A história da Zona Franca de Manaus não começa no regime militar de 1967, como frequentemente se imagina. Suas raízes intelectuais remontam ao século XIX, particularmente às reflexões do político e publicista brasileiro Aureliano Cândido Tavares Bastos, um dos mais importantes defensores da abertura econômica, da integração fluvial da Amazônia e da modernização liberal do Império do Brasil.
Embora Tavares Bastos jamais tenha formulado uma “Zona Franca” nos moldes contemporâneos, muitos dos princípios estratégicos que fundamentaram o projeto de transformar Manaus em um polo comercial e industrial já estavam presentes em suas obras. Sua reflexão articulava geopolítica, comércio internacional, navegação, colonização produtiva e integração territorial — temas que, décadas depois, reapareceriam no discurso que legitimou a industrialização amazônica.
O problema amazônico no século XIX
No século XIX, a Amazônia era vista pelas elites do Império simultaneamente como:
- uma região riquíssima em recursos naturais;
- um território isolado do restante do país;
- uma fronteira vulnerável diante das potências estrangeiras;
- e uma área pouco integrada à economia nacional.
Após a independência do Brasil, a preocupação com a ocupação efetiva da Amazônia tornou-se cada vez mais importante. A vasta bacia amazônica possuía baixa densidade populacional e enorme dificuldade logística. Os rios eram as verdadeiras estradas da região, mas o governo imperial mantinha forte controle sobre a navegação.
Foi nesse contexto que surgiu a figura de Tavares Bastos.
Quem foi Tavares Bastos?
Aureliano Cândido Tavares Bastos nasceu em 1839, em Alagoas, e morreu precocemente em 1875. Apesar da curta vida, tornou-se um dos principais intelectuais liberais do Segundo Reinado.
Suas ideias eram profundamente influenciadas pelo liberalismo anglo-americano. Admirava os Estados Unidos, defendia descentralização administrativa, autonomia provincial, livre comércio, imigração produtiva e modernização econômica.
Entre suas obras mais importantes estão:
- Cartas do Solitário;
- A Província;
- e especialmente O Vale do Amazonas (1866), texto fundamental para compreender sua visão sobre a região amazônica.
“O Vale do Amazonas” e a abertura da região
Em O Vale do Amazonas, Tavares Bastos defendia que o desenvolvimento amazônico dependia da abertura da navegação internacional no rio Amazonas.
Até então, o Império restringia severamente a circulação de embarcações estrangeiras, temendo ingerências externas. Bastos considerava essa política contraproducente. Para ele, o isolamento condenava a região ao atraso econômico.
Sua tese central era simples:
a Amazônia somente prosperaria quando fosse integrada às rotas internacionais de comércio.
Ele argumentava que os rios amazônicos deveriam funcionar como grandes corredores globais de circulação de mercadorias, capitais, pessoas e tecnologia.
Essa visão antecipava alguns princípios fundamentais que, um século depois, seriam utilizados para justificar a criação da Zona Franca:
- integração econômica internacional;
- estímulo fiscal para atrair investimentos;
- ocupação estratégica da Amazônia;
- fortalecimento demográfico e econômico da região;
- e criação de um centro dinâmico de comércio na floresta.
Manaus como entreposto comercial
Durante o ciclo da borracha, entre o final do século XIX e o início do XX, Manaus tornou-se um dos mais importantes entrepostos comerciais da América do Sul.
A cidade floresceu graças ao comércio internacional da borracha amazônica. Navios ingleses, franceses, alemães e norte-americanos circulavam pela região. Manaus ganhou:
- porto moderno;
- iluminação elétrica;
- bondes;
- teatros;
- bancos internacionais;
- casas comerciais estrangeiras.
Esse período demonstrou, na prática, parte daquilo que Tavares Bastos imaginava: uma Amazônia conectada ao capitalismo global por meio da navegação e do comércio exterior.
Mas o colapso do ciclo da borracha, após a concorrência asiática, mergulhou a região em decadência econômica.
O vazio econômico amazônico no século XX
Ao longo da primeira metade do século XX, a Amazônia passou por forte retração econômica. O governo brasileiro começou a enxergar a região sob um prisma geopolítico:
- era preciso evitar o despovoamento;
- integrar a Amazônia ao restante do país;
- conter influências estrangeiras;
- e criar uma economia regional sustentável.
Essa preocupação tornou-se ainda mais intensa após a Segunda Guerra Mundial e durante a Guerra Fria.
É nesse cenário que amadurece a ideia de um regime especial para Manaus.
