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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Geo-história do ouro no Brasil: o desmonte de uma mentira ideológica

Introdução

A historiografia escolar brasileira consolidou, ao longo do século XX, a ideia de que o ouro extraído no período colonial teria sido “roubado” por Portugal, empobrecendo o Brasil e enriquecendo a metrópole. Essa narrativa, repetida como um mantra nos livros didáticos, simplifica um processo histórico, geopolítico e econômico de extrema complexidade, reduzindo-o a uma relação moralista de opressor e oprimido.

A obra O Código do Ouro, de Francisco Javier Rios, propõe uma revisão profunda dessa interpretação, utilizando uma abordagem geo-histórica — isto é, a integração entre geologia, geografia e história — para reconstruir os processos de exploração mineral, ocupação territorial e circulação de riquezas no Brasil colonial. Ao cruzar dados de campo, mapas históricos, documentos ibéricos e conhecimento geológico, Rios demonstra que o ciclo do ouro foi resultado de um projeto estratégico de povoamento, defesa territorial e exploração mineral, e não de um simples saque metropolitano.

1. A geo-história como método de investigação

A geo-história parte do princípio de que os acontecimentos históricos não podem ser compreendidos sem o conhecimento do território físico onde ocorreram. No caso do Brasil colonial, isso envolve:

  • Cadeias montanhosas

  • Bacias hidrográficas

  • Jazidas auríferas e diamantíferas

  • Rotas naturais de deslocamento

Rios reconstrói, por meio de trabalho de campo ao longo de mais de vinte anos, os trajetos das principais bandeiras, observando:

  • A orografia (relevo)

  • A hidrografia (rios e nascentes)

  • A geologia mineral

  • Os pontos estratégicos de orientação

Esse método demonstra que as bandeiras não agiam de forma improvisada. Elas seguiam rotas planejadas, baseadas em conhecimento acumulado, informações indígenas e referências naturais precisas.

A geologia, longe de ser um detalhe técnico, revela quais áreas eram potencialmente auríferas, permitindo verificar se os exploradores passaram — ou não — por regiões ricas em ouro antes da “descoberta oficial” de 1698.

2. O mito da descoberta tardia do ouro

A historiografia tradicional afirma que o ouro só foi descoberto no Brasil em 1698, com as bandeiras paulistas em Minas Gerais. A geo-história demonstra o contrário.

Expedições anteriores, especialmente a bandeira de Francisco de Espinosa (1551–1553), já haviam atravessado regiões mineralizadas, passando por:

  • A Serra do Espinhaço

  • A Serra do Itambé

  • O vale do rio Araçuaí

  • Áreas posteriormente reconhecidas como auríferas e diamantíferas

A própria sobrevivência da expedição de Espinosa — treze europeus retornando vivos após dois anos no sertão — indica organização, planejamento, conhecimento indígena e, sobretudo, finalidade estratégica.

A noção de que o ouro “apareceu de repente” no final do século XVII ignora mais de um século de exploração, reconhecimento geográfico e acumulação de informações.

3. Bandeirantes, jesuítas e o conhecimento mineralógico

Outro mito recorrente é o de que os bandeirantes eram aventureiros brutais, sem preparo técnico. O que a pesquisa geo-histórica revela é o oposto:

  • Muitos bandeirantes eram membros da aristocracia

  • Tinham formação militar

  • Possuíam instrução técnica

  • Contavam com conhecimento indígena avançado

Além disso, os jesuítas desempenharam papel decisivo na exploração do território. A Companhia de Jesus possuía:

  • Formação científica

  • Conhecimento astronômico

  • Engenharia militar

  • Experiência mineralógica adquirida na Índia e na América Espanhola

Há registros de padres jesuítas realizando lavagem de areias auríferas e explorando garimpos no interior paulista. A mineração fazia parte de uma estratégia econômica e territorial, não de uma aventura isolada.

4. A política de sigilo e o “Código do Ouro”

A obra demonstra que o conhecimento sobre jazidas, rotas e riquezas minerais era tratado como informação estratégica, sujeita a sigilo. Isso se explica por:

  • Disputas entre Portugal e Espanha

  • Fragilidade das fronteiras

  • A União Ibérica (1580–1640)

  • A pirataria internacional

  • O valor geopolítico do ouro

Mapas eram propositalmente imprecisos. Relatórios desapareciam. Informações eram transmitidas oralmente. Esse conjunto de práticas formava o que Rios denomina Código do Ouro: um sistema de ocultação, proteção e circulação controlada do conhecimento mineralógico.

Portanto, o ouro não era “roubado” às cegas — ele era explorado dentro de uma lógica de Estado, defesa territorial e economia imperial.

5. O ouro não foi “roubado”: foi parte de um projeto de povoamento

A tese do “roubo do ouro” ignora aspectos fundamentais:

  1. O Brasil não existia como nação soberana no período colonial

  2. O território era parte do Império Português

  3. A mineração financiava:

    • Fortificações

    • Portos

    • Vilas

    • Estradas

    • Defesa territorial

    • Administração colonial

Portugal construiu mais de uma centena de fortalezas no Brasil, mapeou rios, montanhas e bacias hidrográficas, implantou vilas ao longo da costa e do interior, e estruturou um sistema de ocupação territorial que garantiu a integridade do espaço brasileiro.

Sem esse projeto, o território teria sido fragmentado por outras potências coloniais, como ocorreu em diversas regiões da América Espanhola.

O ouro, portanto, não foi simplesmente “roubado”: ele sustentou a construção geopolítica do Brasil.

6. O impacto global do ouro brasileiro

O volume de ouro extraído foi tão grande que:

  • Alterou o padrão monetário internacional

  • Contribuiu para a ascensão do padrão-ouro

  • Reconfigurou o comércio europeu

Se o ouro tivesse apenas “saído” para Lisboa em pequena escala, esse impacto não teria ocorrido. Grande parte da riqueza circulou por:

  • Comércio internacional

  • Bancos europeus

  • Financiamento de guerras

  • Expansão econômica

O Brasil não foi um mero espoliado: foi o centro de um dos maiores ciclos auríferos da história mundial.

Conclusão

A narrativa escolar do “ouro roubado” é uma simplificação ideológica que ignora:

  • A complexidade geopolítica

  • A estratégia territorial

  • O método científico da geo-história

  • A integração entre mineração e povoamento

  • O papel dos indígenas, jesuítas e bandeirantes

A obra O Código do Ouro demonstra que o ouro brasileiro foi explorado dentro de um projeto histórico de ocupação, defesa e integração territorial, sem o qual o Brasil sequer existiria como unidade continental.

