos abrir nossas vidas?"

Uma civilização fundada sobre verbos intransitivos pode multiplicar indefinidamente suas possibilidades, mas dificilmente saberá o que fazer com elas.

Bibliografia Comentada

1. Aristóteles. Política.

É a obra fundamental para a compreensão da distinção entre economia (oikonomia) e crematística (chrematistiké). Aristóteles argumenta que a riqueza deve estar subordinada à vida boa e critica a acumulação ilimitada de bens quando ela se torna um fim em si mesma. O capítulo dedicado à crematística constitui um dos pilares filosóficos deste ensaio.

Importância para o artigo: fornece a crítica clássica à intransitividade dos meios e à perversão das finalidades.

2. Aristóteles. Ética a Nicômaco.

Complementa a Política ao desenvolver a ideia de que toda ação humana tende a um fim e que existe um bem supremo (summum bonum) que ordena todos os demais bens. A felicidade (eudaimonia) não é mero prazer, mas a realização plena da natureza humana.

Importância para o artigo: fundamenta a noção de transitividade moral da ação humana.

3. Tomás de Aquino. Suma Teológica.

Especialmente as questões relativas à vontade, ao livre-arbítrio e ao fim último do homem. Tomás sustenta que a liberdade não consiste na ausência de finalidade, mas na capacidade racional de ordenar-se ao bem.

Importância para o artigo: permite distinguir o agir divino clássico da interpretação moderna criticada no ensaio.

4. Ludwig von Mises. Ação Humana.

Obra central da Escola Austríaca de Economia. Mises propõe a praxeologia como ciência geral da ação humana, abstraindo juízos morais sobre os fins perseguidos pelos agentes.

Importância para o artigo: representa o principal contraponto teórico. A crítica desenvolvida no ensaio não consiste em negar a praxeologia, mas em questionar sua neutralidade quanto à hierarquia dos fins e sua eventual afinidade com a lógica da crematística.

5. Karl Polanyi. A Grande Transformação.

Polanyi argumenta que a economia moderna deixou de estar inserida nas relações sociais e passou a dominá-las. O mercado deixa de ser instrumento da sociedade e torna-se seu princípio organizador.

Importância para o artigo: oferece uma crítica histórica e sociológica à autonomização dos meios econômicos.

6. Alasdair MacIntyre. Depois da Virtude.

MacIntyre sustenta que a modernidade fragmentou a ética ao abandonar a noção aristotélica de finalidade humana. Em consequência, os debates morais transformaram-se em disputas entre preferências subjetivas.

Importância para o artigo: reforça a tese de que a perda da transitividade moral conduz ao relativismo e à crise das instituições.

7. Karl Popper. A Sociedade Aberta e seus Inimigos.

Popper defende a sociedade aberta como uma ordem política baseada na crítica racional, na liberdade e na rejeição de sistemas fechados de pensamento.

Importância para o artigo: constitui o principal interlocutor e contraponto político do ensaio. A tese aqui desenvolvida não rejeita a abertura em si, mas questiona sua elevação a princípio absoluto e desvinculado de uma finalidade objetiva.

8. Zygmunt Bauman. Amor Líquido.

Bauman descreve a fragilidade dos vínculos humanos na modernidade tardia. Relações, compromissos e identidades tornam-se provisórios, refletindo uma cultura que valoriza mais a abertura das possibilidades do que a permanência.

Importância para o artigo: fornece exemplos concretos das consequências existenciais da intransitividade moderna.

9. João Paulo II. Veritatis Splendor.

Encíclica dedicada à relação entre liberdade e verdade. João Paulo II rejeita a ideia de uma liberdade desvinculada do bem objetivo e afirma que a verdade não limita a liberdade, mas a torna possível.

Importância para o artigo: oferece a crítica teológica mais direta à noção moderna de liberdade como pura autodeterminação.

10. João Paulo II. Centesimus Annus.

Encíclica social que reconhece as virtudes da economia de mercado, mas insiste em que a atividade econômica deve permanecer subordinada à dignidade da pessoa humana e ao bem comum.

Importância para o artigo: demonstra que a crítica à crematística não implica rejeição da economia de mercado, mas a necessidade de sua ordenação moral.

11. Mário de Andrade. Amar, Verbo Intransitivo.

Romance modernista cujo título inspira a analogia central deste ensaio. Embora a obra possua objetivos literários próprios, a expressão "verbo intransitivo" tornou-se uma metáfora poderosa para refletir sobre ações humanas que parecem encontrar sua finalidade em si mesmas.

Importância para o artigo: oferece a imagem literária que articula a reflexão filosófica sobre a intransitividade da ação na modernidade.

 Essa bibliografia cria um arco intelectual bastante amplo: Aristóteles estabelece a teleologia; Tomás de Aquino a integra à teologia cristã; Mises e Popper representam aspectos centrais da modernidade; Polanyi, MacIntyre, Bauman e João Paulo II fornecem diferentes críticas aos efeitos da perda de uma finalidade objetiva da ação humana.

