1) Em termos técnicos, cumpre distinguir duas acepções de “direita”: a que se funda simbolicamente à direita do pai e a que historicamente se vincula aos que se posicionavam à direita do parlamento no contexto da Revolução Francesa.
2) Considerada a primeira acepção, tem-se uma orientação fundada na conformidade como Todo que vem de Deus (catolicismo, em seu sentido etimológico); já na segunda, opera-se uma reificação do que é sustentado por uma classe de indivíduos que representa os estratos mais endinheirados da sociedade, na medida em que estes visam — e continuam a visar — à concentrar os poderes de usar, gozar e dispor dos bens e da própria vida de uma nação inteira em suas poucas mãos. Tal disposição conduz à conservação do que é meramente conveniente, ainda que dissociado da verdade (o conservantismo). Ora, isso se opõe diretamente à conservação da dor de Cristo, pois Ele é o caminho, a verdade e a vida; sem Ele, a própria noção de liberdade se esvazia, uma vez que a verdade constitui o seu fundamento, como assevera São João Paulo II.
3.1) Essa tendência à concentração dos bens e da vida de uma nação sob um mesmo princípio volitivo conduz, por necessidade lógica, à formulação fascista segundo a qual tudo está no Estado e nada pode subsistir fora dele ou contra ele. Tal dinâmica foi intuída por Hilaire Belloc em sua obra O Estado Servil, redigida cinco anos antes da ascensão do comunismo, o qual se configurou como um movimento político orientado à instrumentalização da classe trabalhadora como meio de conquista do poder em si mesmo, desprovido de ordenação ao bem comum, em virtude da negação de Deus enquanto realidade metafísica e filosófica.
3.2) Nesse contexto, verifica-se uma reconfiguração semântica que tende a restituir o sentido originário dos termos, muito embora a inversão instaurada pela Revolução Francesa tenha se perpetuado culturalmente, produzindo um estado permanete de confusão e desinformação. Assim, ciência e técnica, dissociadas da verdade, passam a operar como instâncias de legitimação ideológica, e não como servas da teologia; enquanto falsas ciências que são, deixam de se ordenar a Deus.
4) No transcurso do século XX, tal lógica desdobrou-se em três formas principais de totalitarismo: o de classe, o de raça — exemplificado pelo nazismo na Alemanha e pelo apartheid na África do Sul — e o de nação, cuja expressão se encontra no fascismo de Mussolini e no Estado Novo de Vargas. Sob essa perspectiva, e em contraste com a opinião corrente, o nacionalismo não se identifica nem com o patriotismo nem com o nacionismo, mas deve ser compreendido como uma modalidade de totalitarismo de matriz socialista, centrada na absolutização da nação enquanto princípio quase religioso, no qual tudo se subordina ao Estado e nada pode legitimamente existir fora dele ou contra ele.
5.1) Se há duas direitas, há também duas esquerdas: a que se situa à esquerda do Pai, tradicionalmente associada ao princípio diabólico, e a que emerge como reação ao conservantismo inerente à ordem revolucionária instaurada pela Revolução Francesa — ordem esta que, em si mesma, revelava-se diabólica, pois nega a Deus e a tudo o que decorre d'Ele. Nesse sentido, os que se posicionavam à esquerda dessa ordem de coisas eram, sob certo aspecto, reacionários. Pode-se afirmar, portanto, que a Revolução Francesa instaurou uma inversão simbólica de larga duração, a qual marcou o imaginário político e cultural do Ocidente por mais de dois séculos.
5.2) Com a ascensão do comunismo, essa inversão foi progressivamente desfeita, de modo a permitir a reemergência de seu sentido originário: o fascismo passa a designar tudo aquilo que se funda à esquerda do Pai, isto é, fora da conformidade com o Todo que vem de Deus. Tal interpretação pode ser inferida de uma explicação do professor Loryel Rocha acerca de seu vídeo sobre o fascismo de direita e o fascismo de esquerda. Se analisarmos as coisas sob esse prisma, o argumento faz sentido.
Aplicação prática na realidade política brasileira
Já se ventilou por aí que Luiz Inácio Lula da Silva é de direita, que o Partido dos Trabalhadores é de direita e que Joseph Stalin seria de direita, como afirmou Mino Carta, editor histórico da CartaCapital. O recurso retórico subjacente a esse tipo de afirmação reside no fato de que muitos operam com apenas uma noção de direita e uma de esquerda, como se houvesse identidade entre o conceito histórico e o conceito teológico, quando, na verdade, há duas direitas e duas esquerdas.