Revisar essa narrativa não é “defender a colonização” (até porque o Brasil não foi colônia de Portugal), mas defender a verdade histórica contra mitos políticos.

Bibliografia comentada

RIOS, Francisco Javier. O Código do Ouro.
Obra central da análise. Apresenta reconstruções geo-históricas das bandeiras, dados de campo, análise orográfica e revisão da cronologia da mineração no Brasil.

CORTESÃO, Jaime. A Política de Sigilo nos Descobrimentos Portugueses.
Explica o uso estratégico de mapas falsos, ocultação de rotas e controle de informações por Portugal.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e Fronteiras.
Clássico sobre as bandeiras, útil como contraponto interpretativo às teses geo-históricas.

PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo.
Representa a visão marxista tradicional que sustenta a tese da exploração colonial.

ALMEIDA BARATA, Carlos. Estudos Genealógicos Coloniais.
Documenta a presença de aristocratas ibéricos nas bandeiras e no povoamento.

CORTESÃO, Armando. História da Cartografia Portuguesa.
Demonstra a sofisticação técnica da cartografia portuguesa.

A face oculta de Mahatma Gandhi: entre o mito, a história e as contradições humanas

Introdução

Mohandas Karamchand Gandhi, mundialmente conhecido como Mahatma Gandhi, é celebrado como um dos maiores símbolos da não violência, da resistência pacífica e da luta pela justiça social. Inspirado por figuras como Liev Tolstói, Henry David Thoreau e pelos ensinamentos de Jesus Cristo — especialmente o Sermão da Montanha —, Gandhi construiu uma trajetória que o transformou no principal líder da independência da Índia e em referência moral para movimentos civis ao redor do mundo.

Contudo, como toda figura histórica elevada ao status de mito, sua biografia também apresenta zonas de sombra. Ao lado do pacifista admirado, existiu um homem marcado por contradições: posições raciais ambíguas, visões controversas sobre castas, comportamento autoritário, práticas sexuais incomuns e concepções profundamente problemáticas sobre mulheres. Este artigo examina essas “faces ocultas” de Gandhi, não com o intuito de destruir seu legado, mas de compreendê-lo de forma mais humana, crítica e historicamente honesta.

1. A formação de Gandhi e o despertar político

Gandhi nasceu em uma pequena cidade indiana e, inicialmente, aspirava seguir a carreira política do pai. Para isso, estudou Direito em Londres, buscando prestígio dentro da estrutura colonial britânica. Seu destino, no entanto, tomou outro rumo quando se mudou para a África do Sul para atuar como advogado.

Ali, sofreu um episódio decisivo: mesmo portando bilhete de primeira classe, foi expulso de um vagão por ser indiano. Esse ato de racismo não apenas o humilhou pessoalmente, mas o despertou para a brutalidade das hierarquias raciais no Império Britânico. A partir desse momento, Gandhi passou a organizar a comunidade indiana local, fundando o Congresso Indiano de Natal e liderando movimentos de desobediência civil baseados no conceito de Satyagraha — “firmeza na verdade”.

2. Racismo e Hierarquias: a ambiguidade moral

Apesar de combater a discriminação contra indianos, Gandhi inicialmente não estendeu essa luta aos africanos negros. Em seus primeiros anos na África do Sul, utilizou termos como “incivilizados” e “selvagens” para descrevê-los. Historiadores como Vinay Lal e Ramachandra Guha reconhecem que Gandhi foi, em determinado período, explicitamente racista.

Embora tenha suavizado esse discurso ao longo da vida, há registros de que continuou defendendo a separação racial em instituições públicas e tribunais, buscando elevar a posição dos indianos sem questionar o status dos negros sul-africanos. Para o historiador Patrick French, esse silêncio diante da opressão africana constitui o “buraco negro” da mitologia gandhiana.

Na Índia, Gandhi também manteve uma postura ambígua em relação ao sistema de castas. Embora afirmasse respeitar os dalits (os chamados “intocáveis”), rejeitou propostas de ações afirmativas defendidas por B. R. Ambedkar, temendo que elas fragmentassem a sociedade. Para críticos como Arundhati Roy, Gandhi não combateu o sistema de castas de forma decisiva e chegou a considerá-lo uma expressão legítima da civilização hindu.

3. Vida Pessoal, Sexualidade e Autoritarismo

Gandhi casou-se aos 13 anos com Kasturba, em um matrimônio infantil comum à época. Mais tarde, tornou-se crítico dessa prática, mas sua relação conjugal foi marcada por controle e imposições unilaterais. Após decidir pelo celibato, impôs essa escolha à esposa sem pleno consentimento.

O líder também desenvolveu “experimentos” de resistência sexual: dormia nu com mulheres jovens — incluindo sua própria sobrinha — para provar sua pureza espiritual. Segundo o biógrafo Jed Adams, essas práticas envolviam estímulos sensoriais sem contato físico e geraram escândalos ainda em vida.

Além disso, Gandhi demonstrava uma postura autoritária em seu convívio diário. Cortava o cabelo de seguidoras como punição moral, repreendia duramente pequenas imprecisões e impunha regras rígidas de comportamento, muitas vezes sem considerar o consentimento ou a dignidade individual.

4. Mulheres, Moralidade e Controle Social

As visões de Gandhi sobre as mulheres são, hoje, amplamente consideradas problemáticas. Ele acreditava que a menstruação era uma manifestação da “distorção da alma feminina” causada pela sexualidade. Defendia que mulheres estupradas perdiam seu valor moral e chegou a sugerir que pais poderiam ser “justificados” em matar filhas violentadas para preservar a honra da família.

Também se opôs ao uso de anticoncepcionais, associando-os à prostituição. Em casos de assédio sexual, culpabilizava as vítimas, chegando a punir mulheres cortando seus cabelos para “evitar” novos abusos.

Essas ideias contribuíram para uma cultura de vergonha, repressão e violência que ainda marca a sociedade indiana contemporânea, como apontam críticos no jornal The Guardian.

5. Economia da Pobreza e rejeição ao industrialismo

Gandhi defendia um modelo econômico baseado na simplicidade, na privação e na rejeição da industrialização ocidental. Para ele, refeições completas e conforto material eram quase pecados contra Deus, pois representariam desigualdade no acesso aos recursos.