Sztuczna inteligencja jako kultura praktycznej wolności

Niektórzy postrzegają sztuczną inteligencję jedynie jako narzędzie automatyzacji. Inni widzą w niej zagrożenie dla ludzkiej pracy. Istnieje jednak trzecia perspektywa, rzadziej omawiana, a być może głębsza: sztuczna inteligencja jako instrument praktycznej wolności, a przez to również jako zjawisko kulturowe.

Weźmy za przykład wystawianie faktur i dokumentów podatkowych. W kraju, w którym ich wystawianie staje się coraz powszechniejszym obowiązkiem życia gospodarczego — zarówno dla drobnego przedsiębiorcy, jak i dla przedstawiciela wolnego zawodu — biurokracja związana z tą czynnością może łatwo przekształcić się w prawdziwe praktyczne piekło. Nie wystarczy sprzedać produktu lub wykonać usługę; trzeba znać przepisy podatkowe, wypełniać formularze, posługiwać się certyfikatami cyfrowymi, rozumieć integracje z urzędami oraz stale śledzić zmiany legislacyjne.

Przez długi czas technologia jedynie łagodziła tę trudność. Pojawiły się programy do wystawiania faktur, interfejsy graficzne i zintegrowane systemy zarządzania. Mimo to użytkownik nadal musiał nauczyć się języka maszyn i biurokracji.

Sztuczna inteligencja odwraca tę relację. Dziś zaczynają pojawiać się wyspecjalizowane systemy AI, których zadaniem jest tłumaczenie języka ludzkiego na język biurokracji. Użytkownik nie musi już znać wewnętrznej struktury systemu. Wystarczy powiedzieć: „Wystaw fakturę na 100 złotych za sprzedaż książki dla określonego klienta”. Maszyna interpretuje polecenie, organizuje dane i wykonuje operację. Obowiązek pozostaje. To, co znika, to tarcie.

Ten punkt jest fundamentalny, ponieważ wolność nie polega koniecznie na zniesieniu wszelkich obowiązków, lecz na zmniejszeniu ciężaru, jaki nakładają one na ludzkie życie. Kiedy technologia obniża intelektualny i czasowy koszt spełnienia społecznego wymogu, zwiększa praktyczną wolność jednostki. A to jest kultura, ponieważ kultura to nie tylko literatura, muzyka czy sztuki plastyczne, lecz także zbiór technik, nawyków i instytucji, które pozwalają człowiekowi lepiej organizować własną egzystencję.

Ogień był kulturą. Pismo było kulturą. Druk był kulturą. Komputer osobisty był kulturą. Sztuczna inteligencja, upraszczając złożone zadania, wpisuje się w tę samą tradycję.

To prawda, że złożoność nie znika. Nadal istnieje w serwerach, algorytmach, integracjach i normach prawnych. Przestaje jednak być stałym zmartwieniem zwykłego obywatela.

Dobra technologia zawsze działała w ten sposób: ukrywa złożoność, aby poszerzyć ludzkie możliwości. Kiedy ktoś prowadzi samochód, nie musi rozumieć wszystkich szczegółów działania silnika spalinowego. Kiedy korzysta z telefonu komórkowego, nie musi znać protokołów komunikacji bezprzewodowej. Podobnie, wystawiając fakturę za pomocą AI, użytkownik nie musi opanować całej inżynierii podatkowej systemu.

W tym właśnie momencie technologia staje się niewidzialna — i właśnie dlatego, że staje się niewidzialna, integruje się z obyczajami, zmienia zachowania i przekształca sposób, w jaki ludzie odnoszą się do siebie nawzajem oraz do instytucji.

Istnieje jednak pewien paradoks: im skuteczniejsza staje się technologia w realizowaniu obowiązków biurokratycznych, tym łatwiej rządom i organizacjom tworzyć nowe wymagania. Jeśli bowiem zgodność z przepisami staje się tania i prosta, może wzrosnąć pokusa zwiększania regulacji. Tym samym ta sama technologia, która poszerza praktyczną wolność, może również podtrzymywać coraz bardziej złożone systemy administracyjne.

Ryzyko to nie przekreśla jej korzyści. Przypomina jedynie, że ludzka wolność zależy nie tylko od dostępnych narzędzi, lecz także od roztropności, z jaką budowane są instytucje.

Mimo wszystko, z punktu widzenia codziennego doświadczenia, trudno zaprzeczyć, że wyspecjalizowane systemy AI stanowią znaczący postęp. Przekształcają to, co wcześniej było uciążliwym obowiązkiem, w rozmowę. Zamieniają pilną konieczność w wygodę; przemieniają potencjalne praktyczne piekło w coś bliskiego operacyjnemu rajowi. A czyniąc to, nie tylko automatyzują zadania: kształtują nawyki, redefiniują oczekiwania i otwierają nowe formy współżycia społecznego.

Dlatego sztucznej inteligencji nie należy rozumieć wyłącznie jako innowacji technologicznej. Ona już zaczęła stawać się kulturą.

Bibliografia komentowana

1. Jacques Ellul — Technika albo stawka wieku

Ellul był jednym z pierwszych myślicieli, którzy zrozumieli, że technika nie jest jedynie zbiorem maszyn, lecz systemem reorganizującym całe społeczeństwo według kryteriów efektywności. Jego dzieło jest fundamentalne dla zrozumienia, w jaki sposób sztuczna inteligencja może zmieniać kulturę, obyczaje i sam sposób, w jaki człowiek odnosi się do instytucji.