A criação da Zona Franca de Manaus
A primeira tentativa surgiu em 1957, durante o governo de Juscelino Kubitschek, com a criação legal da Zona Franca.
Porém, o modelo só ganhou forma efetiva em 1967, durante o regime militar, por meio do Decreto-Lei nº 288.
O objetivo era transformar Manaus em:
- um polo industrial;
- um centro comercial de importação e exportação;
- e um núcleo de ocupação econômica da Amazônia Ocidental.
O modelo baseou-se em incentivos fiscais federais, especialmente:
- redução ou isenção de impostos de importação;
- incentivos de IPI;
- vantagens tributárias para instalação industrial.
A lógica era semelhante à de várias zonas francas internacionais: compensar desvantagens geográficas por meio de incentivos econômicos.
A influência indireta de Tavares Bastos
Não existe uma linha direta dizendo que os formuladores da Zona Franca copiaram Tavares Bastos. Contudo, há forte continuidade intelectual entre:
- a visão amazônica liberal do século XIX;
- o ideal de integração fluvial e comercial;
- e a concepção moderna da Amazônia como fronteira estratégica de desenvolvimento.
Tavares Bastos antecipou algumas teses fundamentais:
1. A Amazônia não deveria permanecer isolada
Ele via o isolamento como fator de decadência econômica. A Zona Franca também nasceu como mecanismo de integração nacional e internacional.
2. A navegação e o comércio internacional eram essenciais
A abertura ao comércio exterior tornou-se eixo central da economia manauara.
3. A ocupação econômica era questão de soberania
A ideia de que desenvolver a Amazônia é uma questão geopolítica permanece até hoje.
4. O Estado deveria criar condições para atrair atividade econômica
Embora liberal, Bastos compreendia que o poder público deveria remover obstáculos estruturais ao desenvolvimento.
O paradoxo da Zona Franca
A Zona Franca de Manaus produziu resultados ambíguos.
Por um lado:
- consolidou Manaus como grande centro urbano;
- gerou empregos industriais;
- aumentou a arrecadação regional;
- e ajudou a preservar partes da floresta ao concentrar atividade econômica urbana.
Por outro:
- criou forte dependência de incentivos fiscais;
- concentrou riqueza na capital;
- e manteve limitada integração produtiva do interior amazônico.
Ainda assim, o modelo tornou-se um dos principais instrumentos da presença econômica brasileira na Amazônia.
Conclusão
A história da Zona Franca de Manaus não pode ser compreendida apenas como um projeto tecnocrático do século XX. Ela pertence a uma tradição intelectual mais longa, ligada às tentativas de integrar economicamente a Amazônia ao mundo.
Nesse processo, Aureliano Cândido Tavares Bastos ocupa posição central. Sua defesa da abertura fluvial, do comércio internacional e da ocupação econômica da Amazônia antecipou elementos fundamentais do imaginário geopolítico que sustentaria, décadas depois, a industrialização de Manaus.
A Zona Franca acabou sendo, em certa medida, a tradução industrial e fiscal de uma antiga intuição imperial: a de que a Amazônia não poderia permanecer isolada sem colocar em risco tanto sua prosperidade quanto sua integração ao Brasil.
Bibliografia comentada
O Vale do Amazonas — Aureliano Cândido Tavares Bastos
A obra mais importante para compreender sua visão sobre a Amazônia. Tavares Bastos defende:
- abertura da navegação do rio Amazonas ao comércio internacional;
- imigração produtiva;
- integração econômica da região;
- modernização logística;
- e descentralização administrativa.
O livro é fundamental porque apresenta a Amazônia não apenas como espaço geográfico, mas como problema geopolítico e econômico. Muitos dos argumentos utilizados posteriormente para justificar políticas de integração amazônica reaparecem aqui em estado embrionário.
Ponto importante: Bastos escreve num contexto em que o Império temia ingerência estrangeira na Amazônia. Sua posição liberal contrastava com a prudência centralizadora do governo imperial.
A Província — Aureliano Cândido Tavares Bastos
Livro essencial para compreender o pensamento político do autor. Embora não trate exclusivamente da Amazônia, apresenta seus princípios:
- federalismo;
- descentralização;
- autonomia provincial;
- liberalismo econômico;
- modernização institucional.
Ajuda a entender por que Bastos via a integração econômica regional como dependente da liberdade comercial e administrativa.
Cartas do Solitário — Aureliano Cândido Tavares Bastos
Coletânea de artigos jornalísticos em que o autor discute:
- escravidão;
- administração pública;
- comércio;
- infraestrutura;
- educação;
- e modernização nacional.