Intelectuais como Rabindranath Tagore criticaram essa visão, alertando para seus efeitos negativos sobre o desenvolvimento econômico da Índia. Ainda assim, muitos desses ideais influenciaram políticas públicas no país, contribuindo para décadas de estagnação e pobreza estrutural.

6. Humor, Diplomacia e Legado Final

Apesar de seu rigor moral, Gandhi também possuía um senso de humor irônico e habilidade diplomática. Respondia a críticas com cartas bem-humoradas e tratava até figuras como Hitler e Mussolini de forma cordial — não por admiração ideológica, mas por acreditar que ninguém deveria ser tratado como inimigo absoluto.

Gandhi foi assassinado em 1948 por um extremista hindu que o acusava de traição por aceitar a partilha da Índia com o Paquistão. Mesmo após sua morte, seus filhos pediram clemência ao assassino, tentando honrar o princípio da não violência.

Conclusão

Mahatma Gandhi não foi um santo intocável, mas um ser humano complexo, marcado por virtudes extraordinárias e falhas profundas. Seu compromisso com a não violência e a justiça inspirou milhões, mas suas visões sobre raça, mulheres, sexualidade e hierarquia social revelam contradições que não podem ser ignoradas.

Reconhecer essas “faces ocultas” não destrói seu legado — pelo contrário, humaniza-o. A verdadeira grandeza histórica não está na perfeição moral, mas na capacidade de influenciar o mundo, mesmo carregando limites, erros e sombras. Como o próprio Gandhi acreditava, a humanidade não é definida apenas por suas falhas, mas por sua capacidade de superá-las.

Bibliografia Comentada

ADAMS, Jed. Gandhi: Naked Ambition.
Obra fundamental para compreender os aspectos mais controversos da vida íntima de Gandhi. Adams investiga documentos, testemunhos e relatos históricos para analisar os chamados “experimentos sexuais” do líder, oferecendo uma visão crítica da construção de sua imagem pública.

FRENCH, Patrick. India: A Portrait.
O autor destaca o silêncio de Gandhi em relação à população negra na África do Sul, apontando o que chama de “buraco negro” da mitologia gandhiana. A obra contribui para uma leitura menos idealizada do líder.

GUHA, Ramachandra. Gandhi Before India.
Biografia detalhada que analisa os primeiros anos de Gandhi, especialmente seu período na África do Sul. Guha reconhece o racismo inicial do líder e mostra sua evolução gradual, sem ocultar suas ambiguidades.

LAL, Vinay. The Other Face of Gandhi.
Estudo crítico que questiona a santificação de Gandhi, examinando suas posições sobre raça, política e moralidade. Essencial para quem busca uma abordagem historiográfica mais rigorosa.

ROY, Arundhati. The Doctor and the Saint.
A autora confronta Gandhi a partir da perspectiva de B. R. Ambedkar, denunciando sua conivência com o sistema de castas. O livro é um marco na crítica pós-colonial ao gandhismo.

TAGORE, Rabindranath. Ensaios políticos e culturais.
Tagore criticou abertamente a exaltação da pobreza promovida por Gandhi. Seus textos ajudam a compreender os limites econômicos do ideal gandhiano.

CONNELLAN, Michael. “The Women Who Suffer Under Gandhi’s Legacy”. The Guardian.
Artigo que analisa o impacto das ideias de Gandhi sobre sexualidade, estupro e moral feminina, relacionando-as à persistência da violência de gênero na Índia.

AMBEDKAR, B. R. Annihilation of Caste.
Obra clássica que denuncia o sistema de castas e critica Gandhi por não enfrentá-lo de forma decisiva. Essencial para compreender o conflito entre ambos.

THOREAU, Henry David. Civil Disobedience.
Texto que influenciou diretamente o conceito de Satyagraha. Ajuda a entender as bases filosóficas da resistência pacífica de Gandhi.

TOLSTÓI, Liev. O Reino de Deus Está em Vós.
Obra espiritual que inspirou profundamente Gandhi, especialmente no pacifismo cristão e na rejeição da violência.

A injustiça da intervenção americana na Primeira Guerra Mundial contra a Alemanha

Introdução

A entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial, em abril de 1917, foi justificada oficialmente por razões morais, políticas e estratégicas. O governo de Woodrow Wilson apresentou a intervenção como uma defesa da democracia, da neutralidade marítima e da ordem internacional contra a suposta agressividade alemã. No entanto, uma análise histórica mais rigorosa revela que esses argumentos foram, em grande parte, construções retóricas destinadas a legitimar uma decisão já motivada por interesses econômicos, geopolíticos e ideológicos. O pretexto americano para a guerra foi injusto porque se baseou em uma neutralidade seletiva, na manipulação de fatos, em distorções propagandísticas e na ocultação de motivações financeiras.

A neutralidade americana como ficção política

Embora os Estados Unidos se declarassem oficialmente neutros entre 1914 e 1917, sua conduta prática favoreceu sistematicamente a Grã-Bretanha e a França. Bancos americanos concederam bilhões de dólares em empréstimos à Entente, enquanto empresas forneceram grandes quantidades de armas, munições e explosivos. Ao mesmo tempo, o bloqueio naval britânico contra a Alemanha — que incluía a apreensão de navios americanos e a interrupção quase total do comércio com os alemães — foi tolerado sem maiores protestos.

Esse bloqueio tratava até alimentos civis como contrabando, contribuindo para a morte de centenas de milhares de civis alemães por fome e doenças. Ainda assim, Washington não impôs sanções à Grã-Bretanha nem defendeu com firmeza os direitos comerciais dos EUA. A neutralidade, portanto, foi aplicada de modo seletivo: rígida contra a Alemanha, complacente com os aliados britânicos e franceses. Tal postura comprometeu a legitimidade moral da futura declaração de guerra.

A guerra submarina alemã como reação, não como causa

O governo americano apresentou a guerra submarina irrestrita da Alemanha como prova de sua brutalidade e como motivo central para a intervenção. Contudo, essa estratégia foi, em grande medida, uma resposta ao bloqueio econômico imposto pela Grã-Bretanha, que ameaçava a própria sobrevivência alemã.

Além disso, navios mercantes britânicos frequentemente transportavam armamentos disfarçados de carga civil, usavam bandeiras falsas e simulavam rendições para atrair submarinos alemães e atacá-los. Houve inclusive ordens britânicas para executar tripulações alemãs capturadas, em violação ao direito internacional. Nesse contexto, a conduta alemã, embora dura, não pode ser compreendida isoladamente como agressão injustificada. Tratava-se de uma guerra total, em que a distinção entre alvos civis e militares havia sido deliberadamente borrada pelos próprios aliados da Entente.