Komentarz: Choć Ellul prezentuje dość pesymistyczną wizję techniki, jego analiza nieustannego dążenia do efektywności pozostaje niezwykle aktualna.

2. Lewis Mumford — Technika i cywilizacja

Mumford utrzymuje, że technologia powinna być rozumiana jako integralna część kultury, a nie coś od niej oddzielonego. Pokazuje, w jaki sposób różne cywilizacje rozwijały techniki, które kształtowały ich wartości, miasta i style życia.

Komentarz: To znakomita książka wspierająca tezę, że sztuczna inteligencja nie jest jedynie innowacją technologiczną, lecz nowym etapem rozwoju kultury.

3. Friedrich Hayek — Droga do zniewolenia

Hayek analizuje, w jaki sposób nadmiernie scentralizowane systemy mogą ograniczać wolność jednostki. Choć nie zajmuje się sztuczną inteligencją, jego refleksja pomaga zrozumieć paradoks przedstawiony w artykule: technologie ułatwiające spełnianie obowiązków mogą jednocześnie sprzyjać rozszerzaniu kontroli biurokratycznej.

Komentarz: Szczególnie interesująca lektura dla tych, którzy chcą zastanowić się nad granicami między efektywnością administracyjną a wolnością.

4. Joseph Schumpeter — Kapitalizm, socjalizm i demokracja

Schumpeter przedstawia koncepcję „twórczej destrukcji”, zgodnie z którą nowe technologie zastępują dawne formy organizacji gospodarczej. Wyspecjalizowana sztuczna inteligencja może być postrzegana właśnie w ten sposób: zastępuje tradycyjne procedury biurokratyczne procesami konwersacyjnymi i zautomatyzowanymi.

Komentarz: Pojęcie twórczej destrukcji stało się niemal niezbędne do zrozumienia współczesnej gospodarki.

5. Marshall McLuhan — Zrozumieć media. Przedłużenia człowieka

McLuhan twierdzi, że każda technologia jest przedłużeniem jakiejś ludzkiej zdolności. Młotek przedłuża rękę; samochód przedłuża nogi; media elektroniczne przedłużają układ nerwowy.

Komentarz: Sztuczną inteligencję można interpretować jako przedłużenie języka oraz ludzkiej zdolności organizowania złożonych informacji. Z tej perspektywy AI wystawiająca faktury nie zastępuje człowieka, lecz zwiększa jego zdolność działania.

6. Peter Drucker — Społeczeństwo pokapitalistyczne

Drucker opisuje przejście od gospodarki opartej na pracy fizycznej do gospodarki opartej na wiedzy. Jego zdaniem praca biurokratyczna będzie nieustannie reorganizowana przez technologię.

Komentarz: Wiele zjawisk, które dziś kojarzymy ze sztuczną inteligencją, było obecnych już w prognozach Druckera, choć pod innymi nazwami.

7. Martin Heidegger — Pytanie o technikę

Heidegger próbuje odpowiedzieć na pytanie: czym jest technika w swojej istocie? Jego odpowiedź jest głęboka i niepokojąca: technika nie jest po prostu narzędziem; jest sposobem ujawniania i organizowania świata.

Komentarz: To dzieło trudne, lecz niezwykle bogate. Pozwala zrozumieć, że sztuczna inteligencja zmienia nie tylko to, co robimy, ale również sposób, w jaki postrzegamy rzeczywistość.

8. Yuval Noah Harari — Homo Deus

Harari bada społeczne i ekonomiczne konsekwencje automatyzacji oraz sztucznej inteligencji. Choć niektóre z jego przewidywań są kontrowersyjne, książka stanowi dobre wprowadzenie do współczesnej debaty nad relacją między technologią, pracą i wolnością.

Komentarz: To przystępna i prowokująca lektura dla tych, którzy chcą uzyskać ogólny obraz problemu przed sięgnięciem po bardziej technicznych autorów.

9. Święty Tomasz z Akwinu — Suma teologiczna (zwłaszcza kwestie dotyczące roztropności i sztuki)

Choć dzieło powstało w XIII wieku, wyraźnie rozróżnia technikę (sztukę) i moralność (roztropność). Technika uczy, jak dobrze coś wykonać; roztropność uczy, jak właściwie używać środków dla dobra człowieka.

Komentarz: Rozróżnienie to pozostaje niezwykle aktualne. AI może uczynić biurokrację bardziej efektywną, ale decyzja o tym, które formy biurokracji są sprawiedliwe i konieczne, nadal pozostaje kwestią moralną i polityczną.

Uwaga końcowa

Gdyby całą tę bibliografię trzeba było streścić w jednym zdaniu, brzmiałoby ono następująco:

Technologia nie eliminuje ludzkiej kondycji; reorganizuje warunki, w których człowiek korzysta ze swojej wolności.

Wyspecjalizowana sztuczna inteligencja, przekształcając biurokrację w rozmowę i złożoność w wygodę, jest być może jedynie najnowszym — i najbardziej imponującym — przykładem tego tysiącletniego procesu.