Com a queda da monarquia francesa, a inversão conceitual instaurada tornou-se um estado provisório de coisas que perdurou até a ascensão do comunismo, momento este em que a realidade ontológica das coisas teria sido restaurada. Como observou Friedrich Nietzsche, algo só pode ser substituído ou destruído se houver outra coisa capaz de assumir o seu lugar — e foi precisamente isso que ocorreu.
Se considerarmos o plano prático, o totalitarismo do governo petista teria servido aos interesses dos banqueiros e dos agentes financeiros associados à Faria Lima. Nesse sentido, o governo Lula pode ser interpretado como expressão daquela direita própria dos que se sentavam à direita do parlamento — isto é, vinculada aos estratos mais endinheirados da sociedade — configurando, assim, uma “direita da esquerda”.
Por sua vez, Jair Bolsonaro, enquanto reação a essa ordem de coisas, situar-se-ia na luta fundada contra essa ordem ordem de coisas fundada naquilo que se conserva de conveniente, ainda que dissociada da verdade . E, por se colocar à esquerda da ordem fundada naquilo que é próprio do “animal que mente”, Lula, encontrar-se-ia, sob outro prisma, à direita do pai, conservando a dor de Cristo.
Quem concebe Bolsonaro como revolucionário está em total engano, como já observei em relação ao que pensa um certo paroquiano que eu conheço em minha paróquia.
Bibliografia comentada
1) Fundamentos históricos da distinção direita/esquerda
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Reflections on the Revolution in France — Edmund Burke
Obra clássica de crítica à Revolução Francesa. Burke não usa o vocabulário posterior de “direita” e “esquerda” como categorias sistemáticas, mas fornece a base intelectual do que viria a ser chamado de conservadorismo. Útil para compreender a crítica à ruptura revolucionária e à abstração política desvinculada da tradição. -
The Old Regime and the Revolution — Alexis de Tocqueville
Analisa as continuidades entre o Antigo Regime e a Revolução, mostrando que a centralização estatal não nasce com a ruptura revolucionária, mas é aprofundada por ela. Ajuda a sustentar sua ideia de que certas dinâmicas de poder permanecem sob novos rótulos.
2) Propriedade, classe e estrutura social
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The Servile State — Hilaire Belloc
Central para o argumento. Belloc descreve a tendência de sociedades capitalistas e socialistas convergirem para formas de servidão legalizada. Dá base à ideia de concentração de poder econômico e sua conversão em poder político. -
Quadragesimo Anno — Pius XI
Encíclica que aprofunda a crítica tanto ao capitalismo desenfreado quanto ao socialismo. Introduz o princípio da subsidiariedade e reforça a visão de ordem social conforme à doutrina católica — diretamente compatível com seu uso do conceito de “Todo”. -
Rerum Novarum — Leo XIII
Marco da doutrina social da Igreja. Fundamenta a relação entre propriedade, trabalho e justiça, servindo de contraponto tanto ao coletivismo quanto ao individualismo radical.
3) Totalitarismo e ideologia no século XX
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The Origins of Totalitarianism — Hannah Arendt
Análise detalhada das estruturas do nazismo e do stalinismo. Embora parta de pressupostos distintos dos seus, oferece uma tipologia rigorosa do totalitarismo como fenômeno político moderno. -
The Road to Serfdom — Friedrich Hayek
Argumenta que a centralização econômica conduz à perda de liberdade política. Converge com sua crítica à concentração de poder, ainda que a partir de uma perspectiva liberal clássica, não teológica. -
Fascism: Comparison and Definition — Stanley G. Payne
Fornece uma definição analítica de fascismo baseada em critérios históricos comparativos. Útil para tensionar e testar a amplitude conceitual atribuída ao termo.
4) Nação, nacionalismo e Estado
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Imagined Communities — Benedict Anderson
Explica a nação como construção simbólica. Ajuda a sustentar sua tese de que a nação pode ser elevada a um princípio quase religioso. -
Nationalism — Ernest Gellner
Analisa o nacionalismo como produto da modernidade industrial. Complementa a visão de Anderson com uma abordagem sociológica mais estrutural.
5) Fundamento teológico e filosófico
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Summa Theologiae — Thomas Aquinas
Base metafísica e moral para a ideia de ordem conforme ao “Todo” que procede de Deus. Sustenta a hierarquia entre verdade, bem e organização social. -
Veritatis Splendor — John Paul II
Fundamenta a relação entre verdade e liberdade, ponto central do seu argumento. Reforça a impossibilidade de uma liberdade autêntica dissociada da verdade objetiva. -
City of God — Augustine of Hippo
Estabelece a distinção entre a ordem divina e as ordens políticas humanas. Essencial para compreender a oposição entre conformidade a Deus e estruturas políticas desviadas.
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