O caso do Lusitania e a manipulação da opinião pública

O afundamento do navio Lusitania, em 1915, foi explorado como símbolo da “barbárie alemã” contra civis inocentes. No entanto, décadas depois ficou comprovado que o navio transportava grandes quantidades de munição e explosivos. Logo, não era um alvo puramente civil, mas um componente logístico do esforço de guerra britânico.

O governo britânico ocultou essa informação, e a narrativa americana apresentou o episódio como um massacre injustificado. A comoção popular gerada pelo caso serviu para moldar a opinião pública em favor da guerra, mesmo que os fatos reais contradissessem a versão oficial.

Interesses Financeiros como motor da guerra

Um fator central, mas pouco admitido, foi o interesse econômico. Bancos americanos haviam emprestado somas gigantescas à Grã-Bretanha e à França. Caso a Entente perdesse a guerra, esses empréstimos dificilmente seriam pagos. Assim, a vitória aliada tornou-se uma questão de segurança financeira para o sistema bancário americano.

A entrada dos EUA na guerra garantiu não apenas o pagamento dessas dívidas, mas também a expansão do poder econômico americano sobre a Europa no pós-guerra. A retórica moral de defesa da democracia funcionou, portanto, como um verniz ideológico para encobrir motivações materiais.

A Alemanha como “autocracia”: um rótulo ideológico

Wilson justificou a guerra afirmando que os EUA não poderiam permanecer neutros diante de “governos autocráticos”. Contudo, o Império Alemão possuía um parlamento eleito (Reichstag), sufrágio masculino universal e um sistema de legislação social avançado para a época.

Embora o Kaiser tivesse poderes significativos, a Alemanha não se enquadrava no modelo de autocracia absoluta. O discurso democrático americano simplificou e distorceu a realidade política europeia para enquadrar o conflito em uma narrativa maniqueísta: democracia versus tirania.

Propaganda e Supressão da Verdade

A opinião pública americana foi moldada por campanhas de propaganda que exageravam ou inventavam atrocidades alemãs. Relatos de soldados alemães assassinando crianças e cometendo atrocidades em massa circularam amplamente, apesar de muitos correspondentes estimarem que apenas uma pequena parte dessas histórias era verdadeira.

Paralelamente, leis como o Espionage Act e o Sedition Act criminalizaram críticas à guerra. Jornalistas, intelectuais e cidadãos que questionavam a narrativa oficial foram silenciados. A construção do pretexto moral para a guerra ocorreu, assim, em um ambiente de censura e manipulação informacional.

Conclusão

O pretexto americano para intervir na Primeira Guerra Mundial foi injusto porque se baseou em uma neutralidade ilusória, na manipulação de eventos como o afundamento do Lusitania, na ocultação de interesses financeiros e na distorção da realidade política europeia. A guerra não foi motivada primariamente por princípios universais de justiça ou democracia, mas por conveniências estratégicas e econômicas.

Em termos morais, a intervenção representou não a defesa da ordem internacional, mas a consolidação de uma nova forma de imperialismo. O discurso idealista serviu como instrumento de legitimação para uma política externa que, a partir de 1917, passaria a moldar o mundo segundo os interesses americanos — frequentemente à custa da verdade, da justiça e da estabilidade internacional.

Bibliografia Comentada

KEYNES, John Maynard. The Economic Consequences of the Peace. 1919.
Obra clássica escrita por um participante da Conferência de Versalhes. Keynes denuncia o caráter punitivo, vingativo e economicamente irresponsável do tratado imposto à Alemanha. Fundamenta a tese de que a paz foi injusta e geradora de instabilidade futura.

TUCHMAN, Barbara. The Guns of August. 1962.
Análise detalhada dos primeiros meses da guerra. Mostra como decisões políticas e diplomáticas, e não apenas agressões unilaterais, levaram ao conflito. Ajuda a desmontar a narrativa de culpa exclusiva alemã.

FERGUSON, Niall. The Pity of War. 1998.
Argumenta que a guerra não era inevitável e que a intervenção britânica e americana foi decisiva para prolongar o conflito. Questiona os mitos morais em torno da Primeira Guerra Mundial.

ZINN, Howard. A People’s History of the United States. 1980.
Apresenta a perspectiva crítica sobre os interesses econômicos por trás das guerras americanas. Mostra como elites financeiras influenciaram decisões políticas.

ENGDAHL, F. William. A Century of War. 2004.
Explora a relação entre poder financeiro, guerra e hegemonia americana. Útil para compreender o papel do capital financeiro na política externa dos EUA.

MURRAY, Williamson. The First World War. 2003.
Obra acadêmica que contextualiza a guerra como um conflito sistêmico, envolvendo interesses imperiais, alianças e rivalidades econômicas.

GIBBS, Christopher. “The Lusitania and the Politics of War.”
Artigo que analisa o uso propagandístico do afundamento do Lusitania e a ocultação de sua carga militar.

ROTHBARD, Murray. Wall Street, Banks, and American Foreign Policy.
Demonstra como interesses bancários influenciaram decisões de política externa, incluindo a entrada na Primeira Guerra Mundial.

Brazylijski „santinho” a polskie materiały wyborcze: porównanie kulturowe i funkcjonalne

1. Wprowadzenie

Materiały graficzne wykorzystywane w kampaniach wyborczych pełnią w różnych krajach podstawową funkcję prezentowania kandydata wyborcom. Jednak ich forma, sposób użycia oraz znaczenie symboliczne różnią się w zależności od systemu wyborczego, kultury politycznej i historii danego społeczeństwa. W Brazylii szczególną rolę odgrywa tzw. „santinho”, natomiast w Polsce dominują ulotka wyborcza oraz plakat wyborczy. Choć są one funkcjonalnie podobne, wyrażają odmienne koncepcje relacji między wyborcą, aktem głosowania a pamięcią polityczną.

2. „Santinho” w kontekście brazylijskim

„Santinho” to niewielki druk zawierający w syntetycznej formie:

  • zdjęcie kandydata

  • imię i nazwisko

  • urząd, o który się ubiega

  • partię polityczną

  • numer wpisywany do urny elektronicznej

Jego główną funkcją nie jest wyłącznie informowanie, lecz operacyjna pomoc przy głosowaniu. Ponieważ w Brazylii głos oddaje się poprzez wpisanie numeru kandydata, „santinho” pełni rolę wsparcia pamięciowego, umożliwiając wyborcy dokładne przypomnienie sobie kodu w momencie głosowania.