A inteligência artificial como cultura de liberdade prática

Há quem veja a inteligência artificial apenas como uma ferramenta de automação. Outros a enxergam como uma ameaça ao trabalho humano. Entretanto, existe uma terceira perspectiva, menos discutida e talvez mais profunda: a inteligência artificial como instrumento de liberdade prática e, por isso mesmo, como um fenômeno cultural.

Tomemos como exemplo a emissão de notas fiscais: num país em que a emissão de nota fiscal se tornou uma obrigação cada vez mais presente na vida econômica, desde o pequeno comerciante até o profissional liberal, a burocracia associada a essa atividade pode facilmente transformar-se num verdadeiro inferno prático. Não basta vender um produto ou prestar um serviço; é preciso conhecer regras tributárias, preencher campos, lidar com certificados digitais, compreender integrações com prefeituras e secretarias da fazenda e manter-se atualizado diante das constantes mudanças legislativas.

Durante muito tempo, a tecnologia apenas amenizou essa dificuldade. Surgiram programas de emissão de notas, interfaces gráficas e sistemas integrados de gestão. Ainda assim, o usuário precisava aprender a linguagem da máquina e da burocracia.

A inteligência artificial inverte essa relação. Hoje começam a surgir IAs especializadas cuja função é traduzir a linguagem humana para a linguagem burocrática. O usuário não precisa mais conhecer a estrutura interna do sistema. Basta dizer: "Emita uma nota de R$ 100 referente à venda de um livro para determinado cliente". A máquina interpreta, organiza os dados e realiza a operação. A obrigação permanece. O que desaparece é a fricção.

Esse ponto é fundamental, pois a liberdade não consiste necessariamente em abolir todas as obrigações, mas em reduzir o peso que elas exercem sobre a vida humana. Quando uma tecnologia diminui o custo intelectual e temporal de uma exigência social, ela aumenta a liberdade prática do indivíduo. E isso é cultura, pois ela não é apenas literatura, música ou artes plásticas mas também é o conjunto de técnicas, hábitos e instituições que permitem ao homem organizar melhor a sua existência. O fogo foi cultura. A escrita foi cultura. A imprensa foi cultura. O computador pessoal foi cultura. A inteligência artificial, ao simplificar tarefas complexas, participa dessa mesma tradição.

É verdade que a complexidade não desaparece. Ela continua existindo nos servidores, nos algoritmos, nas integrações e nas normas jurídicas. Mas deixa de ser uma preocupação constante para o cidadão comum.

A boa tecnologia sempre operou dessa forma: ela esconde a complexidade para ampliar as capacidades humanas.Quando alguém dirige um automóvel, não precisa compreender todos os detalhes da combustão interna. Quando utiliza um telefone celular, não necessita conhecer os protocolos de comunicação sem fio. Da mesma forma, ao emitir uma nota fiscal por meio de uma IA, o usuário não precisa dominar toda a engenharia tributária do sistema. É neste momento que a tecnologia torna-se invisível. - e é justamente por se tornar invisível que ela se integra aos costumes, altera comportamentos e modifica a forma como as pessoas se relacionam entre si e com as instituições.

Existe, entretanto, um paradoxo: quanto mais eficiente se torna a tecnologia para cumprir obrigações burocráticas, mais fácil pode ser para governos e organizações criar novas exigências. Afinal, se a conformidade é barata e simples, a tentação de aumentar a regulamentação pode crescer. Assim, a mesma tecnologia que amplia a liberdade prática pode também sustentar sistemas administrativos cada vez mais sofisticados.

Esse risco não invalida seus benefícios. Apenas recorda que a liberdade humana depende não apenas das ferramentas disponíveis, mas também da prudência com que as instituições são construídas.

Ainda assim, do ponto de vista da experiência cotidiana, é difícil negar que as IAs especializadas representam um avanço significativo. Elas transformam o que antes era uma atividade árdua numa conversa, pois elas convertem necessidade urgente em conveniência; elas transformam um potencial inferno prático em algo próximo de um paraíso operacional - e, ao fazer isso, não apenas automatizam tarefas: moldam hábitos, redefinem expectativas e inauguram novas formas de convivência social.

Por isso, a inteligência artificial não deve ser entendida apenas como uma inovação tecnológica. Ela já começou a tornar-se cultura.

Bibliografia Comentada

1. Jacques Ellul — A Técnica e o Desafio do Século

Ellul foi um dos primeiros pensadores a compreender que a técnica não é apenas um conjunto de máquinas, mas um sistema que reorganiza toda a sociedade segundo critérios de eficiência. Sua obra é fundamental para entender como a inteligência artificial pode alterar a cultura, os costumes e a própria forma como o homem se relaciona com as instituições.

Comentário: Embora Ellul tenha uma visão bastante pessimista da técnica, sua análise da busca incessante pela eficiência permanece extremamente atual.

2. Lewis Mumford — Técnica e Civilização

Mumford sustenta que a tecnologia deve ser entendida como parte integrante da cultura e não como algo separado dela. O autor mostra como diferentes civilizações desenvolveram técnicas que moldaram seus valores, suas cidades e seus modos de vida.