Importante para compreender a mentalidade liberal reformista do Segundo Reinado.
Tavares Bastos: A Província e a Liberdade — Wanderley Guilherme dos Santos
Uma das melhores interpretações do pensamento político de Tavares Bastos. O autor mostra como ele articulava:
- liberalismo econômico;
- descentralização federativa;
- e integração territorial.
Ajuda a situar Bastos dentro da tradição liberal brasileira do século XIX.
Os Bestializados — José Murilo de Carvalho
Embora o foco seja a Primeira República, José Murilo oferece excelente contextualização sobre:
- formação do Estado brasileiro;
- elites imperiais;
- liberalismo brasileiro;
- e tensões entre centralização e autonomia provincial.
Útil para compreender o ambiente intelectual em que Tavares Bastos atuou.
A Ilusão do Fausto — Stephen Bunker
Clássico da sociologia histórica da Amazônia. Analisa os ciclos econômicos da região, especialmente:
- borracha;
- extrativismo;
- dependência econômica;
- e inserção periférica no capitalismo mundial.
Importante para compreender por que Manaus entrou em decadência após o colapso da borracha e como surgiu a ideia de novos modelos econômicos para a região.
The Amazon Rubber Boom — Barbara Weinstein
Uma das obras mais importantes sobre o ciclo da borracha.
Mostra:
- a ascensão de Manaus;
- a integração da Amazônia ao mercado global;
- a presença do capital estrangeiro;
- e o colapso econômico posterior.
Ajuda a entender como Manaus já havia funcionado, antes da Zona Franca, como entreposto internacional conectado às rotas globais de comércio.
Superintendência da Zona Franca de Manaus — publicações institucionais
A SUFRAMA possui documentação histórica importante sobre:
- criação da Zona Franca;
- legislação;
- política industrial;
- indicadores econômicos;
- e planejamento regional.
Esses materiais são úteis para compreender a formulação oficial do projeto amazônico no século XX.
A Zona Franca de Manaus — Samuel Benchimol
Samuel Benchimol foi um dos principais intérpretes da economia amazônica.
Sua obra é importante porque combina:
- análise histórica;
- geopolítica;
- economia regional;
- e defesa estratégica da ocupação amazônica.
Benchimol frequentemente relaciona desenvolvimento econômico e soberania territorial — tema que ecoa, ainda que indiretamente, preocupações já presentes em Tavares Bastos.
Amazônia: Formação Social e Cultural — Samuel Benchimol
Obra ampla sobre:
- ocupação da Amazônia;
- ciclos econômicos;
- urbanização;
- imigração;
- e identidade regional.
Ajuda a compreender a longa duração histórica da integração amazônica ao Estado brasileiro.
Geopolítica do Brasil — Golbery do Couto e Silva
Importante para entender o pensamento estratégico do regime militar que consolidou a Zona Franca em 1967.
Golbery defendia:
- integração territorial;
- ocupação econômica;
- segurança nacional;
- e fortalecimento da presença estatal na Amazônia.
Embora parta de pressupostos diferentes dos liberais do século XIX, há convergência quanto à necessidade de integrar a Amazônia ao projeto nacional.
História Econômica do Brasil — Celso Furtado
Ajuda a contextualizar:
- ciclos econômicos brasileiros;
- industrialização;
- desenvolvimento regional;
- e desigualdades territoriais.
Importante para situar a Zona Franca dentro da história mais ampla do desenvolvimento brasileiro.
Formação Econômica do Brasil — Celso Furtado
Clássico indispensável para compreender a lógica histórica da economia brasileira e os problemas estruturais de integração regional.
Embora não trate especificamente da Zona Franca, oferece instrumental conceitual valioso para analisar por que o Estado brasileiro recorreu a políticas excepcionais de desenvolvimento regional.
Considerações finais
A leitura combinada de O Vale do Amazonas, das obras de Samuel Benchimol e dos estudos sobre geopolítica amazônica permite perceber uma continuidade histórica importante:
- a Amazônia sempre foi vista simultaneamente como problema econômico e questão estratégica;
- o comércio internacional e a navegação aparecem recorrentemente como instrumentos de integração;
- e Manaus surge, desde o século XIX, como ponto privilegiado de articulação entre interior amazônico e economia mundial.
A Zona Franca de Manaus pode ser entendida, assim, como resultado de uma longa tradição intelectual e geopolítica brasileira — tradição na qual Aureliano Cândido Tavares Bastos ocupa posição pioneira.
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