Nazwa „santinho” pochodzi od analogii do tradycyjnych katolickich obrazków z wizerunkami świętych. To skojarzenie ujawnia charakterystyczny rys kultury brazylijskiej: włączanie popularnych odniesień religijnych do codziennego języka polityki, w sposób nieformalny i symboliczny.

Ponadto „santinho” bywa używany jako swoista „ściąga wyborcza”, którą wyborca zabiera ze sobą do lokalu wyborczego. W ten sposób staje się on częścią samego rytuału wyborczego.

3. Materiały wyborcze w Polsce

W Polsce analogiczne materiały określa się terminami o charakterze ściśle opisowym:

  • ulotka wyborcza

  • plakat wyborczy

  • materiały wyborcze (w sensie ogólnym)

Zawierają one zdjęcie, imię i nazwisko, przynależność partyjną oraz postulaty kandydata. W przeciwieństwie do Brazylii, polski wyborca nie głosuje poprzez numer, lecz zaznacza nazwisko kandydata lub listę partyjną. W związku z tym nie istnieje taka sama potrzeba korzystania z materiałów służących zapamiętywaniu kodów liczbowych.

Polskie materiały graficzne pełnią przede wszystkim funkcję informacyjną i perswazyjną, a nie operacyjną. Są wykorzystywane w trakcie kampanii, lecz rzadko towarzyszą wyborcy w kabinie do głosowania jako narzędzie bezpośredniej konsultacji.

Istotny jest także brak odniesień religijnych w języku politycznym. Mimo że Polska jest krajem o większości katolickiej, jej kultura instytucjonalna dąży do rozdziału języka religijnego i wyborczego, zwłaszcza po doświadczeniach komunizmu i transformacji ustrojowej.

4. Różnice funkcjonalne 

AspektBrazylia (Santinho)Polska (Ulotka/Plakat)
System głosowaniaNumeryczny (urna elektroniczna)Imienny (zaznaczenie nazwiska/listy)
Główna funkcjaPrzypomnienie numeru kandydataInformowanie i przekonywanie
Użycie w dniu wyborówCzęsteRzadkie
Język symbolicznyPopularny, z odniesieniem religijnymTechniczny i neutralny
Rola kulturowaCzęść rytuału wyborczegoZwykły materiał kampanijny

„Santinho” jest integralną częścią momentu decyzyjnego aktu głosowania, natomiast polskie materiały funkcjonują głównie w sferze kształtowania opinii przed wyborami.

5. Wymiar kulturowy i symboliczny

W Brazylii „santinho” ukazuje:

  • centralną rolę obrazu

  • potrzebę zapamiętywania numerów

  • nieformalny język polityczny

  • symboliczną obecność religijności ludowej

W Polsce materiały wyborcze odzwierciedlają:

  • nacisk na identyfikację imienną

  • język instytucjonalny

  • rozdział polityki i symboliki religijnej

  • większy nacisk na program polityczny

Różnice te wynikają nie tylko z rozwiązań technicznych, lecz także z odmiennych wizji relacji obywatela z procesem politycznym.

6. Zakończenie

Choć brazylijski „santinho” i polska ulotka wyborcza spełniają tę samą ogólną funkcję — prezentują kandydatów — należą do odmiennych światów kulturowych. „Santinho” jest narzędziem praktycznym, niemal rytualnym, zintegrowanym z samym aktem głosowania. Materiały polskie pozostają natomiast w sferze informacji i perswazji przedwyborczej.

W ten sposób „santinho” nie jest jedynie ulotką: stanowi kulturowy wyraz brazylijskiego sposobu przeżywania polityki, opartego na obrazie, pamięci liczbowej, oralności oraz symbolicznych odniesieniach do religijności ludowej.

O “santinho” brasileiro e o material gráfico eleitoral polonês: uma comparação cultural e funcional

1. Introdução

O material gráfico de campanha eleitoral cumpre, em diferentes países, a função básica de apresentar o candidato ao eleitor. Contudo, a forma, o uso e o significado simbólico desse material variam conforme o sistema eleitoral, a cultura política e a história de cada sociedade. No Brasil, destaca-se o chamado “santinho”, enquanto na Polônia predominam a ulotka wyborcza (panfleto eleitoral) e o plakat wyborczy (cartaz eleitoral). Embora funcionalmente semelhantes, esses instrumentos expressam concepções distintas da relação entre eleitor, voto e memória política.

2. O “santinho” no contexto brasileiro

O “santinho” é um pequeno impresso que contém, de forma sintética:

  • Foto do candidato

  • Nome

  • Cargo disputado

  • Partido

  • Número a ser digitado na urna eletrônica

Sua função principal não é apenas informativa, mas operacional. Como o voto no Brasil é realizado por meio da digitação de um número, o santinho atua como um auxílio mnemônico, permitindo ao eleitor lembrar-se com precisão do código do candidato no momento da votação.

O termo “santinho” deriva da analogia com os tradicionais cartões religiosos católicos, que trazem imagens de santos acompanhadas de identificação. Essa associação revela um traço cultural brasileiro: a incorporação de referências religiosas populares ao vocabulário político cotidiano, ainda que de forma informal e simbólica.

Além disso, o santinho é frequentemente usado como uma espécie de “cola eleitoral”, sendo levado pelo eleitor até a seção de votação. Assim, ele se insere diretamente no ato do voto, tornando-se parte do ritual eleitoral brasileiro.

3. O material gráfico eleitoral na Polônia

Na Polônia, o material equivalente é denominado de forma estritamente descritiva:

  • Ulotka wyborcza – panfleto eleitoral

  • Plakat wyborczy – cartaz eleitoral

  • Materiały wyborcze – materiais de campanha, em sentido amplo

Esses materiais contêm foto, nome, filiação partidária e propostas do candidato. Contudo, diferentemente do Brasil, o eleitor polonês não vota por número, mas sim marcando o nome do candidato ou da lista partidária. Por isso, não existe a mesma necessidade de um suporte visual voltado à memorização numérica.

O material gráfico polonês tem função predominantemente informativa e persuasiva, e não operacional. Ele atua no período de campanha, mas não acompanha o eleitor até a cabine de votação como instrumento de consulta direta.