Comentário: É uma excelente obra para sustentar a tese de que a inteligência artificial não é apenas uma inovação tecnológica, mas uma nova etapa da cultura.

3. Friedrich Hayek — O Caminho da Servidão

Hayek discute como sistemas excessivamente centralizados podem restringir a liberdade individual. Embora não trate de inteligência artificial, sua reflexão é útil para compreender o paradoxo apresentado no artigo: tecnologias que facilitam o cumprimento de obrigações também podem favorecer a expansão do controle burocrático.

Comentário: A leitura é particularmente interessante para quem deseja refletir sobre os limites entre eficiência administrativa e liberdade.

4. Joseph Schumpeter — Capitalismo, Socialismo e Democracia

Schumpeter apresenta o conceito de "destruição criadora", segundo o qual novas tecnologias substituem antigas formas de organização econômica. A inteligência artificial especializada pode ser vista precisamente sob essa ótica: ela substitui procedimentos burocráticos tradicionais por processos conversacionais e automatizados.

Comentário: O conceito de destruição criadora tornou-se praticamente indispensável para compreender a economia contemporânea.

5. Marshall McLuhan — Os meios de comunicação como extensões do homem

McLuhan defende que toda tecnologia é uma extensão de alguma faculdade humana. O martelo prolonga a mão; o automóvel prolonga os pés; os meios eletrônicos prolongam o sistema nervoso.

Comentário: A inteligência artificial pode ser interpretada como uma extensão da linguagem e da capacidade humana de organizar informações complexas. Sob essa perspectiva, uma IA que emite notas fiscais não substitui o homem: ela amplia sua capacidade de agir.

6. Peter Drucker — Sociedade Pós-Capitalista

Drucker descreve a passagem de uma economia baseada na força física para uma economia baseada no conhecimento. O trabalho burocrático, segundo ele, tende a ser reorganizado continuamente pela tecnologia.

Comentário: Muitos dos fenômenos que hoje associamos à inteligência artificial já estavam presentes nas previsões de Drucker, ainda que sob outras formas.

7. Martin Heidegger — A Questão da Técnica

Heidegger procura responder à pergunta: o que é a técnica em sua essência? Sua resposta é profunda e inquietante: a técnica não é simplesmente um instrumento; ela é uma forma de revelar e organizar o mundo.

Comentário: Trata-se de uma obra difícil, mas extremamente rica. Ela permite compreender que a inteligência artificial modifica não apenas o que fazemos, mas também a maneira como percebemos a realidade.

8. Yuval Noah Harari — Homo Deus

Harari explora as consequências sociais e econômicas da automação e da inteligência artificial. Embora algumas de suas previsões sejam controversas, a obra é útil para introduzir o debate contemporâneo sobre a relação entre tecnologia, trabalho e liberdade.

Comentário: É uma leitura acessível e provocativa, adequada para quem deseja um panorama geral antes de se aprofundar em autores mais técnicos.

9. Santo Tomás de Aquino — Suma Teológica (especialmente as questões sobre prudência e arte)

Embora escrita no século XIII, a obra distingue claramente entre técnica (arte) e moral (prudência). A técnica ensina a fazer bem alguma coisa; a prudência ensina a usar corretamente os meios em vista do bem humano.

Comentário: Essa distinção permanece extremamente atual. Uma IA pode tornar a burocracia mais eficiente, mas a decisão sobre quais burocracias são justas ou necessárias continua sendo uma questão moral e política.

Consideração Final

Se tivesse de resumir toda essa bibliografia numa única ideia, ela seria a seguinte:

A tecnologia não elimina a condição humana; ela reorganiza as condições sob as quais o homem exerce sua liberdade.

A inteligência artificial especializada, ao converter burocracia em conversa e complexidade em conveniência, talvez seja apenas o exemplo mais recente — e mais impressionante — desse processo milenar.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

A República já caiu por terra (ao menos, no campo símbólico)

1) No filme Guerra de Canudos, Antônio Conselheiro (interpretado por José Wilker) havia feito esta seguinte profecia: "a República há de cair por terra".

2) O primeiro passo da queda da República se deu na ordem simbólica: a natureza dos símbolos de seus símbolos, por ser revolucionária e anticristã, foi transformada em símbolos bolsonaristas e patrióticos, a ponto de serem a síntese de seu lema: Deus, Pátria, Família e Liberdade.

3) Se os símbolos dizem o oposto daquilo que o regime deseja transmitir, surge naturalmente a demanda por um regime que faça mais sentido a essa nova ordem de coisas. E neste sentido: o passado monárquico transmite melhor isso do que o regime republicano., pois a verdade é o fundamento da liberdade.

José Octavio Dettmann

Rio de Janeiro, 08 de junho de 2026 (data da postagem original).

O Governo Bolsonaro ou a gênese da transformação dos símbolos revolucionários da República em símbolos patrióticos

Há um erro muito comum na análise política contemporânea: acreditar que o significado de um símbolo é determinado para sempre pelas circunstâncias de sua origem. A história demonstra precisamente o contrário. Os símbolos sobrevivem aos regimes que os criaram e frequentemente acabam servindo a causas muito diferentes daquelas que lhes deram nascimento.