Outro aspecto relevante é a ausência de analogias religiosas no vocabulário político cotidiano. Apesar de a Polônia ser um país de maioria católica, sua cultura institucional tende a separar linguagem religiosa e linguagem eleitoral, especialmente após a experiência histórica do comunismo e da transição democrática

4. Diferenças funcionais 

AspectoBrasil (Santinho)Polônia (Ulotka/Plakat)
Sistema de votoNumérico (urna eletrônica)Nominal (marca no nome/lista)
Função principalLembrar o número do candidatoInformar e persuadir
Uso no dia da votaçãoFrequenteRaro
Linguagem simbólicaPopular, com referência religiosaTécnica e neutra
Papel culturalParte do ritual eleitoralMaterial de campanha convencional

O santinho integra o momento decisório do voto; o material polonês integra sobretudo o processo formativo da opinião do eleitor.

5. Dimensão cultural e simbólica

No Brasil, o santinho revela:

  • A centralidade da imagem

  • A necessidade de memorização numérica

  • A informalidade do vocabulário político

  • A presença simbólica da religiosidade popular

Na Polônia, o material gráfico revela:

  • Ênfase na identificação nominal

  • Linguagem institucional

  • Separação entre política e simbologia religiosa

  • Foco programático mais explícito

Essas diferenças refletem não apenas escolhas técnicas, mas visões distintas sobre como o cidadão se relaciona com o processo político.

6. Conclusão

Embora o “santinho” brasileiro e a ulotka wyborcza polonesa cumpram a mesma função geral — divulgar candidatos —, eles pertencem a universos culturais distintos. O santinho é um instrumento prático, quase ritual, integrado ao ato de votar. O material polonês, por sua vez, permanece no campo da informação e da persuasão pré-eleitoral.

Assim, o santinho não é apenas um panfleto: é uma expressão cultural do modo brasileiro de vivenciar a política, marcado pela oralidade, pela imagem, pela memória numérica e por referências simbólicas herdadas da religiosidade popular.

Subjetividade, Circunstância e Verdade: uma crítica cristocêntrica à antropologia da Escola Austríaca de Economia

Introdução

A Escola Austríaca de Economia consolidou uma compreensão da ação humana fundada na noção de subjetividade. O valor, as escolhas e os fins não são dados objetivamente na realidade, mas emergem das avaliações individuais dos agentes situados em circunstâncias concretas. Essa concepção encontra ressonância na antropologia de José Ortega y Gasset, para quem o homem não é um sujeito abstrato, mas um ser histórico: “eu sou eu e minhas circunstâncias”.

Contudo, quando essa estrutura existencial é interpretada à luz da noção modernista de que o homem é a medida de todas as coisas, surge um problema de ordem filosófica e teológica. A escolha passa a ser o critério último, e a verdade se dissolve em perspectiva. O presente artigo argumenta que tal limitação pode ser superada por uma reinterpretação cristocêntrica da ação humana, na qual Cristo — o Caminho, a Verdade e a Vida — se torna a medida objetiva da existência, consagrando as circunstâncias e fundamentando autenticamente a liberdade.

1. O “subjetivo” na Escola Austríaca

Na tradição austríaca, especialmente em Ludwig von Mises e Friedrich Hayek, a subjetividade refere-se ao fato de que:

  • O valor econômico não é intrínseco aos bens;

  • Ele depende da avaliação do agente;

  • Essas avaliações são situadas no tempo, no espaço e na história pessoal.

A ação humana é entendida como resposta a fins percebidos subjetivamente, em um contexto de escassez e incerteza. Não há, nesse modelo, um critério objetivo externo que determine o valor último das escolhas. O que existe é coordenação de planos individuais dentro de uma ordem espontânea.

Trata-se, portanto, de uma teoria da ação humana situada, mas não normativamente orientada por uma verdade transcendente.

2. Ortega y Gasset e o homem em suas circunstâncias

Ortega y Gasset fornece a base antropológica mais precisa para essa concepção:

“Eu sou eu e minhas circunstâncias.”

O homem não escolhe no vácuo. Ele:

  • Nasce em um mundo já estruturado;

  • Enfrenta dilemas reais;

  • Deve escolher entre caminhos mutuamente excludentes;

  • E, uma vez feita a escolha, entra em um processo de execução irreversível até a conclusão do ato.

A existência humana é, assim, dramática: cada decisão configura um destino provisório. O sujeito não controla plenamente as condições, mas é responsável pela direção que dá à própria vida.

Nesse ponto, Ortega e os austríacos convergem: a ação é sempre situada, histórica e irrepetível.

3. O erro modernista: o homem como medida de todas as coisas

O problema surge quando essa estrutura existencial é interpretada sob o paradigma moderno do antropocentrismo radical.

Desde Protágoras — “o homem é a medida de todas as coisas” — até o humanismo secular contemporâneo, consolidou-se a ideia de que:

  • A escolha é soberana;

  • O critério último é o indivíduo;

  • A verdade se reduz à perspectiva.

Mesmo quando a Escola Austríaca reconhece limites cognitivos, tradição, ordem espontânea e coordenação social, o fundamento normativo permanece humano. A escolha não é julgada à luz de um Bem objetivo, mas apenas descrita como expressão da preferência individual.

Nesse contexto:

  • As circunstâncias são fatos, não vocações;

  • A ação é eficiente, mas não necessariamente verdadeira;

  • A liberdade é autonomia, não conformidade ao Bem.

4. Cristo como medida objetiva da existência

A superação dessa limitação ocorre quando Cristo é reconhecido como a medida de todas as coisas:

“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.” (Jo 14,6)

Aqui, a estrutura existencial do homem não é negada, mas elevada:

  • O homem continua situado em circunstâncias;

  • Continua enfrentando dilemas;

  • Continua obrigado a escolher.

Contudo, o critério da escolha deixa de ser a preferência subjetiva e passa a ser a Verdade.

As circunstâncias, então, deixam de ser meros condicionamentos históricos e tornam-se campos de consagração. Cada situação concreta é um chamado à conformidade com o Todo que vem de Deus.

O caminho não é apenas escolhido —ele é discernido. E a liberdade não é fazer o que se quer, mas agir em conformidade com aquilo que é verdadeiro.

5. A verdade como fundamento da liberdade

Na tradição cristã, especialmente em Santo Tomás de Aquino, a liberdade não é oposição à verdade, mas sua consequência:

  • O erro escraviza;

  • A verdade liberta;

  • A vontade só é plenamente livre quando ordenada ao Bem.

Quando Cristo é a medida:

  • A escolha deixa de ser soberana;

  • A verdade se torna normativa;

  • A ação humana adquire sentido teleológico.