Os símbolos da República brasileira são um bom exemplo desse fenômeno. A bandeira nacional, o hino republicano e os demais emblemas surgidos após a queda da monarquia não foram concebidos como elementos neutros. Eles nasceram como instrumentos relvolucionários de legitimação de uma nova ordem política. Sua função era substituir os símbolos do Império e consolidar a memória de um novo regime fundado sobre a ruptura institucional de 1889.

Sob esse aspecto, pode-se dizer que os símbolos republicanos possuíam originalmente um caráter revolucionário, de destruir a memória do regime anterior. Eles representavam a vitória de uma nova ordem sobre uma ordem anterior. Sua própria existência dependia do esquecimento progressivo dos símbolos monárquicos que os precederam.

Durante décadas, essa tradição revolucionária permaneceu relativamente estável. Os símbolos nacionais continuaram vinculados à narrativa oficial da República, servindo como instrumentos de integração política e cultural do país. Entretanto, os símbolos não pertencem eternamente aos grupos que os criaram. Quando são apropriados por novas gerações, podem adquirir significados inteiramente diversos.

Foi justamente isso que ocorreu durante a ascensão do movimento político associado a Jair Bolsonaro. A bandeira nacional, em especial, deixou de ser percebida apenas como um símbolo do regime republicano e passou a ser utilizada por milhões de brasileiros como expressão de patriotismo, identidade nacional e apego a determinadas virtudes cívicas. A cor verde e amarela tornou-se um sinal de pertencimento nacional muito mais do que um símbolo de fidelidade a uma tradição revolucionária específica.

Esse processo produziu um efeito curioso. Ao serem incorporados por uma parcela significativa da população como símbolos patrióticos, os antigos símbolos revolucionários perderam parte de sua função original. Já não serviam prioritariamente para representar uma ruptura com o passado, mas para afirmar a continuidade histórica da nação.

Tal transformação ajuda a compreender a reação de setores da esquerda. Quando um símbolo deixa de cumprir sua função revolucionária e passa a ser identificado com valores patrióticos ou conservadores, ele perde utilidade como instrumento de mobilização revolucionária. Surge então a necessidade de criar novos símbolos, novas palavras de ordem e novas formas de representação capazes de desempenhar a função anteriormente exercida pelos antigos emblemas.

Essa dinâmica não é exclusiva do Brasil. Diversos movimentos políticos ao longo da história abandonaram símbolos outrora fundamentais quando estes passaram a ser apropriados pelos seus adversários. O conflito político não ocorre apenas no campo das instituições, mas também no campo dos significados.

Essa observação conduz a uma conclusão ainda mais interessante. Muitos críticos de Bolsonaro costumavam classificá-lo como revolucionário. Contudo, se examinarmos o fenômeno sob a perspectiva simbólica, talvez tenha ocorrido justamente o contrário. Uma das atitudes mais eficazes contra uma tradição revolucionária consiste em retirar dela seus instrumentos de mobilização, convertendo-os em símbolos de continuidade, identidade nacional e lealdade à comunidade política.

Nesse sentido, a transformação dos símbolos republicanos em símbolos patrióticos representaria um processo de neutralização de seu conteúdo revolucionário original. A bandeira deixaria de ser um instrumento de ruptura para tornar-se um instrumento de coesão nacional.

Isso não significa que os símbolos monárquicos tenham perdido sua importância histórica. Pelo contrário. Eles continuam representando uma tradição anterior à República e podem ser objeto de restauração cultural, histórica ou política por aqueles que os consideram mais adequados à identidade nacional brasileira.

O ponto central, porém, permanece o mesmo: os símbolos não são prisioneiros de sua origem. O significado político de um símbolo é determinado menos pelo momento em que ele foi criado do que pelo uso que as gerações posteriores fazem dele. Quando um povo adota um símbolo e lhe atribui um novo sentido, a história desse símbolo passa a seguir um caminho que seus criadores jamais poderiam controlar.

Bibliografia comentada

ROYCE, Josiah. A Filosofia da Lealdade.

Obra fundamental para compreender como comunidades políticas e culturais se organizam em torno de símbolos, tradições e causas comuns. Embora Royce não trate especificamente do caso brasileiro, sua teoria da lealdade ajuda a entender como um símbolo pode mudar de significado quando passa a servir a uma nova comunidade de fiéis. Para a tese deste artigo, a lealdade é mais importante do que a origem histórica do símbolo.

KIRK, Russell. The Conservative Mind.

Russell Kirk demonstra que a tradição não é uma peça de museu, mas um organismo vivo que incorpora elementos novos ao longo do tempo. Sua análise ajuda a compreender como símbolos criados em um contexto revolucionário podem ser absorvidos por uma cultura conservadora e receber novos significados sem perder sua capacidade de mobilização.

VOEGELIN, Eric. Religiões Políticas.

Voegelin examina o modo como movimentos ideológicos modernos utilizam símbolos, rituais e mitos para criar formas de adesão coletiva. Sua obra permite compreender por que os conflitos políticos frequentemente se transformam em disputas pela posse e interpretação dos símbolos nacionais.

TURNER, Frederick Jackson. The Frontier in American History.