Assim, a mesma estrutura descrita por Ortega e pelos austríacos — dilema, escolha, execução — permanece, mas agora integrada a uma ordem superior, onde o fim último não é a utilidade, mas a conformidade com a Verdade.

Conclusão

A noção austríaca de subjetividade descreve corretamente o homem enquanto agente situado em circunstâncias concretas, confrontado por dilemas e obrigado a escolher caminhos irreversíveis. Ortega y Gasset fornece a melhor formulação antropológica dessa condição existencial.

O problema não está na descrição, mas no fundamento: quando o homem é tratado como medida de todas as coisas, a escolha se absolutiza e a verdade se relativiza. As circunstâncias tornam-se apenas fatos, e a liberdade reduz-se à autonomia.

Quando, porém, Cristo é reconhecido como o Caminho, a Verdade e a Vida, as circunstâncias são consagradas, o caminho se torna objetivo e a liberdade encontra seu verdadeiro fundamento na Verdade. A ação humana deixa de ser apenas execução eficiente e passa a ser resposta vocacional à ordem do Ser.

Bibliografia Comentada

MISES, Ludwig von. Ação Humana.
Obra central da Escola Austríaca. Apresenta a ação humana como expressão de preferências subjetivas em um contexto de escassez. Descreve com precisão a estrutura da escolha, mas permanece normativamente antropocêntrica.

HAYEK, Friedrich. O Uso do Conhecimento na Sociedade.
Explora os limites do conhecimento humano e a coordenação espontânea. Reconhece a importância das circunstâncias, mas sem referência a um critério transcendente de verdade.

ORTEGA Y GASSET, José. Meditações do Quixote.
Formula a célebre tese “eu sou eu e minhas circunstâncias”. Fornece a base antropológica para compreender o homem como ser histórico, situado e responsável por suas escolhas.

TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica.
Fundamenta a liberdade na ordenação ao Bem e à Verdade. Oferece a estrutura metafísica que supera o subjetivismo moderno.

JOÃO PAULO II. Veritatis Splendor.
Reafirma a existência de uma verdade moral objetiva contra o relativismo contemporâneo. Aplica a tradição tomista ao mundo moderno.

BÍBLIA SAGRADA, João 14,6.
Fundamento cristológico da tese: Cristo como Caminho, Verdade e Vida, medida objetiva da existência humana.

São Toríbio de Mongrovejo e Felipe II: santidade, justiça e o bem comum na cristandade hispânica

Introdução

A figura de São Toríbio de Mongrovejo permanece, ainda hoje, relativamente desconhecida entre os católicos, apesar de sua importância histórica, espiritual e civilizacional. Bispo de Lima no século XVI, jurista, magistrado e reformador do clero, sua vida oferece um exemplo eloquente de como a santidade pessoal pode e deve irradiar-se para as esferas pública, jurídica e política.

Sua trajetória está intimamente ligada ao reinado de Felipe II, monarca que compreendia o governo não como mera administração de interesses materiais, mas como serviço ao bem comum ordenado à glória de Deus e à salvação das almas. A relação entre ambos revela uma concepção de poder profundamente cristã, na qual a virtude, a fé e a justiça eram critérios essenciais para o exercício da autoridade.

Este artigo analisa o contexto histórico, espiritual e político da missão de São Toríbio, destacando sua importância para a evangelização do Peru, a reforma do clero, a proteção dos indígenas e a consolidação do cristianismo na América espanhola.

1. Formação, Virtude e Vocação

São Toríbio nasceu em 1538, na Espanha, em uma família nobre. Desde cedo, revelou inclinação à virtude, horror ao pecado e profunda devoção mariana. Sua vida espiritual era marcada por práticas regulares de oração, penitência e fidelidade à doutrina católica.

Ao mesmo tempo, destacou-se intelectualmente. Estudou em Valladolid e Salamanca — centros de excelência acadêmica da época — tornando-se especialista em Direito Canônico e professor universitário. Importa notar que, naquele contexto, o estudo do direito civil e do direito canônico era integrado, refletindo uma visão unitária da ordem jurídica e moral.

Essa combinação de virtude pessoal, devoção religiosa e excelência intelectual chamou a atenção do rei Felipe II, que o nomeou magistrado em Granada e, posteriormente, presidente do tribunal da Inquisição local. Toríbio ainda era leigo, mas já demonstrava retidão moral, prudência e firmeza na aplicação da justiça.

2. Felipe II e a concepção cristã do poder

A escolha de São Toríbio para cargos de responsabilidade não foi casual. Felipe II compreendia o governo como uma missão espiritual e política orientada ao bem comum, não como instrumento de interesses pessoais, partidários ou econômicos.

Em vez de privilegiar alianças oportunistas ou critérios ideológicos, o monarca buscava homens de virtude comprovada, capazes de exercer autoridade com justiça, temor de Deus e fidelidade à Igreja. Santa Teresa de Ávila referia-se a ele como “Nuestro Santo Rey Felipe”, reconhecendo sua piedade e compromisso com a fé católica.

Quando a sé episcopal de Lima ficou vaga, Felipe II indicou Toríbio para o cargo, apesar de ele ainda não ser sacerdote. A escolha revelou não apenas discernimento espiritual, mas também uma visão clara dos desafios morais e pastorais enfrentados nas colônias americanas.

3. A missão no Peru: reforma e evangelização

Ordenado sacerdote e consagrado bispo aos 43 anos, São Toríbio partiu para o Peru, assumindo uma das maiores dioceses do mundo na época. O contexto era marcado por:

  • Escândalos no clero

  • Abusos contra indígenas

  • Falta de disciplina eclesiástica

  • Dificuldades logísticas e geográficas extremas

Inspirado pelo Concílio de Trento, Toríbio iniciou uma reforma rigorosa do clero, punindo escândalos públicos e restaurando a disciplina moral. Ele rejeitava qualquer tentativa de adaptar a doutrina aos costumes decadentes, afirmando, com Tertuliano, que “Cristo é a Verdade, não o costume”.

Ao mesmo tempo, dedicou-se intensamente à evangelização dos indígenas. Aprendeu línguas locais como o quéchua e o aimará, produziu catecismos em idiomas nativos e percorreu milhares de quilômetros a pé ou em mula para administrar sacramentos.