Turner demonstra como a expansão das fronteiras americanas contribuiu para a formação da identidade nacional dos Estados Unidos. Embora trate de outro país, sua obra ajuda a compreender como símbolos originalmente ligados a projetos políticos específicos podem ser reinterpretados como expressões da identidade nacional ao longo do tempo.

HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence (orgs.). A Invenção das Tradições.

Apesar da perspectiva historiográfica distinta daquela adotada neste artigo, esta obra é indispensável para compreender como tradições e símbolos podem ser construídos, reconstruídos e reinterpretados pelas sociedades. O livro oferece ferramentas úteis para analisar a transformação dos símbolos republicanos brasileiros.

ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas.

Anderson explica como as nações são formadas por comunidades que compartilham símbolos, narrativas e referências comuns. Sua teoria ajuda a compreender como uma bandeira pode transcender sua origem política e tornar-se um elemento de identidade nacional compartilhada.

CARVALHO, José Murilo de. A Formação das Almas: O Imaginário da República no Brasil.

Talvez a obra mais importante para o estudo do caso brasileiro. O autor analisa a construção simbólica da República e a criação de seus mitos fundadores. Sua pesquisa demonstra como os símbolos republicanos foram concebidos para consolidar uma nova legitimidade política após a queda da monarquia.

BONIFÁCIO DE ANDRADA E SILVA, José. Projetos para o Brasil.

A leitura dos escritos do Patriarca da Independência permite compreender a concepção de unidade nacional existente antes da República. Seus textos oferecem um contraponto importante para quem deseja comparar os símbolos e ideais do Império com aqueles que surgiriam posteriormente.

NISBET, Robert. The Quest for Community.

Nisbet argumenta que os seres humanos necessitam de vínculos comunitários duradouros e frequentemente expressam esses vínculos através de símbolos compartilhados. Sua análise ajuda a compreender por que a apropriação popular de determinados símbolos pode alterar profundamente seu significado político.

BURKE, Edmund. Reflexões sobre a Revolução na França.

A obra clássica da tradição conservadora ocidental. Burke mostra que instituições, símbolos e costumes adquirem legitimidade pelo uso contínuo das gerações. Sua reflexão oferece uma chave importante para entender como um símbolo pode sobreviver à intenção original de seus criadores e tornar-se patrimônio de uma comunidade mais ampla.

Do dia de Tiradentes ao dia do Tiravisto

1) Lula adora se valer da figura de Tidarentes contra os EUA.

2) No dia 21 de abril, no lugar de celebrar Tiradentes - que é um dia em que se celebra um traidor da pátria e de Cristo, tal qual o Lula -, vou celebrar o dia do Tiravisto, em homenagem a Christopher Landau.

3) Como diz Nietzsche, só se destrói uma tradição inventada - fundada no que se conserva de conveniente, ainda que dissociada da verdade - com uma tradição que remonte à verdade enquanto fundamento da liberdade. Este é o marco zero sob o qual se restaura todo o resto que foi sepultado pela revolução.

José Octavio Dettmann

Rio de Janeiro, 08 de junho de 2026 (data da postagem original).

sábado, 6 de junho de 2026

The Robber Barons and the Rubber Barons: a comparison between the economic elites of the american and the brazilian amazon frontiers

Introduction

The late nineteenth century witnessed the emergence of immense fortunes in both the United States and Brazil. In the United States, rapid industrialization produced figures known as the Robber Barons—entrepreneurs who built vast economic empires in the railroad, steel, oil, and financial sectors. In Brazil, particularly in the Amazon region, the extraordinary growth in global demand for natural rubber gave rise to the so-called Rubber Barons, a regional elite that accumulated wealth through the control of latex extraction and exportation.

At first glance, both groups appear to represent similar phenomena: concentration of wealth, exploitation of resources, and significant political influence. However, a closer examination reveals profound differences regarding the nature of the capital accumulated, the organization of labor, and the historical legacy left by each group.

This article seeks to identify the principal similarities and differences between the American Robber Barons and the Brazilian Rubber Barons, demonstrating how both emerged within frontier economies yet produced remarkably different historical outcomes.

The economic frontier as an environment for capital accumulation

One of the greatest similarities between the two groups lies in the environment in which they prospered.

In the United States, westward expansion, analyzed by Frederick Jackson Turner, created enormous economic opportunities. Railroads, mines, oil fields, and agricultural lands constituted a vast frontier of economic development.

In the Brazilian Amazon, the tropical rainforest played a comparable role. International demand for rubber transformed a previously peripheral region into a strategic area within the global economy.

In both cases, the frontier functioned as a zone of exceptional opportunity, where traditional mechanisms of state control were relatively weak and where individuals with privileged access to capital, information, and political connections were able to accumulate extraordinary fortunes.

In this respect, both Rockefeller and the major exporters of Manaus and Belém were frontier men.

The nature of capital: industrial versus extractive

The principal difference between the two phenomena lies in the nature of the wealth they generated.

American Robber Barons concentrated their efforts on activities capable of producing cumulative growth:

  • Oil refineries;
  • Steel mills;
  • Banks;
  • Railroads;
  • Industrial infrastructure.

The fortunes of John D. Rockefeller, Andrew Carnegie, and J. P. Morgan were associated with the construction of increasingly complex productive systems.

The Rubber Barons, by contrast, depended primarily on the exploitation of a specific natural resource.

Amazonian prosperity derived from Brazil's temporary monopolistic position in the global latex market. Although investments were made in commerce, transportation, and urban development, the economic foundation remained essentially extractive.

This distinction explains why the wealth of the Robber Barons continued to expand after the consolidation of their enterprises, whereas the fortunes of the Rubber Barons collapsed when the British successfully established rubber plantations in Southeast Asia.

Labor Organization

Another important point of contrast concerns the organization of labor.

In the United States, industrial wage labor predominated. Although working conditions were often harsh, laborers participated in a relatively mobile labor market.

In the Amazon, the dominant system was known as aviamento.

Under this arrangement, rubber tappers received tools, food, and merchandise in advance from merchants or estate owners. In exchange, they committed themselves to delivering future rubber production. Since prices were controlled by suppliers, many workers remained permanently indebted.

Thus, while the Robber Barons primarily operated within relationships characteristic of industrial capitalism, the Rubber Barons often relied upon mechanisms resembling pre-industrial forms of economic dependency.

Relations with the State

Both the Robber Barons and the Rubber Barons maintained close relationships with political power.

In the United States, railroad entrepreneurs frequently obtained government subsidies, land grants, and regulatory protection.

In the Amazon, exporters and merchants exerted influence over state and municipal governments, benefiting from favorable fiscal and infrastructure policies.

The difference is that the United States possessed a more robust institutional structure, one that eventually became capable of imposing antitrust regulations. The breakup of Standard Oil in 1911 remains the classic example of this process.

In the Brazil of the First Republic, the state's capacity to effectively regulate regional economic interests was far more limited.

Luxury Culture and Social Prestige

Both groups employed their wealth to construct symbols of status and prestige.

American magnates built monumental mansions, funded universities, and established philanthropic foundations.

In the Amazon, the Rubber Barons transformed Manaus and Belém into showcases of tropical prosperity. The Amazon Theatre became one of the principal symbols of the era, alongside the widespread importation of European luxury goods.

The difference is that American philanthropy frequently contributed to enduring institutions, whereas much of Amazonian consumption assumed a more conspicuous and less institutionalized character.

The problem of historical legacy

Perhaps the most significant difference between the two groups lies in the legacy they left for future generations.

The Robber Barons contributed to the creation of the industrial infrastructure that transformed the United States into the leading economic power of the twentieth century.

The Rubber Barons left important urban and architectural landmarks, but they failed to create an industrial base capable of sustaining regional prosperity after the end of the rubber boom.

While American industrial capitalism consolidated and expanded, the Amazonian economy underwent a profound contraction following Asian competition.

Conclusion

The American Robber Barons and the Brazilian Rubber Barons were products of similar circumstances: rapidly expanding economic frontiers, strong international demand, and limited state regulatory capacity.

Yet the similarities largely end there.

The Robber Barons built complex industrial systems and accumulated capital through productive and financial integration. The Rubber Barons, by contrast, depended fundamentally upon the exploitation of a specific natural resource within an export-oriented economy.

Both groups concentrated wealth and exercised considerable political influence. However, while the former participated in the construction of modern industrial capitalism, the latter represented a form of extractive capitalism whose prosperity depended upon the preservation of a temporary natural advantage.

The comparison between these two phenomena demonstrates that wealth generated by an economic frontier can produce profoundly different historical outcomes, depending upon the ability to transform natural resources into permanent productive institutions.

Annotated Bibliography

Carnegie, Andrew. The Gospel of Wealth

A classic text in which Carnegie presents his views on wealth, social responsibility, and philanthropy. Essential for understanding how American magnates morally justified the accumulation of capital.

Chernow, Ron. Titan: The Life of John D. Rockefeller, Sr.

One of the most comprehensive biographies of Rockefeller. It simultaneously portrays his role as an aggressive monopolist and as the architect of a highly efficient productive system.

Josephson, Matthew. The Robber Barons

The classic work that popularized the critical interpretation of America's great entrepreneurs as exploiters and monopolists. It remains a key reference in the study of the subject.

Dean, Warren. Brazil and the Struggle for Rubber

Perhaps the most important study of the Brazilian rubber economy. It analyzes the economic cycle, labor relations, and the causes of Amazonia's decline.

Weinstein, Barbara. The Amazon Rubber Boom, 1850–1920

A detailed study of the formation of the rubber economy and the Amazonian elite. Essential for understanding the social and economic mechanisms of the period.

Turner, Frederick Jackson. The Frontier in American History

A foundational work for understanding the frontier as a formative force in American society. It provides an excellent theoretical framework for comparing the economic expansion of the United States with other historical frontiers.

Belloc, Hilaire. The Servile State

Although not directly concerned with either the Robber Barons or the Amazonian rubber economy, Belloc offers a profound critique of modern economic concentration and the social dependency that can result from wealth being accumulated in the hands of a few.

Lovejoy, Arthur O. The Great Chain of Being

An important work for reflecting upon the cultural and philosophical consequences of economic expansion and social transformation in the modern era.