4. Sacrifício, Justiça e Bem Comum

Apesar de sua origem nobre e de uma carreira acadêmica prestigiosa, São Toríbio aceitou uma vida de privações, perigos e isolamento. Enfrentou rios, doenças, perseguições e ameaças, sempre movido pelo zelo apostólico e pelo senso de responsabilidade para com o bem comum cristão.

Seu exemplo desmonta a caricatura revolucionária da nobreza como classe inútil e privilegiada. Ao contrário, a nobreza cristã implicava dever, sacrifício e serviço.

O bispo não se limitou à piedade individual: atuou também na esfera pública, jurídica e administrativa, demonstrando que santidade e governo não são esferas opostas, mas complementares quando orientadas à verdade.

5. Atualidade do Exemplo de São Toríbio

O contraste entre o século XVI e a modernidade é evidente. Hoje, a política frequentemente se orienta por interesses ideológicos, partidários e econômicos, enquanto a virtude pessoal é vista como irrelevante para o exercício do poder.

São Toríbio representa um modelo de liderança cristã integral:

  • Espiritualmente sólida

  • Intelectualmente formada

  • Moralmente reta

  • Publicamente responsável

Seu testemunho lembra que o verdadeiro bem comum não é apenas material, mas também espiritual, moral e cultural. Uma sociedade só se ordena corretamente quando a autoridade reconhece sua responsabilidade diante de Deus.

Conclusão

São Toríbio de Mongrovejo não foi apenas um santo pessoalmente virtuoso, mas um verdadeiro reformador da sociedade cristã. Sua vida revela a harmonia possível entre fé, justiça, autoridade e missão evangelizadora.

Com o apoio de Felipe II e do vice-rei Dom Francisco de Toledo, ele consolidou no Peru uma Cristandade marcada pela disciplina, pela defesa dos mais fracos e pela centralidade de Cristo na vida pública.

Num mundo marcado pela secularização, relativismo e crise de autoridade, seu exemplo permanece atual: a santidade não é fuga da realidade, mas transformação profunda da ordem social à luz da verdade.

 Bibliografia Comentada

1. MONGROVEJO, Toribio de. Cartas Pastorais e Relatórios Episcopais.

Arquivo Arquidiocesano de Lima / Edições históricas diversas.

As cartas de São Toríbio constituem fontes primárias fundamentais para compreender sua ação pastoral, sua visão da missão evangelizadora e as dificuldades enfrentadas no Peru colonial. Nelas aparecem descrições detalhadas das visitas pastorais, da administração dos sacramentos, das viagens missionárias e da reforma do clero. Também revelam sua espiritualidade, sua obediência à Igreja e sua concepção do episcopado como serviço sacrificial ao bem comum cristão.

2. VARGAS UGARTE, Rubén. Vida de Santo Toribio Alfonso de Mogrovejo.

Lima: Imprenta Santa María, várias edições.

Obra clássica da historiografia peruana sobre São Toríbio. O autor reconstrói a trajetória do santo com base em documentos históricos, processos de canonização e arquivos eclesiásticos. O livro aborda sua formação jurídica em Salamanca, sua nomeação por Felipe II, sua ação como bispo de Lima e sua importância na consolidação da Igreja no Peru. É uma referência indispensável para o estudo histórico rigoroso do personagem.

3. CONCÍLIO DE TRENTO. Decretos e Cânones.

Traduções oficiais da Igreja Católica.

Os decretos tridentinos são essenciais para compreender o horizonte teológico, disciplinar e moral que orientou a ação de São Toríbio. Sua reforma do clero, sua defesa da ortodoxia doutrinária e sua rejeição do relativismo moral derivam diretamente das decisões do Concílio. A aplicação concreta dessas normas no Peru mostra como a Reforma Católica foi mais que doutrina: foi prática institucional.

4. TERESA DE ÁVILA. Cartas e Escritos Autobiográficos.

Edições críticas diversas.

Santa Teresa refere-se a Felipe II como “Nuestro Santo Rey Felipe”, evidenciando o reconhecimento, no próprio século XVI, de seu zelo religioso e compromisso com a Igreja. Essas referências ajudam a compreender o ambiente espiritual e político no qual São Toríbio foi escolhido para cargos de responsabilidade. A obra confirma que a piedade não era vista como incompatível com o exercício do poder.

5. ELLIOTT, J. H. Imperial Spain 1469–1716.

London: Penguin Books.

Estudo clássico sobre a Espanha imperial. O autor analisa o reinado de Felipe II, a administração das colônias e a relação entre política, religião e poder. A obra permite compreender por que a Coroa via a evangelização como missão essencial do Império, e não como mero instrumento econômico. Fornece o pano de fundo político para a missão de São Toríbio.

6. LÓPEZ DE GOICOECHEA, José. Santo Toribio de Mogrovejo: Pastor y Reformador.

Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos.

Análise teológica e pastoral da figura de São Toríbio. O autor destaca seu papel como reformador do clero, defensor da disciplina e promotor da catequese indígena. A obra enfatiza a dimensão espiritual de sua liderança e sua fidelidade à tradição católica contra adaptações moralistas dos costumes.

7. PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA. Revolução e Contra-Revolução.

São Paulo: Editora Vera Cruz.

Embora não trate diretamente de São Toríbio, esta obra fornece a chave interpretativa para compreender o contraste entre a Cristandade tradicional e a decadência moderna mencionada no artigo. A noção de “ordem cristã”, “bem comum espiritual” e “autoridade fundada na virtude” ajuda a interpretar o papel de Felipe II e São Toríbio como representantes da Contra-Revolução católica.

8. DE LA PUENTE BRUNKE, José. La Iglesia en el Perú Colonial.

Lima: Fondo Editorial PUCP.

Estudo histórico sobre a estrutura eclesiástica do Peru colonial. Analisa o clero, os bispos, as missões e as tensões morais do período. São Toríbio aparece como figura central da reforma eclesiástica. A obra contextualiza os escândalos clericais e mostra por que sua atuação foi decisiva.

9. BORGES, Pedro. La Evangelización de América.

Madrid: BAC.

Trata da evangelização no continente americano sob a perspectiva católica tradicional. Mostra como a missão não era meramente cultural ou política, mas essencialmente espiritual. A atuação de São Toríbio encaixa-se no modelo de evangelização integral defendido pelo autor.

10. PIO XI. Rerum Ecclesiae (Encíclica, 1926).

Embora posterior ao período estudado, esta encíclica oferece uma síntese doutrinária sobre a missão evangelizadora da Igreja, permitindo interpretar retrospectivamente a obra de São Toríbio como modelo clássico de ação missionária católica.